A vendedora
* Por Rodrigo Ramazzini
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Bom dia!
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Oi!
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Em que posso ajudá-la?
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Só tô olhando mesmo...
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Fica a vontade! Precisando é só chamar. Meu nome é Marcele...
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Tá! Pode deixar... Os vestidos que têm são aqueles ali?
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São sim... Se não tiver o tamanho aqui tenho mais lá dentro.
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Tá... Bonito esse preto, hein?
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É sim! Nesta última coleção eles capricharam. Um mais bonito que o outro!
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É... Esse floreado também!
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É verdade! E estão com um preço bem em conta!
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É...
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À vista tem desconto de 25%.
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Hum...
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Ainda posso parcelar em quatros vezes iguais...
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Hum... Está quanto esse floreado?
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R$ 80 à vista.
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Bom o preço mesmo!
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Como a loja está renovando o estoque esses vestidos que estão expostos estão
bem baratos!
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É verdade...
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Gostaria de experimentar?
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Não sei!
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Não paga nada! Há! Há! Há!
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Me convenceu! Vou experimentar, sim!
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O preto e o floreado?
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É...
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Eu levo para a senhora. O provador é ali...
A
cliente experimentou o vestido preto e não gostou em seu corpo. Então, passou a
provar o vestido floreado. Olhou-se no espelho e achou-se linda e maravilhosa.
Então, procurando uma segunda opinião e a confirmação do próprio gosto, ela perguntou
a vendedora:
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O que achou?
Silêncio
momentâneo. Um dilema nasceu em meio aos pensamentos da vendedora com o questionamento.
Se falasse a verdade, que a cliente estava ridícula e parecia um botijão de gás
de vestido com aquela estampa floreada, provavelmente, perderia a venda, que por
sinal estavam em baixa naquele mês. Ainda corria o risco de sofrer ofensas dela
e ter que se explicar na direção da loja. Por outro lado, se resolvesse omitir a
situação e concordar que ela estava bonita ficaria com a consciência pesada por
um longo tempo, pois por algum motivo aquela mulher despertou a sua compaixão e
o seu lado mais sincero.
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O que achou? Insistiu a cliente.
O
coração da vendedora acelerou. Ficou aflita. Precisava responder rapidamente
algo para a cliente. Mas, o quê? O quê? Indagava-se. Clamou por Deus. Foi então
que, ingressou na loja a filha adolescente da cliente que ao ver a mãe com
aquela roupa, disparou:
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Que linda, mãe! O vestido ficou lindo na senhora. Vai levar, né?
A
vendedora respirou aliviada. A responsabilidade de opinar e o sentimento de
culpa se dissiparam com a posição da filha da cliente. “Gosto é gosto. Ridículo
para uns, mas lindo para outros”, pensou. Assim, como em muitas oportunidades
anteriores, restava-lhe somente terminar de efetuar a venda. Como boa
profissional do ramo, apenas complementou:
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E o preço está ótimo!
* Jornalista e contista gaúcho
Salva pelo gongo/entusiasmo da filha!
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