quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A história da opinião pública brasileira


* Por Raul Longo

VI Parte – Conflitos entre as Elites

 Leonardo da Vinci, por exemplo, era um polímata. O homem era exímio artista, engenheiro, escritor, inventor, físico, astrônomo, anatomista, zoólogo e o que mais se imaginar. Enfim, um gênio!

Não é preciso tanto para ser considerado polímata, mas essas, sem dúvida, são pessoas que detêm diversos conhecimentos como o baiano Rui Barbosa que gênio como da Vinci não era, mas foi um brasileiro de muitos saberes.

E também foi uma confirmação da liberalidade e republicanismo do  Dom Pedro II, posto que embora Rui fosse reconhecido como das mais importantes lideranças republicana, o já destituído Imperador em 1890 comentou receoso por nosso futuro entregue à crassa estupidez das elites políticas e econômicas que até hoje aí estão: "Nas trevas que caíram sobre o Brasil, a única luz que alumia, no fundo da nave, é o talento de Ruy Barbosa."

Por sua vez, em uma viagem à Paris ainda como integrante do Governo Provisório instaurado com o golpe que destituiu e exilou Pedro II, num encontro com o ex Imperador o brilhante intelectual brasileiro desculpou-se: "Majestade, me perdoe, eu não sabia que a República era isso".

Quem ainda se lembra do que foram os governos brasileiros do pós-ditadura até 2002, tirante o Itamar Franco que fez o que pôde para recuperar o desfalcado tesouro nacional antes de repassá-lo ao sucessor que terminou de dilapidá-lo; pode avaliar os sentimentos de Rui Barbosa. Memórias impossíveis aos que às vésperas das próximas eleições ainda se indefinem entre a especulação e o saque dos bens públicos retrocedendo aos piratas neoliberais de ontem ou retornando à truculência e intolerância das fardas e falsos santos de anteontem.

Entre a intolerância da católica TFP ou a dos evangélicos, o fascismo é o mesmo e assim, envergonhado e arrependido, Rui Barbosa viu o Brasil retornar à mesma situação de colônia através da República que ele mesmo compunha. Assistiu a história com o mesmo constrangimento que sem dúvida acometeria muitos dos eleitores do pleito que se avizinha, se elegerem um dos candidatos assumidamente comprometidos com o retrocesso sócio/político e econômico da nação.

A confusão instaurada por aqueles republicanos de meia pataca (a pataca equivalia a 320 réis e, quando cunhada a moeda de 160 réis, “meia pataca” tornou-se indicativo de sem valor) foi tanta que até mesmo este comentarista por muito tempo se indispôs com Rui Barbosa, acreditando que mandara queimar os registros de posse e movimentação de todos os escravos do Brasil, apenas para livrar a cara do pai que fora o alfandegário de Salvador, onde desembarcavam e eram expedidos a maioria dos escravos que se distribuíram pelo Brasil.

Fofoca! Fofoca  dos outros e desinformação minha. E assumo que também me faltou raciocínio para concluir que como abolicionista desde sua juventude, admirado pelos mais destacados integrantes do movimento como Castro Alves, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e o próprio Dom Pedro II; Rui não teria nenhum motivo para se expor como traidor dos próprios ideias, apenas porque o pai cumpria com a função de alfandegário. Pela função, obrigava-se a registar entra de saída de escravos que que então eram desumanamente considerados como mercadoria, mas isto não o fazia um escravista.

Julgamentos fáceis e emotivos sempre levam a conclusões erradas , induzidas por interesses escusos. Condenei Ruy Barbosa baseado nas mesmas falácias dos que recentemente condenaram os únicos condenados em toda a história política do Brasil. E quem garante que a responsabilização exclusiva ao pai de Barbosa não foi para que se esquecesse das responsabilidades de todos os escravocratas que ainda hoje ocupam as cadeiras do Congresso, formando a bancada ruralista? Muitos desses que ainda hoje arrogantemente arrotam nomes familiares das mais tradicionais elites brasileiras, herdam a mentalidade escravista de seus avós que nunca foram julgados nem condenados pelos tantos crimes praticados contra os escravos e contra a nação.

Da mesma forma se mandou para o Presídio da Papuda um magote de políticos condenados sem provas, conforme admitido pelo próprio STF, e que em nada tiveram seus patrimônios acrescidos; enquanto os que realmente se enriqueceram no pós-ditadura continuam aí como eternos candidatos a novas falcatruas e corrupções políticas. Se mantêm em todos os níveis de poder: Legislativo e Judiciário e em muitos dos cargos executivos de estados e municípios

Peço desculpas à memória do Rui Barbosa e explico minha indignação lembrando que se hoje, depois de toda a imigração europeia do século XX, em mais de 50% da população somos negros, sem dúvida éramos muito mais naquele Brasil de fins do XIX, com uma reduzida e vagabunda elite fundiária a trazer levas de negro para trabalhar por todo o país e, em razão da queima dos registros, hoje não tenho como saber se meus ancestrais negros eram bantos, nagôs ou jejes? Vieram de Maputo, Luanda, Congo, Guiné ou Benin? Sei de uma avó de Piemonte,  um avô da Sicília, mas a Itália é um país pequeno e um pedaço importante de mim está perdido no terceiro maior continente do mundo! A África é muito maior do que a Europa e menor apenas do que a Ásia e a América!

Daí minha indignação pela queima de todos os registros de entrada, saída e circulação dos negros pelo Brasil, mas hoje sei que o verdadeiro motivo de Barbosa ter cometido ato tão criminoso contra a identidade e a história brasileira, foi o de salvar o país do debacle a ser provocado pelo projeto aprovado pelos representantes das elites no parlamento, obrigando o país a indenizar os vagabundos por cada um dos escravos libertos pela Leia Áurea.

Seria o mesmo que se hoje, além se exigirem impunidade para os hediondos crimes de tortura, estupro e cárcere privado praticado durante a ditadura, os criminosos requeressem também uma indenização por se lhes impedir de prosseguir na praticando desses crimes! O absurdo é o mesmo, mas naquele caso o que mais chama a atenção é o tradicional descaso e desinteresse das elites com o país e seu povo. Exclusivamente voltados aos seus próprios interesses, jamais se perguntam o custo de suas inutilidades e impiedades.

Proporcionalmente a América Portuguesa, ou o Brasil, foi a maior importadora de escravos do continente, correspondendo a 38,5 % dos traficados de África. A América Inglesa que compreendia Canadá, Estados Unidos e diversas colônias distribuídas pelas Antilhas além de colônias continentais na América Central, mais a Guiana Inglesa na América do Sul, traficaram para seus territórios 28,1%. A América Espanhola, que compreende da Terra do Fogo a divisa dos Estados Unidos com o México: 17,5%. Apesar de reduzida, na América Francesa a escravização também foi intensa: 13,6%. As colônias holandesas mais as dinamarquesas das Antilhas participaram em apenas 2,3 % da responsabilidade por esse secular e odioso crime que envergonha a história da humanidade.

E a falta de vergonha prossegue na mesma medida e nada difere os atuais daqueles antigos como, por exemplo, quando reclamam contra a carga tributária, responsabilizando-a pelos altos custos do consumo. Excluindo todos os impostos os produtos brasileiros seguem injustificadamente muito acima dos preços praticados no exterior e é uma enorme mentira apontar nosso país como dos maiores arrecadadores de impostos do mundo, pois no ranking da Price Watherhouse and Coopers (PwC), a mais conceituada consultoria do setor, entre um universo de 189 países o Brasil está em 30º lugar com uma carga tributária de 68,3% onde se incluem os impostos sobre produtos e serviços que em alguns estados chega a 25%. Ou seja, apesar de se culpar exclusivamente o governo federal, muitos dos encargos são dos governos estaduais que nem por isso deixam de berrar por verbas e subsídios do governo central, responsabilizando-o por serviços que são atribuições estaduais ou municipais, como os atendimentos à saúde, muitas vezes precarizados pela inapetência de governadores ou prefeitos apoiados pela mesma Mídia divulga os baixos resultados de suas ineficiências como provocados por inoperância federal.

Enfim, o problema não está no impostômetro, mas sim no lucrômetro e isso só vai mudar quando cada brasileiro perceber nos profetas da igreja da Mídia, charlatães e impostores muito piores do que os milagreiros e vendedores de ilusões do passado. O dia que a Opinião Pública se der conta de que os que discursam contra os impostos em verdade querem é que o povo os indenize por espoliá-lo, aí sim os impostos diminuirão bastante. Até pela economia no dispendioso salário desses mandriões que sempre são os que mais pleiteiam, defendem e aumentam os próprios salários.

Portanto, hoje compreendo que como Ministro da Fazenda o único jeito que o Ruy Barbosa encontrou para não falir o Brasil e libertar o país desses seus eternos espoliadores, foi mandando queimar todos os registros de escravos para que ninguém tivesse como provar quanto “perdeu” com a abolição. Mas, em que pese o reconhecimento de meu equívoco por me basear em informações infundadas que coibiram meu raciocínio analítico e percepção da realidade tal qual ocorre aos condicionados pela inescrupulosa grande imprensa brasileira, mantenho outras pendengas irrevogáveis contra o Rui Barbosa como, por exemplo, a posição que manteve contra o povo na Guerra do Contestado, quando atuou como defensor dos interesses da Southern Brazil Lumber & Colonization Company.

Mas assim como Marina Silva, antes de se vender aos interesses estrangeiros Rui Barbosa também se engajou na luta em defesa do país contra os tantos interesses contrários ao de sua população e certamente por isso na Constituinte de 1891 se afincou na ideia de conter o orçamento da União, defendendo a redução das verbas a serem repassadas para os estados. Presumivelmente o advogado estava se precavendo contra o desperdício de dinheiro público pelos desmandos regionais do coronelato, mas com isso prejudicou, sobretudo, aos estados menores ou economicamente menos representativos. E nessa contradição destacou-se na defesa dos interesses de seu próprio estado o constituinte gaúcho Julio de Castilhos.

Castilhos redigiu a primeira constituição estadual do Brasil e foi eleito presidente (referente a governador de estado) do Rio Grande do Sul.

Positivista severo e intransigente, Julio de Castilhos acabou sendo apontado como o responsável pela Revolução Federalista. Deposto 4 meses depois de eleito a primeira vez em 1891, é novamente eleito governador do Rio Grande em janeiro de 1893 e isso fez eclodir o movimento de pequenos estanceiros que pretendiam maior autonomia ao estado.  Já em fevereiro o conflito se delineava como uma guerra civil que se expandiu até 1895 e do Rio Grande do Sul até o Paraná, onde os Maragatos penetraram até à cidade de Lapa, a sessenta kms da capital Curitiba.

De Maragatos foram pejorativamente chamados os seguidores de Gaspar da Silva Martins que anteriormente estivera exilado no Uruguai em região colonizada por gente originária da Maragateria, uma micro região do antigo reino de Leão, ao norte da Espanha. Querendo apontar os federalistas como estrangeiros, por sua vez os fiéis ao governo central passaram a ser chamados de Pica-paus, em referência às cores dos uniformes dos soldados do exército republicano: preto e vermelho, além do chapéu de ponta comprida como um bico e um penacho, mais os estalidos das armas de repetição.

Floriano Peixoto que estimulou a primeira Revolta da Armada que bombardearia o Rio de Janeiro caso Deodoro não renunciasse, acabou experimentando do próprio veneno na segunda Revolta em 1893 quando os mesmos almirantes que dois anos antes o apoiaram contra seu conterrâneo, dessa vez exigiram-lhe a própria renúncia. Por trás dessa nova Revolta também estavam as forças dominantes das elites econômicas, mas apoiado pelo exército Floriano respondeu duramente aos revoltosos e foi vitorioso em sangrenta batalha da Ponta da Armação, em Niterói.

Fugindo da Guanabara para o sul com o então mais temido torpedeiro da marinha brasileira, o Aquidaban, os revoltosos se asilaram em Desterro de onde tentaram se articular com os Federalistas. Mas na madrugada de 16 de abril de 1894 o Aquidaban, atacado por 11 embarcações legalistas, veio a pique.

Àquela derrota na ilha que depois seria chamada de Florianópolis foi o fim da Revolução Federalista que entre “sangras” ou degolas praticadas com muita crueldade por ambos os lados, se constituiu num embate entre duas facções do poder fundiário, onde o povo era utilizado como massa de manobra pelos senhores feudais que definiam a política brasileira.

Apesar da Semana de Arte Moderna que em 1922 lançou em São Paulo uma revolução cultural na tentativa de contemporizar o Brasil às propostas de evolução social do Século XX, o medievalismo das elites brasileiras novamente fez espocar o velho ódio dos coronéis de terras, revivendo a Revolução Federalista em 1923, quando os Maragatos, então liderados pelo agropecuarista Joaquim Francisco de Assis Brasil, se opuseram a Borges de Medeiros, seguidor político de Julio de Castilhos que falecera em 1903.

Um primo de Borges de Medeiros, e que muito mais tarde foi o criador do nome da moeda instituída no Estado Novo de Getúlio Vargas para substituir o Réis, o Cruzeiro, além de médico era também poeta e, devido a uma desavença familiar, satirizou Borges de Medeiros numa reinterpretação do famoso épico do argentino José Hernández, “O Gaúcho Martin Fierro”. Na versão de Ramiro Barcelos, Martin Fierro não tem nada do sacrificado heroísmo sertanejo. Com o nome de Antônio Chimango, através do personagem Ramiro expressa péssimas considerações sobre o parente, compara-o ao chimango, uma pequena ave de rapina dos pampas, também grafada como Ximango e igualmente conhecida por Gavião Carrapateiro, devido a pousar nos costados do gado para comer-lhe os carrapatos.

E assim os anteriores Pica-paus se tornaram Chimangos, de lenços brancos ao pescoço no entrevero de mais uma guerra fraticida contra os Maragatos, de lenço vermelho e que pretendiam separar o sul do restante do Brasil. Mas será dessa desunião que anos depois se originará a primeira Opinião Pública brasileira politicamente unanime. Mas aí já é outra história.

*Raul Longo é jornalista, escritor e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso Longo”.

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