O mais próximo de nós
O nosso comportamento face ao próximo é, via de regra,
ambíguo e buscamos um entendimento que está muito além do nosso alcance:
entender os outros. Tomamos, para isso, como parâmetro, nossos pensamentos,
sentimentos, temores e reverências, achando que são universais. Ou seja, que
todos pensam, sentem, temem e reverenciam as mesmas coisas, de idêntica maneira
que nós. Julgamos nos conhecer bem. Conhecemo-nos, todavia, mal e porcamente.
Suspeito que sejamos estranhos a nós mesmos. A todo o instante nos
surpreendemos com pensamentos insólitos que não desconfiávamos que tivéssemos;
com sentimentos (positivos ou negativos) que não sabíamos que nutríamos e vai
por aí afora.
E vem a grande questão: conhecemo-nos, de fato? O que
sabemos de definitivo a nosso próprio respeito? Pouco, muito pouco, quase nada.
Antes de nos aventurarmos no espaço, em busca de descobrir outros mundos, com
seus mistérios e surpresas, seria preferível que empreendêssemos outro tipo de
viagem, menos dispendioso e arriscado, mas igualmente fascinante: ao interior
da nossa inteligência. Antes de conhecer quem ou o que quer que seja, o mais
sábio seria conhecer o próximo mais próximo de nós: nós mesmos.
De onde partir, todavia, para essa misteriosa aventura? Qual
o nosso “Cabo Canaveral”, a nossa base de lançamento para tal viagem? Como
fazê-la? Essas questões, no meu entender, não têm respostas. Não, pelo menos,
coerentes, exatas e definitivas. Se conseguirmos chegar lá, encontraremos,
certamente, um mundo fascinante, não duvido. Sugiro que o ponto de partida seja
o ato de auscultar o que sentimos. James W. Kennedy sugeriu que “o que
realmente importa é o que acontece em nós, e não a nós”.
É esta integridade de espírito, esta riqueza interior, que
devemos cultivar, para nos servir nos anos mais difíceis da nossa existência.
Temos que tentar analisar (e não sei se teremos sucesso nessa tentativa) como
nossos substratos abaixo do consciente (o inconsciente e o subconsciente)
reagem face ao que nos acontece, ao que vemos e ouvimos a todo o instante, aos
prazeres, desprazeres e dores que nos atingem. Muitas vezes, coisas
identificadas pela consciência como positivas e agradáveis, na verdade não são
assim. Têm efeito deletério, se não devastador, em nosso íntimo.
Devemos, se e quando possível, cultivar e “salvar”, como na
memória do computador, lembranças agradáveis, belos cenários, ações nobres,
pensamentos positivos e construtivos e nos desfazer, como lixo que se não for
descartado tende a “apodrecer” nossos sentimentos, dos opostos. Estas, aliás, têm que ser as armas ao nosso
dispor para quando nossos músculos já não obedecerem, com prontidão, as ordens
emanadas pelo cérebro; para quando os olhos não enxergarem com a mesma acuidade
da juventude; para quando os ouvidos já não captarem os sons com a mesma
nitidez dos bons tempos e para quando o raciocínio levar um tempo enorme para
“esquentar”. Isso, mais cedo ou mais tarde, irá nos acontece3r. É uma
fatalidade biológica. Envelheçamos, sim, pois esta é uma condição que se pode
retardar, mas jamais evitar. Mas o façamos com picardia e, sobretudo, com
dignidade. Mesmo que isso nos custe um esforço sobre-humano (e, provavelmente,
custará).
Mas
isso é possível? Claro que não posso garantir que seja. Intuo, todavia, que
sim. Só que para funcionar, temos que “nos conhecer” e muito bem. E aí é que são
elas! Quantas são as vezes em que, face a grandes sucessos ou a enormes
fracassos não ficamos atônitos a nos perguntar: quem, de fato, somos? Na
verdade, conhecemos pouco, muito pouco, pouquíssimo a nosso próprio respeito. E
o mais grave é que não fazemos grandes esforços (na maioria das vezes, nenhum)
para suprir essa lacuna. Certamente,
somos muito mais fortes do que pensamos e muito mais frágeis do que gostaríamos
de ser.
O
saudoso poeta Mauro Sampaio, que me privilegiou com sua preciosa amizade enquanto
viveu, expressou muito bem essa nossa perplexidade, diante de nós mesmos, nos
versos do poema “Não sei o que sou...”, que dizem:
“Não
sei bem o que sou!/
Às
vezes
majestoso
transatlântico!
Outras
com
ânsia
me
fito na distância,
como
perdida vela
que
passou!...”
De
todo o conhecimento a que temos acesso, o mais complexo é o que se refere a
nós. É o de sabermos realmente quem somos, como reagiremos diante de
determinado fato e até onde vai nossa capacidade de amar e de nos doar ao
próximo. O que sou? Essa é uma pergunta que bilhões de pessoas, ao longo do
tempo, fizeram, vêm fazendo e com certeza farão a si próprias (não raro,
inconscientemente, sem sequer se darem conta) e que não conseguiram, não
conseguem e talvez jamais consigam chegar a uma conclusão sequer razoável,
quanto mais definitiva.
A
todo instante, ficamos surpresos, senão atônitos, conosco mesmos. Volta e meia,
por exemplo, descobrimos, no fundo de nossas mentes, idéias (construtivas ou
não, não importa) que sequer atinávamos que tínhamos. Vez por outra, praticamos
ações que contrariam nossas mais profundas convicções. Desafiados, meio às
cegas, atingimos objetivos que intimamente não acreditávamos que pudéssemos
alcançar.
Que
força misteriosa nos moveu para praticar essas façanhas? O oposto também
ocorre. Decepcionamo-nos conosco, com fracassos que julgávamos impossíveis de
nos atingir, mas que atingiram, por superestimarmos nossas capacidades. Claro
que não sairemos por aí apregoando que não temos certeza sequer do que somos.
Ninguém faz isso. Se o fizer, certamente, será considerado insano ou, no
mínimo, para ser mais suave, neurótico.
Temos,
é fato, uma vaga e intuitiva compreensão de quem somos e como nos ligamos aos
semelhantes e ao misterioso universo em cujo recôndito cantinho vivemos. Não
fosse assim, não teríamos nem como sobreviver. Sozinhos não somos nada.
Precisamos dos outros para assegurar nossa sobrevivência. Afinal, gostemos ou
não, concordemos ou discordemos, ninguém, absolutamente ninguém, por maiores
que sejam seus talentos e habilidades, é auto-suficiente.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o editor pelo twitter: @bondaczuk
Podemos até nos conhecer bem, mas admitir todos os nossos defeitos, ninguém terá coragem, mesmo com décadas de psicanálise.
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