A greve dos emboricis na visita do Papa
* Por
José Ribamar Bessa Freire
Quando o Papa Francisco desembarcar no Galeão, nesta segunda-feira,
encontrará milhares de emboricis com os braços cruzados, numa greve geral da
categoria que se alastrará por todo o país. Mas a greve não conta com o apoio
dos operários que edificaram a estrutura do Campus Fidei - em Barra do
Guaratiba, no Rio, no valor de R$ 5 milhões.
Alheios à greve, os operários construíram 24 capelas, um palco com 360
torres brancas atrás e o altar, onde ergueram uma grande cruz de ferro com
revestimento dourado e, de cada lado dela, torres frontais formando a imagem de
duas mãos postas em oração, uma homenagem discreta aos emboricis que estão
sempre com as mãos erguidas, louvando a Deus, o que inspirou o arquiteto autor
do projeto. Com isso, os organizadores da Jornada Mundial da Juventude (JMJ)
pretendiam evitar a greve.
Não deu certo. Os emboricis cruzaram os braços. Dizem que decidiram
fazer greve ali mesmo onde o Papa celebrará a megamissa campal, acompanhado de
16 mil padres, 1.500 bispos e 60 cardeais. Dizem que a greve foi confirmada por
assembleia nos jardins do Palácio da Cidade, onde jardineiros aparavam a grama
e garis da Comlurb recolhiam o lixo. Lá, numa cerimônia, o prefeito do Rio
Eduardo Paes vai entregar ao Papa a chave da cidade confeccionada pela
joalheria H. Stern. Dizem que neste momento os emboricis querem entregar um
documento ao Pontífice.
No entanto, para isso eles terão que furar os cordões de isolamento
montados por militares armados num raio de quatro quilômetros com apoio de 94
torres de observação. Se algum emborici tentar subir ao palco onde o Papa vai
celebrar a missa, será barrado por mais de 800 militares, à paisana, de terno e
gravata, segundo O Globo. Se buscar encontrá-lo na Arquidiocese onde
ficará hospedado, enfrentará bloqueio de mais de 200 policiais federais que
passarão a noite lá, segundo a Folha de São Paulo.
O gigantesco esquema de segurança é padrão Obama, conta com 24 mil
homens armados,10.266 militares das Forças Armadas, agentes das polícias
Federal, Civil, Militar, Rodoviária, da Força Nacional, da Defesa Civil, do
Bope e da Guarda Municipal. Além disso, fuzileiros navais portando granadas
sonoras e de fumaça reforçarão o Grupamento de Segurança Marítima que deixou em
alerta, na costa fluminense, 9 navios e 20 outras embarcações.Enfim, uma
operação de guerra no céu, na terra e no mar.
Chamariz
O bloqueio será difícil de ser furado até em Copacabana, onde 90
atiradores de elite estarão posicionados no alto dos prédios. O Papa vai
desfilar no papamóvel protegido por um comboio de oito carros blindados com
policiais armados de fuzis e por helicópteros do governador Sérgio Cabral. No
santuário de Aparecida será montado esquema similar. Mas ainda que os grevistas
não consigam se aproximar, o Papa Francisco saberá da greve, porque anônimos
emboricis estarão todos de braços cruzados nos jardins, parques, bosques, matas
e florestas adjacentes.
Os emboricis não poderão entrar, segunda-feira, na recepção no Palácio
Guanabara, sede do governo do Rio. Lá, pedindo a benção do Papa estarão 650
autoridades - do presidente do senado, Renan Calheiros, ao presidente da
Câmara, deputado Henrique Alves - o que é um chamariz para os manifestantes,
que na quarta-feira, em frente à casa do governador Sérgio Cabral, no Leblon,
gritavam: "Do papa, do papa, do papa eu abro mão / Eu quero meu dinheiro
pra saúde e educação". Por isso, a ABIN - Agência Brasileira de
Inteligência, tentou sem sucesso impedir a recepção.
Os gastos públicos com a visita do Papa foram criticados também pela ONG
Católicas pelo Direito de Decidir, criada nos anos 90, que reivindica
além disso a legalização do aborto, sexo antes do casamento, uso de
contraceptivos, adoção de crianças por casais homossexuais, pesquisa com
células-tronco, todos temas polêmicos rejeitados pela Igreja. Dizem que os
emboricis vão se juntar ao protesto organizado pela ONG, cuja presidente Maria
José Rosado, sem confirmar o apoio deles, declarou a Fernando Miragaya do Globo:
- "Não concordamos com a forma como a Igreja continua tratando as
mulheres, como um ser de segunda classe, quando elas são as principais fiéis.
Dois terços das mulheres que já fizeram um aborto na idade adulta são
católicas, segundo estudo feito pela Universidade de Brasília (UnB). Há uma
defasagem enorme entre o que propõe a Igreja e a prática das católicas".
Para o governador Sérgio Cabral, todas essas manifestações são feitas
por agentes infiltrados de organizações internacionais. A sua denuncia não
explicitou quais eram essas organizações, nem mencionou a greve dos emboricis.
Afinal, quem são os emboricis e por que cruzaram os braços?
Braços cruzados
O emborici é um inseto verde, que muda para marrom dourado no final da
vida. Subdividido em 2.400 espécies, é primo do grilo e do gafanhoto, como eu
sou primo da Dodora. Tem cinco olhos e duas antenas na cabeça triangular.
Saltitante, usa as patas dianteiras como garras para caçar moscas, abelhas e
outros insetos, tornando-se o xodó da agricultura biológica, pois permite
combater as pragas sem usar pesticida. Costuma manter as mãos postas na frente
do corpo, como se estivesse rezando, por isso ficou conhecido como
"louva-a-deus" na língua portuguesa.
Na Amazônia, é o prosaico "põe-mesa". Nas línguas da família
tupi, o "louva-a-deus" é denominado de emborici, que significa
"mãe da cobra" e isto porque ele costuma ter dentro do abdômen um
verme fino e comprido que parece um filhote de cobra. Ver mesmo eu nunca vi,
mas o Google jura que no acasalamento o macho serve de alimento para "sua
amada", que o agarra pelo pescoço, arranca e come sua cabeça. Eu hein?
Terminado o ato, a fêmea se esconde entre as folhas e vai "rezar".
É essa espécie acostumada a louvar a Deus que, agora, revoltada, cruza
os braços como comprovam fotos feitas pelo Taquiprati. E nisso consiste
a greve. A palavra de ordem do emborici em língua guarani é "Xee aporai
rã Nhanderu pe anhoĩ", cuja tradução é: "Não louvo. Só louvo
Nhanderu, em guarani". De braços cruzados, eles se recusam a louvar a
Deus, numa língua que não é a sua e que não foi contemplada pelos organizadores
na programação da Jornada. Esperam do Papa Francisco uma palavra em defesa de
seus direitos, que incluem o território, a língua e a cultura.
É isso que diz o documento que os emboricis querem
entregar ao Papa, onde defendem os territórios indígenas que para eles são um
paraíso. Lá eles têm casa, comida e roupa lavada. Quando entra o agronegócio
desmatando tudo, os emboricis são exterminados junto com os índios. Por isso,
apoiam os direitos indígenas ameaçados pelos representantes da bancada
ruralista, alguns dos quais comungarão com o Papa.
Louva-a-deus
O coordenador da Frente Parlamentar de Apoio aos
Povos Indígenas, deputado federal Padre Ton (PT-RO), na véspera da chegada do
Papa, denunciou a ameaça do Congresso Nacional, prestes a votar em regime de
urgência o projeto de lei complementar (PLP 227/2012), que pretende permitir a
entrada em terras indígenas de grupos econômicos, da mineração, da construção
civil e do setor madeireiro.
Segundo o padre Ton, “esse projeto é muito pior do que a PEC 215, a
Câmara não pode permitir essa votação". Essa é também a opinião de Márcio
Santilli, ex-presidente da Funai e ex-presidente da Comissão do Índio na Câmara
dos Deputados, para quem a manobra "pretende revogar, sem qualquer
discussão, o capítulo 'Dos Índios' da Constituição brasileira".
Durante a segunda guerra mundial, Aristófanes Antony escrevia editoriais
furibundos no velho Jornal do Comércio, de Manaus, admoestando: "A
Inglaterra sofreu o bombardeio alemão porque Winston Churchill não ouviu as
advertências que fiz ontem aqui nessas páginas". Da mesma forma, o Papa
Francisco evitará um conjunto de problemas se depois de ler o Taquiprati, no
Diário do Amazonas, se pronunciar a favor dos direitos indígenas, embora não
esteja previsto na programação oficial.
A presença do emborici significa promessa, esperança, notícia agradável,
bom agouro, como nos ensina Osvaldo Orico no seu Vocabulário de Crendices
Amazônicas. Os emboricis descruzarão os braços e voltarão a louvar a Deus, se o
Papa manifestar a posição dessa Igreja em favor dos direitos, da terra, das
línguas, das culturas e das religiões indígenas.
P.S. - A ideia do "louva-a-Deus" de mãos cruzadas foi
pirateada de Rita Medeiros e de Inez Mateus, duas portuguesas muito porreiras,
que conceberam uma t-shirt com essa imagem (ver www.acordocamaleao.com). O texto em guarani é de Tupã Ray, também
conhecido como Alberto Alvares, pai da Laura, Tainá e Raika. A foto do emborici
é de Maria, mãe da Ana.
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Jornalista e historiador
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