Temer: bandeira branca, amor
* Por
José Ribamar Bessa Freire
"Catraieiro
vai
buscar
vai buscar o meu amor
que
está do lado de lá". (Carimbó do Pinduca).
Antes de ir pra China,
Michel Temer fez seu primeiro pronunciamento como presidente em cadeia de rádio
e TV. Não deu um pio sobre o combate à corrupção, nem mencionou as razões que o
levaram a cancelar o pedido de regime de urgência da presidenta Dilma Rousseff
para os três projetos que tramitam na Câmara criminalizando o caixa 2 e o
enriquecimento ilícito de funcionários públicos. Silenciou sobre esse câncer
que corrói o país, mas pediu paz:
- "Agora é hora
de unir o país e colocar os interesses nacionais acima dos interesses de
grupos".
É bebé? Mas os
interesses nacionais não devem prevalecer SEMPRE? Por que só agora e não antes?
Quem define o que é o interesse nacional? Mistério que uns velhos de Manaus
desvendaram comparando Temer a Lezarrão, o "general" da guerra das
catraias dos anos 1950, o que comprova uma vez mais de que tudo que sucede no
país já aconteceu no bairro de Aparecida.
Reunidos para um dedo
de prosa na praça da Bandeira Branca, em frente à casa onde um dia morou o
Bosco Piu-piu, os velhos recordaram como a travessia do igarapé que separa São
Raimundo do bairro de Aparecida era feita, antes da construção da ponte Fábio
Lucena, em 1987, por canoas de duas
proas, quase sempre cobertas por toldos, cada uma com capacidade para 15
passageiros, batizadas com sugestivos nomes de Pinta, Nina, Santa Maria e
tantos outros. A frota de catraias, monopólio de Lezarrão, transportava
diariamente passageiros e suas histórias: domésticas, operários do Matadouro,
das serrarias, das fábricas de cerveja e de gelo.
O monopólio só foi
quebrado em 1956 quando Gilberto Mestrinho (PTB), que morava na rua Alexandre
Amorim, assumiu a Prefeitura de Manaus e entregou a seus vizinhos de Aparecida
o controle do porto das catraias, na antiga Serraria Hore. O preço da travessia
continuou o mesmo - 50 centavos - mas as catraias, com novos donos, eram
outras: Rumo Certo, Novo Amazonas, Salve Prinho, Petebê, Sertaneja, Voadora,
Flor do rio, Lady Elisa. Inconformado com a perda da concessão, Lezarrão
declarou guerra total aos catraieiros de Aparecida.
A guerra
- Fá-los-emos pagar
caro cada centavo que nos foi subtraído. As vidas deles? Transformá-las-emos
num inferno. Assim, mostrar-vos-emos que o pessoal de Aparecida não é capaz de
oferecer serviço de transporte decente - disse Lezarrão no encontro realizado no
Cine Ideal, na rua 5 de Setembro, com moradores de São Raimundo, conhecidos
ainda hoje como "bucheiros", porque as mulheres de lá lavavam em água
de limão o bucho recolhido no Matadouro que era vendido no outro lado do
igarapé. O orador foi aplaudido por bucheiros embasbacados com o uso da
mesóclise.
A promessa foi
cumprida ao pé da letra. Lezarrão usou todas as armas no jogo sujo e pesado.
Envenenou a água da cacimba usada por catraieiros de Aparecida; sabotou canoas
retirando-lhes, na calada da noite, a calafetagem de breu e estopa; promoveu
naufrágios de catraias; com faca na cintura agrediu remadores e passageiros que
eram recebidos com pedras na hora de atracar; criou medo nas pessoas,
obstaculizando o serviço de transporte, que cada dia ficava mais precário.
- Eles são
incompetentes, estão prejudicando os passageiros - repetia Lezarrão.
Os usuários das
catraias, incomodados com a insegurança e com a precariedade do transporte,
endossaram o coro de descontentes, exigindo a volta da frota de Lezarrão. O
novo prefeito, Loris Cordovil, em 1959 atendeu esse apelo e fez que tudo
voltasse a ser como dantes no quartel de Abrantes, sob os protestos revoltados
dos catraieiros de Aparecida, que do dia para a noite ficaram no olho da rua.
Pedindo penico
Os catraieiros de
Aparecida passaram, então, a usar os mesmos métodos para infernizar a vida de
Lezarrão, que aumentou o preço da passagem para recuperar o que achava que
havia perdido. Denunciaram a manobra: "Não dá pé. Um Tamandaré para
atravessar o igarapé" - diziam, numa alusão à cédula de hum cruzeiro
ilustrada com o Marquês de Tamandaré.
Foi aí que Lezarrão
pediu penico: "Vamos esquecer as brigas, a hora é de paz e
concórdia". Conclamou todos os usuários e moradores dos dois bairros a se
unirem e a colocarem os interesses coletivos acima dos interesses pessoais ou
de grupos. Como Temer, que quer nos fazer acreditar que seus interesses
pessoais e partidários são os "interesses nacionais", Lezarrão pregou a união, mas em torno do
monopólio das catraias.
Na oposição, se bate
panela e se tenta inviabilizar os governantes de turno. Uma vez no poder - e só
então - o discurso passa a ser de "união nacional". As panelas
emudecem. A bandeira branca é levantada.
Mas os moradores de
Aparecida seguiram a receita dada por Lezarrão, antes de reassumir o monopólio,
que pode ser sintetizada nas palavras atribuídas a Aécio Neves (PSDB, vixe,
vixe), logo após ser derrotado nas eleições presidenciais e publicadas no blog
do economista Carlos Augusto Dória:
- "Vamos obstruir
todo os trabalhos legislativos, até o país "quebrar" e a Presidenta
Dilma ficar incapacitada de governar, sem apoio parlamentar, aí reergueremos o
país que nós queremos, independente dos acontecimentos que envolvem o
ex-presidente Lula e as ações do Judiciário. Sem o Poder Legislativo, nenhum
governo se sustenta".
Pela primeira vez na
vida, concordo com o Aécio, que nos indica o caminho certo que devemos seguir
na oposição. Basta trocar, no discurso dele, Dilma por Temer. É isso aí. Vamos
lutar para reerguer o país que nós queremos: Aux armes, citoyens! Fora Temer!
Eleições já!
*
Jornalista, professor e historiador.
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