sábado, 29 de abril de 2017

A Poetisa das Américas



A literatura latino-americana de língua espanhola vem produzindo, ao longo dos dois últimos séculos, escritores de primeiríssima linha, no romance, na poesia, no conto, na crônica, no ensaio etc., que extrapolam, não apenas as fronteiras dos seus países de origem, mas do continente e, principalmente, do hemisfério. Conquistaram, com seu talento e magia, a merecida universalidade. E quanto mais o tempo passa, mais suas obras se consolidam, se impõem, luzem pela extraordinária beleza e pelas qualidades temáticas, artísticas e de estilo que ostentam.

Nomes como os de Pablo Neruda, Jorge Luís Borges, Gabriel Garcia Marquez, Octávio Paz, Mário Vargas Llosa, Carlos Fuentes, Augusto Roa Bastos, Ernesto Sábato, Júlio Cortazar, Amado Nervo, Rubén Dario, Juan Rulfo e tantos e tantos outros, impõem-se, com justiça, como marcos literários da humanidade. Alguns conquistaram, com amplos méritos, o cobiçado Nobel de Literatura. Outros integram a vasta galeria dos injustiçados, daqueles que mereceram o prêmio sem, no entanto, ser agraciados com ele (na qual devem ser incluídos, sem dúvida, vários brasileiros, como Jorge Amado, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Mello Neto, Manuel Bandeira, João Guimarães Rosa e vários outros)..

Embora traduzidos em praticamente todas as mais importantes línguas do Planeta, editados nos mais diversos e remotos lugares do mundo (e, claro, também no Brasil), alguns desses escritores são pouco conhecidos entre nós, mesmo pelos nossos mais eruditos intelectuais. Parece, salvo honrosas exceções, que o brasileiro nutre até um certo preconceito em relação a luminares da Literatura da América Latina. Mesmo dos consagrados, que conquistaram o Nobel, é mister frisar. Nossa influência literária – diria estética, incluindo as artes plásticas e a música erudita – é, basicamente, européia, notadamente francesa e russa.

Uma das escritoras menos conhecidas (e menos lidas) em nosso país é a poetisa chilena (há quem diga, não se sabe porque, que esta expressão tem cunho machista!) Lucila Godoy Alcayaga, que se consagrou mundialmente com o pseudônimo de Gabriela Mistral. Trata-se de figura extremamente fascinante, sob qualquer aspecto que se analise, tanto no da sua vida pessoal, marcada pela trágica perda do único homem que, de fato, amou (ele suicidou-se quando tinha apenas 17 anos de idade), quanto na da profissional, (professora por escolha e vocação), e na da literária.

Natural da Patagônia chilena, dos vales frios e permanentemente nevados de Elqui, onde nasceu em 7 de abril de 1889, na cidade de Vicuña, era dotada de extraordinária sensibilidade e habilidade no manejo do idioma. Só poderia, mesmo, acabar poeta, como acabou. E mais: premiada, com justiça, com o Prêmio Nobel de Literatura em 1945 pelo livro, "Desolación", que segue sendo reeditado, sucessivamente, em vários países da América Latina e principalmente no seu Chile natal, tantos anos após a sua morte. Pois, à medida que o tempo passa, mais a sua poesia ganha interesse e permanência, por sua universalidade, transcendência e, sobretudo, por ser atemporal.

Entre suas muitas obras – a maioria dos textos escrita para jornais e álbuns de recordações de amigos – destacam-se: “Ternura” (editada em 1924, dedicada a pequenos poemas, como “Halazco”, “Apegados a mi” e “Piececitos”); “Leituras de mulheres e crianças” (1924); “Nuvens Brancas”(1929, de prosa): “Breve descrição do Chile” (1934); “Tala” (que Gabriela Mistral considerava sua obra-prima, lançada em Buenos Aires, em 1939, cujos direitos foram doados às crianças vítimas da Guerra Civil espanhola, onde está incluído o magnífico poema “Todas deveríamos ser rainhas”); “Poema das Mães” (1950); “Lagar” (em prosa e verso, 1954); “Recados contando o Chile” (póstuma, 1958, recompilada pelo padre Alfonso Escudero); “Epistolário” (1960) e “Poema de Chile” (1966, organizada por sua enfermeira, companheira e amiga, a norte-americana Doris Dana, nove anos após a sua morte).

A notável escritora – que não se considerava como tal, mas como simples professorinha, atividade que tanto amou e exerceu, com carinho, dedicação e incomparável devoção, por muitos e muitos anos – e diplomata – foi, entre outras coisas, cônsul chilena na cidade fluminense de Petrópolis – morreu, no Hospital Geral de Hampstead, em Nova York, às 4h10 de 10 de janeiro de 1957. Seu falecimento, aos 67 anos, causou enorme comoção no Chile. Seus funerais foram apoteóticos, com honras de chefe de Estado, e ocorreram em 21 de janeiro, em Santiago, reunindo imensa multidão, que acompanhou, comovida e desolada, o sepultamento dos seus restos mortais.

O governo chileno decretou, na oportunidade, três dias de luto oficial. Houve homenagens para a extraordinária escritora em toda a América Latina e na maioria dos países do mundo. Por disposição testamentária – em documento lavrado em Nova York, em 17 de novembro de 1956 – Gabriela Mistral doou todos os direitos autorais de suas obras que fossem publicadas dali em diante, na América do Sul, às crianças de Monte Grande. Foi mais um (e último) gesto de grandeza e de solidariedade desta que é, com toda a justiça, considerada a “Poetisa das Américas”. Voltarei, certamente, a tratar, em outras tantas oportunidades, da sua trajetória de vida e, principalmente, da sua obra.


Boa leitura!


O Editor.


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Quando a felicidade não é possível


* Por Anna Lee


Melodia (Da Ópera de Orfeu e Eurídice) invade Páginas da vida. E provoca em mim um prolongado suspiro em razão do alívio, quase uma satisfação, que a música leva ao mundo de infortúnios criado por Manoel Carlos para a novela das oito da Globo.

Entra em cena a bailarina Giselle, uma adolescente de 15 anos. Certo dia, inesperadamente, ela se depara na porta do edifício em que mora com um piano de cauda que está sendo içado por cordas para uma das janelas. Ela pára, admirada. Quem seria o pianista?

A resposta Giselle obtém quando escuta uma linda música vinda da porta vizinha à sua. Como se estivesse hipnotizada, ela persegue a melodia. A porta está entreaberta e a menina penetra no apartamento recém-ocupado. Fascinada, percorre o salão por entre móveis e caixotes, deixa-se guiar pela música e, então, encontra um rapaz sentado diante do piano. Ela não consegue ver o rosto dele, apenas os cabelos cacheados. Ao pressentir que alguém o observa, Luciano vira e encara Giselle. Ele tem olhos profundos e desprotegidos. O amor surge à primeira vista.

Os dois passam a se encontrar na casa do rapaz, quando os pais saem para trabalhar. Luciano toca piano para Giselle dançar e assim passam muitas tardes. Vivem um amor de poucas palavras e muito lirismo. Melodia continua a ressoar na novela das oito, executada por Nelson Freire.

O tema musical cai bem ao casal. O mito grego de Orfeu e Eurídice é uma das mais famosas histórias de amor de todos os tempos, em que o herói – que, com a sua música, tem o poder de comover e apaziguar os animais selvagens – desce ao inferno para recuperar a amada morta. O inferno de Giselle é a bulimia, doença da qual sofre desde criança, por causa da pressão da mãe que exige que ela seja magra para se tornar uma grande bailarina. Depois de conhecer o pianista, a menina passa a gostar de balé e talvez tenha um futuro brilhante.

Giselle e Luciano estão apaixonados. Passam horas e mais horas juntos. Quase não se falam, mas entreolham-se demoradamente. Passeiam pelo Leblon de mãos dadas. Andam de bicicleta pela Lagoa. Ao fundo, Melodia ainda ressoa.

De repente, os dois adolescentes são abordados por bandidos. Luciano é filho de uma procuradora da República sempre envolvida com processos e denúncias contra criminosos, que agora querem se vingar atingindo o rapaz. Vida real. Páginas da vida. Luciano se assusta. Manda a namorada fugir. Os dois correm de bicicleta desesperadamente. Giselle atravessa uma rua, um carro vem em sua direção, ela não vê e é atropelada.

Não há mais clima para Melodia. Não há felicidade possível na novela de Manoel Carlos, que parece convicto de que toda grande obra é feita com a gestação da dor. Dor essa que ele deixa refletir nas suas páginas da vida.

Impressiona o panorama que Manoel Carlos traça da calamidade que é ser humano: o namorado abandona a namorada grávida de gêmeos; a mãe rejeita a filha grávida; a avó dá como morta a neta que tem síndrome de Down; o alcoólatra é deixado pela mulher e transforma a vida da filha num inferno; a freira se culpa pelo passado e se pune ajoelhando-se em pedras... Em Páginas da Vida há traição; ambição; casamentos desfeitos; inveja, ira; luxúria; avareza... Nenhum personagem de Manoel Carlos é feliz, não importa a crença, a raça, a condição social ou o caráter. Todos sofrem. Giselle e Luciano não resistiram. Foram separados. O pianista foi passar uns tempos em Petrópolis. A bailarina chora. Temo que Melodia nunca mais me faça suspirar.

  • Texto publicado na Revista Flash

*Jornalista, mestranda em Literatura Brasileira, autora, com Carlos Heitor Cony, de "O Beijo da Morte"/Objetiva, ganhador do Prêmio Jabuti/2004, entre outros livros. Colunista da Flash, trabalhou na Folha de S. Paulo e nas revistas Quem/Ed.Globo e Manchete.






O escudo de Minerva


* Por Humberto de Campos


Mão nervosa e febril, Fídias sonha e trabalha.
A alma paira, genial, nas alturas serenas,
E o cinzel, a ranger, morde a matéria, e talha
A figura imortal da Senhora de Atenas.

Trabalha. A fronte, o braço, a alta cabeça, o escudo,
E a petrina, a guardar dos seios o tesouro,
Surgem, formando a deusa, hirta e solene; e tudo
É talhado em marfim, cortado em pranchas de ouro.

E a estátua, um dia, enfim, no alto templo descansa;
O peito colossal quase ofega e respira.
E, apinhada a seus pés, sob a base da lança,
A helênia capital, sábia e inteira, delira.

Todo o que olha, em respeito, aqueles trinta e nove
Pés de altura de Atena, evoca os tempos, quando,
Assim bela, ao surgir da cabeça de Jove,
Pela glória da Hélade andara batalhando.

O gesto, a calma, o olhar, a firmeza do porte,
A face do broquel e a lança em que se apoia,
Dizem bem quem levou o estrago, a angústia, a morte,
Pelo braço do grego, às falanges de Troia.

A audácia de Patroclo e a doida valentia
Da heroica multidão que os impérios invade,
Vieram da proteção e da Sabedoria
Da Senhora Imortal da Grécia e da Cidade.

E ei-la, ali, bela e só, como vinda doutra era
Ao báratro sem fim das misérias terrenas,
Para ver, e abençoar com a presença severa,
As conquistas da Grécia e a grandeza de Atenas.

O lábio que inspirara o discurso de Ulisses
E da nau de Jasão dera o modelo novo,
Era ali, belo e moço, austero e sem meiguices,
Mas, na sua mudez, a beijar seu povo.

De repente, porém, olhando o escudo sobre
O alvo pulso de Atena, alguém, afeito a insídias,
Espantado, e a gritar, à multidão descobre,
Na face de broquel, a figura de Fídias.

O soberbo escultor, na alta febre que o inspira,
No seu orgulho hostil, de artista intemerato,
Mão tremente, olhar louco, em delírio, esculpira,
No divino broquel, seu humano retrato.

***

Assim, ó sonhador, que te acolhes na dobra
Do amplo manto de Apolo, e erras, em sonhos, a esmo,
Deixa sempre, insolente, impresso na tua obra,
Um traço da tu’alma e um pouco de ti mesmo.

Esquece, ao trabalhar, as humanas perfídias,
Mostra o teu coração, esculpe a tua ideia:
Como, outrora, imortal, o retrato de Fídias
Gravado no broquel de Palas Ateneia!


In: CAMPOS, Humberto de. Poesias Completas. Rio de Janeiro: W. M. Jackson Inc., 1951. (Obras Completas, 1). p. 215-217. Ortografia atualizada.



* Jornalista e escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.
A prosperidade dos ímpios


* Por Clóvis Campêlo


Meus pés quase resvalaram
ao invejar arrogantes,
que acumulam riquezas
e ocupam-se com malícias.

Têm os corpos bem nutridos
e semeiam a violência;
sua língua varre a terra,
zombam, oprimem e matam.

No entanto, estão em terreno
escorregadio e bruto,
precipitam-se em ruínas
por eles mesmos criadas;

são carne sem coração,
zumbis que andam sem alma,
desvairadas criaturas
negando a essência da vida.

Recife, 2008



* Poeta, jornalista e radialista.
Caixa de costura


* Por Flora Figueiredo


Venho costurando minha vida
com linhas de saudade.
Procuro equilibrar-lhes a cor
para que o resultado final não seja triste.
Por vezes, é o cinza que insiste;
por vezes, impera o marrom.
Ainda bem que tem saudade bonita;
mudo o tom, amarro fitas,
busco a outra ponta do novelo;
intercalo a trama em amarelo.
A saudade é assim mesmo,
tecelã do tempo.
Quando menos se espera,
arremata o momento,leva embora,
deixa a porta encostada, o cadarço de fora,
e nunca avisa a hora de voltar.
Ainda hei de costurar com verde florescente
e, se a saudade chegar autoritariamente,
vai se sentir enfraquecida.
Enquanto procuro a cor,
vou costurando a vida,
sem saber qual vai ser o resultado.
Caso ele não fique combinado,
dou um nó, encosto agulha, guardo a linha,
que essa culpa roxa não é minha.
É uma artimanha branca do passado. 



In O Trem Que Traz a Noite, 2000 


* Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida. 



Em busca do leitor perdido


* Por João Alexandre Sartorelli


Existe uma certa abundância de livros publicados e uma escassez de tempo & poder de compra por parte dos potenciais leitores.

Uma boa parte lê livros de leitura fácil. Uma minoria lê os livros de qualidade e os divulga entre essa mesma minoria. E são esses livros que provavelmente serão lidos no futuro. Ou não, é perigoso fazer previsões, principalmente sobre o futuro.

Fernando Pessoa só teve um livro publicado em vida, mas pela qualidade de seus versos é nosso grande poeta.

Enfim, o que vale é a qualidade do texto. Se não for lido agora, talvez seja no futuro como os poemas escondidos no baú do Pessoa. Ou não...

No meu caso, escrevo porque gosto de escrever. Se tiver qualidade o que escrevo, haverá leitores. E no mais, boa parte do que se escreve é puro lixo. Que não sejam julgados assim meus escritos!


* Analista de Sistemas por profissão e poeta por vocação

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, um mês e um dia de criação.


Leia nesta edição:

Editorial – O adjetivo sábio

Coluna Contrastes e Confrontos – Urariano Mota, crônica, “Eu também já fui ladrão”.

Coluna Do Real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, crônica, “Coach”.

Coluna Clássicos – Carlos de Laet, artigo, “Machado de Assis”.

Coluna Porta Aberta – João Luís de Almeida Machado, artigo, “Celular na sala de aula, o que fazer?”.

Coluna Porta Aberta – João Paulo Campos, crônica, “Se fosse possível provar...”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

“Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

“Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

“A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

“Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

“Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

“Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.