A história da opinião pública brasileira
* Por
Raul Longo
VI Parte – Conflitos entre as Elites
Leonardo da Vinci, por exemplo, era um
polímata. O homem era exímio artista, engenheiro, escritor, inventor, físico,
astrônomo, anatomista, zoólogo e o que mais se imaginar. Enfim, um gênio!
Não é preciso tanto
para ser considerado polímata, mas essas, sem dúvida, são pessoas que detêm
diversos conhecimentos como o baiano Rui Barbosa que gênio como da Vinci não
era, mas foi um brasileiro de muitos saberes.
E também foi uma
confirmação da liberalidade e republicanismo do
Dom Pedro II, posto que embora Rui fosse reconhecido como das mais
importantes lideranças republicana, o já destituído Imperador em 1890 comentou
receoso por nosso futuro entregue à crassa estupidez das elites políticas e
econômicas que até hoje aí estão: "Nas trevas que caíram sobre o Brasil, a
única luz que alumia, no fundo da nave, é o talento de Ruy Barbosa."
Por sua vez, em uma
viagem à Paris ainda como integrante do Governo Provisório instaurado com o
golpe que destituiu e exilou Pedro II, num encontro com o ex Imperador o
brilhante intelectual brasileiro desculpou-se: "Majestade, me perdoe, eu
não sabia que a República era isso".
Quem ainda se lembra do
que foram os governos brasileiros do pós-ditadura até 2002, tirante o Itamar
Franco que fez o que pôde para recuperar o desfalcado tesouro nacional antes de
repassá-lo ao sucessor que terminou de dilapidá-lo; pode avaliar os sentimentos
de Rui Barbosa. Memórias impossíveis aos que às vésperas das próximas eleições
ainda se indefinem entre a especulação e o saque dos bens públicos retrocedendo
aos piratas neoliberais de ontem ou retornando à truculência e intolerância das
fardas e falsos santos de anteontem.
Entre a intolerância da
católica TFP ou a dos evangélicos, o fascismo é o mesmo e assim, envergonhado e
arrependido, Rui Barbosa viu o Brasil retornar à mesma situação de colônia
através da República que ele mesmo compunha. Assistiu a história com o mesmo
constrangimento que sem dúvida acometeria muitos dos eleitores do pleito que se
avizinha, se elegerem um dos candidatos assumidamente comprometidos com o
retrocesso sócio/político e econômico da nação.
A confusão instaurada
por aqueles republicanos de meia pataca (a pataca equivalia a 320 réis e,
quando cunhada a moeda de 160 réis, “meia pataca” tornou-se indicativo de sem
valor) foi tanta que até mesmo este comentarista por muito tempo se indispôs
com Rui Barbosa, acreditando que mandara queimar os registros de posse e movimentação
de todos os escravos do Brasil, apenas para livrar a cara do pai que fora o
alfandegário de Salvador, onde desembarcavam e eram expedidos a maioria dos
escravos que se distribuíram pelo Brasil.
Fofoca! Fofoca dos outros e desinformação minha. E assumo
que também me faltou raciocínio para concluir que como abolicionista desde sua
juventude, admirado pelos mais destacados integrantes do movimento como Castro
Alves, José do Patrocínio, Joaquim Nabuco e o próprio Dom Pedro II; Rui não
teria nenhum motivo para se expor como traidor dos próprios ideias, apenas
porque o pai cumpria com a função de alfandegário. Pela função, obrigava-se a
registar entra de saída de escravos que que então eram desumanamente
considerados como mercadoria, mas isto não o fazia um escravista.
Julgamentos fáceis e
emotivos sempre levam a conclusões erradas , induzidas por interesses escusos.
Condenei Ruy Barbosa baseado nas mesmas falácias dos que recentemente
condenaram os únicos condenados em toda a história política do Brasil. E quem
garante que a responsabilização exclusiva ao pai de Barbosa não foi para que se
esquecesse das responsabilidades de todos os escravocratas que ainda hoje
ocupam as cadeiras do Congresso, formando a bancada ruralista? Muitos desses
que ainda hoje arrogantemente arrotam nomes familiares das mais tradicionais
elites brasileiras, herdam a mentalidade escravista de seus avós que nunca
foram julgados nem condenados pelos tantos crimes praticados contra os escravos
e contra a nação.
Da mesma forma se mandou
para o Presídio da Papuda um magote de políticos condenados sem provas,
conforme admitido pelo próprio STF, e que em nada tiveram seus patrimônios
acrescidos; enquanto os que realmente se enriqueceram no pós-ditadura continuam
aí como eternos candidatos a novas falcatruas e corrupções políticas. Se mantêm
em todos os níveis de poder: Legislativo e Judiciário e em muitos dos cargos
executivos de estados e municípios
Peço desculpas à
memória do Rui Barbosa e explico minha indignação lembrando que se hoje, depois
de toda a imigração europeia do século XX, em mais de 50% da população somos
negros, sem dúvida éramos muito mais naquele Brasil de fins do XIX, com uma
reduzida e vagabunda elite fundiária a trazer levas de negro para trabalhar por
todo o país e, em razão da queima dos registros, hoje não tenho como saber se
meus ancestrais negros eram bantos, nagôs ou jejes? Vieram de Maputo, Luanda,
Congo, Guiné ou Benin? Sei de uma avó de Piemonte, um avô da Sicília, mas a Itália é um país
pequeno e um pedaço importante de mim está perdido no terceiro maior continente
do mundo! A África é muito maior do que a Europa e menor apenas do que a Ásia e
a América!
Daí minha indignação
pela queima de todos os registros de entrada, saída e circulação dos negros
pelo Brasil, mas hoje sei que o verdadeiro motivo de Barbosa ter cometido ato
tão criminoso contra a identidade e a história brasileira, foi o de salvar o
país do debacle a ser provocado pelo projeto aprovado pelos representantes das
elites no parlamento, obrigando o país a indenizar os vagabundos por cada um
dos escravos libertos pela Leia Áurea.
Seria o mesmo que se
hoje, além se exigirem impunidade para os hediondos crimes de tortura, estupro
e cárcere privado praticado durante a ditadura, os criminosos requeressem
também uma indenização por se lhes impedir de prosseguir na praticando desses
crimes! O absurdo é o mesmo, mas naquele caso o que mais chama a atenção é o
tradicional descaso e desinteresse das elites com o país e seu povo.
Exclusivamente voltados aos seus próprios interesses, jamais se perguntam o
custo de suas inutilidades e impiedades.
Proporcionalmente a
América Portuguesa, ou o Brasil, foi a maior importadora de escravos do
continente, correspondendo a 38,5 % dos traficados de África. A América Inglesa
que compreendia Canadá, Estados Unidos e diversas colônias distribuídas pelas
Antilhas além de colônias continentais na América Central, mais a Guiana Inglesa
na América do Sul, traficaram para seus territórios 28,1%. A América Espanhola,
que compreende da Terra do Fogo a divisa dos Estados Unidos com o México:
17,5%. Apesar de reduzida, na América Francesa a escravização também foi
intensa: 13,6%. As colônias holandesas mais as dinamarquesas das Antilhas
participaram em apenas 2,3 % da responsabilidade por esse secular e odioso
crime que envergonha a história da humanidade.
E a falta de vergonha
prossegue na mesma medida e nada difere os atuais daqueles antigos como, por
exemplo, quando reclamam contra a carga tributária, responsabilizando-a pelos
altos custos do consumo. Excluindo todos os impostos os produtos brasileiros
seguem injustificadamente muito acima dos preços praticados no exterior e é uma
enorme mentira apontar nosso país como dos maiores arrecadadores de impostos do
mundo, pois no ranking da Price Watherhouse and Coopers (PwC), a mais
conceituada consultoria do setor, entre um universo de 189 países o Brasil está
em 30º lugar com uma carga tributária de 68,3% onde se incluem os impostos
sobre produtos e serviços que em alguns estados chega a 25%. Ou seja, apesar de
se culpar exclusivamente o governo federal, muitos dos encargos são dos
governos estaduais que nem por isso deixam de berrar por verbas e subsídios do
governo central, responsabilizando-o por serviços que são atribuições estaduais
ou municipais, como os atendimentos à saúde, muitas vezes precarizados pela
inapetência de governadores ou prefeitos apoiados pela mesma Mídia divulga os
baixos resultados de suas ineficiências como provocados por inoperância
federal.
Enfim, o problema não
está no impostômetro, mas sim no lucrômetro e isso só vai mudar quando cada
brasileiro perceber nos profetas da igreja da Mídia, charlatães e impostores
muito piores do que os milagreiros e vendedores de ilusões do passado. O dia
que a Opinião Pública se der conta de que os que discursam contra os impostos
em verdade querem é que o povo os indenize por espoliá-lo, aí sim os impostos
diminuirão bastante. Até pela economia no dispendioso salário desses mandriões
que sempre são os que mais pleiteiam, defendem e aumentam os próprios salários.
Portanto, hoje
compreendo que como Ministro da Fazenda o único jeito que o Ruy Barbosa
encontrou para não falir o Brasil e libertar o país desses seus eternos
espoliadores, foi mandando queimar todos os registros de escravos para que
ninguém tivesse como provar quanto “perdeu” com a abolição. Mas, em que pese o
reconhecimento de meu equívoco por me basear em informações infundadas que
coibiram meu raciocínio analítico e percepção da realidade tal qual ocorre aos
condicionados pela inescrupulosa grande imprensa brasileira, mantenho outras
pendengas irrevogáveis contra o Rui Barbosa como, por exemplo, a posição que
manteve contra o povo na Guerra do Contestado, quando atuou como defensor dos
interesses da Southern Brazil Lumber & Colonization Company.
Mas assim como Marina
Silva, antes de se vender aos interesses estrangeiros Rui Barbosa também se
engajou na luta em defesa do país contra os tantos interesses contrários ao de
sua população e certamente por isso na Constituinte de 1891 se afincou na ideia
de conter o orçamento da União, defendendo a redução das verbas a serem
repassadas para os estados. Presumivelmente o advogado estava se precavendo
contra o desperdício de dinheiro público pelos desmandos regionais do
coronelato, mas com isso prejudicou, sobretudo, aos estados menores ou
economicamente menos representativos. E nessa contradição destacou-se na defesa
dos interesses de seu próprio estado o constituinte gaúcho Julio de Castilhos.
Castilhos redigiu a
primeira constituição estadual do Brasil e foi eleito presidente (referente a
governador de estado) do Rio Grande do Sul.
Positivista severo e
intransigente, Julio de Castilhos acabou sendo apontado como o responsável pela
Revolução Federalista. Deposto 4 meses depois de eleito a primeira vez em 1891,
é novamente eleito governador do Rio Grande em janeiro de 1893 e isso fez
eclodir o movimento de pequenos estanceiros que pretendiam maior autonomia ao
estado. Já em fevereiro o conflito se
delineava como uma guerra civil que se expandiu até 1895 e do Rio Grande do Sul
até o Paraná, onde os Maragatos penetraram até à cidade de Lapa, a sessenta kms
da capital Curitiba.
De Maragatos foram
pejorativamente chamados os seguidores de Gaspar da Silva Martins que
anteriormente estivera exilado no Uruguai em região colonizada por gente
originária da Maragateria, uma micro região do antigo reino de Leão, ao norte
da Espanha. Querendo apontar os federalistas como estrangeiros, por sua vez os
fiéis ao governo central passaram a ser chamados de Pica-paus, em referência às
cores dos uniformes dos soldados do exército republicano: preto e vermelho,
além do chapéu de ponta comprida como um bico e um penacho, mais os estalidos
das armas de repetição.
Floriano Peixoto que
estimulou a primeira Revolta da Armada que bombardearia o Rio de Janeiro caso
Deodoro não renunciasse, acabou experimentando do próprio veneno na segunda
Revolta em 1893 quando os mesmos almirantes que dois anos antes o apoiaram
contra seu conterrâneo, dessa vez exigiram-lhe a própria renúncia. Por trás
dessa nova Revolta também estavam as forças dominantes das elites econômicas,
mas apoiado pelo exército Floriano respondeu duramente aos revoltosos e foi
vitorioso em sangrenta batalha da Ponta da Armação, em Niterói.
Fugindo da Guanabara
para o sul com o então mais temido torpedeiro da marinha brasileira, o
Aquidaban, os revoltosos se asilaram em Desterro de onde tentaram se articular
com os Federalistas. Mas na madrugada de 16 de abril de 1894 o Aquidaban,
atacado por 11 embarcações legalistas, veio a pique.
Àquela derrota na ilha
que depois seria chamada de Florianópolis foi o fim da Revolução Federalista
que entre “sangras” ou degolas praticadas com muita crueldade por ambos os
lados, se constituiu num embate entre duas facções do poder fundiário, onde o
povo era utilizado como massa de manobra pelos senhores feudais que definiam a
política brasileira.
Apesar da Semana de
Arte Moderna que em 1922 lançou em São Paulo uma revolução cultural na
tentativa de contemporizar o Brasil às propostas de evolução social do Século
XX, o medievalismo das elites brasileiras novamente fez espocar o velho ódio
dos coronéis de terras, revivendo a Revolução Federalista em 1923, quando os
Maragatos, então liderados pelo agropecuarista Joaquim Francisco de Assis
Brasil, se opuseram a Borges de Medeiros, seguidor político de Julio de
Castilhos que falecera em 1903.
Um primo de Borges de
Medeiros, e que muito mais tarde foi o criador do nome da moeda instituída no
Estado Novo de Getúlio Vargas para substituir o Réis, o Cruzeiro, além de
médico era também poeta e, devido a uma desavença familiar, satirizou Borges de
Medeiros numa reinterpretação do famoso épico do argentino José Hernández, “O
Gaúcho Martin Fierro”. Na versão de Ramiro Barcelos, Martin Fierro não tem nada
do sacrificado heroísmo sertanejo. Com o nome de Antônio Chimango, através do
personagem Ramiro expressa péssimas considerações sobre o parente, compara-o ao
chimango, uma pequena ave de rapina dos pampas, também grafada como Ximango e
igualmente conhecida por Gavião Carrapateiro, devido a pousar nos costados do
gado para comer-lhe os carrapatos.
E assim os anteriores
Pica-paus se tornaram Chimangos, de lenços brancos ao pescoço no entrevero de
mais uma guerra fraticida contra os Maragatos, de lenço vermelho e que
pretendiam separar o sul do restante do Brasil. Mas será dessa desunião que
anos depois se originará a primeira Opinião Pública brasileira politicamente
unanime. Mas aí já é outra história.
*Raul Longo é jornalista, escritor
e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da
democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso
Longo”.
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