Leitura Labial
* Por Rosana Hermann
Bom dia, incoerência. Boa tarde,
polêmica. Boa noite, insensatez.
A leitura labial, é a bola da
vez.
É ético ou não é? É invasão de
privacidade ou não? Vai para o trono ou não vai?
É interessante que todos discutam
se o quadro apresentado no Fantástico, com especialistas em leitura labial
fazendo a transcrição do dito pelo não dito e, especialmente, do não captado
pelos microfones globais. Num mundo onde empresas monitoram emails dos
funcionários, câmeras escondidas gravam todos os passos de usuários, chips
implantados seguem os movimentos de automóveis e pessoas e satélites fotografam
com resoluções altíssimas a vida nas ruas das cidades, estamos, enfim,
discutindo a bisbilhotice em sua essência mais básica, direto na fonte, a boca.
A discussão vem com alguns
séculos de atraso. Poderíamos ter conversado sobre o tema em alguma década
anterior, quem sabe no tempo em que se colocava um copo atrás da porta para
ouvir as conversas do outro lado. Mas é oportuna. Não só porque nós, o técnico
amador de futebol quer acompanhar cada mínimo detalhe da nossa seleção mas
também porque o pedido de desculpas da emissora parece ter rachado o jornalismo
global em dois, um time que é a favor e outro que é contra o pedido de desculpas, já consumado no
Jornal Nacional.
O curioso é que o mesmo programa,
como sempre, divulgou mais uma nova doença para nosso vasto cardápio, o vício
em informações de mídia. No entanto, o que vemos é que é a mídia que é viciada
em nossa atenção e, para conseguir nossa total audiência e aplacar nossa fome
monstruosa de tudo saber, vai até as últimas conseqüências. Acabou dando certo.
O fantástico bateu mais de 40 pontos.
O próximo passo, quem sabe, seja
a televisão endoscópica. Cada jogador, técnico, auxiliar, engoliria uma
microcâmera e teríamos imagens exclusivas do estômago do Parreira, da bolha do
Ronaldo, da virilha do Robinho, da panturrilha do Ronaldinho, do coração do
Dida. Assim, quem sabe, teríamos de uma forma direta, a resposta para aquela
pergunta tola repetida mil vezes por tantos repórteres para os jogadores: “qual
foi a emoção na hora do gol”?
Melhor que isso, só abolir a
demonstração de samba no pé.
*Rosana
Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão,
humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora
de televisão.
Muito engraçado. Boa humorista. Pelos artistas deve ser de tempos atras, mas não tão atras, pois a vigilância 24 horas é coisa relativamente recente.
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