domingo, 29 de abril de 2018

Sol, som, só - Pedro J. Bondaczuk


Sol, som, só



* Por Pedro J. Bondaczuk


Sol.
Som.
Só.

Soluço sombrio
solvendo sossego,
saindo sozinho
sem solução.

Sombras salientes,
severas, soturnas,
sangram, sicárias,
suas saudades.

Sonhando,
sofrendo,
suando,
sabendo,
semeio
safiras,
seduzo
sereias,
saqueio
sampanas,
sibilo
sonetos,
sossego
sabendo,
sentindo
ser só.

Sol,
suor,
seiva...
Sons,
silvos,
sambas.
Saudades,
"soledades",
solidão...

(Poema composto em Campinas, em 30 de outubro de 1982).


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk


Discrepâncias do mercado editorial - Solange Sólon Borges


Discrepâncias do mercado editorial


* Por Solange Sólon Borges


Nem só de metáforas e belos enredos a literatura é feita. Há discrepâncias que a permeiam. Primeiro, em caráter numérico; segundo, em termos de mercado.

Vejamos o primeiro. Pesquisa recente (6/2006) divulgada pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL) indica que o faturamento das editoras subiu cerca de R$ 902 milhões, em 1991, para o patamar de R$ 2,5 bilhões, em 2004. O BNDES tira outros números da manga: o faturamento teria diminuído 48% entre 1995 e 2003. A CBL argumenta que se utiliza de valores nominais para a pesquisa. Os economistas da UFRJ, que assinam a pesquisa do BNDES, usam valores deflacionados, operando com o valor real do real em séries históricas. Discussões econômicas à parte, há outros dados preocupantes.

No 34º Encontro de Editores e Livreiros, realizado em agosto de 2006, em Fortaleza, foram apontados outros fatores para essa salada numérica. Fábio Godinho (diretor geral da Larousse) disse que o mercado encolheu 26% nos últimos 10 anos. Desde 1995 as vendas caíram 23% no varejo e as compras do governo — indiscutivelmente o maior comprador do país — 31%. Uma renda maior do brasileiro, somada à universalização do Ensino Médio não modificou esse mercado estagnado. O preço do livro, entre 1999 e 2005, andou subindo mais do que a inflação, levando-se em conta o IPCA do IBGE.

Não dá realmente para entender para aonde se caminha — e se realmente se caminha. Houve um crescimento de 60,83% na venda de livros em supermercados e de 48,19% em bancas de jornal, além de uma queda surpreendente nas vendas feitas pela internet, segundo dados da Pesquisa Mercado Editorial Brasileiro 2005 (Fonte: Globo on line). O mercado aqueceu ou gelou? Redes de livrarias apostam em novos pontos, livreiros independentes fecham suas portas... Afinal, trabalhar com livros é ou não é um bom negócio, no Brasil? Fica a dúvida no ar.

A perenidade ou a eternidade do livro é tema de outra discussão. Afinal, qual o impacto da era digital sobre o livro? E como se relacionar com o conteúdo de uma forma diferente?

No Brasil, a Biblioteca Livre sonha em reunir o catálogo das bibliotecas, disponibilizando os dados na net. A informação poderá ser mais democrática ao tentar integrar diversos acervos num único site. Se por um lado essa iniciativa da SABIN — Sociedade de Amigos da Biblioteca Nacional — junto com engenheiros da UFRJ e patrocínio da IBM lembra a tão sonhada Biblioteca de Alexandria, ela está longe de ser concretizada, na prática. Hoje a Google, que digitaliza o acervo completo das cinco maiores bibliotecas do mundo, tropeça no respeito à propriedade intelectual, jogando areia nas previsões feitas em 2000 que 10% do mercado editorial seriam digital até 2005. Fizeram bem melhor nossos amigos em 280 a.C em Alexandria, concentrando 70% da produção da época, segundo alguns historiadores, sem as facilidades da internet, movidos pelo amor aos livros ou pelo controle do saber. No mundo digital, se avança menos. Indiscutivelmente. E, no mercado editorial, temos uma ligeira noção para aonde se caminha de fato. Espero que pelo melhor caminho que inclua o amor aos livros e o prazer pela disseminação do conhecimento.

* Jornalista, dedica-se a diversos gêneros literários. Entre outras atividades, atua em alguns programas “O prefácio”, sobre livros e literatura. Um deles é o programa Comunique-se, levado ao ar pela TV interativa ALL TV (2003/2004). Apresentou, também, “Paisagem Feminina”, pela Rádio Gazeta AM (1999), além de crônicas diárias na Rádio Bandeirantes e na Rádio Gazeta — emissoras das quais foi redatora, repórter, locutora e editora.
 


Sorriso da sociedade - Afrânio Peixoto


Sorriso da sociedade

* Por Afrânio Peixoto

Não tenho motivos para modificar minha definição de Literatura... A Literatura, ou as belas-artes, comparei-as ao sorriso da sociedade porque só nas épocas felizes a gente sorri. Nas de apreensão e tortura não há sorriso. O erro dos que, sem atentarem bem para ela, combateram e combatem minha definição, está em que eles supõem que eu tenha dito "sorriso do homem", quando o que eu escrevi foi "sorriso da sociedade". Está claro que não poderia nunca dizer que a Literatura é o sorriso do homem: primeiro porque este, para mim, não existe, não passa de simples elo de uma cadeia infinita; e, segundo, porque não ignoro que toda grande obra é feita, com a gestação, na dor. Mas só um ambiente social tranquilo e feliz permite o aparecimento de um livro notável. No tempo de Balzac, como havia abastança social, o autor de Père Goriot pôde dedicar-se a criar vida para gozo da sociedade. E só uma sociedade feliz aplaudiria Balzac. Das torturas de sua doença e de suas prisões na Sibéria, no cárcere e no hospital, Dostoiévski, através de seus livros, saía de si para a sociedade que o admirava.
Insisto que o equívoco está em imaginarem que eu tenha escrito que a Literatura é o sorriso do homem. Só um louco diria isso, pois, de acordo com semelhante conceito, apenas os soberanos, os ricos, os poderosos fariam letras. E é sabido que estes, em geral, nada produzem que se aproveite. Uma raiz atormentada, no fundo da terra, desabrocha nas flores de um vergel. A arte é o sorriso da sociedade. Pouco importa que o artista, pessoalmente, sofra. "De minhas penas fiz canções aladas", disse Henrique Heine, e a sociedade feliz, que o admirava, o aplaudiu. Agora, nem os ricos, os poderosos, os felizes conseguem realizar obra de arte, porque a sociedade sofredora não sorri... A Literatura não pode vir da indiferença ou da preocupação. A poesia já morreu, ao menos provisoriamente. Os romances são reportagens ou confissões. Quando muito, vidas romanceadas. Ensaios e mais ensaios... Em Bizâncio era gramática e teologia. Agora, no Brasil, política e ortografia. A volta da Literatura será prenúncio de bom tempo. Que venha!
(Apud Homero Senna, República das letras, pp. 101-102.)

* Médico, político, professor, crítico literário, ensaísta, romancista e historiador, membro da Academia Brasileira de Letras.


As línguas faladas no Acampamento Terra Livre - José Ribamar Bessa Freire


As línguas faladas no Acampamento Terra Livre


* Por José Ribamar Bessa Freire

Cerca de 3.000 índios acamparam de 23 a 27 de abril, em Brasília, na 15ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL). Realizaram reuniões, rodas de conversas, plenárias e exposições no Memorial dos Povos Indígenas. Peregrinaram pelo Judiciário, Legislativo e Executivo e marcharam pela Esplanada dos Ministérios que tingiram de vermelho para simbolizar o sangue derramado no ininterrupto genocídio. Cantaram, dançaram, rezaram. Clamaram e reclamaram. No encerramento, projetaram a laser no Congresso Nacional, a principal reivindicação: “Demarcação Já” e “Terra Livre”.

No entanto, quem viu os noticiários da TV não tomou conhecimento da maior mobilização anual organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) com apoio de órgãos indigenistas e socioambientais. A mídia, que minimizou ou ignorou olimpicamente o fato, estava concentrada no filho de Kate e William, nascido em Londres com 3,8 kg, às 11h01 como nos informou o deslumbrado correspondente da TV Globo, Pedro Vedova, com a precisão milimétrica do minuto. A expressão de fascínio do outro William, o Bonner, no Jornal Nacional, era melosamente patética. Ele aparentava uma surpreendente intimidade com a coroa britânica.

Durante toda a semana, os jornais televisivos narcotizaram o telespectador brasileiro, discutindo com inusitada euforia os prováveis nomes do recém-nascido indicados nas casas de aposta de Londres, mas não informaram sobre os índios que acamparam na capital do país e que além da demarcação exigiam punição para os assassinos de Marielle. Havia ali representantes de mais de 150 povos, falantes de dezenas de línguas. Quase todos bilíngues, usaram o português como língua interétnica, mas em alguns casos cada grupo dialogava internamente em sua própria língua, algumas com pouco falantes, em perigo de extinção. Outras já decepadas, vítimas do glotocídio.

No batel de Cabral

A cobertura do ATL, que não foi feita, podia ser um gancho para a mídia defender a rica diversidade linguística do país, constituída não apenas pelas diferentes línguas ameríndias presentes nos rituais, nas danças, nas rezas, nos cantos e nas cerimônias celebrados quase sempre à noite, mas também pela variedade indígena do português de contato usado nas plenárias, uma das quais – o português xinguano falado por diferentes grupos étnico-linguísticos do Alto Xingu – teve seu perfil sociolinguístico traçado pela pesquisadora Charlotte Emmerich.

Nada disso foi mostrado. A língua parece Deus, está em todo lugar, mas ninguém vê, nem mesmo aqueles que têm fé. Os telejornais, focados no neto do príncipe Charles, ignoram o plurilinguismo do Brasil observado pelas caravelas que aqui aportaram naquele longínquo abril de 1500, segundo Pero Vaz de Caminha em sua célebre carta.

O escrivão da frota relata que o almirante Pedro Alvares Cabral, ao avistar gente na praia, enviou na frente uma pequena embarcação com batedores para estabelecerem contatos iniciais. A escolha de quem devia ir no batel se baseou em critérios de competência linguística: Nicolau Coelho, que havia vivido na Índia e falava o hindi; Gaspar da Gama, que dominava o árabe e outros idiomas; um marujo da Guiné que conhecia bem algumas línguas africanas e um escravo da Angola, competente em quimbundo. 

Os portugueses poliglotas saltam na praia, falam as línguas que sabem, os índios respondem nas suas e ninguém entende bulhufas. Através de gestos, convidam alguns homens e mulheres a irem com eles até a nau capitânia. Lá, os índios reparam um crucifixo de ouro no peito do Cabral e alguns adornos de prata e apontam para a terra firme. Foi o suficiente para todos acharem que eles estavam indicando a existência de muito metal precioso naquela região. Mas Caminha, cauteloso, adverte que eles podiam estar apenas manifestando desejo de levar com eles aqueles adornos.

Sem rei nem lei

A falta de comunicação prevaleceu no território que é hoje o Brasil, onde eram faladas no séc. XVI cerca de 1.300 línguas, mais de 1.100 delas silenciadas em quinhentos anos, vítimas do preconceito do colonizador, como pode ser observado no discurso de Pero Magalhães Gandavo, que confunde língua com escrita, ao afirmar que “a língua tupinambá não tem as letras f, l r, cousas dignas de espanto porque assí não tem fé, nem lei, nem rei e desta maneira vivem sem justiça e desordenadamente”.  

Outra, no entanto, foi a impressão de Frei Vicente do Salvador em sua História do Brasil: 1500-1627. Para ele, as línguas indígenas eram “mui compendiosas”, possuidoras de “alguns vocábulos mais abundantes do que o nosso português”, porque “nós a todos os irmãos chamamos com um único nome e ao tio também”, enquanto eles, ao irmão mais velho chamam de uma maneira, aos outros de outra. O tio paterno tem um nome e o tio materno outro e “alguns vocábulos só usam as fêmeas e outros só os machos”.

Tal consideração coincide com a fala da guarani Sandra Benites, mestre em antropologia, que participou na UERJ da mesa de encerramento do curso “Educação Descolonizadora”. Existem duas palavras em guarani para designar irmão: uma para o irmão maior e outra para o menor. Mas o homem designa suas irmãs mulheres com uma terceira palavra - (t)xereindy -  que significa algo assim como “luz de minha vida”:

- Sem irmã, o homem não existe, vive perdido na escuridão – disse Sandra, acrescentando que o termo usado pela irmã para chamar seu irmão maior é xe kywy, que numa tradução livre e poética significa “aquele que está sempre ao meu lado”. De acordo com o modelo defendido por Gandavo, os falantes de português não seriam, então, capazes de estabelecer relações fraternas como os guarani.

Na Terra Livre

De Cabral ao Jornal Nacional, durante mais de cinco séculos, o Brasil continua incapaz de valorizar sua diversidade linguística. Dessa forma, a mídia não nos permitiu ouvir as vozes de dezenas de mulheres que se revezaram ao microfone na plenária realizada na tenda principal do Acampamento Terra Livre, nem tampouco os discursos dos caciques e dos jovens indígenas que tiveram um espaço próprio para se expressar. Preferiu reproduzir os berros de um fajuto arauto inglês anunciando o nascimento em Londres do bisneto da rainha.

O documento final aprovado pelos índios no ATL lança um clamor contra a invasão das terras que milenarmente sempre souberam proteger e cuidar e contra o genocídio que continua. Condena “a falência da política indigenista” no atual cenário que é “o mais agressivo contra os direitos indígenas desde a redemocratização do país”. Denuncia a paralisação das demarcações das terras indígenas” assim como “a anulação dos nossos direitos territoriais”. Acusa ainda “o governo ilegítimo de Michel Temer” por haver negociado os direitos indígenas com a bancada ruralista incentivando a violência.

Entre as reivindicações mais urgentes, o documento lista a demarcação e proteção de todas as terras indígenas, a imediata retirada dos invasores das terras já demarcadas, “o arquivamento de todas as iniciativas legislativas que atentam contra os nossos povos e territórios”, o atendimento básico à saúde, o reconhecimento da “natureza pluriétnica do Estado Brasileiro consagrado pela Constituição Federal de 1988” e o cumprimento “dos tratados internacionais assinado pelo Brasil, de modo especial a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Embora o documento não traga nenhuma referência explícita ao direito de uso de suas próprias línguas, a questão fica contemplada na reivindicação sobre o cumprimento “da política de educação escolar indígena diferenciada e com qualidade, tal como foi formulada nas propostas da II Conferência Nacional de Educação Indígena que contemplam os territórios etnoeducacionais”.

A cobertura da mídia tem mais a ver com o complexo de vira-lata do que com critérios do que é ou deixa de ser notícia.


P.S. – No dia da abertura do ATL, em Brasília, e do nascimento de Louis Arthur Charles, em Londres, se encerrava no Rio às 21h27 o curso “Por uma Educação Descolonizadora” coordenado pela doutora Danielle Bastos Lopes, professora do CAp-UERJ, com mesa formada por Sandra Benites, Renato Nogueira e este locutor que vos fala, cuja exposição foi aqui resumida.  


* Jornalista e historiador.

Pássaros - João Alexandre Sartorelli


Pássaros

* Por João Alexandre Sartorelli

Sempre é muito tarde
Ou muito cedo.
Sempre na hora errada
Apareço.
Ontem nos olhamos,
Te pedi um momento.
Antes que venham os anos
E cesse o vento

* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação


sábado, 28 de abril de 2018

Índice


Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Doze anos, um mês e um dia de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – Definição de rumos.

Coluna Direto do ArquivoSérgio Vilas Boas, capítulo de romance, “Sujeito Zero (19)”.

Coluna ClássicosOlavo Bilac, poema,Nel mezzo del camin...”.

Coluna Porta AbertaFlora Figueiredo, poema, “Felicidade”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “Chico da Cobra”.

Coluna Porta Aberta – Francisco Simões, poema, “Magia”.

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DESAFIO E PROPOSTA

Meu desafio está atrelado à proposta que tenho a fazer. Explico. Diz-se que a internet dá visibilidade a escritores e facilita negócios. É isso o que quero conferir. Tenho um novo livro, dos mais oportunos para um ano como este, de Copa do Mundo de Futebol. Seu título é: “Copas ganhas e perdidas”. Trata-se de um retrospecto de mundiais disputados pelo Brasil (que disputou todos, por sinal), mas não sob o enfoque do profissional de imprensa que sou, mas de um torcedor. É um livro simultaneamente autobiográfico e histórico, que relata como e onde acompanhei cada Copa do Mundo, de 1950 a 2014, da minha infância até meus atuais 75 anos de idade. Meu desafio é motivar alguma editora a publicá-lo, sem que eu precise ir até ela e nem tenha que contar com algum padrinho, apenas pela internet, e sem que eu tenha que bancar a edição (já que não tenho recursos para tal). Insistirei nesta tentativa até que consiga êxito, todos os dias, sem limite de tempo. Basta que a eventual editora interessada (e espero que alguma se interesse, pois o produto é de qualidade) entre em contato comigo no inbox do Facebook ou pelo e-mail pedrojbk@gmail.com. A proposta e o desafio estão lançados. Acredito que serei bem sucedido!!!

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CITAÇÃO DO DIA:

Trabalho degenera 

O trabalho torna o homem mau e cruel, e não bom como Zola afirma... Trabalhar em nome da ciência? Mas que harmonia de vistas, que certeza existem na ciência? Os sábios vivem a desmentir-se mutuamente. Será nossa virtude e nossa glória trabalhar como a formiga da fábula, sem razão e sem direção? Mas todos os grandes criminosos trabalham muito! Os vendedores de ópio, de munições e de fumo são homens que vivem atarefadíssimos! O que precisamos é de paz, e não como Zola afirma, de trabalho e de luta. Necessitamos parar de trabalhar para nos reaviarmos no caminho que perdemos. Isto só se pode conseguir pela inação e pela reflexão, pois a única realidade reside no ideal.

(Leon Tolstói, citado no livro "Zola e seu Tempo", de Mathew Josephson).




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Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Editorial - Definição de rumos


Definição de rumos


O homem tem que definir objetivos, estabelecer metas, determinar um rumo razoavelmente possível de conduzi-lo ao sucesso. Sem isso, não chegará a lugar algum, a não ser ao destino comum de todos os seres viventes, animais ou vegetais: a morte. E esta, infelizmente, é a única e rigorosa certeza que temos. Sem essa espécie de “roteiro”, o homem caminhará em círculos, sem chegar a lugar algum e exaurindo as forças por nada. Nossa jornada no mundo caracteriza-se pelo incerto, pelo desconhecido, pelo casual. Quando nascemos, não nos acompanha nenhum manual de instruções dando conta de como devemos proceder para funcionar bem. Nós é que temos que descobrir como fazer isso.

Para traçar rumos corretos – profissionais, pessoais e até mesmo, ou principalmente, espirituais – é necessário que as pessoas entendam que vivem por alguma razão e que esta não se restringe a comer, beber, dormir, reproduzir-se e morrer, para que sua descendência percorra o mesmo ciclo indefinidamente, buscando apenas, e quando muito, conquistas materiais e a satisfação dos sentidos.

Frise-se que o fato de se estabelecer objetivos não dá nenhuma certeza a ninguém de que eles serão atingidos, mesmo que sejam aparentemente factíveis e fáceis de alcançar. Contudo, essa atitude prudente concentra forças em determinado alvo, evita a dispersão e, até pela lógica, proporciona mais condições de sucesso. Evita, por exemplo, ações erráticas e contraditórias, que nos fazem marcar passo e que não permitem que se saia do lugar. Organiza, enfim, a vida das pessoas.

Não é por acaso que esse ser complexo e ainda primitivíssimo (em termos de relacionamento) é dotado de razão e livre-arbítrio. Conta com essas características para promover o próprio desenvolvimento mental e espiritual (entendendo-se aqui "espírito" como a essência do indivíduo) e, por consequência, o da espécie. Não vivemos sós no mundo. O convívio social implica em permanente interdependência. Assim como dependemos dos outros (e são tantos!) para sobreviver, muitos, com certeza, também dependem ou virão a depender um dia de nós.

A vida ganha novo sabor, e adquire grandeza e transcendência, quando a usufruímos em toda sua plenitude, com suas dores e prazeres, alegrias e tristezas, sucessos e fracassos. Mas ela apenas terá sentido, reitero, quando lhe impusermos algum. Quando estabelecermos um objetivo e empenharmos todo o nosso imenso (mas desconhecido) potencial no seu alcance.

Para alcançarmos a felicidade – que sempre está dentro de nós e que nos compete descobrir e conservar – temos que relevar nossas fraquezas, embora sem deixar de nos empenhar para superá-las. Se não superarmos todas, as poucas que conseguirmos eliminar já nos deixarão no lucro. É preciso ter coragem e forças de nos levantar sempre que viermos a tropeçar e a cair, e persistir, persistir sempre, de maneira incansável, com determinação e fé, na busca da concretização do nosso ideal. Ou seja, dos tais objetivos que estabelecermos (isso, caso os estabeleçamos, claro).

Estou convicto de que viemos ao mundo com alguma finalidade que, certamente, não é a de meramente sofrer e nem a de nos colocarmos à margem da sociedade e da vida. Compete-nos detectar e, quando não, estabelecer nossa razão de viver. Fedor Dostoievsky observa, com pertinência, a propósito: “O segredo da existência humana não reside só em viver, mas também em saber para que se vive”. Pois é, para que? Parece simples, a resposta parece óbvia, mas não é.

O fotógrafo norte-americano Edward Steichen, acostumado a flagrar as cenas mais chocantes e incompreensíveis do cotidiano, observou certa feita: "É possível compreender os estragos da bomba atômica. Mais difícil é entender o significado da vida". Aliás, tarefa dessa natureza e magnitude virtualmente raia ao impossível, dada sua complexidade. A compreensão do intrincado mecanismo vital é mais fácil e a cada dia fica mais clara.

A morfologia e o funcionamento das células, tecidos, órgãos, aparelhos e organismos vivos já perderam quase todos os mistérios. Cientistas já mapearam a totalidade dos genes humanos. Bebês de proveta há muito deixaram de ser novidade. A engenharia genética é capaz de mesclar características de diferentes espécies numa só (os transgênicos) ou de clonar qualquer um de nós, partindo de quaisquer das nossas células. Mas qual é a "razão de viver"? Qual a verdadeira finalidade da existência? Existe alguma? Há uma única? São várias? Como se vê, a questão é muito, mas muito mais complexa do que se possa supor.

Para tentar responder a essa “Esfinge”, que a cada instante nos questiona e desafia, temos o recurso da inteligência. Podemos (e devemos) usar a imaginação, essa maravilhosa capacidade com que fomos dotados de “criar” o abstrato e até o inexistente. Muitos, porém, inibem-na, reduzem seus recursos e, por conseqüência, suas possibilidades de sucesso. São os que se arrogam em “realistas” que, todavia, não sabem interpretar corretamente a tal da realidade.

O cronista mineiro, Paulo Mendes Campos, descreve, numa de suas tantas crônicas, o cenário ideal para a imaginação voar livre e veloz, em busca de dimensões e de mundos ideais. Em uma delas, intitulada “De um caderno cinzento”, datada de 17 de agosto de 1967, publicada na Revista Manchete, pincei este trecho que se refere ao cenário ideal para essas “viagens”: “Céu azul não conhece fronteira de sombra; céu azul é indispensável antes de tudo aos cegos; azul do céu não é cor, mas uma qualidade do mundo, uma luminosidade apreensível por todos os sentidos, fragrância, convivência mais delicada, concerto de sons, transparência do universo”.

Como se vê, a imaginação é, mesmo, veloz, imprevisível, mas, não raro, também dispersiva e caótica. Por isso, precisa ser direcionada, e sempre, para o lado positivo e belo da vida. Se fizermos o contrário, conheceremos o inferno e seus incontáveis sofrimentos. Tem, por isso, como campo preferido de atuação, o espaço infinito, ou seja, a imensidão sem limites, o céu sem fronteiras. Mas tudo isso deve ter uma finalidade: a de tentar concretizar os objetivos que estabelecermos. Claro, se o fizermos e, principalmente, se eles forem factíveis.


Boa leitura!

O Editor.


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