sábado, 29 de novembro de 2014

De dor e de perda...


* Por Lêda Selma

A meu filho, Júnior

Dói muito, filho,
a certeza do dia
sempre vazio de você...

A noite a se imiscuir
em meus sonhos sem viço
e tão carentes dos seus...

Dói muito, meu menino,
esta tristeza envelhecida
que agoniza e não morre...

Teu riso no porta-retratos,
a transpor o sol
para se aquietar nas noites.

Dói, e como dói, meu anjo,
este tênue condão de vida.

·         Poetisa e cronista, licenciada em Letras Vernáculas, imortal da Academia Goiana de Letras, baiana de Urandi, autora de “Das sendas travessia”, “Erro Médico”, “A dor da gente”, “Pois é filho”, “Fuligens do sonho”, “Migrações das Horas”, “Nem te conto”, “À deriva” e “Hum sei não!”, entre outros.


sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, sete meses e vinte e sete dias de criação.. .

Leia nesta edição:

Editorial – O que nos sobreviverá?

Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica, “Miró, o poeta que não aparece em Febre do Rato”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire. microcontos, “Pílulas literárias 197”

Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini9, conto, “A briguinha”.

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Quase eternos”.

Coluna Porta Aberta – Betha M. Costa, poema, “Esdpera, chegada e partida”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


  
O que nos sobreviverá?


A comunicação, quer através da palavra – falada ou escrita –, quer por meio de imagens – possibilidade relativamente recente, mas que já se impõe – é uma das mais refinadas, complexas  e fundamentais manifestações de inteligência do homem. Para que se tornasse possível, foram necessárias milhares de invenções, desde a criação da primeira linguagem (alguém a criou), aos símbolos gráficos, (no caso as letras dos vários alfabetos) e até os modernos recursos tecnológicos que nos permitem manter contato com qualquer pessoa, esteja onde estiver, mesmo fora da Terra, em outro planeta, caso isso seja um dia possível, como em Marte, por exemplo. Infelizmente, a imensa maioria desses inventores foi esquecida e jamais foi reverenciada como mereceria.

Quem inventou o primeiro idioma falado por nossos primitivos ancestrais? Qual foi essa linguagem? Como ela se impôs e se popularizou? Estão vendo? Ninguém sabe! Mesmo os inventores dos meios de comunicação atuais são desconhecidos do grande público, que se utiliza deles com naturalidade, como se sempre tivessem existido e houvessem surgido simultaneamente com o homem. Óbvio que não surgiram. Bem, pelo menos neste caso, seus nomes estão registrados em livros, em enciclopédias, em arquivos etc. Mas sem consultar estes meios de informação, se nos perguntarem, de chofre, por exemplo, quem inventou a televisão, ou o computador, ou o telefone celular etc.etc.etc. duvido que saibamos responder (eu não sei), que tenhamos seus nomes na ponta da língua e que conheçamos, pelo menos, sua nacionalidade ou o tempo em que viveram ou o que mais fizeram além dessas invenções e vai por aí afora. Bem que mereceriam ser lembrados; Mas não são.

A vida é assim. Batalhamos para inventar e construir coisas úteis, para gerar idéias, para descobrir leis e princípios. Vez ou outra, até auferimos benefícios materiais do que fizemos com tanto esforço e dedicação (embora nem sempre). Contudo, depois que nossa criação se impõe, se consolida e se populariza, somos esquecidos por todos, até por nossos parentes mais chegados e, para todos os efeitos, não deixamos o mínimo vestígio da nossa identidade para a posteridade. Isso, quando o que inventamos, descobrimos ou criamos não fica ultrapassado, superado por invenções, descobertas ou criações mais recentes, modernas, úteis e acessíveis. O mesmo ocorre com o que comunicamos.

Nossos livros tanto podem sobreviver ao tempo e ao esquecimento – como as obras dos filósofos, poetas, historiadores e escritores clássicos do passado distante (gregos ou romanos, por exemplo) – quanto “nascerem mortos”, ou seja, encalharem nas prateleiras das livrarias e acabarem sendo destruídos para não ocuparem lugar. Sua sobrevivência sequer depende de qualidade, embora esta ajude (ou possa ajudar). O que conta, ao final e ao cabo, são as circunstâncias. É o fortuito. É o acaso.      .

Ainda assim, esse tipo de comunicação implica em imensa responsabilidade. Nossos textos podem mudar, sem que sequer venhamos a nos aperceber, para melhor ou para pior, a vida tanto de uma única pessoa, quanto a de milhares, milhões, quiçá bilhões delas, conforme seu teor, condições, circunstâncias e meios de difusão utilizados. Claro, caso sobrevivam. Podem tanto adquirir a permanência que almejamos, e vencer o tempo e o esquecimento,  quanto se esgotar em segundos. A linguagem escrita, a despeito de sua diversidade e ambigüidade, tem essa possibilidade de atravessar gerações e de produzir efeitos profundos e duradouros não raro milênios após nossa extinção. Podem permanecer perdidos por centenas de séculos ou mais. Porém, caso não sejam destruídos, lá um belo dia serão encontrados por algum arqueólogo teimoso, mesmo que acidentalmente (o que ocorre na maioria dos casos) e virão, de novo, gloriosamente, à luz.

Pode ocorrer que esses textos de passado tão remoto sejam, num primeiro momento, absolutamente incompreensíveis caso sejam escritos em algum idioma “morto”, como no caso de inúmeros rolos de papiros, grafados em hieróglifos, do Egito antigo. Não terão, nesse caso, nenhuma serventia. Não terão, frise-se, caso não surja algum persistente e curioso Champolion (Jean-François) da vida, que descubra uma “Pedra de Rosetta” específica, localizada por puríssimo acaso, e que decifre, afinal, o que um escriba nascido em 2.000 ou 3.000 antes de Cristo escreveu, provavelmente sem se preocupar com a posteridade. Esses textos de passado tão remoto podem ser mais antigos ainda, datados de 3.500 antes de Cristo, escritos em tabletes de barro cozido, como eram os “livros” dos sumérios, utilizando escrita cuneiforme, dos quais a biblioteca assíria de Nínive, achada por arqueólogos, era fartíssima.

Esses testemunhos de era tão remota poderiam ter sido destruídos pela mesma razão que os textos egípcios correram risco de ser. Ou seja, por serem incompreensíveis. Não foram. Apareceram, providencialmente, sábios, como o alemão Georg Friedrich Grotefend e o francês Jules Oppend, entre outros, que os compreenderam, interpretaram, traduziram e nos desvendaram, dessa forma, as crônicas sumérias sobre feitos dos governantes e dos deuses, além de seus hinos, fábulas, poemas e anotações de comerciantes.

Dos cerca de 50 milhões de livros publicados anualmente no mundo, na atualidade, quantos chegarão às mãos, digamos, de estudiosos do ano 3.500 da nossa era? Chegará algum? De que forma? Em qual dos mais de 20 mil idiomas existentes? Haverá estudiosos de História então? Haverá civilização nessa época? Haverá humanidade? Haverá planeta Terra, minimamente habitável? Se houver, qual língua existirá (ou quais existirão) para tão distantes descendentes se comunicarem? Em caso positivo para todas essas questões, qual a “Pedra de Rosetta” será utilizada para que os textos que hoje produzimos sejam então minimamente compreendidos? São perguntas e mais perguntas que não me canso de fazer, cujas respostas nem eu e nem ninguém pode responder com alguma credibilidade e sobre as quais se pode somente especular.           

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.
Miró, o poeta que não aparece em Febre do Rato


* Por Urariano Mota.

“Eu fiquei bastante triste por Cláudio Assis não o ter colocado no filme Febre do Rato. Eu disse a ele que era uma injustiça”, falou Zizo, citando Miró, poeta marginal, que inspirou o filme  mas não aparece na tela. (Dos jornais de 22 de junho de 2012)

Senhores e senhoras, temos a grata satisfação de falar sobre Miró. Sobre ele é quase inútil procurar informações no Google, porque entre os 47.000.000 resultados no máximo 4  se referem ao particular Miró que lhes apresento agora. De nome de batismo João Flávio Cordeiro da Silva, o poeta Miró nasceu no Recife há 52 anos. Mas nada do seu nome artístico vem do mais conhecido, o grande, um certo criador Joan, da convivência de João Cabral de Melo Neto. Não. Esse Miró, esse nome nobre… – e já sinto no ventre a cutilada do poeta – “todo nome é nobre” – essa denominação vem de outras plagas nobres. Vem de lá dos subúrbios do Recife. João Flávio foi transformado em Miró pelos amigos, porque lembrava ao jogar o bom Mirobaldo, um craque da pelota do Santa Cruz Futebol Clube. No tempo em que o maior talento de João Flávio era o futebol, os seus amigos o apelidaram de Miró, forma reduzida de Mirobaldo, que se pronuncia com a vogal “o” aberta na fala nordestina.  Depois, na fase em que assumiu o jogo mais raro e difícil da poesia, ele achou por bem continuar assim, Miró, para melhor sorrir no íntimo com os dentes claros, diante de quem o confunde com o pintor catalão.

Em um mundo globalizado conforme a ótica WASP, Miró é um acúmulo de surpresas. Pois imaginem as senhoras ladies e os senhores gentlemen que ele é um poeta que jamais entrou na universidade. Pelo menos, para assistir a lições como estudante universitário, nunca. E, continuem a imaginar, isso lhe faz nenhuma falta, devíamos mesmo dizer, para a sua poesia é um bem, porque lê e se educa em obediência a uma ordem que não está no currículo de uma tradição estéril. A quem não o conhece, a sua pessoa, física, guarda uma grata e grada graça: Miró tem a pele escura, e, ladies and gentlemen, não finjam por favor naturalidade. Mesmo em um povo mestiço, Miró é uma exceção: as pessoas sensíveis, até mesmo no Brasil, têm uma estranha gradação na cor da pele da sua sensibilidade. Quanto mais claros, mais poetas. Quanto mais escuros, mais trabalhadores braçais, ou, se forem artistas, mais jogadores de futebol. Daí que faz sentido o poeta Miró vir de Mirobaldo, o craque do Santa Cruz Futebol Clube. Pero a melhor surpresa de Miró vem da sua poesia. Acompanhem-nos, por favor, assim como já o acompanhamos em um auditório de teatro.

Todos nós aprendemos, ou fomos como bons estúpidos para isso educados, que o poema realiza a poesia nas suas linhas. Ou, se quiserem, o poema não precisa da pessoa do poeta – a certeza única e exclusiva do seu valor está no que escreve. Certo? Senhores e senhoras, ladies and gentlemen, senõres y señoras: – Errado. Quem não viu Miró declamar os seus poemas não sabe o quanto esse conceito, preconceito, esta burrice ancestral está errada. Aquela justa observação feita por Manuel Bandeira à poesia de Ascenso Ferreira, no trecho

“Não me lembro se antes de me avistar pela primeira vez com Ascenso Ferreira eu já tinha conhecimento dos seus versos. Como quer que fosse, eles foram para mim, na voz do poeta, uma revelação. Pois quem não ouviu Ascenso dizer, cantar, declamar, rezar, cuspir, dançar, arrotar os seus poemas, não pode fazer idéia das virtualidades verbais neles contidas, do movimento lírico que lhes imprime o autor” aplica-se também à poesia de Miró. Com alguns câmbios. Mirem. Onde Ascenso Ferreira realizava no recitar um uso extraordinário da voz, da modulação ao acento, do corte da sílaba à ênfase, como dizê-lo?, uma utilização da voz como um ator de rádio, (“Ascenso tinha a voz de Deus”, na lembrança do escritor Talis Andrade), Miró usa a imagem, física, melhor dizendo, ele usa o próprio corpo, ele faz evoluções pelo auditório,  como um cantor de rap, quase diríamos. Mas sem microfone. E não só. Ele acrescenta caretas, esbugalha os olhos, fecha-os, e aponta os seus versos com um dedo contra a assistência. Como um Tio Sam invertido, que em vez de conclamar um alistamento, nos enfiasse a realidade cara a dentro:

- Tomem poesia, seus filhos da puta!

A plateia, divertida, sorri, gargalha, diante de versos que não chegam a ser bem cômicos. Como aqui:

“Tinha lido num livro de autoajuda, de um
desses psicólogos
De araque, que aparecem nesses
programas matinais que dão
Receitas pra tudo, inclusive de bolo,
Que na hora que a vida vira uma merda
O melhor é sair da fossa”.
Ou nestes versos

“Acho que foi a primeira vez que conheci a dor
Um domingo de 1971
Naquele tempo o domingo era o dia mais
feliz,
Minha mãe fazia um macarrão com carne de
lata e Q-suco
Ficávamos brincando de mostrar a língua
vermelha
Pra provar que éramos felizes….
Norma era tão linda com seus cabelos
negros,
Que me deu um branco aos 11 anos
Quando me pediu um biscoito maizena e um
gole de fratele vita ….
Domingo era o dia mais feliz
Antes de Norma beijar um outro na boca”.

A plateia, o distinto público, vai ao delírio. De rir, de gargalhar. Miró fala de um mundo abaixo do nível social do auditório. O primeiro elemento cômico é que a miséria é cômica. A maior comicidade é a desgraça que não sentimos na própria pele. A dor que não é a nossa, a dor pela qual não temos empatia, ah, ladies and gentlemen, como é cômica. Não iremos consultar nada agora, mas em algum lugar deve  estar observado que o riso é manifestação pela desgraça alheia. O riso atesta a nossa superioridade ante o ridículo que não nos alcança. Quem jamais bebeu “sucos” em pacotinhos de pó, de “morango”, de “uva”, com açúcar e gelo, como bebem os que não podem comprar frutas em um país tropical, acha isso irresistivelmente cômico.Quem jamais saboreou carne enlatada no país de maior rebanho bovino do mundo, quem jamais pôde sentir o sabor, o gosto e a maravilha da carne Swift, da carne da Wilson, com macarrão rubro de colorau aos domingos, porra, que piada genial é esse macarrão se transformar no dia da felicidade. E aquela prova de amor, da cumplicidade que tem o amor, quando a musa pede refrigerante, guaraná da frattelli vita, com o biscoito miserável de maisena. Caralho, esse cara é do peru! E Norma beija um outro, mirem o detalhe, na boca! na boca! Menos, por favor, você é demais, cara!

O poeta gira em torno da assistência. A sua arma, a sua graça e cômico é a verdade. Aquelas coisas mínimas, constrangedoras, que nem às paredes confessamos, ele, como um novo louco, arrebenta de si. Mais do que escrever por vezes transcreve. Com uma sensibilidade que observa o inobservável.

“Já perceberam como tem pontas de
cigarro em pontos de ônibus?
Tem uma tese de um amigo que diz:
Que as empresas de ônibus são
responsáveis por 5% dos cânceres de
pulmão.
Curioso perguntei, como assim?
É que os ônibus demoram”.
Ou mesmo, vejam que engraçado:

“O amor passou na tarde
Com a mão direita sobre o ombro de um
filho com síndrome de Down  …
Aldeota, um jumento espera inquieto a
volta do seu dono que foi tomar uma
sopinha com pão, com o dinheiro das
migalhas que catou.
E eu fiquei tão emocionado,
Que não consegui escrever mais nada”.


A recepção da plateia a essas coisas é vê-las apenas como o lado sujo, trash, de uma estética suja e trash, de um maluco que escreve e não tem nenhuma vergonha de escrever sobre essa miséria como um bárbaro sem educação. (Nós, os cultos. Nós, os que, se algum dia fomos dessa desgraça, bem que a superamos. Nós, os de outro mundo. Nós, os limpos, cleans e educados.)  O poeta gira, e deixa a aparência, como um bom gira, de fazer também uma rotação. Então ele declama, recita, pula, contorce-se, cospe e pragueja uns versos que a expectativa do distinto e cultíssimo público não percebe. O clima em torno da sua performance não permite a degustação, a permanência que tem a beleza, a que sempre por necessidade voltamos. Então ele fala, enquanto o público espera dar mais uma risada, então ele faz uma prece, um poema que somente hoje pela manhã pude sentir, ao ler e mastigar e ruminar como as cabras mastigam e ruminam uma erva muito amarga. Este poema não precisa do poeta. Da sua pessoa. Basta uma sensibilidade.

“Deus, Tu que agora carregas um homem,
Puxando pelas rédeas o seu cavalo e uns
sacos de cimento
De cada lado um sol insuportável …
Deus,
Choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas
E fazer justiça com as próprias mãos.”

Esses versos preencheram toda esta manhã de hoje. Dormiram e não saíram do peito todo este dia. Talvez porque nos tenham recordado de outro João, de Os corações futuristas, que pleno de álcool em 1973 também se sentiu impotente e louco por justiça.

Deus, choves agora no meu coração
Para que eu não pense em comprar um
guarda-chuvas de balas

Senhoras e senhores, assim é Miró, o poeta que não apareceu no filme Febre do Rato.

* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.


Pílulas literárias 197


* Por Eduardo Oliveira Freire

O VELHO E O NOVO, FILOSOFIA DE BOTEQUIM

Velho na forma de novo, novo na forma de velho. Quando o tempo passa, ficamos mais velhos. Mas, ao mesmo tempo, aprendemos coisas novas. Quando formamos novos pensamentos, podemos nos transformar em uma nova pessoa. Logo, o novo é o pretérito e o velho é o futuro.

***
ACUMULADORA

"A gente não se liberta de um hábito atirando-o pela janela: é preciso fazê-lo descer a escada, degrau por degrau." Mark Twain


Ninguém entendia os motivos que levavam aquela senhora chorar de alegria. Mas, ela sabia o significado de jogar um papel de bala no lixo. Essa “simples” atitude foi dolorida e o pontapé inicial para se libertar de um habito de não conseguir jogar fora a montanha de lixo acumulada ao longo dos anos em sua casa.


***
AMIGOS

- Mamãe, que amigo uso esta noite?

- Hoje é dia de balada?

- Sim.

- Tem um ótimo no que acabei de lavar e colocar no closet.

- Não, mãe, aquele usei bastante e estou enjoada dele.

- Então joga no lixo, filha. Não é bom usar coisa gasta.

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/



A briguinha


* Por Rodrigo Ramazzini



Cenário: dois compadres conversam, enquanto fumam um cigarro de palha, embaixo de uma centenária figueira, a cerca de trinta metros de um campo de futebol.
- Mas cumpadri, me conta. Cumé que foi essa briga aí no campo.
- Tá falando dessa briguinha que deu no final de semana?
- Briguinha, cumpadri?
- É! Essa foi briguinha perto de 78...
- Ah é cumpadri?
- É sim! Em 78 foi uma bela briguinha. Essa que teve aí foi fraca. Começou no jogo da semifinal do campeonato, quando um zagueirão, um alemão alto e forte, deu uma entrada mais ríspida, como se diz, em um atacante do time adversário. Nada de mais, o rapaz só quebrou a perna. Nem deu fratura exposta. Só que os companheiros de time se revoltaram e vieram pra cima do alemão. Os do time do alemão não deixaram por menos, aí a coisa começou...
- Ah é cumpadri?
- É sim! Os vinte e dois jogadores se pegaram no pau. Era soco e pontapé pra tudo qué lado. Aquilo lá é o resto de cerca que ficou em pé. As criaturas pegaram os pedaços de pau da cerca. A partir daí a coisa enfeio um pouquinho, nada comparado com 78, claro! Cinco eu vi saí com a cabeça rachada...
- Ah é cumpadri?

- É sim! Com o arame da cerca, não sei como, fizeram que nem aranha, enrolaram três criatura. Viraram saco de pancadas os coitados. Aqueles apanharam! Quando os outros times se meteram... Ia esquecendo de contar. Os outros dois times que jogariam a outra semifinal estavam em volta do campo, esperando a vez. Como o time de camisa amarela, aquele do Julinho, sabe? Não queria jogar uma suposta final contra o time do alemão, resolveram apoiar o outro na briguinha. Foram lá praquela construção e de lá começaram a jogar tijolos. Foi a primeira vez que vi chover tijolo. Coisa mais linda de ver! Os tijolo inteiro cruzando o céu. Meia dúzia desmaio aí... Me fez lembrar a de 78.
- Ah é cumpadri? E o quarto time?

- Em um primeiro momento, tentaram apartar a briguinha, mas como a coisa encrespou para o lado deles, se juntaram com o time do alemão. Os homi se alinharam lado a lado, e fizeram que nem aquele futebol dos americanos, vieram derrubando tudo... Pareceu o Baltazar em 78!
- A polícia apareceu, cumpadri?

- A polícia chegou quinze minutos depois. Os ânimos já estavam mais calmos. Os que não desmaiaram ou estavam sangrando, seguiam brigando, mas eram só uns quinze. Quando a polícia chegou, a briga parou por um instante. Daí parece que foi combinado. Os jogadores que antes brigavam se juntaram pra bater na polícia. Segundo o Chicão me contou, foi porque a polícia não tinha nada de se meter na briguinha deles, pois já estava quase tudo resolvido. E está certo o Chicão, parece que a polícia não tem mais nada de importante para fazer do que vir apartar briguinha de moleques. Eram umas oito viaturas. Se fosse a de 78 ainda, mas essa briguinha não precisava...

- A briga com a polícia durou muito, cumpadri?
- Durou só uma meia hora. A polícia saiu corrida...
- Ah é cumpadri?
- É sim!
- E agora, o que vai acontecer cumpadri?

- Nem me fala... O pior não sabe. Perdi a diversão do final de semana. Não vai ter partida neste. Por causa de uma briguinha dessas cancelaram os jogos. Até onde eu sei morreu só cinco. Vê se tem cabimento cancelá o campeonato por causa disso? No sábado à tarde tem reunião pra ver o que farão. Em 78, depois da briguinha, os times juntaram os que sobraram inteiros ou meia-boca, e ainda jogaram a final.

- Ah é cumpadri?
- É sim! Me lembro como se fosse hoje daquela final...
- Mas cumpadri, mal pergunte... O falecido seu pai, não morreu em uma briga como esta?
- Não! O Pai morreu na de 69. Outra categoria. Bom! Aí nós começamos a falar de briga. Se o compadre quer ouvir história de briga, se acomoda que eu conto...


* Jornalista e cronista

Quase eternos


* Por Alberto Cohen

Enquanto alguém reler os meus poemas
a morte não me levará com ela.
Estarei escondido nos caminhos
de todas as imagens que tracei
com minha mão criança e descuidada
de tornar realidade os absurdos.
Talvez consiga achar minha caneta,
mas o papel abrigará minha alma
nas letras que deixei aos seus cuidados,
na confusão de versos e de rimas.
Onde ele está? Perguntará a morte,
e ao saber em quantos fui mudado,
em quantas sortes reparti a sorte,
cabeça baixa, partirá sozinha.
Para os poetas não foi feita a morte.

* Poeta e escritor paraense