A história da opinião pública brasileira
* Por
Raul Longo
VII Parte – As Cruzadas Sertanejas
A multiplicação da
violência social produzida pelo abandono e descaso ao povo é um axioma
universal. Das estepes russas ao velho oeste dos Estados Unidos, por todo o
mundo a violência social que ainda há pouco também assombrou o Brasil é um
problema universal e em nosso país hoje se agudiza no estado de São Paulo onde,
em 2006, o crime organizado tomou de assalto uma das maiores megalópoles do
mundo.
O sequestro de São
Paulo, ordenado pelo Primeiro Comando da Capital de dentro de um presídio
estadual de segurança máxima, foi um paroxismo apenas imaginável por roteiristas
de Histórias em Quadrinhos. São Paulo se tornou uma Gotham City sem Batman.
Mas o absurdo maior e
mais inexplicável foi a posterior reeleição do governador daquele estado ao
mesmo cargo. Apesar de não ser um problema exclusivo à população paulista,
enquanto populações de demais unidades da federação vivenciam paulatina redução
na insegurança de suas cidades, acintosamente o governador de São Paulo
aproximou-se ao crime organizado, inclusive apoiando candidatura para deputado
federal de um líder do PCC, o famigerado Primeiro Comando da Capital,
atualmente a maior organização criminosa do Brasil, substituta do extinto
Comando Vermelho do Rio de Janeiro.
Denúncias
internacionais sobre envolvimento de corrupção com empreiteiras multinacionais
nas obras do deficitário sistema de transporte metroviário; ou o descalabro do
esgotamento dos reservatórios de água instalados entre uma das maiores bacias
hidrográficas do mundo -- por mera incompetência administrativa conforme
conclusões de técnicos do setor na ONU -- somam-se a continuidade das ações do
PCC por todo o estado; mas nada disso contem os índices de intenções de voto
dos paulistas em Geraldo Alckmin e, a menos que as pesquisas de Opinião Pública
daquele estado também sejam fraudadas, ali a população fará por merecer ainda
mais quatro anos de um desastroso governo.
Mas todo o Brasil foi
uma grande São Paulo nas décadas em se transcorreram os governos da chamada
Velha República, embora a violência e insegurança não fosse gerada por
organizações criminosas muitas vezes financiadas por políticos que do tráfico
de drogas, do contrabando e da prostituição retiram os recursos de
financiamento de suas milionárias campanhas eleitorais. Os coronéis que
mantinham a política da Velha República não usavam desse tipo de recurso e para
garantir seus votos de cabresto precisavam apenas dos serviços de pistoleiros e
jagunços, a bem baixo custo.
Muitas foram as reações
populares aos tão comuns abusos de poder gerados por aquele sistema de
manutenção dos poderes regionais dos coronéis latifundiários, e todas elas
foram respondidas pela mesma truculência, como a empregada em janeiro de 2012
contra a comunidade de Pinheirinho, em São José dos Campos, por aquele mesmo
Geraldo Alckmin.
Naquele ano ainda
recente, Alckmin obteve a aliança do judiciário paulista e garantiu
reintegração de pose da área ocupada por brasileiros pobres e reclamada como
propriedade privada por Naji Robert Nahas, conhecido especulador financeiro
libanês que, em 1989, provocou a quebra da Bolsa do Rio de Janeiro.
A Bolsa do Rio de
Janeiro não mais se recuperou, mas em 25 de março de 2014 a Presidente Dilma
autorizou a construção de 1.461 residências para o assentamento dos seis mil
sobreviventes do massacre do Pinheirinho, entre crianças, mulheres, jovens e
adultos baleados, bombardeados e pisoteados pelos cavalos da polícia do hoje candidato
à reeleição ao governo de São Paulo.
A ação de Alckmin
contra a comunidade do Pinheirinho indignou a ONU e a OEA, mas na história da
República não foi o único crime praticado pelas elites contra o povo
brasileiro. Com o fim do Império a marginalização da imensa maioria da
população promoveu muitos movimentos desesperados, reprimidos com a mais crua
das violências já cometidas pelas repúblicas latino-americanas.
Seguindo o exemplo da
Revolta dos Muckers ocorrida ainda no Império, muitos desses movimentos
populares se aparentavam de motivação religiosa, mas a maioria provinha de uma
profunda indignação e desespero social.
Naquele caso dos
colonos alemães do Ferrabraz, região periférica do município de São Leopoldo no
Rio Grande do Sul, espiritualmente liderados por Jacobina Mauer e ironizados
com a palavra alemã para santarrões, “muckers”; a seriedade das reivindicações
daqueles marginalizados e explorados por seus próprios patrícios, só foi
percebida quando as visões messiânicas de Jacobina estimularam respostas
violentas às humilhações a que seus seguidores eram submetidos pelos mais
ricos.. As intolerâncias religiosas alimentaram rancores em ambos os lados da
questão, mas não foram a real origem do conflito que só findou depois de muitas
mortes nos embates dos emigrantes alemães com o exército imperial brasileiro .
Sociólogos mais atentos
compreendem que quando retiradas as possibilidades de esperança nas naturais
condições humanas, só resta a crença no sobre-humano como meio de organização
das massas. Os deuses são criações do desespero, não da confiança do ser humano
em si mesmo e a partir do momento em que um vetor de fé, um carisma religioso,
reunir os desesperados em torno de uma crença, tornar-se-á capaz de conduzir
multidões aos atos mais estoicos, seja em busca da redenção da realidade que
aprisiona, seja no sentido de encontrar essa redenção através da destruição da
própria vida.
Ainda no Império, em
1878, o fanático João Ferreira induziu um grupo do sertão pernambucano ao
massacre de 87 pessoas prometendo que se lavados por sangue de inocentes os
monólitos de Serra Formosa, no município de São João Belmonte, se
transformariam em palácio onde se daria a ressurreição de Dom Sebastião, rei de
Portugal desaparecido no século XVI em Alcácer Quibir, África, durante uma
batalha das Cruzadas.
Esse terrível evento
foi magistralmente relatado no “Romance d’A Pedra do Reino” de Ariano Suassuna,
mas nem só os isolados do mundo são levados à tamanha inconsequência, tampouco
se trata de exclusividade de miseráveis e flagelados, sem quaisquer condições
de aquisição de conhecimentos que promovam a evolução humana. Vamos encontrar
esse mesmo tipo de comportamento inclusive entre a classe média, como naqueles
estadunidenses que cometeram suicídio coletivo na Guiana em 1978, induzidos por
Jim Jones, missionário da seita evangélica Templo dos Povos.
A despeito de ser o
berço da psicologia e reunir as mais importantes linhas e escolas filosóficas
da era moderna, há ainda menos de um século a Alemanha se tornou palco de uma
das maiores hecatombes da humanidade, provocada pela indução ao fanatismo a um
único homem. Mas tampouco a Alemanha é exemplo isolado de que o condicionamento
religioso, ético ou político, possa levar toda uma nação, todo um povo, à
autodestruição. Agora mesmo, exatamente enquanto o Brasil obtêm reconhecimento internacional
pela vertiginosa evolução do país em todos os níveis e setores, inclusive se
retirando do mapa mundial da fome pela primeira vez em toda sua história; a
indução e condicionamento pelos meios de massificação da Opinião Pública nos
ameaça de retorno aos mais negros períodos de nossa história.
O fundamentalismo
religioso a serviço de grandes empreendimentos financeiros e do capitalismo
especulativo internacional é a maior ameaça a que já fomos expostos desde as
caravelas de Pedro Álvares de Cabral. Para dimensionar o alarmante significado
desse risco é preciso recuperar memória do fanatismo produzido pelo abandono e
descaso aos sertanejos católicos, comparando-o aos fundamentalismos evangélicos
das modernas sociedades urbanas.
Além dos Muckers, dos
fanáticos da Pedra Bonita e dos seguidores do também sebastianista Antônio
Conselheiro da Guerra de Canudos de 1896/97, o messianismo não é um anacronismo
do século XIX e permaneceu pelo século XX manifestando-se em acontecimentos
muito significativos como o da Guerra do Contestado de Santa Catarina, que se
estendeu de 1912 a 1916, com liderança messiânica exercida pelo monge João
Maria.
Outro importante
conflito religioso se deu na região do Cariri do Ceará que pelas condições
climáticas favoráveis às práticas agrícolas se difere totalmente do Cariri da
Paraíba assolado pela esterilidade da caatinga, conforme relatado na popular
música “Último Pau de Arara” do compositor pernambucano Venâncio: “enquanto
minha vaquinha puder com o couro e o osso, foi ficando por aqui... Só deixo o
meu Cariri no último pau de arara”.
Nascido na cidade do
Crato, Cícero Romão Batista, filho de pequeno proprietário rural passou
dificuldades após a morte do pai, mas conseguiu ordenar-se padre e se
estabeleceu em Juazeiro, então um pequeno povoado da região. A dedicação
pastoral ao povo ali esquecido logo granjeou grande estima popular e apesar de
sua austeridade contra o álcool e a prostituição, a influência do Padre Cícero
ultrapassou as fronteiras de todos os estados nordestinos.
Em 1914 as oligarquias
cearenses se uniram contra as interferências do governo federal e através da
popularidade do Padre Cícero e obtiveram o apoio dos sertanejos. Apoio decisivo
para a derrota das forças federais enviadas para conter o poder abusivo dos
coronéis.
O exército de Hermes da
Fonseca, aquele mesmo que em 1910 desonrou-se faltando com a palavra a João
Candido, o Almirante Negro da Revolta da Chibata; foi barrado pela trincheira
de 9 kms. de extensão de valado aberto pelos romeiros convocados por Cícero.
Franco Rabelo, o governador do Ceará, enviou mais soldados e um canhão, mas
assim mesmo o exército foi vencido e os revoltosos atravessaram o estado até
tomar a capital Fortaleza, onde depuseram o governo.
A revolta que ficou
conhecida como Sedição de Juazeiro resultou em retaliações políticas ao Padre
Cícero, mas, apesar de sua excomunhão pelo Vaticano, atualmente a mesma Igreja
Católica explora os rendimentos da fé de milhares que de todo o nordeste
anualmente seguem em romaria ao antigo povoado transformado em Meca do
catolicismo sertanejo.
O paraibano José
Lourenço era um dos beatos do Padre Cícero. Embora não tenha participado dos
embates da Sedição de Juazeiro, a ele o padre entregou a responsabilidade sobre
o sítio Baixa Dantas, arrendado como oferta de um fiel latifundiário da
Paraíba. Transmitindo seus muitos conhecimentos de agricultura e medicina
popular, o negro José Lourenço recebeu aos assassinos, ladrões e miseráveis
enviados por Cícero, como a uma colônia de recuperação.
A prosperidade da
comunidade despertou a inveja dos coronéis e devido às provocações de seus
jagunços, em 1926 o Padre Cícero recomendou Lourenço a transferir seu povo para
um vale esquecido entre montanhas, nas proximidades da Cidade do Crato. A ampla
área de terra devoluta era o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto e ali se deu
uma das maiores e mais covardes chacinas praticadas pelas forças armadas do
Brasil contra o próprio povo brasileiro.
No Caldeirão, Lourenço
organizou uma sociedade intuitivamente socialista e todos os frutos do trabalho
comunitário eram divididos igualitariamente. O arrecadado com a venda do
excedente se empregava na aquisição de remédios e querosene para os lampiões,
tudo em divisão comunal.
Os sertanejos do
Caldeirão erigiram uma igreja e criaram um cemitério. Cada família tinha sua
própria casa construída em sistema de mutirão comunitário e as crianças órfãs
tornavam-se afilhadas do beato Lourenço que, apesar de analfabeto, se incumbia
de educa-las transmitindo seus profundos conhecimentos de especialista em
técnicas de lavoura e produção de remédios fitoterápicos.
O povoado chegou a ser
composto de cerca de mil almas, quantia que aumentou bastante quando o
Caldeirão se tornou refugio para os flagelados da grande seca de 1932. Mas o
principal motivo dos sertanejos buscarem o Caldeirão da Santa Cruz do Deserto
foram as condições de trabalho que, apesar de não oferecer remuneração
financeira, garantia muito melhor retribuição aos esforços de cada um, sem as
humilhações sofridas nas fazendas dos coronéis.
Esse atrativo
comprometeu a oferta de mão de obra barata por toda a região e os coronéis que
usaram da coragem dos sertanejos para reagir ao exército durante a Sedição,
dessa vez convocaram as armas da República para atacar os indefesos e
desarmados lavradores daquela comunidade.
Acusados de comunistas
apesar de ignorantes do que fosse o
comunismo, não puderam contar com o apoio da autoridade do Padre Cícero que
falecera em 1934. Assim, no ano de 1937 os desarmados e pacíficos habitantes do
Caldeirão foram covardemente massacrados pelos soldados do exército brasileiro
e da Polícia Militar do estado do Ceará. Aqueles que conseguiram escapar
fugindo pelos flancos das montanhas que circundavam o Caldeirão, foram
bombardeados pelos aviões da FAB –
Forças Aéreas Brasileiras. Foi um dos primeiros se não o primeiro
bombardeamento praticados por uma força aérea nacional contra o próprio
povo.
Embora os números
oficiais registrem 400 mortes, denuncias à OEA – Organização dos Estados
Americanos por crime de lesa-humidade também acusam o Brasil de ocultamento de
mais de mil cadáveres enterrados em vala comum ainda não localizada. Mais de
mil cadáveres de mulheres, crianças, anciãos, jovens...
Bem poucos brasileiros
tem conhecimento dessa história, pois muitos dos militares que participaram
daquele covarde massacre se incluíram entre os que anos depois, em 1964,
ascenderam ao poder através do golpe militar contra a Opinião Pública
brasileira. Mas essa já é outra história.
*Raul Longo é jornalista, escritor
e poeta. Mora em Florianópolis e é colaborador do “Quem tem medo da
democracia?”, onde mantém a coluna “Pouso
Longo”.
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