Ar polar
* Por
Urda Alice Klueger
(Para Eduardo Venera
dos Santos Filho)
Não há como, num dia
como este, em que a manhã já vem pejada de sensações indescritíveis das coisas
mais intensas já vividas desde as mais antigas lembranças, decerto tangidas
pelos mistérios deste clima de outono em pleno começo de janeiro, não há como,
repito, não sentar e escrever a respeito.
A massa de ar seco e
adstringente decerto se desprendeu lá do Pólo Sul e tomou o rumo do verão
inadvertidamente, e nesse seu rolar pelo entorno do planeta foi acendendo
lembranças e sensações que estavam como que esquecidas, dormitando nas pessoas
e nas coisas, e imagino quantos frutos, hoje, estão pensando que é tempo de
começar a amadurecer, e quantas flores pensam que é o momento de formar as
sementes que garantirão sua genética, e quantas aves não sentirão aquele
primeiro tremor que as fará pensar que começa a chegar o tempo em que devem se
preparar para a migração – as forças das estações são terrivelmente fortes, e
esse prelúdio inesperado de outono traz no seu bojo, também, para humanos como
eu, este caleidoscópio intenso da vida, e me deixa com esta vontade de chorar
por toda a torrente de emoções recordadas inesperadamente, as maiores, as mais
intensas.
É um dia para ver e
sentir a plenitude da vida, não apenas a que já passou, mas decerto a que ainda
virá, dia de girândola de ânsias, alegrias e sofrimentos, e fica até difícil
escolher algum desses momentos ou imagens que perpassam por meu corpo e meu
espírito e que me enchem de perturbação e de profundidade, como fica uma fruta
cheia de sumo no auge do verão.
Penso: há quarenta
anos atrás todos os dias eram assim, e então uma flecha de dor atravessa o tempo e me atinge com todo
o seu mistério e sua magia, e aqueles anos de 1972 e 1973 voltam com toda a
força e me derreiam. Sempre falo que o amor é uma coisa que jamais passa e há
pessoas que não me creem quando tal falo. O amor pode até ficar quieto,
dormitando indefinidamente como as sementes dormem no inverno, mas como as
sementes que gerarão outras e outras, ele sempre irá se reproduzir e somar –
jamais morre. Se o amor morrer é porque amor não era, mas uma semente fanada,
que não teria a graça da reprodução. E neste dia de vento terral fora de tempo,
aquele tempo que parecia perdido, aquele tempo que já faz quarenta anos
ressurge e me toma sem pedir licença e perdão, e lembro dos cheiros, das
ternuras, de músicas do Roberto, de Caetano cantando “Como dois e dois” e Chico
falando do seu ”Menino Jesus”, e há um gravador a pilha tocando fitas vídeo
cassetes no cheiro bom de um fusca verdinho claro e a sombra de eucaliptos lá
no morro da velha caixa d’água, e penso: por que sobrevivi quarenta anos desde
então? Por que hoje penso viver até os 105, como Dona Canô e o Niemeyer? Há
sentido em viver tanto depois que o sentido da vida parte?
Há quarenta anos todos
os dias tinham a intensidade deste dia de hoje, e viver era tão embriagante que
eu não acreditaria se me dissessem que toda a vida não seria assim, que haveria
a profunda ruptura que houve e eu sobreviveria.
Então hoje amanhece
este dia que deve estar mexendo com todas as formas de vida, as materiais e as
imateriais, e o mundo está tão mágico que eu posso entender algumas coisas,
como a de que há diversos sentidos para se viver, e quando são sentidos de
amor, todos se somam. Então deve ser bom viver até os 105 – sempre haverá novos
dias como este de hoje onde existirão as revivências das melhores coisas que se
viveu, e ao redor de mim poderão flutuar no ar as velhas músicas do Roberto
junto com aquela que fala ”… Comandante Che Guevara…” e as cantigas religiosas
que a minha mãe cantava em manhãs assim e as imagens da Venezuela na data de
ontem e um poema de Mário Benedetti que diz “… en la calle, codo a codo…”.
Esta massa de ar polar
repercute em mim como o sino de uma catedral, e agradeço ao universo por poder
ser assim.
Blumenau, 11 de
janeiro de 2013.
* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e
doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de vinte e quatro livros (o 24º
lançado em 5 de maio de 2016), entre os quais os romances “Verde Vale” (dez
edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).
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