Diálogos enlouquecidos
* Por Mara Narciso
Duas mulheres negras entram no consultório. Estão mal vestidas e vieram de
muito longe, da zona rural de Bonito de Minas. A prefeitura paga a consulta.
Olham desconfiadas e logo se percebe tratar-se de mãe e filha. Estão acima do
peso e a mais nova, que é a mais gorda, é quem vai consultar. Tem o abdômen
protuso, parcialmente escondido numa blusa de malha verde colada e curta,
exibindo metade da barriga, a ponto de chamar a atenção. A mãe se surpreende em
ser recebida de pé, e com a médica de mão estendida para o cumprimento. Tocam
as pontas dos dedos e ela olha para baixo, por respeito e timidez.
- Boa tarde! – e em seguida, - Em que posso te ajudar? – pergunta a
médica, sentando-se, e passando os olhos sobre um encaminhamento da cidade de
origem, que lhe foi entregue na entrada. As duas mulheres também se sentam. O
papel fala em cirurgia, parada da menstruação e traz anotado em caneta alguns
hormônios normais: FSH, LH, Prolactina, T4 livre e TSH.
- Depois da operação - diz a mais nova, levantando mais um pouco a
camiseta e mostrando uma cicatriz imensa e com quelóide rasgando a barriga de
cima abaixo - a menstruação não vem mais.
- Quando foi, e o que você sentia na época?
- Era uma dor forte, tomava remédio e não passava. No hospital o médico
operou de hérnia (?). É isso, mãe? E a menstruação não voltou.
Sendo caso de amenorréia, a parada das menstruações, a médica precisa
saber a história menstrual da paciente.
- Quando foi sua primeira menstruação?
- Lembro mais não.
E a mãe:
- Deve de sê qui foi com doze ano. Cum treze cê teve Lucas.
- Deve de sê qui foi - diz a filha.
E a médica continua apurando o caso:
- Você está tomando algum remédio?
- Tomo não!
- A pressão é normal?
- É.
- Tem leite no peito?
- Tem não.
- Os exames estão normais, pelo menos no encaminhamento. Você trouxe o
papel do laboratório?
- Isqueci. Só vêi “a” ultrassom.
- Também estão normais útero e ovários. Vejo que você está bem acima do
peso. Quando começou a engordar?
- Depois da operação.
E a mãe:
-Mas tamém cê come muito.
E a filha:
- Quand’eu tô cum vontade, eu como mesmo!
Voltando-se para a mãe, a médica pergunta:
- Quantos filhos você tem?
- Doze, e o “caçulo” tem seis ano.
- Você tem quantos anos?
- Cinquenta. Tive o “premero” com 17 e o “derradero” com quantos?
- Quarenta e quatro. Você foi à escola?
- Muito pouco. Só aprendi a fazê o nome.
E para a paciente:
- Você tem quantos filhos?
Aos 27 anos ela informa ter três filhos. E a médica:
- Você ligou?
- Não.
- Seu marido trabalha em quê?
- Na roça.
- Fica descalça e sobe ali na balança. Vamos ver seu peso.
Apenas obesidade, com 88 kg distribuídos em 1m55cm, pressão e exame
físico normais, a médica explica:
- Você não sente nada, os exames estão normais. Não faz sentido fazer
montes de exames caros para tentar descobrir porque a menstruação não vem.
Melhor fazer uma dieta, emagrecer um pouco e daqui a uns meses voltar para a
gente ver como ficou. Mas antes me diga, no último parto você teve hemorragia?
- Não.
- Já teve aborto?
- Não
Sendo assim, reafirma o que disse há pouco e passa uma tabela de dieta
para a moça, que sabe ler, dizendo que um grande aumento de peso também pode
alterar a menstruação. Encerrada a consulta, a médica se levanta, como também
as duas mulheres, e vão as três até a porta onde se dará a despedida. A mulher
mais nova então fala:
- “Mais” eu tomo injeção pra evitar.
- Moça, mas por que não disse isso desde o começo? Há quanto tempo você
usa a injeção?
- “Faiz trêis ano”.
- A injeção ajudou a engordar e também foi ela que suspendeu a
menstruação. Precisa parar, e evitar de outro jeito. Usar o DIU, por exemplo.
- Uso não. Tenho medo!
- Uai, caso você obturasse um dente e o dentista colocasse alguma coisa
para consertar o dente, você teria medo?
- Tinha não.
- É um “aparelho” pequenininho. Pois então?
Apertando a mão das duas, e pedindo para dar notícias e retornar em dois
meses, a médica ficou pensando em como uma coisa simples, por dificuldade de
comunicação, desde a origem, pode causar uma viagem comprida e desnecessária,
gastando dinheiro e tempo. É assim que uma consulta médica não deve ser.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Comunicação é tudo, Mara! Quantas mal entendidos poderiam ser evitados com uma conversa franca, aberta. Abraço!
ResponderExcluirA faculdade de Jornalismo me ensinou a comunicar melhor com meus pacientes. Neste caso específico, se quem a encaminhou tivesse conversado um pouco mais, teria resolvido lá mesmo, o que evitaria a viagem, perda de tempo e dinheiro. Obrigada pelo comentário, Sayonara. Tudo de bom. Abraço, Mara
ExcluirDilemas desse Brasil imenso e cheio de carências, injustiças e, consequentemente, cheio de diálogos enlouquecidos! Abraços, Mara, e parabéns pelo texto.
ResponderExcluirVerdade, Marcelo, precisamos melhorar a nossa comunicação a cada dia. Muitos acham que sim, mas nem todos conseguem ser entendidos por todas as classes sociais. Fico imaginando como será o resultado de consultas feitas por médicos que não conhecem a nossa língua, num grotão como a origem dessas senhoras.
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