Para que servem os amigos virtuais?
* Por Mara Narciso
Eu já me desentendi feio com meu primeiro amigo virtual. Ficamos sem nos
falar por alguns anos. Depois nos reencontramos no Facebook, e ele novamente me
aceitou. Tinha sido eu a romper uma amizade de dois anos, chamando-o de imaturo
e infantil. Teclamos a primeira vez em dezembro de 2001 num precário chat de um
site de diabetes, o primeiro em que eu entrei, e não de forma simultânea, porém
em dias diferentes. Falei com as paredes e fui respondida por ele noutro dia.
Marcamos para o chat Terra, idades. Trabalhava no setor administrativo de uma
fábrica de papel. O centro de tudo era a infusão contínua de insulina que ele
usava, e eu aprendi muito com ele. A amizade rendeu e-mails diários e PPSs
anexos lindos durante um par de anos. Depois, após uma lesão em sua córnea, fiz
por telefone, um alerta exagerado, que ele não gostou e brigamos. Refizemos o
contato, mas nossa amizade esfriou. Nunca nos vimos. Ele mora em São Paulo e eu
em Montes Claros.
Em agosto de 2002 conheci uma gaúcha numa tarde de sábado, no chat
Terra, idades 40/50. Era um pouco agressiva, naquela ocasião, como também
bastante perspicaz e esperta. Morando em Porto Alegre, tivemos embates
políticos contundentes via Messenger, com tecladas furiosas e altos argumentos,
pois ocupávamos posições opostas. Acompanhamos sistematicamente a vida uma da
outra, profissional, familiar, financeira e amorosa com doenças, brigas,
mortes, separações e uniões. Era divorciada e não tinha filhos. Também
trocávamos e-mails com frequência. Ela se aposentou, enquanto eu tenho novas
atribuições. Ainda assim interagimos com frequência. Já nos acalentamos uma a
outra algumas vezes, inclusive por telefone. É do tipo que se mostra numa voz
grave, mas se esconde com poucas fotos.
Teclei com “DoceAmiga”, uma catarinense do interior, alfabetizadora e
muito discreta, também em agosto de 2002, no Terra. No começo só falava de
amizades com padres e procissões. Era casada e tinha um filho. Teclávamos
diariamente e ainda havia e-mails, fotos e Messenger, inclusive com câmera.
Pessoa muito séria fez três faculdades depois daquele tempo, o que operou em
sua cabeça uma verdadeira revolução, que acompanhei entre curiosa e admirada.
Estivemos muito ocupadas, mas trocamos fotos e falamos de problemas gerais e
pessoais. Acabo dando palpites médicos. Ela telefonou por muitos sábados
seguidos, e assim, ficamos conhecendo detalhes da vida e da família uma da
outra. Meu horror é o frio que faz na terra dela, e o seu orgulho é a estrada
da Serra do Rastro. De toda viagem manda fotos. Temos vontade de nos ver
pessoalmente, mas de que jeito?
Através do meu primeiro amigo virtual fiquei conhecendo uma moça de
Goiânia. Ela também usava a bomba de insulina, desenhava, escrevia poemas, era
casada e tinha um filho. Cheguei a conhecê-la pessoalmente, quando fui a um
Congresso de Diabetes na cidade dela. Fez direito, separou-se e acabou
casando-se com um médico. O filho dela, hoje adolescente, tem uma banda de
música. Os nossos e-mails funcionavam como um divã online. Ela tinha um blog
onde postava textos sobre vampiros. Através dela conheci um ex-jornalista e
escritor também em Goiânia, pelos idos de 2004, que participava de saraus dos quais
ela também participava. Com ele, falava sobre literatura no Messenger com
webcam. Política e socialmente ativo, algumas de nossas ideias eram
discordantes, e como letras escritas não têm entonação, rompemos numa ocasião
em que critiquei o culto a vaidade nas Academias de Letras. Ele gostava do meu
jeito, e já tinha escrito umas duas ou três crônicas falando de mim e de
assuntos que discutíamos. É casado pela segunda vez. Faz o estilo culto que
valoriza as tradições. Voltamos às boas, e hoje, este meu amigo, que é um
pouquinho vaidoso me ligou e tivemos um papo gostoso. Frequento e comento
assiduamente o blog dele, e soube que um dos seus filhos, que não era visto há
anos, porque morava nos Estados Unidos, chegou sem avisar, no dia do
aniversário do pai, trazendo um novo neto. Fácil imaginar o que meu amigo
sentiu.
No dia em que enterrou a mãe, em 1º de abril de 2003 eu conheci esse
engenheiro interessante que muito me divertia. Também foi no chat Terra idades.
“Veio” era casado e tinha um filho biológico e uma filha adotiva muito
ciumenta. Ela achou um e-mail em que eu o elogiava e escreveu desaforos para
mim. O pai mostrou a ela que gostávamos um do outro de maneira fraterna.
Morando em Paranaguá, chegou a reitor e foi peça importante na política de lá. Tem
múltiplas habilidades e é pessoa engraçada e interessante. Gosta de escrever
palavrão, porém contextualizado. No dia em que foi submetido a cinco pontes
safenas e uma mamária, conversei apavorada pelo telefone com seu pai, hoje
falecido. Sabemos de muitas preferências um do outro. Telefonamos nos
aniversários e gostaria muito de vê-lo, mas é ocupadíssimo.
Não sei o ano certo, mas lá por 2005 conheci uma pessoa fabulosa, que,
aos 60 anos fazia sua terceira faculdade. Muito bonito e alto, tem saúde frágil,
mas suas atitudes e confiança não sugerem essa situação. Transmite coragem com
tal convicção que impede qualquer um de ter autopiedade. Enfrenta as
intempéries com força invejável. Fez cirurgia cardíaca, enfrentou um câncer, e
após perder um filho para as drogas, anos atrás (overdose), trabalhou nas
campanhas de valorização da vida. Mora em Guarujá, tem uma dúzia de netos,
adora ser professor e trabalha na área de Turismo. Morou no exterior, e
recentemente me mostrou fotos de um cruzeiro marítimo.
O de Campinas é como um guru. Espécie de filósofo incansável, que lê e
escreve sem parar, e tenta provar aos seus leitores que faz outras coisas além
de letras. É discreto, não envia fotos e pouco sei da sua vida pessoal. Eu
admiro a sua persistência e espírito incansáveis, e aqui ficaria falando dele e
de todos os demais, inclusive da menina hiperativa do Rio de Janeiro, que
conheci no Orkut em 2005. Meus amigos virtuais não chegam aos 3200 contatos do
Facebook, mas talvez seja uma centena. Não darei os nomes, não gostarão do
histórico e não faltarão ciúmes. Desconheço para que servem os amigos virtuais.
Sei que surgem afetividade e emoção. Gosto desses seres incorpóreos, já
incorporados. Letras na tela não têm sentimentos, mas quem as tecla sente.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Minha opinião a propósito, assim como minhas experiências, são muito parecidas com as suas, Mara. Também travei alguns “embates” com certas pessoas, pela internet, e me reconciliei em grande estilo. Minhas amizades virtuais, ao longo de dez anos, são, na maioria das vezes, mais agradáveis, e compensadoras (para ambas partes) do que grande parcela das, digamos, “presenciais”. Outro excelente texto seu, Mara e abordando, com bastante propriedade e de forma bem coloquial, um tema oportuno e super atual. Parabéns!
ResponderExcluirOs amigos virtuais são presenças diárias, e não há como não colocá-los na tela. Abordei apenas a amizade fraterna, mas as paixões são bastante intensas, e geram uma confiança instantânea. O tema é vasto. Voltarei ao assunto. Obrigada, Pedro.
ExcluirOi, Mara. São muito pertinentes as suas reflexões. Imagino como deve ser enriquecedora a sua experiência no reino dos bytes, na condição de médica e com tantos contatos. Bom texto.
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