Crítico com o rigor do cientista
O que chama em especial a atenção de quem toma contato, pela
primeira vez, com a crítica literária de Salim Miguel, é a objetividade das suas
análises. Trata-se de procedimento que difere radicalmente da forma de atuação
da maioria dos críticos, que peca, sobretudo, por teorizações e pelo dogmatismo.Já
o autor de “O castelo de Frankenstein” aponta virtudes e deficiências com total
isenção, com o rigor de um cientista que tenha sob o foco de seu microscópio
alguma célula, ou bactéria ou vírus raros ou desconhecidos, que se propõe a
identificar e a catalogar, sem deixar escapar nenhum detalhe. Esse rigor e essa
objetividade ficam claros nas colunas de crítica literária que assinou, por
quase dez anos, no “Jornal do Brasil”; E, principalmente, no livro “O castelo
de Frankenstein”.
A limitação de espaço impede que eu me aprofunde nessa obra
e comprove o motivo do entusiasmo que ela me despertou. Pincei, todavia,
algumas anotações de Salim Miguel, que são ínfima amostra da sua competência.
Nelas ele justifica, por exemplo, méritos de escritores catarinenses, muitos
dos quais desconhecidos do grande público. Destaca nuances estilísticas que
passam batidas ao leitor comum, que atente apenas ao enredo (a maioria), e
mesmo ao crítico desatento ou imperito. Leva em consideração, simultaneamente,
tanto a forma quanto o conteúdo. Analisando, por exemplo, o livro “As famílias”,
de Adolfo Boos Jr., Salim Miguel sublinha seu detalhismo, que torna as
histórias que narra tão verossímeis. Mas lamenta: “Depois do livro, e da boa
receptividade, uma parada brusca e inesperada. Boos sumira do território das
letras. Nada mais publicou”. Todavia, pondera: “Certamente devia continuar
lendo muito, estudando, vivendo, aprofundando-se na teoria do fato literário e
na análise do bicho homem; mas, certamente, ainda continuava escrevendo (pois o
vírus se infiltrara nele – e é impossível uma pessoa livrar-se da maldição de
escrever). Mas a ninguém mostrava os seus originais. Muito menos aceitava
discutir a possibilidade de publicá-los. Negava, mesmo, tê-los”.
Boos, porém, voltou a escrever, e a publicar. E Salim Miguel
acentua esse “retorno”, que se deu com três contos, publicados, respectivamente
na antologia “Assim escrevem os catarinenses” e nas revistas “Ficção” e “Status”.
Diz, definindo em apenas dois parágrafos o estilo desse escritor: “Em três
contos, revelava não só o mesmo observador atento e interessado, tendo o que
dizer e sabendo como dizê-lo, mas um crescente domínio da técnica narrativa. Na
briga para domar a palavra ele atinge o tom justo, a medida exata, indo até o
mais profundo da psique humana e investigando-a exaustivamente”.
Salim Miguel aduz, mais adiante: “Embora seus contos (de
Boos) sejam mais de clima, de situações estanques, de localizações indefinidas,
do que de ação e determinações geográficas precisas, há sempre a permanência de
alguns elementos conhecidos e ambientes identificadores (tanto no interior da
Bahia como nas praias de Florianópolis, ou ainda na maneira das personagens se
colocarem diante de tudo que as cerca) em uma luta surda que se desenrola no
interior dessa mesma personagem”.
Apresentando outro contista catarinense, o autor de “O
castelo de Frankenstein” escreve: “Todo o absurdo da condição humana está
presente, com suas contradições, em ‘No banco geral’, conto que abre um dos
volumes recém-lançados por Emanuel Medeiros Vieira, e onde se cristalizam
algumas de suas principais características de ficcionista. Ali se encontra o
escritor preocupado com o destino do homem e perplexo diante dos desencontros
que marcam a nossa época e ali estão, igualmente, tratamento e estilo que
mostram a constante evolução de sua prosa, em busca de depuramento formal e de
sempre melhor transmissão de idéias. É uma prosa tensa, elétrica, sincopada,
com situações e planos se entrecruzando e fundindo”.
Sem inúteis e cansativas circunvoluções semânticas, Salim
Miguel vai direto na veia. Em poucas palavras, e sem recorrer a dispensáveis e
pedantes citações, caracteriza, em duas penadas, o livro e seu autor. Em
relação a Emanuel Medeiros Vieira, o crítico meticuloso arremata: “Tempo e
memória. Como uma imagem que desponta e some, vai vêm, tempo e memória, que
constituem a chave mestra para se penetrar no mundo convulsionado de Emanuel
Medeiros Vieira. Não estamos, aqui, tratando da valoração desse conto como peça
una e íntegra. Talvez aí ela deixasse a desejar, pois a emoção incontida que
dela ressuma faz com que o autor por vezes se perca. Mas é, ainda assim, sem
dúvida nenhuma, uma peça básica para a melhor compreensão de uma obra em pleno
processo de andamento, com sua conclusão tão elucidativa: ‘a memória paralisa.
Voam os retratos, a casa cai definitivamente e soluçam todos os fantasmas desta
minha terra de Florianópolis, evocados pelo vento sul’. Fantasmas que não o
abandonarão como o vento sul nunca abandonou o poeta Cruz e Sousa”.
Boa leitura.
O Editor.
Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
O homem é bom mesmo. Mesmo pelos poucos exemplos dados, não há como não concordar.
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