A mancha no sofá de Abreu
* Por
Marcelo Sguassábia
Há várias hipóteses,
pouquíssimas delas plausíveis, para a mancha no sofá de Abreu. Passados 49 anos
ela continua lá, com a mesma cor e contornos, perene como o morro do Pão de
Açúcar e cada vez mais disposta a desafiar a ciência. Sim, porque tudo indica que
não há força cósmica nem reza brava que pareçam capazes de acabar com ela.
Surgida sem causa
aparente nem testemunhas que atestassem o momento exato do seu aparecimento, o
achado tem peculiaridades físico-químicas ainda não suficientemente compreendidas,
com arranjos moleculares nunca antes observados em quaisquer matérias do
planeta.
Essa intrigante
incógnita desafia a comunidade científica e mobiliza pesquisadores de toda
parte a buscar uma explicação satisfatória para o caso. Recentemente, teve lugar
na sede de campo da Associação Comercial de Monjolos das Missões um debate
aberto ao público, no qual especialistas de diferentes vertentes tentaram
elucidar, à luz da numismática moderna, o intrigante fenômeno - só comparável,
em termos de repercussão midiática, ao velório da viúva de Floriano Peixoto.
Como se sabe, Abreu é
ávido consumidor de aipim, granola com raspas de coco e Gatorade sem gelo,
itens que ingere separadamente às terças, quintas e sábados, e batidos no
liquidificador às segundas, quartas e domingos. Indagado sobre o motivo de
nunca fazê- lo às sextas, Abreu mostrou-se evasivo e pouco convincente,
chegando a alegar razões de natureza religiosa para abster-se do consumo da
ração habitual naquele dia da semana. Parece desprezível esse pormenor, mas foi
a partir dele que os estudiosos do caso estabeleceram uma relação entre o
aparecimento da mancha e a rotina alimentar da vítima. Deduziu- se que a
mancha, por estar no sofá, tem 93,7% de chance de ter sido causada por
guloseima entornada e que, assim sendo, poderíamos ter como afastada a hipótese
dela ter aparecido numa sexta, dia que Abreu dedica ao jejum, conforme
explicado acima.
Reconhecida pelo
Guiness World Records como a mancha mais extensamente estudada na história da
humanidade, a busca por “Abreu's Stain” é hoje uma das vinte mais solicitadas
no Google mundial, e cogita-se recolher uma amostra da mesma para incluir na
próxima cápsula do tempo a ser lançada ao espaço pela NASA.
Há cerca de três meses,
sem causa aparente, a mancha de Abreu começou a demonstrar comportamento
atípico. O mais atípico possível, em se tratando de uma mancha de sofá:
tornou-se intermitente, ou seja, era visível num dia e invisível no outro.
Munidos de câmeras ultramodernas, cinegrafistas mantêm-se a postos com suas
lentes e luzes apontadas para a nódoa mais célebre do universo, esperando
captar o momento de mudança do visível para o invisível, ou vice-versa.
Espera-se para as próximas horas a divulgação de boletim com notícias
atualizadas sobre o caso.
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Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).
Seria uma maldição? O Santo Sudário deve ter sido mais estudado, Marcelo. Ou não? A história, aparentemente banal, prendeu minha atenção de forma inesperada, considerando-se estarmos em horário de verão e já ser quase meia noite, sendo que eu acordo às 6 h. Isso é um visível elogio. Boa noite!
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