Pílulas literárias 169
* Por
Eduardo Oliveira Freire
TRAUMA
Desde menina, Laura tinha pesadelos que era atacada por vários homens.
Mesmo com o passar dos anos, não se acostumava com eles e ficava longos
períodos em depressão.
Fez anos de análise, mas não houve melhora. Um dia, ao assistir um filme
na tevê sobre uma garotinha, que houve escondida uma sessão de terapia do pai
com uma paciente, vítima de estupro, uma lembrança muito antiga surgiu em sua
consciência.
Quando era muito pequena foi brincar na casa de uma coleguinha, que o
pai era psicólogo. Quando estavam brincando de pique-esconde, ela entrou no
consultório, que ficava nos fundos do quintal da casa. Escondida embaixo do
sofá, ela viu o pai da colega e uma jovem entrar. Teve medo de sair de lá e
levar bronca.
Ouviu a história da
paciente e mesmo não entendo muito bem, as palavras da jovem a marcaram como se
fosse a própria vítima.
Depois da revelação, Laura sentiu-se livre.
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DOCES LEMBRANÇAS
Lembro-me que adorava passear na
fazenda dos meus avós. Era tratado com um “reizinho” por todos. Quando brincava
com os filhos dos empregados, sempre era o líder. Tempos felizes...
Mas, um dia, um monte de homens
armados invadiu a fazenda, prenderam meus pais e meus avós. Os empregados com seus
filhos se abraçavam felizes e fiquei sem ação. Uma antiga empregada abraçou-me
e a ouvi pedir para os caras armados me deixasse ficar com ela.
Então, fui morar com ela numa casa
simples da periferia. No início, fiquei revoltado, queria minha vida antiga de
volta, mas, com o tempo, fui me adaptando e os dias na fazenda se tornaram um
belo sonho. Anos depois, quando voltava do trabalho, na porta de casa havia uma
jornalista. Queria me entrevistar sobre minha família biológica. Minha mãe de
criação apareceu e a expulsou e veio conversar comigo.
Bem... É lógico que eu sabia de tudo,
porém, não queria ter consciência disso, principalmente, perder as doces
lembranças da infância. A verdade veio dilacerando meu reino particular.
Minha verdadeira família escravizava
as pessoas para trabalhar na fazenda. Todos me tratavam bem porque eram
obrigados. Fiquei alguns dias à deriva, como se estivesse acordado de um coma.
O que farei?
Minha mãe adotiva
me disse para tocar a vida. Seguirei seu conselho.
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ENIGMA
Ela só andava
com pessoas cultas, mas ninguém conhecia aquela jovem com uniforme colegial.
Todos a descreviam, mas as investigações policiais não conseguiam solucionar o
mistério. As vítimas eram encontradas sem marcas e as páginas dos livros nas
estantes ficavam em branco.
* Eduardo Oliveira
Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense,
com Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a
escritor
Minicontos a cada dia mais fortes. Verdadeiros dramas psicológicos, geralmente trágicos.
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