sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

O jogo


* Por Rodrigo Ramazzini


- Par.
- Impar. Um, dois, três e já!
- Ganhei! A bola é nossa.

Era um jogo de futebol aguardado há muito tempo pela turma do Carlinhos. Era contra “o time da rua” do Cabeça, que ficava distante duas quadras. O jogo aconteceria em frente à casa do Carlinhos, na rua mesmo, tendo como “gramado” o chão batido. As goleiras mediam um passo “dos grandes” do Flavinho, atacante do time do Cabeça, e eram marcadas com dois tijolos deixados no chão. Logicamente, não havia travessão. As demarcações “do campo” tinham como linhas laterais o começo das calçadas das casas. As linhas de fundo e central foram desenhadas.

A puída bola foi colocada no centro. Cada time tinha cinco jogadores de linha. Devido ao tamanho da goleira, não se colocava goleiro. Ficou combinado também que o jogo iniciaria naquele momento e só acabaria quando o sol houvesse se “posto”, e não fosse mais possível enxergar a bola. Quem perdesse a partida pagava um refrigerante de 2,5 litros ao adversário.

O jogo começou com certa vantagem para o time do Cabeça, que logo no inicio marcou dois gols. Além da abertura do placar, os problemas de se realizar aquele jogo no meio da rua também começaram, apesar de já ser praxe. O primeiro episódio aconteceu com a Dona Odete, conhecida como “Índia” pelo pessoal do bairro. Ela passava até com certa distância do campo de jogo. Porém, no calor do jogo, e sem medir as conseqüências, durante um ataque do time do Cabeça, o Gordo, zagueiro do time do Carlinhos, afastou a bola para fora do campo com um “bicão” para cima. E, com uma falta de sorte danada, a bola caiu na cabeça da Índia, vindo a derrubar os seus óculos. Por sorte nem arranhou. Os xingamentos “ofertados” pela Dona Odete paralisaram a partida por alguns instantes, porém, logo foram esquecidos e jogo recomeçou.

O placar marcava 6 a 3 para o time do Cabeça quando o jogo sofre nova paralisação, desta vez por causa de uma “batida”. Foi em uma disputa aérea pela bola, no meio “do campo”, o Banana e o Maninho chocaram-se de cabeça. O Maninho nada sofreu, mas o Banana não teve a mesma sorte. Um corte abriu-se na nuca. Uma grande quantidade de sangue escorreu, o que assustou a todos. O Juca da Barbearia, que fica na esquina da rua, o conduziu até o hospital.

Passado o susto, o jogo reinicia, e logo no primeiro lance, novamente o zagueiro Gordo ricocheteia a bola de canela, e ela acaba subindo. Sobe tanto que acaba batendo nos fios de luz. Foi aquela correria! Como os fios se tocaram, um princípio de curto-circuito iniciou, saindo grande quantidade de faísca.

Tranqüilizados por não terem interrompido o fornecimento de energia elétrica na rua, o jogo recomeça com a vantagem no placar para o time do Cabeça, com a diferença de um gol, 14 a 13. E essa aproximação no placar acirra os ânimos no “campo”. Faltas violentas, reclamações e discussões começam entre os dois times. E em uma dessas faltas, cometida pelo Cabeça sobre o Carlinhos na ponta-direita, durante a reclamação pela marcação, indignado, o Cabeça chutou a bola para o lado. Com uma precisão impressionante, a bola passou por dentre dois galhos de uma árvore e atingiu certeiramente o vidro da janela da sala do Seu Floriano. Quando os jogadores ameaçam correr, o Seu Floriano aparece na janela e apazigua – Eu sei como é. Já tive a idade de vocês! Com o perdão do Seu Floriano, a bola foi colocada no local da falta e voltou a rolar.

O Sol já desaparecia no horizonte. A partida estava próxima do fim. Foi então que aconteceu o lance polêmico. O Carlinhos driblou três jogadores do time do Cabeça e chutou. A bola tomou certa altura e passou no alto dentre os dois tijolos (goleira). Como as “goleiras” não tinham travessões, o critério para validar um gol, neste caso, era subjetivo. Dependia da altura, que ninguém sabia qual era a correta. Para uns foi gol, para outros não. Gol esse que se validado empataria a partida. Daí iniciou-se a confusão! Foi aquele bate-boca, empurra daqui, ameaça dali, e com as provocações, o Carlinhos e o Cabeça começaram a brigar, com os demais jogadores apenas “incentivando”. Trocavam socos no meio da rua quando apareceu na janela de casa a mãe do Carlinhos, gritando – O que é isso Carlos! Passa para dentro! Vamos acabar com esse jogo. Onde já se viu brigar na rua! Passa para dentro!

E como o Carlinhos era o dono da bola, a partida se encerrou sem se definir o placar. Mas um novo jogo já foi marcado para semana que vem...

* Jornalista e cronista

Incendiada


* Por Marleuza Machado


Provocas-me sensações tamanhas
ao ponto de erupção...
Logo em mim,
deliberadamente cautelosa,
 aquietada na solidão.

Despertaste com teu cheiro
 em minha alma,
 a lascívia;
no meu corpo,
um vulcão.


* Poetisa e jornalista
Se gira o sol


* Por Péricles Prade
                            

Giro quando amor eu faço,
se não giro, então desfaço.

Giro quando amor eu faço.
O sexo é o sol porque te enlaço.

Giro quando amor eu faço,
Se gira o sol no teu espaço.

Giro quando amor eu faço,
se for agora, então refaço. 


* Poeta, contista, ensaísta, crítico literário e de artes plásticas catarinense, autor dos livros “Este interior de serpentes alegres”, “Sereia e castiças”, “Nos limites do fogo”, “Os faróis invisíveis”, “Jaula amorosa”, “Pequeno tratado poético das asas” e “Além dos símbolos”, entre outros. 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, nove meses e vinte e sete dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – O essencial é invisível aos olhos.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica, “A palavra é indefesa”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica, “Way of life”

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, microcontos, “Carnaval”.

Coluna Porta Aberta – Delasnieve Daspet, poema, “A saudade do amor”.

Coluna Porta Aberta – Isabel Furini, poema, “Palhaça Sombrinha”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer – Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



O essencial é invisível aos olhos


O livro “O pequeno príncipe” – cujo título original, em francês, é “Le Petit Prince” e que em Portugal é conhecido como “O Principezinho” – de Antoine de Saint-Exupéry, é um dos maiores fenômenos editoriais de todos os tempos. Consultando uma dessas tantas relações das obras mais vendidas no País em janeiro de 2015, esta ocupava a quinta colocação. O leitor distraído, ou mal informado, poderá perguntar: “O que há de tão excepcional nisso? Afinal, o livro nem mesmo é o primeiro colocado em vendas!”. Se alguém me fizer uma observação destas, em uma conversa, simplesmente virarei as costas e deixarei o interlocutor falando sozinho. Afinal (desconfio) a burrice pode ser contagiosa.

Informo, para quem não saiba, ou não se lembre, que este livro foi publicado, originalmente (e nos Estados Unidos) em 1943 (ano do meu nascimento). Portanto, já fez, ou então fará nos próximos meses, 72 anos! A rigor, nunca saiu das listas dos mais vendidos. E não somente no Brasil. O fenômeno é mundial. Entre os vários recordes que essa obra acumula está o fato de ser a terceira mais traduzida de todos os tempos (perde, apenas, para a Bíblia e para “O peregrino”). Foi vertida para 160 idiomas. Está respondido, pois, o que “O pequeno príncipe” tem de excepcional. Não conheço obra alguma de ficção (e duvido que exista) com tamanha aceitação no mundo todo. Até 2013, quando foi feito o levantamento, já havia vendido 143 milhões de exemplares em praticamente todos os países. Hoje, essas cifras são bem maiores, pois continua vendendo, e muito, por toda a parte.

Por muito tempo, o livro foi considerado como de “literatura infantil”, voltado para crianças. Seus textos são curtos, de fácil leitura, e fartamente ilustrados, com ilustrações do próprio Antoine de Saint-Exupéry. Li-o quando tinha oito anos de idade e me empolguei com a história. Reli-o dezenas de vezes, pelos mais variados motivos. Um deles, por exemplo, foi para apresentá-lo aos meus quatro filhos, cada um na respectiva idade em que eu achava que iriam entender o enredo e a mensagem que há por trás dele. Com o tempo, percebi que não se tratava de mera peça de literatura infantil (o que, se fosse só isso, não seria demérito algum para a obra e nem para seu autor). “O pequeno príncipe” tem uma carga poética inigualável em livros do gênero. E não é só. Tem profundo conteúdo filosófico e da forma como a filosofia deveria ser sempre ensinada a crianças e a adultos. Ou seja, de forma direta, clara, inteligível, sem os tantos jargões que tornam tão chatas obras dessa fundamental disciplina, que é a “mãe de todas as ciências”.

O curioso é que Antoine de Saint-Exupéry – nascido na cidade francesa de Lyon em 29 de junho de 1900 – nunca sonhou em ser escritor e nem se considerava tal. Sua paixão era a mecânica e, mais tarde, a aviação. Aliás, perdeu a vida em um avião que pilotava, que foi abatido a tiros pelo alemão Horst Ripert, quando realizava missão de observação do movimento das tropas nazistas no território da França. Seu corpo nunca foi encontrado, o que suscitou diversas lendas a propósito do seu desaparecimento, ocorrido em 31 de julho de 1944. Saint-Exupéry não testemunhou, portanto, o estrondoso sucesso do seu livro. Os destroços do aparelho, um P-38 Lightning, foram localizados, apenas, 60 anos depois, em 2004, pondo fim às especulações em torno do caso.

Antoine-Jean-Baptiste-Marie-Roger Foscolombe de Saint-Exupéry era de família nobre, terceiro filho do conde Jean Saint-Exupéry e da condessa Marie Foscolombe. Morreu jovem, muito jovem, prematuramente, 32 dias após haver completado 44 anos de idade. Seu livro já esgotou mais de 500 edições e segue sendo reeditado mundo afora e não para de vender. Soube, dia desses, que será transformado em filme por um estúdio de Hollywood.

Sabem o que é curioso? Muitos “pseudo-entendidos” em Literatura consideram o livro “obra menor” e chegam a ridicularizar publicamente não somente este hiper-best-seller, mas, inclusive. quem o aprecia. Insinuam que quem afirma ter extraído preciosas lições de “O pequeno príncipe” não tem “cultura literária” sólida. Ora, ora, ora... Essas pessoas merecem outra resposta que não seja o silêncio?! Eu mesmo fui ridicularizado, numa dessas redes sociais (não quero identificar qual), por haver destacado o mérito poético do livro. Ainda bem que esses comentários sem pé e nem cabeça foram feitos à distância. Já imaginaram se burrice for contagiosa, como tantas doenças?!! Pelo sim, pelo não, não quero contato com quem trata “até” Literatura, tanto obras quanto autores, com menosprezo e preconceito.             

Tenho pena de gente assim. Se esses críticos de ocasião pelo menos lessem “O pequeno príncipe”, talvez entendessem a principal mensagem que Saint-Exupéry transmitiu. A de que devemos nos acautelar com nossos julgamentos, que podem ser sumamente equivocados, com o alerta que esses equívocos tendem a nos levar à solidão e ao afastamento até das pessoas que amamos. Entre as inúmeras mensagens do autor, destaco três, para encerrar estes descomprometidos comentários: “1ª) Aqueles que passam por nós, não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós. 2ª) A perfeição não é alcançada quando não há mais nada a ser incluído, mas sim quando não há mais nada a ser retirado. 3ª) O essencial é invisível aos olhos”.

Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk   
A palavra é indefesa


* Por Pedro J. Bondaczuk



A palavra escrita, ao contrário daquela que proferimos em nossa comunicação trivial, cotidiana, é indefesa. O que se escreve, diferentemente do que se diz, tem o caráter da permanência. Um texto pode sobreviver a anos, séculos e milênios e cair, gerações e mais gerações adiante, em mãos que fogem ao nosso controle. Ou seja, tanto pode chegar ao néscio, ao bronco, ao analfabeto funcional, que mesmo o lendo, não apreende seu significado, quanto do erudito, do culto, do amante da leitura, que absorve os conceitos, informações e/ou idéias emitidos e agrega ao seu patrimônio cultural.

Por causa dessa ambigüidade, a palavra escrita tem que ser a mais precisa possível e, sobretudo, clara. Deve ser entendida pelo sábio e pelo néscio, pelo filósofo e pelo vendedor ambulante, pelo físico nuclear e pelo gari que varre as ruas das cidades etc.etc.etc.

O que falamos – ou em conversas informais, ou em palestras, discursos e conferências –  é voltado, via de regra, para um público específico. É verdade que quem não estava programado para ouvir o que dissermos, pode, eventualmente, fazê-lo. Mas, a menos que nossa palavra seja proferida diante de um microfone, quer de rádio, quer de televisão, seus ouvintes serão restritos. Ademais, o ouvido não suscita a mesma capacidade de apreensão do cérebro que os olhos. Por mais atento que seja o espectador, boa parte do que se diz é quase que de imediato esquecida.

O mesmo já não ocorre com a palavra escrita. Mesmo quando destinada a uma pessoa específica – ou a várias delas quando for o caso, mas predeterminadas por nós – não temos nenhuma garantia de que essa particularidade será mantida e respeitada. Podemos, por exemplo, escrever um texto, em forma de reles bilhete, exclusivamente para a leitura de Sandrinha e no dia seguinte ao que o escrevermos, e não querer, por isso, que ninguém mais o leia. Mas eu e você temos alguma garantia, por menor que seja,  de que isso vai, de fato, acontecer?

Alguém pode lhe assegurar que – a menos que sua redação seja rasgada e incinerada na sua frente – ela não vá cair, digamos, daqui a duzentos anos, em mãos “profanas”, ou de alguma especialista em literatura, que a analisará meticulosamente como se fosse uma peça literária e concluirá que suas palavras são paupérrimas, piegas, tolas e sem sentido? Claro que não!

E você, que as escreveu, não terá a menor condição de se defender e nem de se explicar. Ou, pensando do lado positivo, há quem lhe possa assegurar que essa hipotética erudita em Letras citada não encontrará, no que você escreveu, a genialidade, a clareza, a correção e a perícia que as pessoas da sua geração (que eventualmente leram seu texto) não encontraram e que sequer era sua intenção de manifestar?

Todas essas considerações, embora pareçam novidades a muitos, não são novas. Sequer são minhas e nem mesmo são originais. Foram feitas na Grécia Antiga, séculos antes do nascimento de Cristo (e mais de três milênios antes de eu nascer), por ninguém menos do que Platão.

Ficou surpreso, meu fiel e paciente leitor? Pois é. O eminente filósofo grego escreveu, em determinado trecho do livro “Fedro”: “As obras de um pintor mostram-se a nós como se estivessem vivas; mas, se as questionarmos, elas mantêm o mais altivo silêncio. O mesmo se dá com as palavras escritas: parecem falar conosco como se fossem inteligentes, mas, se lhes perguntamos qualquer coisa com respeito ao que dizem, por desejarmos ser instruídos, elas continuam para sempre a nos dizer exatamente a mesma coisa”.

Você já pensou nisso alguma vez? Não?! Eu sim! Penso, e me aflijo, a todo o momento com os possíveis efeitos e com o destino do que escrevo. Até porque, fiz desse ato, de extrema responsabilidade, mais do que trivial forma de comunicação, mas profissão, ofício, empreendimento e minha forma de ganhar o pão nosso de cada dia. Temo, no entanto, pelo julgamento, por parte da posteridade, do que escrevo, principalmente quando não estiver mais entre os vivos para me explicar, justificar ou retificar o que escrevi, quando for o caso.

Platão escreveu mais: “E, uma vez que algo foi escrito, a composição, seja qual for, espalha-se por toda a parte, caindo em mãos não só dos que a compreendem, mas também dos que não têm relação alguma com ela; não sabe como se dirigir às pessoas certas e não se dirigir às erradas. E, quando é maltratada ou injustamente ultrajada, precisa sempre que o seu pai lhe venha em socorro, sendo incapaz de se defender ou de cuidar de si própria”.

Entenderam as colocações de Platão? Têm certeza de que ele, de fato, escreveu o que vocês entenderam? Pois o cuidado que o filósofo teve, ao expor suas idéias (aliás, neste caso, as do seu mestre Sócrates) com tamanha clareza e simplicidade, é o mesmo que devemos ter na redação de um romance, um conto, uma crônica, uma reportagem ou, até mesmo, um reles bilhete.

Por que? Porque não temos a mínima certeza sobre em que mãos esses textos irão cair. Se houver algum equívoco, ou dubiedade, ou imprecisão, ou impropriedade, não haverá nenhuma forma, por mínima que seja, de se defender ou de se explicar. Porquanto a palavra, a despeito de todo o seu tremendo poder, pelo menos neste caso, é absolutamente indefesa.


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk 

 



     
Way of life


* Por Marcelo Sguassábia


Frankfort, McKinsey Street, 609. Um “Donaldson” pintado a mão em letra serifada na caixa de correio. Dentro, uma proposta de assinatura de Seleções e outra do Saturday Evening Post. É claro que a casa é em estilo clapboard, como todas as outras a léguas ao redor. Dois pavimentos, sótão, nada de muro na frente. Mais tradicionalmente norte-americano que isso, só se for isso no Dia de Ação de Graças. E é.

A paz reinante parece tão inabalável quanto a liquidez das companhias de seguros e das ações da Pan Air. Talvez o mais fiel retrato dessa mansidão seja o pequeno Carl, que tem sua atenção dividida entre os bonecos do Forte Apache e um gigantesco pote de sorvete sabor baunilha. A televisão está ligada e uma garota-propaganda apresenta uma nova marca de cereal de milho, seguida por uma chamada para o Ed Sullivan Show.

Father na sala de estar de dois ambientes e seu costumeiro bourbon whiskey das manhãs de sábado. Serve de porta-copos uma edição capa-dura de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”, do velho e bom Dale Carnegie. Ninguém no Estado de Kentucky poderia adivinhar onde estaria seu pensamento agora. Nas metas da empresa para 1958, no sonhado rancho em Sunset Village, nas pernas bem torneadas de Jeannie Johnson. A mulher que jamais teria, melhor amiga da esposa. An affair to remember, canta Nathaniel Cole na eletrola pé-de-palito RCA Victor, relembrando o caso que não houve.

Há uma cerca a pintar, galhos a podar e grama a cortar no jardim da frente. Ben, o filho mais velho, está aí para isso mesmo. Lucille Huppert, da Associação de Moradores, se aproxima com seu basset na coleira. Troca com Ben um olhar mais cúmplice do que o que seria moralmente tolerado entre uma respeitável balzaqueana de 38 e um rapazinho de 17.

Na casa em frente, um certo Jim Bob observa com o binóculo Peggy Sue ao espelho, ajeitando o sutiã. Dessa vez aquele trouxa do Edward avança o sinal, ah se avança. Ou não me chamo Peggy Sue!, pensa a líder de torcida, fazendo caras e bocas.

A América laboriosa e protestante recende a estrógeno e testosterona nos escritórios e high schools, nas ruas e parques de diversões. A mesma América que não hesita em ir à guerra pelas tradições que finge cultuar.

Mamãe arregimenta o marido e a prole para o almoço festivo, badalando o sininho de bronze dos tempos da matriarca Katherine. É servido o peru de Thanksgiving, guarnecido por rodelas de laranja.
- A asa não. A asa é do papai, Carl!

Sim, dê-me asas. É só o que quero nesse momento, pensa o pai enquanto diz:
- Querida, sempre tão gentil. Tudo bem, Carl, pode ficar com a asa. Acho que hoje vou preferir a sobrecoxa.
- Mommy, estão batendo na porta.
- Quem será? Agora que íamos começar a comer...

Lá fora Mary Reynolds aperta mais uma vez a campainha, passa um lenço umedecido nos cabelinhos da nuca, ajeita a blusa para dentro da saia e saca da bolsa a edição de Natal do catálogo de cosméticos. Meio-dia e meia, o sol nunca esteve tão forte nessa época do ano, mas ninguém é próspero o bastante para deixar de prosperar, ainda que seja sábado na maior economia do mundo.

É Avon que chama. É mamãe que atende com um sorriso nos lábios e um convite para entrar.
* Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).