Agora sou
esperança
* Por Dinah Silveira de Queiroz
Eu venho do existir
mas não ainda da Esperança, e agora sou Esperança. Do infinito painel da
Eternidade, do ontem, do hoje, do amanhã, eis que amanheço. Há quantos séculos,
há quantos milhares de anos me esperavam aqueles seres nas regiões a que
chegavam, depois da morte? Vinham, volteavam. Moviam-se lentos, obscuros, uns
agarrados a outros, no cinzento de suas meias vidas, como esboços de homens. Eu
lhes trazia a cor, a Esperança. Eles seriam desatados e partiriam para sempre à
convivência da mansão de meu Pai, onde há moradas para todos os justos. Eles
não sabiam do tempo. Eles se moviam num plano em que se entrelaçavam todas as
vidas e todas as gerações. Mas eles sofriam da fome e da sede da vida eterna,
da qual eram apenas sombras físicas, como o princípio da vida no seio da mãe. E
se tornariam coloridos, vivos e amanheceria nessas regiões do Limbo, àquela
hora em que lá estivesse, em suas moradas, para levá-los ao Pai. Eles vinham do
negro, do cinzento, para o amarelo, o vermelho e o branco refulgente. Eles
vinham para mim e haviam guardado a liberdade em seu mimado mundo que os vivos
desconheciam. E lhes entreguei a salvação; e puderam participar do banquete e
da alegria de tornar à casa do Pai. Haverá maior felicidade do que a volta à
casa de onde viemos, com amor?
Eu pertencia à vida
dos anjos, ao mundo que está além das sombras. Mas eu devia voltar e cumprir
minha promessa. Desfiz-me da comunhão estreita das almas, do enlace supremo; eu
desceria novamente à Terra, mas já não seria como dantes. E eu voltei ao lugar
onde me haviam amortalhado: o sepulcro de José de Arimatéia.
Já rompia o sol e uma
jovem mulher, aquela a quem curei em corpo e espírito, avançava em direção do
sepulcro do qual eu emergia. Para trás, ficavam suas companheiras. Abriu Maria
de Magdala a porta do jardim que os guardas do túmulo haviam fechado. Ela
caminhou até o subterrâneo, ao fundo do qual deveria estar meu corpo
destroçado. Um pouco de luz filtrava pela abóbada da construção, mas, para ela,
que desconsolo! O corpo de quem chamara sempre de Mestre, aquele a quem houvera
seguido por caminhos e pregações, já não estava mais lá. Como suas companheiras
ainda não haviam chegado, para elas voltou:
- Levaram o Senhor!
Levaram o Senhor!
Desarvoradas, as
mulheres agora comprovavam o que Maria de Magdala havia dito: sobre a lousa já
não estão mais meus despojos. Mas os olhos dessas mulheres de repente se
alargam de espanto. Ali, com a luz da madrugada, luzes outras envolvem visões
sobrenaturais. Agora, eles, os anjos, bem aparecem em cada lado do lugar onde
repousava meu corpo flagelado. E as minhas testemunhas - pois eram dois os
mensageiros, e para meu povo só valiam dois testemunhos ou mais - bem lhes
perguntavam:
- Por que buscais
entre os mortos aquele que está vivo? Ressuscitou, conforme predisse. Recordai as
palavras ditas na Galiléia: - É preciso que o Filho do Homem seja entregue às
mãos dos homens, seja crucificado e ressuscite ao terceiro dia. Ide pois e
dizei a Pedro e aos demais discípulos que ele mesmo aguardará na Galiléia. Ali
o vereis, segundo sua promessa.
E vieram os discípulos
e viram vazio o meu sepulcro. João e Pedro acreditaram, então, firmemente na
Ressurreição, e saíram daquele lugar meditando nas palavras a eles transmitidas
pelas mulheres. E talvez não tenham, no momento, dado atenção, ali no jardim, a
uma criança chorando pelo pai, guardando a sepultura, a mais humilde entre
todas. Estava ali a mulher que um dia vi elevar-se e purificar-se: Maria de
Magdala. estava trespassada por sua dor imensa e queria estar ali, gemendo e
chorando, bebendo o seu pranto, como o fazem as crianças, quando não são
acalentadas. Pelo jardim, agora ela vê um homem vestido de branco a atravessar
um pequeno caminho. Agrada-me surpreendê-la:
- Mulher, por que
choras? A quem buscas?
E já era tão
modificado o meu todo que Maria não me reconheceu, supondo que eu era o
jardineiro. Eu a conhecera criança, ela me vira e acompanhara por todos os anos
de pregação, mas ali meu semblante tinha marcas desconhecidas de sua
convivência.
- Senhor, disse-me
ela, - se o haveis tirado daí, dizei-me onde o pusestes e eu irei buscá-lo e o
levarei comigo.
Então, eu a nomeei por
seu próprio nome: Maria. Seu rosto se transtornou. Sua entrega ao momento quase
a abateu. E me reconheceu e arrojou-se a meus pés:
- Meu Senhor! Meu
Senhor!
E me beijava os pés.
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Perguntariam mais
tarde os apóstolos por que à Maria de Magdala eu apareceria em primeiro lugar,
na reconciliação e na redenção do pecado. Fi-la levantar-se:
- Não pertenço mais à
Terra. Em breve me distanciarei de todos para voltar a meu Pai que é também
vosso Pai. A meu Deus que é também vosso Deus.
E ela não mais me viu.
E o horto ficou deserto e só o canto dos pássaros lhe fizeram companhia, o
bulir das árvores e a graça da manhã, manhã de Páscoa, a que me recebera.
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Porque eram homens,
havia entre eles o ciúme dos homens. E meus discípulos levariam muito tempo a
perguntar: - "Por que, por que, o Senhor, à Maria Magdala apareceu
primeiro?" E se a seu lado, de Pedro, de João, de Tiago, de André, eu
estivesse em pessoa, na carne que vesti, poderia responder, como agora vos digo
a vós em meu Memorial:
- Porque no jogo
infinito do amor eterno existe a mesma natureza de qualquer amor humano, que
perdoa, e tanto mais ama quanto mais perdoa.
(Memorial de Cristo
II, Eu, Jesus, 1977.)
*
Escritora, a segunda mulher a ser guindada às Academia Brasileira de Letras.
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