Gente humilde
As cidades grandes afastam as pessoas.
Muitas vezes vivemos em um bairro durante décadas e sequer chegamos a conhecer
nosso vizinho do lado. Cruzamo-nos uma infinidade de vezes e na maioria dos
casos, o máximo de relacionamento que nos permitimos é um bom dia ou boa tarde,
distraídos, ou mero aceno de cabeça. Ou nem isso. Um passa pelo outro como se
passasse diante de um ser inanimado, de um boneco, de um robô, de uma miragem,
de uma simples visão.
A luta pela sobrevivência torna a nossa
vida uma perpétua correria. Corremos até quando isso não é necessário e temos
todo o tempo do mundo para gastar. A violência urbana afasta-nos de estranhos,
por uma questão de prudência, para evitar assaltos e outros contratempos. Nem todos,
porém, são assim. Há pessoas ingênuas (diria autênticas), vindas, na maioria
dos casos, há pouco tempo do interior, que puxam conversa com qualquer um e em
qualquer lugar. Lembro-me, a propósito, de um episódio ocorrido comigo no Rio
de Janeiro.
Tomei um lotação nas proximidades da
estação Dom Pedro II, com destino ao Leblon, onde tinha um compromisso social.
Como quisesse rever as belas praias da Zona Sul, saí com bastante tempo, com a
intenção de vagar a esmo, até a hora marcada para o encontro. A linha que
resolvi tomar era a mais longa, com maior número de paradas e eu sabia disso.
Mal o veículo rodou três quarteirões, subiu uma mulata de meia-idade, bonita,
mas de uma beleza já gasta pelas dificuldades e sofrimentos, que estavam
desenhados em seu rosto. Como o banco do meu lado estava vago, a mulher
sentou-se ali. Não tardou para que puxasse conversa.
---"O senhor vai para o
Leblon?" – , perguntou, embora parecesse o óbvio.
---"Sim" –, respondi
secamente, um tanto distraído, perdido em meus pensamentos e com a atenção
concentrada na janela, no movimento das ruas, nos prédios, nas lojas e nas
calçadas.
Não estava com disposição para
conversar com ninguém, muito menos com uma pessoa estranha.
---"Eu também vou para lá.
Trabalho num apartamento, o de dona Mariazinha Moreira, conhece?" –
insistiu a mulata, como se me conhecesse de longa data.
--- "Não!" –, respondi,
lacônico. –"Não moro no Rio de Janeiro" – acrescentei, à guisa de
explicação.
Porque fui responder! A mulher começou
a desfiar, primeiro, toda a história da patroa, intercalando elogios à sua
condição social, e críticas ao seu "pãodurismo" e severidade. Depois,
pôs-se a falar de si, de sua família, de onde e como vivia etc. Lembro-me de
poucos detalhes dessa conversa, que começava a me cacetear, já que
contrariava a minha intenção de observar o trecho da cidade por onde
passávamos, para fixar detalhes na memória. Mas a mulata não parava de
matraquear. Disse que vinha de Minas (não me recordo de que cidade). Havia se
separado do marido, incorrigível "pé-de-cana", que quando bebia,
quebrava tudo o que havia em casa e ainda de sobra espancava a mulher e os
filhos.
---"E eu com isso!" –,
pensava mal-humorado com os meus botões.
De
vez em quando, por uma questão de hábito e para fazer a interlocutora parar de
falar, eu fazia uma ou outra observação, torcendo para que o lotação chegasse
logo ao meu destino ou, o que seria melhor, ao dela. Sua voz era irritante.
Falava alto e quando narrava detalhes das brigas com o marido, poderia parecer
aos outros passageiros que estava discutindo comigo. Eu já não sabia onde
enfiar a cara de vergonha. E a mulata prosseguia explicando que estava amigada
com um bom homem no Rio, que tinha uma filha de 14 anos que fazia admissão
(naquele tempo havia uma espécie de vestibular para quem saísse do primário e
quisesse cursar o ginásio), que a menina era muito inteligente e esforçada, que
também estudava dactilografia, que já era a segunda porta-bandeira da Escola de
Samba Império Serrano, blá-blá-blá, blá-blá-blá, blá-blá-blá .
A
mulher não parava de falar e nada de chegarmos ao destino (dela ou meu). Em
resumo: num trajeto de cerca de meia hora, fiquei conhecendo toda a sua
história de vida. Ou pelo menos a
versão, um tanto dramatizada, de suas venturas e desventuras. Hoje,
passadas três décadas, quando me lembro desse episódio, não consigo deixar de
rir e até de sentir uma pontinha de ternura pela mulata. Gente ingênua, como
ela, escasseia cada vez mais nas cidades. Até mesmo no Rio.
Mas
o pior estava reservado para a minha volta do Leblon. No terceiro ponto, depois
que tomei o lotação, quem é que sobe? Exato, a mesma mulher! Toquei a
campainha, discretamente, levantei-me e desci na primeira esquina, antes que a
mulata tivesse tempo de se sentar ao meu lado. Ela reconheceu-me e deu-me uma
piscadela de cumplicidade. Da calçada, ainda pude vê-la conversando com um novo
interlocutor. Ou melhor, com o novo ouvinte das venturas e desventuras de um
histórico de vida, que trazia na ponta da língua de tanto narrar para os outros,
provavelmente com algumas variações em torno de um mesmíssimo tema.
*
Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas
(atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e
do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe,
ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma
nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance
Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991
a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição
comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio
de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com.
Twitter:@bondaczuk
Muita gente, em cinco minutos, consegue contar a um estranho toda a sua vida. Escuto muito essas narrativas em meu consultório.
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