Um copo de cólera e as ondas
* Por Eduardo Oliveira Freire
Deve-se sempre
ter cuidado ao analisar uma obra literária focada no ponto de vista
sociológico. A literatura não é o espelho da realidade, mas impressões e idéias
de certo artista, o qual é influenciado por um grupo social, época e valores.
Tentarei não fazer grandes generalizações. Essa crônica será um exercício
experimental.
A novela escrita por Raduan Nassar
possui um enredo denso e com diversos conflitos nas entrelinhas. Lembro-me de
que a primeira vez que ouvi falar sobre o autor, estava na casa de uma tia.
Fomos à locadora, deparei-me com o filme baseado no livro de Raduan Nassar: Roteiro. Por
Aluizio Abranches e Flávio R. Tambelllini, 1995” . Fiquei admirado com as cenas de sexo, pois eram descritas
com intensa poesia. Anos mais tarde, quando fui ler o livro, revi as imagens do
filme. Elas foram fiéis à narrativa em primeira pessoa da história, tornando o
ambiente mais intimista.
Do conflito
intimista de um casal, subliminarmente vários conflitos foram expostos:
Feminismo x Machismo, Socialismo x Capitalismo e questões sociais que o Brasil
estava passando na época, como a ditadura e a falta de liberdade. Com a
urbanização crescente no país e no mundo, a história contextualiza algumas
questões e transformações da época. A novela foi publicada em 1978. Nessa época
havia a ditadura militar no Brasil e em alguns países da América Latina.
As brigas
começam quando as formigas destroem a plantação do protagonista e que despertou
nele um sentimento de cólera. Talvez eu esteja imaginando coisas que não
existem, contudo, relacionei as formigas com os camponeses famintos que invadem
a propriedade privada do senhor da terra.
A mulher que
foi ao seu encontro representava o urbano: trabalhava fora, era independente
financeiramente e com idéias modernas. Quando ela viu a explosão de raiva do
outro, começou a ironizar, falando o que pensava sobre ele.
O texto me fez
pensar de como os problemas e as dialéticas da sociedade são digeridas nas
relações íntimas do cotidiano. E que cada gesto que se faça há diversos pontos
de vistas nas entrelinhas.
Segundo
Clifford Geertz, no livro A Interpretação das Culturas (1989): “ O conceito de cultura que eu defendo, e
cuja utilidade os ensaios tentam demonstrar, é essencialmente semiótico.
Acreditando, como Max Weber, que o homem é um animal amarrado a teias de
significados que ele mesmo teceu, assumo a cultura como sendo essas teias a sua
análise; portanto, não como uma ciência experimental em busca de leis, mas como
uma ciência interpretativa, à procura do significado...” ( pág: 15).
Muitas vezes,
nós tomamos atitudes que parecem ser instintivas, mas são socialmente
construídas: rir, piscar o olho etc. Em relação à questão dos gêneros masculino
e feminino, estética, relações sociais e culturais são conceitos construídos a
partir da interpretação de “certa” sociedade.
A história
parte do micro para o macro e mostra como esse último influencia o primeiro.
Todavia, não almejo dizer que o livro reproduza a realidade como um todo da
sociedade brasileira e mundial. Ele serve como paradigma para que nós,
individualmente, mesmo tendo as nossas singularidades, nos norteemos por
valores e conceitos culturais e que nos antecederam.
Na novela “Um
copo de Cólera” existem algumas semelhanças em relação ao romance de Virginia
Woolf, “As Ondas”. Na história, as seis personagens não interagem. Cada uma conta sua história e suas impressões
separadamente, como se fosse um monólogo. A mensagem que a história passa é a
de que, quando o indivíduo cresce, perde a imaginação e os sonhos da
infância. Apequena-se e somente almeja
consumir bens materiais e ter posição social.
Virginia Woolf
critica o pensamento e as atitudes da burguesia, sua superficialidade nos
sentimentos e pensamentos. Usa o mesmo processo da curta história de Raduan Nassar.
Parte do cotidiano particular para o mundo geral.
“A vida nos apartará. Mas formamos certos laços.
Acabaram nossos anos de infância. Mas formamos certos elos. Acima de tudo,
herdamos tradições. Estas lajes são usadas há seiscentos humanos anos. Nestas
paredes são inscritos os nomes de guerreiros, estadistas, alguns poetas
infelizes (o meu estará entre eles). Abençoadas todas as tradições, todas as
salvaguardas e limitações! Sou extremamente grato a vós, homens de trajes
negros, e a vós, mortos, pelo vosso exemplo, pela vossa proteção; apesar de
tudo, porém, o problema permanece. As contradições ainda não foram conciliadas.
Flores movem suas cabeças contra a janela. Vejo pássaros selvagens, e instintos
mais selvagens do que os mais selvagens pássaros erguem-se do meu selvagem
coração. Meus olhos são selvagens; meus lábios, firmemente comprimidos. O
pássaro voa; a flor dança; mas eu ouço sempre o embate monótono das ondas; e a
besta acorrentada pateia na praia. Pateia sem parar”.
Esse trecho
espelha a essência do livro: os personagens aprisionados pelo cotidiano
monótono (as ondas), não podendo voar e se libertar da vida sem graça em que
vivem.
Na filosofia
existencialista de Sartre, o homem não possui uma essência definida, porém se
constrói em sua existência. “O homem é o
ser cuja existência precede a essência”. As duas histórias mostram que os
personagens vão se construindo ao longo do tempo. As respectivas personalidades
não são formadas pela razão em si, mas por sentimentos.
GEERTZ, Clifforf. a
Interpretaçâo das Culturas. LTC, 1989
WOOLF, Virginia. As
ondas. Nova Fronteira, 2004
MARCONDES,
Danilo.
Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. Rio
de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1997
* Eduardo Oliveira Freire
é formado em
Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está
cursando pós-graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é
aspirante a escritor
Para um copo de cólera, vários de amor e informação.
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