A volta impossível
O
homem, à medida que o tempo passa e que, por conseqüência, envelhece, tem a
(inútil) tendência de “raciocinar para trás”. Ou seja, de buscar nas lembranças
compensações para os desgostos, recalques e remoques que eventualmente esteja
enfrentando no dia a dia. Busca sentir-se –, ao menos aos próprios olhos –, bem
sucedido, importante e realizado, em especial quando seus feitos reais (quando
existem, é claro) já foram ultrapassados e/ou esquecidos não apenas pelas novas
gerações, mas até pelos contemporâneos.
Alguns
satisfazem-se “apenas” com essa aparente compensação, que eles próprios criam,
o que é ilusão. Não passa de miragem no deserto de uma existência sem brilho e
sem resultados. Muito do que alegam lembrar – e, em geral, são sinceros e
acreditam que sejam, de fato, lembranças –, nunca aconteceu. Não, pelo menos,
da forma que apregoam que “lembram”. A memória é traiçoeira e pródiga em nos
pregar cada peça! As pessoas que agem assim, consciente ou inconscientemente,
estabelecem conflito entre o real e o ideal. Ou seja, entre o que de fato
ocorreu e o que “acham” que tenha ocorrido.
Alienam-se
do mundo. Substituem planos e projetos concretos, metas pelas quais deveriam
lutar incansavelmente e sem tréguas, por supostas lembranças, por passiva
contemplação do que as cerca, não raro se julgando credoras de reconhecimento
de méritos (que em geral não têm) e de respeito (que não souberam conquistar).
Com isso, deixam de viver. Abrem mão de usufruir a vida como ela é. Evitam de
se expor. E perdem, na maioria das vezes, preciosas oportunidades de
realização. De, se não serem felizes, pelo menos se “aproximarem” de algo bem
próximo do que em geral se entende por “felicidade” (que, afinal, é um conceito
extremamente subjetivo e ambíguo). Resultado? Amargura, depressão, quando não
prematura “auto-anulação”.
Essa
tentativa de “volta” (inútil) ao passado, esse giro ao contrário dos ponteiros
do relógio, seria possível (pelo menos no terreno prático e não no da ficção),
ou até mesmo desejável? Ou seria melhor aproveitar o tempo que nos resta (que
nunca sabemos qual é) para ousarmos, para nos expormos, para produzirmos, para
criarmos, para participarmos ativamente do mundo, com seus riscos e
contradições, e assim sorvermos o cálice da vida até a derradeira gota?
Entendemos que a segunda opção é a válida.
É
a atitude mais lógica, mais digna e, sobretudo, mais prática e coerente que
podemos adotar. O escritor mineiro, Cyro dos Anjos, no livro “Dois Romances”,
abordou esse tema de forma nua e crua e concluiu: “Inútil tentativa de viajar o
passado, penetrar no mundo que já morreu e que, ai de nós, se nos tornou
interdito, desde que deixou de existir, como presente, e se arremessou para
trás”.
O
segredo está em saber o que fazer com o tempo, quando julgamos que a nossa
tarefa já está concluída. Na verdade, nunca está. Ou não deveria estar jamais.
Morreremos e a deixaremos inconclusa, inacabada, às vezes pela metade e, em
determinados casos, sequer no princípio. É o preço da nossa efemeridade. Esse
tipo de alienação –, na verdade fuga dos sentimentos, emoções e relacionamentos
–, implica, antes de tudo, na admissão tácita de impotência e de inutilidade.
Representa “fugir da luta”, não raro antes mesmo dela haver começado.
O filósofo norte-americano, Ralph Waldo
Emerson, adverte: “Como todas as ocasiões, esta ocasião é muito boa, se apenas
soubermos o que fazer com ela”. Aí é que são elas! Pouca gente sabe o que fazer
com o seu tempo. Desperdiça-o com lamentações estéreis e com babosas
manifestações de autopiedade, quando deveria batalhar por objetivos, mesmo que
não factíveis, utilizando, como trunfo, a experiência adquirida, o conhecimento
amealhado e as emoções sentidas.
Há pessoas que fracassam em seus
empreendimentos (materiais, intelectuais ou emocionais, não importa) por falta
de confiança em suas forças, em seu talento, em sua integridade pessoal e no
que aprenderam ao longo dos anos. Há os que se dão mal nos relacionamentos pelo
simples temor de se “dar” ao próximo. Fecham-se, hermeticamente, em uma concha
indevassável, alienam-se de tudo e de todos e criam um mundo de fantasias, que
nunca existiu e nem tem possibilidade de existir, no qual acreditam que sejam
(ou que serão) “felizes”. Não o são, obviamente. Nunca serão! E não merecem, a
rigor, essa felicidade, da qual abriram mão, ao se recusarem a lutar por
ela.
O poeta Simon Tygel compôs expressivo
poema, denominado “O Homem da Noite” (magistralmente traduzido por Guilherme de
Almeida), que ilustra a caráter como deve ser essa permanente busca por nossos
ideais (mas no mundo real, onde sua concretização é potencialmente possível),
que diz:
“Já é noite/e
os homens repousam/longe do dia morno
no olvido
retorno/de um sol que incendeia
as almas.
Já é noite/e os
homens repousam
sobre a cinza e
sobre a poeira.
Já é dia/e os
homens caminham
no ar pesado
e as gotas na
sua testa
fazem brilhar
as réstias
e as gotas nos
seus olhos
engendram rugas
quietas.
Já é dia
e os homens
caminham
para a cinza e
para a poeira.
Amanhã será dia
amanhã será
noite
por um pouco de
amor
com longas mãos
os homens
mexem seus
pensamentos
sob a cinza e
sob a poeira”.
Deveriam,
na verdade, agir, em vez de se entregar a inúteis e estéreis elucubrações... Sempre
é tempo de ser feliz. Afinal, é nossa obrigação pelo menos tentar obter esse
precioso “troféu” (que está muito mais próximo das nossas mãos do que ousamos
supor)...
* Jornalista, radialista e escritor.
Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981
e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras
funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no
Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e
“Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos &
Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da
Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário),
página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia
Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
A memória falha. Nesses casos é bom ter alguém contemporâneo para nos ajudar, assim como anotações e fotos. Coisas que julgamos pequenas, alguns acham grandes, assim como o oposto também acontece. As realizações do passado imprimem experiência e coragem de tentar novamente. Ainda que tenha momentos de desânimo, recobro as forças e avanço. Não há um modelo correto. Cada momento tem a sua maneira.
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