Talento e exercício
* Por Pedro J. Bondaczuk
O talento, sozinho, não basta para fazer de uma
pessoa um artista admirado e de sucesso, um desportista vencedor ou um
profissional reconhecido e disputado pelo mercado. Claro que ele ajuda, mas
requer algo tão importante, ou mais, do que sua mera e potencial habilidade
para qualquer atividade: o exercício.
Artistas, desportistas e profissionais são frutos de
horas e mais horas de estudos, de treinamentos, de dedicação integral ao que
fazem ou querem fazer. Alguns especialistas sugerem que 10 mil horas de
exercício habilitam o sujeito talentoso para conseguir o que almeja. Não sei se
de fato é possível mensurar esse treinamento necessário.
Pode ser que para alguns, as horas despendidas na
preparação sejam menos do que isso e, para outros, bem mais. Fiquemos, porém,
com as dez mil horas como ponto de partida, apenas como premissa para reflexão.
A verdade é que, sem essa dedicação integral ao que se escolheu para fazer, o
fracasso e a frustração são previsíveis, se não fatais. Não basta a genialidade
se a pessoa não a exercitar. E quanto antes começar a se preparar, mais cedo
conseguirá fazer aquilo a que se propôs.
O editor-chefe da revista “Skeptyc”, Michael
Shermer, fez as seguintes observações a respeito (com as quais concordo), em
entrevista publicada em 14 de setembro de 2001, no caderno “Mais!” do jornal
Folha de S. Paulo: “Essa é a questão das 10 mil horas. O que é preciso para ser
um gênio criativo e alcançar o topo de sua área? Primeiro de tudo, há uma regra
das 10 mil horas mínimas. Se você quer dominar um esporte ou uma habilidade,
isso vem com 60 horas por semana durante três anos e meio. Isso é verdade em
todas as profissões. Não significa que você vai conseguir. Boa biologia e genes
ajudam. Mas olhe Mozart. Ele não surgiu do nada como algumas pessoas pensam.
Ele teve o pai e o treinamento e fez as 10 mil horas aos 6 anos. Devoção
precoce ajuda o gênio a sair”.
Alguém pode perguntar: “E a inspiração, onde entra
nessa história toda?”. Antes de tudo, é necessário que se defina o que se
entende como tal. Há pessoas que acham possível surgir do nada, como num toque
de mágica, uma obra prontinha no cérebro de alguém, bastando, apenas,
reproduzi-la. Ah, como seria bom se as coisas fossem assim tão simples e se
tivéssemos, com freqüência, esses súbitos “lampejos”!
O que chamamos de “inspiração” são idéias que um dia
tivemos, às vezes sem sequer nos darmos conta, e que ficaram adormecidas,
sabe-se lá por quanto tempo, em algum substrato da nossa mente, talvez no
subconsciente ou, quem sabe, no inconsciente. Para que as tivéssemos, no
entanto, foi indispensável que lêssemos, víssemos ou ouvíssemos em algum lugar
referências básicas sobre esses assuntos.
Às vezes, esses lampejos surgem depois de anos, de
décadas até. Podem, também, é verdade, emergir à consciência já no dia seguinte.
Nosso cérebro é um mistério até para os maiores especialistas na matéria. Não
raro, porém, essas idéias “brilhantes” que um dia tivemos, e não nos demos
conta (ou lhes atribuímos pouca importância), não voltam nunca mais ao
consciente. Perdemos, assim, a oportunidade de produzir uma grande obra, quem
sabe a mais relevante de nossas vidas.
Ademais, a tal da inspiração quase sempre se refere,
apenas, ao tema para ser trabalhado, cabendo-nos a árdua tarefa de tratar do
conteúdo. Ou então, se tratam de meros “pedaços” de uma obra (um conjunto
esparso de notas musicais, por exemplo, ou determinada nuance de luz e sombra
de uma pintura, ou um verso de um poema, não importa). Ela não é tão benigna
quanto os ingênuos supõem. Não nos entrega, de bandeja, nenhum “Lusíadas”, ou a
“Quinta Sinfonia”, ou “Os Girassóis” de Van Gogh prontinhos e acabados.
Volta-se, pois, às questões do talento e do
exercício. Se você não tiver aptidão para a música e não dominar a técnica de
composição, de nada lhe valerá a inspiração para compor uma canção (e, creia,
essa não virá mesmo). O mesmo vale para a pintura, escultura, literatura,
futebol, atletismo, finanças, direito, medicina etc.etc.etc. Se não houver se exercitado
naquilo que gosta de fazer, não o fará nunca. Não, pelo menos, com a
competência e a segurança requeridas para ser expert na matéria.
Portanto, não se iluda com essa história de
“inspiração”. Se o fizer, com certeza o resultado será uma profunda frustração,
acompanhada de interminável séqüito de outros tantos sentimentos negativos.
Descubra seu talento. Exercite-o, não apenas por dez mil horas, mas por toda a
vida. Fazendo isso, nunca lhe faltará inspiração, eu lhe asseguro. Aja assim,
você que ainda é um “artista (ou profissional) enrustido” e lhe desejarei, do
fundo do coração, uma “boa obra”!
* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de
Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do
Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em
equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por
uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de
“Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O
Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk
Amanhã no Ecambo de Livros deverei falar sobre "escrever". É como você disse: "amar se aprende amando". E escrever escrevendo.
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