Pó e memória
* Por
Emanuel Medeiros Vieira
“O homem é feito visivelmente para pensar; é toda a
sua dignidade e todo o seu mérito; e todo o seu dever é pensar bem”. (Blaise
Pascal)
A morte sempre ganha:
tem mais tempo. Pessimismo? Driblamos a Indesejada até quando for possível. Pó
e memória. Mas celebramos o pássaro cantante, um instante, o arco-íris, um
relâmpago de encantamento. E passamos – passamos. Os sonhos de juventude,
transformaram-se em dores na coluna? Tanto ruído, tanta matéria, tanta agitação!
“Credibilidade é a única moeda válida neste vasto mercado repleto de ruído”.
A vida? Definam-me
urgentemente o que é a vida – por favor, um náufrago sorridente pede socorro. Até
a caminho da forca, pode-se apreciar a paisagem – alguém escreveu. O
pássaro cantante sorri para mim. Mesmo que esteja cercado de mortos e de fotos,
rebelo-me contra o oblívio.
Existe um menino que
não pode estar perto de mim. Mas também somos feitos daquilo que perdemos.
E o tempo se vai – sempre. O mar, o trapiche, um fogão de lenha, um menino,
boné, morango, amora, trapiche, mar, mãe pão feito em casa – repito-me, eu sei.
É como querer segurar
um instante diante desta máquina descartável – nosso mundo. Queria escrever:
meus valores não pertencem a ele, mas soaria retórico e discursivo. “Humanismo
beato”, reclama um promotor interno. É apenas uma prosa poética, uma manhã, um
mês de julho – parece tão pouco e é tudo.
*Romancista, contista, novelista e
poeta catarinense, residente em Brasília, autor de livros como “Olhos azuis –
ao sul do efêmero”, “Cerrado desterro”, “Meus mortos caminham comigo nos domingos
de verão”, “Metônia” e “O homem que não amava simpósios”, entre outros.
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