A vaidade nossa de todos os dias
* Por
Mara Narciso
Existem diversas
inteligências e também várias vaidades. A aparência física é a que se pensa
primeiro. Sabe-se que as pessoas maravilhosas costumam ser senhoras de si.
Metidas, inacessíveis e, não raramente, insuportáveis. Algumas são arrogantes e
intratáveis, e pelo fato de, sem fazer esforço algum serem do grupo dos belos,
sentem que podem tudo, e são superiores aos demais. Entende-se o motivo, pois desde
cedo são paparicadas e tratadas como queridinhas. É uma vantagem incontestável
que abre todas as portas e muitas outras.
As bonitinhas procuram
melhorar, sendo simpáticas, agradáveis, se portando e se vestindo de
determinada maneira para valorizar os dotes pouco evidentes. No vestir,
destaca-se em primeiro lugar o caro, o de bom gosto e o que está na moda. Já se
disse à exaustão que a melhor marca de veículo é carro novo, assim como, diz a
voz das ruas, o homem prefere mulher nova. Piada verdadeira: quando um homem
puxa a cadeira, ou abre a porta do carro para uma mulher, o amor ou o carro são
novos.
Há pessoas tão limpas
que em todas as situações parecem acabadas de sair do banho, frescas, vestidas
com roupa nova, cabelos recém-lavados, mesmo sem corresponder à realidade.
Podem se vangloriar, ou se sentirem vaidosas por essa aparência, pois há outras
que inspiram o oposto. Parecem suadas e sujas, ainda que não estejam. Existe a
vergonha de ser flagrado numa situação de não limpo, ainda que pego de
surpresa. Outros procuram estar bem vestidos, como se esperassem visitas o
tempo todo, como personagem de novela.
O carro é um forte
argumento de vaidade e sedução, embora, com a sua popularização tenha se
esvaziado essa habilidade não convencional, exceto quanto custa uma fortuna.
Ainda assim, na entrada de uma festa, pelo menos em cidades médias do interior,
costumam-se medir quem chega pelo tipo de carro do qual desce. Há quem repare o
padrão da roupa, sapatos e cabelos, acontecendo em geral uma avaliação coberta
de preconceitos, gerando desconforto para quem é observado. Em geral, essas
análises nivelam por baixo, e até os aparentemente ricos podem ser considerados
oportunistas ou herdeiros, sem méritos próprios. As línguas do despeito mostram
a face mais mesquinha dos humanos que fingem viver bem em sociedade. Depois tem
os beijos e os comentários das fotos nas redes sociais. Hipocrisia
mastodôntica.
Numa festa, um grupo
que esteja numa mesa, hoje visível mundialmente, considerando-se a exposição na
internet, fica-se sabendo quem tem prestígio, quem é amigo de quem, quem é
casado ou namorado de quem. A rotatividade tem desnorteado até os fotógrafos
mais constantes. Sem mencionar celebridades, poderosos e paparazzi.
A profissão já teve
mais destaque. A casa em que se habitam e os amigos que a frequentam passam por
análises. Como estilos ricos podem ser forjados com prestações incontáveis de
casa e de carros, a vaidade de quem sobrevive de aparência pode sofrer
oscilações. Em se tratando de casa cara, a vaidade começa pela escolha do
arquiteto e decorador da moda. Pode ser alguém consagrado, ou um novato que
ganhou a sorte grande trabalhando para uma personalidade. Quando entra o fator
inveja, um sentimento que se amarra à vaidade, começam as tentativas de cópia.
Mas não apenas bens
materiais ou status possíveis de verificação é motivo de vaidade. Há quem se
sinta íntimo de Deus e se ache melhor do que aquele que não esteja tão perto
Dele. Mesmo quem garanta não ter vaidade e viver de forma despojada, consumindo
apenas o básico, com uma lupa, ou às vezes até sem ela, pode-se ver que a
pessoa tem orgulho por ser determinada coisa, seja física (bonitos olhos, belas
pernas, barriga de tanquinho, juventude, cabelo liso, ter nascido em tal
lugar), ter ido onde ninguém foi, ter feito algo incomum, ou ter um saber
superior à média são descortinados. Os títulos de graduação entre militares, ou
aqueles de mestres e doutores que substituíram os títulos de nobreza, também
garantem uma crescente vaidade. Existe quem não tenha esse sentimento daninho?
Entre crianças: meu
pai é alto, tem um carro maior, minha mãe tem belos cabelos, a sua mãe é gorda,
sua merenda é ruim, a marca do meu isso ou aquilo é mais cara e melhor do que a
sua. Sem falar no bullying de aparência, capacidade e outros comportamentos
criticados em grupo, que minam a confiança da vítima.
Como os bens materiais
são produzidos de forma inesgotável, assim como o conhecimento humano de coisas
inúteis não param de se ampliar, a corrida pela vaidade é infindável, embora os
recursos naturais do planeta estejam com seus dias contados. A sociedade
civilizada corre na direção do comprar, e quem não corre é tido como
excêntrico. A pretensa busca da felicidade é o motor do consumo de bens e
serviços. A vaidade é seu combustível.
*Médica endocrinologista, jornalista
profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e
Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a
Hiperatividade”
Sem vaidade fica difícil haver autoestima. Já em excesso, é egoísmo e infelicidade... Muito bom seu texto, Mara. Feliz 2014 pra você!
ResponderExcluir