Poeta inovador e crítico mordaz
O italiano Francesco Petrarca parece ter sido um desses
sujeitos inquietos, sumamente curiosos, sem medo de tentar coisas novas e
críticos mordazes, mas quando a crítica se fazia pertinente. Pelo menos é o que
se deduz da leitura de suas várias biografias. A dúvida que fica, todavia, é: “quanto,
do que se escreveu sobre ele é fato e quanto entrou no terreno da mera lenda?”.
É impossível de se saber, principalmente tendo em conta que esse personagem,
sem dúvida fascinante, clássico da Literatura ocidental, nasceu, viveu, atuou e
morreu no distante século XIV.Apesar do seu livro mais lido, estudado,
analisado e apreciado ser “Cancioneiro” – título, aliás, que nem foi ele quem
deu – produziu algumas outras obras-primas.
Recorro à enciclopédia eletrônica Wikipédia para citar
algumas delas. Entre estas estão: “’Secretum’ (‘Meu Livro Secreto’), diálogo
imaginário, intensamente pessoal e cheio de culpa com Augustine of Hippo; ‘De
Viris Illustribus’ (‘Sobre os Homens Famosos’), série de biografias morais; ‘Rerum
Memorandarum Libri’, tratado incompleto sobre as virtudes cardeais; ‘De Otio
Religiosorum’ (‘Sobre o Lazer Religioso’) e ‘De Vita Solitaria’ (‘Sobre a Vida
Solitária’), que elogia a vida contemplativa”. Ufa! Haja criatividade e
talento! Mas não foi só.
Francesco Petrarca publicou, ainda, de acordo com a
Wikipédia: “’De Remediis Utriusque Fortunae’ (‘Remédios para os trancos e
barrancos’), livro de auto-ajuda que permaneceu popular por muitos anos; ‘Itinerarium’
(seu guia para a Terra Santa, ancestral distante dos guias de viagem atuais); além
de um número de críticas violentas contra seus oponentes tais como médicos,
escolásticos e os franceses, entre outros”. Acabou? Ainda não! Publicou, ainda:
“’Carmen Bucolicum’, coleção de doze poemas pastorais; e o épico incompleto ‘Africa’,
destacando a figura do general romano Scipião, o Africano.. Publicou, também, volumes
de suas cartas, incluindo algumas para personalidades já mortas como Cícero e
Virgílio”.
Boa parte dos livros (a maioria) foi escrita em Latim.
Sabe-se que Petrarca era exímio latinista. Infelizmente, todavia, boa parte dos
seus escritos nessa língua (“mãe” do português e de vários outros idiomas) são difíceis
de serem encontrados, por se encontrarem de posse de particulares e, portanto,
inacessíveis aos estudiosos e ao público em geral. Outra dificuldade é a de
datar suas obras. Petrarca, como todo bom escritor que se preze, era
perfeccionista. Sabe-se que ele revisava seus livros a cada nova leva. Entre
seus feitos, os especialistas lhe creditam o fato de haver lançado as bases do
idioma italiano, tal como se fala e se escreve hoje (o oficial e não o de algum
dialeto específico, dos tantos que há na Itália).
Pode-se dizer, ainda, que Petrarca foi responsável pelo
desenvolvimento e fixação do chamado “Dolce stil novo”. Tratava-se de um dos
mais importantes movimentos literários da Itália do século XIII que tinha, como
“marca registrada”, a introspecção. Para o leitor ter uma idéia da importância
dessa forma de escrever, basta citar sete poetas que se utilizaram dela antes
de Petrarca: Dante Alighieri, Guido Guinizzeli, Guido Cavalcanti, Lappo Gianni,
Gianni Alfani, Dino Frescobaldi e Cino de Pistois. Seu espírito inovador não
parou por aí. Por exemplo, ele é considerado “o pai do Humanismo”, escola
filosófica que foi, praticamente, o embrião da Renascença. Outra de suas
façanhas foi a de aperfeiçoar a técnica do soneto.
Muitos, erroneamente, atribuem-lhe a invenção dessa forma de
fazer poesia. Petrarca, porém, não foi seu inventor. Ela surgiu muitos anos
antes dele ter sequer nascido. Tempos atrás, publiquei, neste espaço, um ensaio
tratando da invenção do soneto. Petrarca, porém, aperfeiçoou-o e boa parte dos
poemas do “Cancioneiro” é constituída por esse tipo de poesia. O compositor
Franz Liszt chegou a musicar três deles, com o título (óbvio) de “Tre sonetti Del
Petrarca”, um primor de sensibilidade artística que juntou dois gênios de duas
expressões artísticas diferentes.
Uma das coisas que o poeta mais gostava de fazer era
escrever cartas: para parentes, para conhecidos, para amigos e sabe-se lá para
mais quem. Entre as tantas que escreveu (e que foram publicadas em vários
livros), chama, em particular, a atenção a datada de 3 de dezembro de 1365. Ela
foi endereçada ao seu grande amigo Giovanni Boccacio. Trata, especificamente,
do assunto que é tema dessa minha série de comentários sobre epidemias. Nessa carta,
Petrarca não poupa críticas às pessoas que não tomaram as providências necessárias
para controlar e debelar a peste bubônica que grassava na Europa. Escreve, em
certo trecho: “(...) São historiadores que emudecem. São médicos que não sabem
como agir. São filósofos que franzem o cenho e levantam os braços desconcertados
(...)”.
Suas críticas mais ácidas eram voltadas, principalmente, aos
toscos profissionais de medicina de então, cuja competência questionava
duramente. Escreveu a respeito: “(...) Se cem homens, ou mil, da mesma idade e
constituição geral, e habituados à mesma dieta, caíssem vítimas da doença ao
mesmo tempo e a metade seguisse as prescrições de nossos doutores
contemporâneos, e a outra metade se guiasse por seu natural instinto e senso
comum, não tenho dúvidas que o último grupo se daria melhor (...)”. É a sinceridade elevada à enésima potência. Nenhum
outro escritor, ao que se saiba, foi mais incisivo e direto em suas críticas do
que ele. Pesou, certamente, no caso, a morte de sua amada Laura, vítima da
peste bubônica.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Durante meu curso de Medicina, que concluí em 1979, ouvi dos meus professores médicos (nas matérias iniciais havia biólogos, farmacêuticos, bioquímicos, fisiologistas) dizerem algo assim: o doente melhorou, apesar dos médicos, dos remédios e da Medicina. Isso indica que a Medicina pode piorar a pessoa, em algumas situações.
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