Queremos
delatores covardes ou cidadãos timóticos?
* Por
Paulo Ghiraldelli Jr.
Uma sociedade precisa
antes de agentes timóticos, como Jesus.
Já há algum tempo
participei de um programa na RIT TV cujo título era “Em briga de marido e
mulher não se mete a colher?”. A ideia básica da conversa era sobre a
interferência de um terceiro em conflitos domésticos. Um tema que, quando expandido,
pode ganhar outro nome: “Vocês que são brancos que se entendam”. O que está no
horizonte em conversas sobre isso é se podemos mesmo nos transformar em Zorros,
cidadãos justiceiros que intervêm de peito aberto diante de violências privadas
e públicas, ou se no fundo queremos apenas uma sociedade de grandes covardes,
que fazem todo tipo de delação sem qualquer responsabilidade e checagem do que
estão denunciando.
Parece bobagem essa
questão, mas não é. Temos requisitado da sociedade, de uma maneira pouco clara,
que nos posicionemos contra todo tipo de “situação errada” que vemos. A própria
noção de democracia participativa tem, nas suas beiradas, exigido uma postura
individual de apontar dedos para culpados aqui e ali. Mas, no meio disso, não
sabemos se não estamos é criando a cada dia uma “caça às bruxas”, que é
justamente a pior coisa que se pode ter em uma sociedade, ou se realmente
estamos chamado cidadãos para intervenções necessárias. Não temos estudos sobre
isso! Nossa sociologia é ideológica demais.
Posso pegar o telefone
e discar para a polícia se vejo que estou diante de alguma coisa ruim que vai
acontecer ou aconteceu. Não há dúvida. Mas, em clima de “caça às bruxas” (vamos
matar comunistas ou pedófilos hoje?), devo pensar dez vezes se não estou sob
forte campanha ideológica, que me instrumentaliza como um covarde delator ou no
mínimo como um inconsequente e irrefletido peão em um xadrez que não entendo.
A denúncia anônima é
bom instrumento. Os programas de proteção de testemunha devem sempre melhorar.
Todavia, não falo dos mecanismos, falo da histeria das campanhas. As campanhas
de denúncia têm um lado útil: velhos, crianças, animais, mulheres, negros, mendigos, deficientes são, em geral, o alvo
preferido dos sádicos babacas que nossa sociedade alimenta. Aliás, esses
sádicos são úteis apenas no sentido de justificarem o injustificável, que é a
voz reacionária de políticos aproveitadores, aqueles que vivem do ódio
disseminado, pedindo pena de morte para tudo. Esses urubus de plantão são os
demagogos da direita. Mas, o que penso que deve ser notado nisso tudo, é que as
campanhas de denúncia não podem ser maiores que a ampliação da coragem. Se um
garoto negro está sendo espancado na rua e, na TV, a dona repórter loira sugere
que o espancamento continue, aí o caso não é de parar para a denúncia, mas o
agir rápido e dizer: “basta! Vocês não podem fazer isso!”. Nessa hora, não
surge nenhum Zorro, apenas um indivíduo que pode ser descrito melhor pela
psicologia antiga que pela moderna: alguém com thymos – o órgão da ira, da
fúria, da identidade – que tem orgulho de si mesmo, de sua posição corajosa
diante da horda, de sua função de guardador presente da civilidade.
Já passou da hora de
pensarmos em campanhas que sejam menos estúpidas que essa aí “homens contra a
cultura do estupro”. Essas frases vagas só alimentam a inconsequência. Está na
hora de conseguirmos construir mais e mais narrativas de cultivo da identidade
timótica, de gente capaz de se orgulhar por cuidar moralmente do que é correto.
Nesse caso, trata-se de gente que não admite a humilhação do mais fraco pelo
mais forte – que é a própria definição de liberal para vários autores – e por
isso mesmo é capaz de, no local onde as coisas acontecem ou estão para
acontecer, dizer serenamente: “não, não, somos conscientes, cidadãos, isso não
pode ser feito”. Precisamos ter essa atitude diante das agressões a todas as
minorias, mas precisamos ter narrativas que nos levem a ter essa atitude mais
ainda quando putas e moradores de rua estão passando por agressões, do mesmo
modo que talvez tenhamos que ultrapassar a soleira da porta do outro, se há ali
indícios de que um crime ocorrerá contra mulher ou criança ou animal e outros
indefesos do lar.
Não há exemplo de
Jesus denunciando alguém, ou fazendo
campanha, o que há é Jesus intervindo pessoalmente, contra a multidão, no caso
do apedrejamento da mulher. Pense nisso mais seriamente.
*
Filósofo
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