Relicário
* Por Mariana
Celle
Eu nem sabia o que significava. Essa
palavra nem ao menos me remetia a qualquer outra para que eu pudesse vê-la num
texto, frase ou, ao menos num dicionário. Não havia referências. A conheci num
tempo em que ela não fazia muito sentido pra mim, mas foi mesmo desta forma,
com a música. Duas vozes. Instrumentos. Doces. Graves. Melodia que fica na
mente e agrada o coração (antes era só a música que trazia essas sensações).
Mas do que falo aqui é do seu nome, não dela própria.
Palavra que começa com um arranhão, mas
depois se deleita. Não é grande, não é pequena. É ideal. Mesmo que ainda vazia
do significado que eu buscara, buscava, buscaria. Ou não. Ouvi certa vez:
artesanato, madeira, preço, relicário. Ahn?! Mas como condicionar um valor a
uma palavra feita de madeira? Não pensei mais. A música afastou-se. A palavra a
seguiu e me deixou por um tempo. Eu disse, um tempo.
O cômodo colorido naquela rua de pedras
esteve lá desde o primeiro dos quatro dias e no outro também, mas somente
esteve lá. Feito para olhar. Enquanto algumas horas se passavam daquele sábado
nublado o cômodo pôde tomar forma. Antes disso: ansiedade, palpitação,
insegurança, telefonemas, outras dúvidas e mais outras. Um outro assunto. Não
serviria de nada e nada serviu. Seguimos a rotina. Escadas, curva, bica,
igreja, árvore, pedras. O cômodo tinha novos visitantes. Texturas, formas,
laranjas, azuis e mais amarelos, rosas e verdes e mais, e mais. No canto
esquerdo alguém apontou. Apontou para quê? Retangular, vertical, com abertura,
um tipo de torre religiosa, enfeitado, detalhes. Precisava ser mesmo naquele
lugar, rua, cidade, região, estado, país. Fiquei satisfeita. Dessa forma não
havia mais como esquecer a palavra. Mais uma para o vocabulário, para a vida.
Mais sete dias. A palavra esquecida é
agora realmente parte da vida. O que está acontecendo? O dia amanheceu mais uma
vez e a paz ainda não voltou. Continuo usando o colar, vendo milhões de vasos
sem flor e tentando trocar a eternidade, mas isso não é permitido. Já tentamos.
Várias vezes, cada vez mais, mas o esforço não foi o suficiente para vencer o
dia. De onde veio essa semente e para onde vai? Ninguém tem respostas. Todos só
temos lembranças, mas agora lembranças preenchidas. Desta vez foi a música que
seguiu a palavra, e ganhou dois seguidores. Seguidores conscientes e confusos.
Os lábios não poderiam mesmo mais se tocar. Foram embora. Outro lugar foi
invadido. Mesmo que seja estranho se sentirem agora como velhos amigos. Mas as
últimas três frases da última estrofe ecoam enquanto tentam (re-) conviver com
a rotina, a saudade e o medo.
*
Jornalista
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