sexta-feira, 29 de abril de 2016

A fábula das certezas


* Por Rodrigo Ramazzini


Diálogo entre a Dúvida e a Certeza.

- Por que essa cara, hein?
- Nada! Por quê?
- Como nada? Está parecendo mais eu do que tu mesma...
- Pára com isso, Dúvida!
- Mas é verdade, Certeza! Esse teu aspecto de espanto não te é peculiar...
- Não é nada, não!
- Vamos! Desabafe...
- Não é nada mesmo!
- Não vem com essa para cima de mim! Eu te conheço... Somos parceiras há quantos anos, esqueceste? Vai fazer cena logo comigo!
- Não é nada, não!
- Como não é nada? Se tu assumiste a minha aparência. Estamos idênticas! Olhe-te no espelho... Parecemos irmãs gêmeas!
- Exagero de tua parte, Dúvida!
- Não é não! Tu estás irreconhecível! Pálida...
- É que...
- Cadê aquele ar de decidida, forte, cheia de energia, hein? Que quando eu habitava a consciência da Clarinha chegou e disse a ela cheia de convicção: “se eu fosse tu, terminava o casamento com o Rui!” E destilou argumentos... Cadê?
-É que agora...
- Tem o caso da Soninha, lembras? Ela não sabia o que fazer. Eu havia tomado-te completamente. Foi bonito de ver! Tu chegando e com um ar celestial proferiste cada sílaba como se fosse uma sentença final: “faça medicina, tem mais a ver com tua personalidade!”
- Mas agora é diferente...
- Diferente foi o caso da Célia, recordas? Eu e o medo nos juntamos. Que dupla infernal! Foi aqui que virei teu fã de vez. A mulher com um câncer em estágio avançado, todo mundo temendo por sua vida, menos quem, hein? Olha quem: Tu! Que com coragem entraste naquele cérebro e a fizeste acreditar que conseguiria vencer essa doença terrível. Meses depois do tratamento a mulher estava completamente curada!
- É que desta vez...
- Não adianta negar: tu és demais mesmo! Sou tua fã número um!
- É que...
- Então, depois de tudo isso, por que essa cara? O que foi agora?
- Questões sem respostas! É isso...
- O que estás me dizendo?
- O que ouviste...
- Estás... Estás em dúvida?
- Isso mesmo!
- Mas por quê? Meu Deus!
- Todas as convicções perdem os sentidos...
- Mas tu és a Certeza, ora bolas!
- Quando os problemas e as respostas são para os outros sou mesmo!
- Mas e agora?
- Agora sou eu que preciso de uma resposta. Nestas horas, não há certeza que não se questione e vire dúvida...

* Jornalista e contista gaúcho.



Um sonho


* Por Maciel Monteiro


(Ao embarque e partida de uma Senhora)


Ela foi-se! E com ela foi minh’alma
N’asa veloz da brisa sussurrante,
Que ufana do tesouro que levava,
Ia... corria... e como vai distante!
Voava a brisa e no atrevido rapto
Frisava do Oceano a face lisa:
Eu que a brisa acalmar tentava insano,
Com meus suspiros alentava a brisa!

No horizonte esconder-se anuviado
Eu a vi; e dois pontos luminosos
Apenas onde ela ia me mostravam:
Eram eles seus olhos lacrimosos!

Pouco e pouco empanou-se a luz confusa,
Que me sorria lá dos olhos seus;
E dalém ondulando uma aura amiga
Aos meus ouvidos repetiu adeus!

Nada mais via eu, nem mesmo um raio
Fulgir a furto a esperança bela;
Mas meus olhos ilusos descobriram
Numa amável visão a imagem dela.

Esvaiu-se a visão, qual nuvem áurea
Ao bafejar da vespertina aragem;
Se aos olhos eu perdia a imagem sua,
No meu peito eu achava a sua imagem.

Ela foi-se! ... E com ela foi minh’alma
Na asa veloz da brisa sussurrante,
Que ufana do tesouro que levava,
Ia... corria... e como vai distante!

Rio de Janeiro, 1851.


* Médico, jornalista, diplomata, político, orador e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras.
'Meu técnico é o caminhão': O lixeiro que já deixou muitos quenianos para trás na São Silvestre


* Por José Paulo Lanyi


Ivanildo Dias de Souza, de 36 anos, não falha na Brigadeiro. É o que ele mesmo diz, com orgulho, quando se lembra da avenida (Brigadeiro Luís Antonio, travessa da Av. Paulista) e sua ladeira de cerca de 2,5 km, trecho temido do percurso da Corrida Internacional de São Silvestre, que marca o último dia do ano em São Paulo.

Em 31 de dezembro, Ivanildo chegou na 25ª posição na prova mais tradicional da América do Sul. Tem deixado muitos quenianos para trás.

O atleta de elite, porém, tem um programa de treinamento único.

Seu dia começa às 8h, quando se levanta e deixa a casa que ele mesmo construiu em Itaquera, na zona leste de São Paulo. Pedala até o Parque Ecológico do Tietê, onde corre 20 km. Volta às 13h, dorme das 14h às 17h e vai de bicicleta até o trabalho, onde chega às 17h40.

Às 18h10, bate ponto e segue para as ruas, já com seu uniforme de coletor de lixo. Retorna à base por volta das 3h, chega em casa às 3h40, dorme das 4h às 8h e sai para mais uma rotina de exercícios – desta vez composta por "tiros", corridas de velocidade em um parque da Armênia, na região central da cidade, cujo nome ele não lembra.

"Já são 11 anos dormindo picado. E, quando faço treino forte, não consigo pegar no sono, fico meio estressadão, rolando na cama. Se tiver compromisso no dia seguinte, a cabeça não para, é ruim de dormir", explica Ivanildo à BBC Brasil.

"Mas cansado eu não fico, não. A coleta de lixo ajuda muito na força da perna, o caminhão puxa e você vai ou fica. Se não for, os coletores não vão querer você na equipe."

Baiano de Monte Santo, trabalha há 17 anos em empresas desse ramo, 11 deles na atual, a Ecourbis Ambiental.

"Ivanildo nunca faltou um único dia, nem chegou atrasado", afirma Jonatas Alves Pinto, coordenador operacional. "Muitas vezes tem uma prova no domingo e dizemos para ele descansar no sábado à noite. Mas ele se recusa, trabalha na coleta à noite, participa da prova no dia seguinte... e ganha!", continua.

"Para ele, não tem sábado, domingo ou feriado. É um exemplo para toda a galera", elogia o encarregado de tráfego, Jocinei Sergio Festa.

Maratona diária

No trabalho, ele corre cerca de 10 km diários. Como cada caminhão carrega dez toneladas de lixo, distribuídas por três funcionários, calcula-se que Ivanildo manuseie de três a quatro toneladas – se somados os seis dias de jornada, de segunda a sábado, seriam 18 toneladas.

"Se eu fizesse outro trabalho, como pedreiro, meu tempo de prova seria pior", diz ele. "Corro subida, descida, reta, faço tiro na rampa, treino para o que der e vier."

Os novatos no emprego têm medo de correr com Ivanildo, acham que não vão aguentar o ritmo. Mas acabam se surpreendendo. "A gente ajuda. Correr mesmo é lá na corrida. Aqui é pegar o lixo em equipe e limpar a rua", ameniza.

Todo ano, a empresa faz uma seletiva interna para a Corrida de São Silvestre e paga a inscrição da sua equipe. Os dois coletores mais bem classificados na prova recebem, por dez meses, uma ajuda de custo. Hoje, 17 são atletas amadores que levam o esporte bem a sério.

"Sempre que posso, eu oriento. Já teve coletor que, depois que começou a correr, parou de beber", diz Ivanildo.

Ele teve que lutar muito para entrar no pelotão de elite da São Silvestre. Dez anos atrás, só ficava entre os 400 primeiros. Mas, após três anos de trabalho duro, conseguiu.

O atleta conta que um representante da prova, "um velhinho de mais de 90 anos de idade", disse que os tempos alcançados por Ivanildo não eram para qualquer um e perguntou o que rapaz fazia. "Sou coletor de lixo", respondeu. "Quem é o seu treinador?" – quis saber o senhor. "Olha, por enquanto é o caminhão", respondeu, aos risos.

Pensou em parar

Ivanildo é um atleta profissional. Além das boas classificações na São Silvestre (foi ainda o 21º em 2014; 25º em 2013; 27º em 2012; 29º em 2011), ostenta uma série de outros resultados expressivos.

Venceu duas vezes a Meia Maratona Cidade de São Bernardo do Campo e o Troféu Independência do Brasil, na capital paulista, também por duas vezes. A lista é imensa. A última prova foi em 3 de abril: chegou em segundo no Track&Field Run Series Shopping Anália Franco.

Ele já correu por clubes tradicionais, como o Esperia e o São Paulo, mas reclama da falta de apoio. No ano passado, pensou em parar: venderia a casa, voltaria para Monte Santo e trabalharia na roça.

Mas, antes da São Silvestre 2015, soube de uma prova que reuniria 300 coletores de todo o Brasil. Foi a Belo Horizonte e venceu a 1ª Corrida Sindeac de Garis, organizada por um sindicato mineiro de empregados em edifícios e condomínios. Ganhou uma moto, ficou feliz e desistiu de abandonar as corridas.

Dias depois, sua mãe ficou doente, com suspeita de dengue ou chikungunya. Ele foi a Monte Santo e tentou transferi-la para Feira de Santana ou Salvador, mas foi desaconselhado pelos médicos. Quis vender a moto para pagar um convênio e salvar dona Josefa, que criara os cinco filhos "no cabo da enxada".

Mas não havia o que fazer. Ela morreu, aos 65 anos.

'Prefiro coletar lixo”

Hoje, Ivanildo recebe uma ajuda de custo da empresa e um apoio do Shopping Metrô Itaquera. Entre outras atividades, tem participado do Projeto SP Cidade Gentil, cujas imagens, produzidas pela Damasco Filmes, foram editadas e cedidas para esta reportagem.

"Prefiro ficar na coleta de lixo, que valoriza a gente. Para mim, não tem diferença ser o trabalhador da coleta ou o atleta de competição. Todo mês tem o meu dinheiro lá. Eu tenho tudo, meu carro, minha casa, minha moto por causa da coleta de lixo. Se for para virar noite e dia, a gente joga para cima".

"Virar noite e dia", aliás, é praticamente uma expressão literal.

"Na véspera (da corrida), eu não durmo, fico só deitado. A prova é às 8h. Mas tenho que chegar mais cedo para o aquecimento de 20 minutos. Levanto às 4h30 e chego lá às 7h."

Tamanho sacrifício poderia ser evitado se Ivanildo se dedicasse integralmente ao atletismo. Talvez ele chegasse mais longe. O índice mínimo para os Jogos Olímpicos do Rio, na prova dos 10 mil metros, é de 28 minutos no masculino. Ivanildo já cravou 29 minutos e 29 segundos na Corrida Aniversário de São José dos Campos, em 2008.

Seria possível tirar essa diferença com uma rotina mais leve e uma preparação melhor? Ivanildo acha que sim. "Um atleta olímpico treina dois períodos, de manhã cedo e à tarde. Depois vai para casa e dorme, descansa", diz ele, que ressalta a necessidade de uma alimentação especial.

Mas esse também não é o seu caso. Ele come mesmo é feijão, arroz, salada e frango. "Café da manhã tomo à tarde, quando vou para a empresa. E sem pão". Carne vermelha, duas vezes por semana, "porque pesa um pouco". E toma um suplemento vitamínico para atletas de elite. "Não fico doente."

Uma de suas alegrias, já há dez anos, é patrocinar uma corrida que leva o seu nome e premia cerca de cem crianças, adolescentes, homens e mulheres de sua querida Monte Santo. "São pessoas que vivem da roça, da enxada", diz, com brilho nos olhos.

"Eu mesmo vim de uma vida difícil. Vou correr até morrer."

Reproduzido de “BBC Brasil”, publicado em 27 de abril de 2016.

(*) José Paulo Lanyi é jornalista, escritor e dramaturgo, autor do romance "Calixto-Azar de Quem Votou em Mim", do romance cênico (gênero que criou) "Deus me Disse que não Existe", da peça "Quando Dorme o Vilarejo" (Prêmio Vladimir Herzog) e das coletâneas “Teatro de José Paulo Lanyi e Outros Loucos” e “Balbúrdia literária”, todos da editora O Artífice. Trabalha com o músico paulistano Flávio Villar Fernandes, com quem compôs a trilha “Invernada” e a sinfonia “Atlântica” e na BBC Brasil.





quinta-feira, 28 de abril de 2016

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, um mês e um dia de criação.

Leia nesta edição:

Editorial – Heinrich Heine relata o ânimo dos parisienses face ao cólera.

Coluna Ladeira de Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “Rei dos moços, tirano dos velhos’”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, conto, “O sexo à luz da doutrina duñesca”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto, “Publique agora!”.

Coluna Porta Aberta – Gustavo Pilizari, relato de viagem, “Sinos ecoam nas vielas de Praga...”.

Coluna Porta Aberta – Rosa Pena, poema, “Inteiro”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer – Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Heinrich Heine relata o ânimo dos parisienses face ao cólera


O poeta romântico alemão, Heinrich Heine (cujo nome completo era Christian Johan Heinrich Heine), foi dos poucos escritores a relatarem episódios da epidemia de cólera que afetou Paris, cujo início ocorreu em 1830 e que se estendeu até meados de 1832. Em apenas seis meses, a doença causou a morte de pelo menos 19 mil pessoas na cidade. Heine não o fez, todavia, em algum poema. Fê-lo em matéria para o jornal liberal germânico, Allgemeine Zeitung, de Augsburg, do qual era correspondente na Cidade Luz. Exilado de seu país, por suas idéias socialistas, o poeta assumiu essa função em 1831, no auge da doença e fez um relato sumamente dramático e realista sobre o ânimo da população, sobretudo da camada mais humilde, que não escondia sua revolta por se sentir abandonada pelas autoridades. Sua descrição difere muito da feita pelo historiador francês, Anais Bazin, que deu a entender que a epidemia não alterou em nada (ou mudou muito pouco) a rotina dos parisienses.

Numa de suas reportagens, Heine escreveu, à certa altura: “(...) O povo grunhia amargamente, ao ver os ricos fugindo, rodeados de uma armada de médicos e de farmacêuticos, escapando para regiões mais sadias (...)”. Em outro texto para seu jornal, o poeta-jornalista trata de alguns linchamentos promovidos por uma turba raivosa e descontrolada, num relato de um realismo chocante, nu e cru, pode-se dizer. Escreve, à certa altura: “(...) Algumas vozes, trêmulas de raiva, me informaram sobre o enforcamento de um indivíduo acusado de ser envenenador. Uns diziam que se tratava de um carlista e que haviam sido encontrados, em um de seus bolsos, documentos que o identificavam como tal. Outros garantiam que era um padre e que esse miserável era capaz de qualquer coisa (...)”.

Apenas para que o leitor não fique no ar, informo que os “carlistas”, citados por Heinrich Heine, eram os adeptos do Rei Carlos X, deposto depois do levante popular de 27, 28 e 29 de julho de 1830, episódio conhecido como “Os três dias gloriosos”, forçando o último representante da dinastia Bourbon a partir para o exílio. Mas, voltemos à descrição do correspondente alemão sobre os linchamentos que mencionou: “(...) Na rua de Vaugirard, onde massacraram dois homens que portavam um pó branco, vi um dos desgraçados no momento em que agonizava. Vi algumas velhas tirarem seus tamancos para o golpearem na cabeça até que ele morresse. O infeliz estava completamente nu e coberto de sangue e de feridas. Não apenas lhe arrancaram as roupas, mas também os cabelos, os lábios e o nariz (...)”. Como se vê, cena horripilante de ódio e de selvageria.

Mas a crueldade do populacho não parou por aí. Heine relata: “(...) Em seguida, veio um homem asqueroso, que amarrou uma corda nos pés do cadáver e o arrastou pelas ruas, gritando: ‘aqui está o cólera!!!’. Uma mulher, extraordinariamente bonita, com o peito descoberto e as mãos sujas de sangue, que se encontrava nesse lugar, deu um forte tapa no cadáver, quando este passou perto dela. Ao ver-me, sorriu. E pediu-me que eu lhe pagasse um tributo à sua doce indústria do sexo, para que ela pudesse comprar um vestido de luto, já que sua mãe acabara de morrer poucas horas antes. Ela achava que a morte fora em conseqüência do pó branco que lhe deram, que disseram ser remédio contra o cólera, mas que ela achava que era veneno (...)”.

Como se vê, o clima em Paris permanecia tenso e violento, mas não somente por causa da agitação política, como Anais Bazin dera a entender em seu relato sobre a epidemia, mas, sobretudo, pela forma com que parcela considerável dos parisienses era tratada. Essa gente desconfiava de tudo e de todos e exigia providências das autoridades para debelar a doença. E ai de quem lhes caísse nas mãos, não importa se carlistas ou anti-carlistas. As pessoas apavoradas e descontroladas não poupavam ninguém, médicos, farmacêuticos ou sacerdotes. As tentativas de tratamento eram interpretadas como ações que visavam envenenar os pobres para, dessa forma, pôr fim à epidemia de cólera. Claro que isso não passava de paranóia. Mas quem poderia conter aquela turba desesperada e enfurecida e levá-la a pensar com um mínimo de racionalidade?

Heine, como se vê, revelou, nessa série de reportagens, outra faceta do seu enorme, inegável talento: a do jornalista meticuloso, observador e detalhista. Como poeta, nem é preciso enfatizar sua grandeza. Afinal, influenciou centenas, milhares ou sabe-se lá quantos escritores. de boa parte do mundo. Sabe-se, por exemplo, que o poeta abolicionista Castro Alves inspirou-se no poema “Navio negreiro”, do alemão – em que este retrata a condição dos prisioneiros de uma embarcação repleta de escravos trazidos da África que aportou no Rio de Janeiro –  para escrever seus vibrantes e perenes versos com o mesmo título. Ele foi admirado por gente do calibre de Machado de Assis, de Gonçalves Dias, de Raul Pompéia, de Alphonsus de Guimaraens, de Fagundes Varela, de Manuel Bandeira e de André Valias, entre tantos e tantos outros, muitos dos quais traduziram sua magnífica obra poética para o português. Por tudo isso, Heinrich Heine dispensa apresentações para os amantes da boa Literatura, por conhecê-lo de sobejo e reverenciá-lo como “imortal”, da forma como ele merece.

Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk

   
Rei dos moços, tirano dos velhos


* Por Pedro J. Bondaczuk


O que seria do mundo se não houvesse amor, em suas várias formas de manifestação? Se com ele, já há tanta miséria, egoísmo, injustiças e corrupção, sem ele, provavelmente, nossa espécie já teria se auto-destruído, num torvelinho dantesco de violência e de horror. É o amor que nos dá forças para suportar as intempéries da vida. É ele que nos motiva às grandes realizações. Por ele, desenvolvemos nossas melhores características e sufocamos os mais baixos instintos.

Foi o amor que motivou a construção de cidades, templos e monumentos. Foi ele que inspirou os mais belos poemas, canções, pinturas e esculturas. Ele é que nos faz amar a vida e ter esperanças de um mundo melhor. Até os mais sanguinários bandidos, os mais perversos e cruéis, já experimentaram, um dia, as delícias do amor, o que os impediu de serem ainda piores.

Uma das afirmações que mais tenho ouvido por aí é a de que “o amor não tem idade”. E não tem mesmo. Na prática, todavia, as coisas não são tão consensuais quanto se dá a entender. Pessoas mais idosas, quando amam, são vistas com desconfiança, quando não são vítimas de galhofa, como se não tivessem mais direito a um afeto, por causa dos muitos anos que viveram.

Parentes, provavelmente de olho na sua herança, por exemplo, fazem o possível e o impossível para impedir novos relacionamentos dos mais velhos. Jovens, por sua vez, fazem anedotas a respeito, esquecidos que um dia também irão envelhecer e ser vítimas desses mesmos preconceito que alimentam.

O tempo não pára, e para ninguém. O mito da eterna juventude não passa apenas disso: de mero ideal que todos sabem, de antemão, que é inviável. Este é o sentido que Machado de Assis quis dar à afirmação (verdadeira, por sinal) que “o amor é o rei dos moços e o tirano dos velhos”. Bendita tirania!     

Contudo, nunca é tarde para se amar. Aliás, é sempre cedo. Para o amor, não há condicionantes e nem tempo determinado. Devemos usufruí-lo sempre, a cada momento, a cada segundo (que pode ser o nosso derradeiro) com empenho e devoção, pondo nessa empreitada tudo o que somos e temos. Devemos ter em mente que o tempo nunca pára. Que cada segundo desperdiçado não tem retorno e nos fará muita falta mais adiante.

O amor não é adiável, algo que se possa deixar para depois, para um futuro que nem sabemos se teremos. Embora seja uma idéia incômoda, não podemos perder de vista o fato de que somos mortais, efêmeros, transitórios e passageiros. Por que se privar desse privilégio, dessa bênção, dessa dádiva divina que nos adoça a existência?

O amor tem que ser vivido, sempre, no superlativo. Quanto mais intenso for, maior devemos tentar fazer com que se torne. Para ele não há e nem pode haver limites. Os poetas criaram, até, estranha metáfora para expressar o absolutismo desse maiúsculo sentimento: morrer de amor.

A rigor, convenhamos, ninguém morre dessa causa, claro. E se morresse... seria morte gloriosa. Morre-se, é verdade, de amor não-correspondido, o que é outra coisa. Esse, sim, é um sofrimento que não desejo nem para o pior inimigo. Mas quando há correspondência! Ah!, os amantes conseguem a façanha de transportar o céu para a terra. As pedras e espinhos não lhes ferem os pés, frio e calor não os incomodam e um vê a vida (como incrível magia) nos olhos do outro. É um delírio!

O amor, na verdade, não é um sentimento isolado, único, mas um conjunto de sensações e emoções (não raro contraditórias) que nos toma por inteiro e preenche todo o nosso tempo, às vezes toda a nossa vida. Pode até acabar (de morte natural ou não), mas sempre haverá de nos deixar profundas marcas, em que se misturam saudade e despeito. Supera as limitações do tempo, não tem passado ou futuro e é um eterno presente, mesmo que sobreviva apenas na recordação.

Paradoxal, o amor nos proporciona o máximo do prazer e os mais intensos sofrimentos, de acordo com as circunstâncias. É a feliz união entre a emoção e a razão, entre o concreto e o abstrato,  entre o instintivo e o racional. É, simultaneamente, egoísmo e altruísmo, posse e doação, carne e espírito.

Mas amar, ao contrário do que possa parecer, não é tão fácil quanto se apregoa. Para que esse sentimento se manifeste e se realize, em sua plenitude, temos que abrir mão de grande parcela do nosso egoísmo e do nosso arraigado e não raro exacerbado egocentrismo. Apregoar o amor não é difícil, pelo contrário. Senti-lo, também não chega a beirar a impossibilidade e não envolve maior complexidade. Mas vivê-lo em sua plenitude é que são elas! Para isso, temos que relevar os defeitos alheios, que a rigor não são maiores do que os nossos, sem ares de superioridade ou tentativas de imposições.

Disse alguém (não me recordo quem), que “amar é como saborear o melhor vinho...deixá-lo decantar lentamente, segurá-lo gentilmente, saborear gole por gole. Não se cultiva uma grande vindima. É preciso criá-la... O amor requer atenção integral e cultivo permanente. Mas o trabalho que venha, eventualmente, a dar é mais do que compensador, pelas delícias que nos proporciona. Só conhece a sua grandeza e transcendência quem o sente ou um dia sentiu.

Vinícius de Moraes escreveu, em um de seus poemas mais célebres, que “para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso – para viver um grande amor”. Experimente! Vale a pena. Aliás, como ressaltou Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena”.

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk




O sexo à luz da doutrina duñesca

* Por Marcelo Sguassábia


Antes de mais nada, à luz da nossa doutrina, o sexo é feito no escuro. A visão das vergonhas alheias, ainda que entre marido e mulher, é experiência hedionda e desaconselhável. Na impossibilidade de penumbra, o par se obrigará a praticar o chamado coito vestido, em traje esporte fino acrescido de luvas e tornozeleiras. Um edredon ou outro artefato do gênero carece de ser providenciado para cobrir o casal da cabeça aos pés, até que o ato se consuma da forma mais recatada e discreta possível.

A luxúria, ou seja, o comportamento libertino e pecaminoso, deve ser evitado a todo custo - mesmo que só em pensamento. Nas preliminares, nos finalmentes e especialmente durante a coisa em si. Essa instrução pode parecer a princípio paradoxal, já que para a maioria das pessoas o intercurso sexual é resultante do desejo recíproco entre as partes. Assim, recomenda-se, segundo o Venerável Duña, buscar excitação suficiente apenas para que os aparelhos reprodutores desempenhem satisfatoriamente sua função. Nem mais, nem menos que isso. E que essa excitação fique somente no terreno tátil, jamais no psicológico, na verborragia chula, nas variações de posição ou quaisquer outros artifícios de que se possa lançar mão para transformar o ato reprodutivo em prazer bestial.

Homens e mulheres duñescos são seres irreversivelmente castos. O batismo nas águas da pororoca fazem dos seguidores de Duña uma casta moralmente exemplar. Se eventualmente colocam-se uns sobre os outros, em estranhos e ritmados movimentos, como se estivessem travando uma luta sem sentido aparente, é no intuito exclusivo de trazerem ao mundo novos seres iluminados. Crianças que, uma vez paridas, precisam ser imediatamente encaminhadas ao nosso imaculado Oráculo para a unção em óleo bento, conforme preconizam os cânones de iniciação no tatame consagrado.

Os fiéis de ambos os sexos que cumprirem aquilo que Duña, o Perfeito, orienta sobre o assunto, não precisarão provavelmente de qualquer ajuda externa ao longo de suas vidas, seja para dirimir dúvidas ou curar doenças nas partes baixas. Caso se faça necessária uma intervenção psicológica, clínica ou cirúrgica que restabeleça um sadio padrão de normalidade, o Duña em pessoa deverá ser consultado, nunca os ginecologistas, urologistas, sexólogos, terapeutas alternativos e assemelhados.

Sendo a prática sexual tolerada apenas para a perpetuação da espécie, ao atingir um número razoável de filhos a atividade deve cessar por completo. Um legítimo discípulo de Duña respeita e glorifica as tábuas sagradas que a beata Constantina Eufrózia recebeu das mãos do Mestre durante a décima-nona Pamonha Fest de Xique-Xique, no glorioso ano de 1941. Seus preceitos orientam o rebanho da Divindade Maior a lidar com o sexo de maneira cívica, sem sentimentos de culpa ou outros transtornos mais sérios de consciência. Observando, evidentemente, a abstinência total entre o nascer do sol e o poente, e do poente à aurora do dia seguinte.

* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).