quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os textos do irmão morto


* Por Gustavo do Carmo            

Passados quatro meses, Patrícia já estava aparentemente recuperada do choque com o suicídio trágico do irmão mais novo – que se jogou do sexto andar do apartamento onde morava, depois que viu um ex-amigo fazer sucesso com um filme baseado em um conto seu, sem autorização – quando resolveu procurar uma editora para publicar, de forma póstuma, os textos do escritor fracassado.

Quando vivo, Péricles Soares nunca tinha conseguido um emprego e sonhava ser um escritor famoso, daqueles bem esnobes que pisaria nos ex-colegas de faculdades e ex-amigos de internet que o desprezavam e o plagiavam. Ele só queria seguir a carreira literária, realizada por muitos, mas que para ele diziam ser impossível.

Patrícia mesmo estava entre os que pressionavam o irmão a deixar os sonhos de lado e correr atrás de uma ocupação. Ajudava o pai nas cobranças para fazer um concurso público, que Péricles tinha ojeriza, pois, para ele, fazia parte de uma indústria lucrativa para cursinhos, apostilas, comissões organizadoras e o mais importante jornal que cobria o segmento.  Ela mesma o desestimulava, dizendo que os contos eram bobos e mal escritos. 

Até que um dia, por insistência da mãe que sempre o incentivava, criou coragem para vasculhar o notebook que o irmão morto tinha deixado. Achou uns quinhentos contos, cem novelas curtas, oito mil microcontos e dez romances, estes inacabados. Quase deletou tudo, mas a mãe e o seu marido a impediram.
— Não faça isso! Pode ser uma mina de ouro! Disse o marido.
— Ah! Deixa de bobagem, amor! Só tem histórias bobas aqui, cheias de erros de gramática.
— Deixa eu ler para ver se são bobas mesmo!
— Você não acredita em mim, né? Nunca acredita em mim!
— Ah, não vem fazer drama, não! Me dá esse notebook que eu leio.
— Então leia. Faz o que você quiser.

Arnaldo, o cunhado de Péricles, se encantou com os contos. Leu uns dez. Salvou todo acervo no cartão de memória. Insistiu.
— Querida, nós temos uma mina de ouro, sim! Seu irmão era brilhante, genial! Alguns realmente eram bobos, mas a maioria é ótima. Dá pra viver com renda de classe média com os textos do seu irmão durante anos. Pena que o seu irmão não correu muito atrás.
— Pois é. Agora não precisa mais. Ele está morto!
— Mas as editoras só valorizam textos de gente morta. E quem vai ganhar dinheiro é você, que é irmã.

Patrícia deu um murmuro de resignação enquanto o marido continuava falando.
— Eu vou falar com a minha irmã, que é amiga da sócia de uma editora e você liga.

Contrariada, Patrícia concordou.  Já com o telefone da editora, que é cliente da empresa de clipping onde trabalha a cunhada, ligou.
— Boa tarde, eu tenho uns originais comigo e gostaria de marcar um dia para apresentá-los. Disse Patrícia.
— Desculpe, nós estamos com o cronograma lotado para os próximos três anos. Disse a sócia da editora.
— Eu sou cunhada da Amanda, que é sua amiga.
— Ah! A Amanda! Sou muito amiga dela! Por que não falou antes?
— Então.
— Mas, mesmo assim, o nosso cronograma ainda está lotado. Mesmo que eu fure a fila, só vamos poder publicar no final do ano que vem.
— Olha, na verdade, os textos que eu quero publicar não são meus. São do meu irmão, que morreu há seis meses. Eu apoiava tanto ele. Mas nenhuma editora aceitava publicá-lo. Ele era muito incompreendido, coitado. Quero publicar esses textos em respeito à memória dele.
— Sério? Por que não me falou antes? Então traz aqui que eu quero dar uma olhada para ver se são bons mesmo.
— Pois é. Por isso eu quero marcar uma hora com você. Nem penso no dinheiro, mas realizar o sonho dele. Finalizou, enxugando as lágrimas de crocodilo que começavam a escorrer.
— Pode vir na segunda-feira da semana que vem, às duas horas?
— Pode ser às seis? Eu trabalho até às quatro e até chegar ao Centro...
— Está bom, então!

Conforme combinado, Patrícia foi até a editora. Demorou um pouco para ser atendida por Luane, a amiga da cunhada, pois era um dia cheio. Entregou o cartão de memória, que a editora copiou em seu computador no escritório.

Uma semana depois, Luane ligou para Patrícia maravilhada com os contos de Péricles. Conseguiu autorização do sócio majoritário para publicar inicialmente uma nova coletânea de 40 contos, um novo romance e republicar os dois livros que o finado lançou em vida.

O romance, em publicação paga, era muito mal escrito, mas vendeu a metade dos 300 exemplares.  O texto foi totalmente revisado e corrigido. A coletânea de contos, publicada por uma editora que boicotou Péricles, evitando a divulgação, foi o outro relançamento.

Seis meses depois da conversa entre Patrícia e Luane, os quatro livros já estavam prontos com dois mil exemplares de tiragem cada, noite de autógrafos agendada em cinco capitais do país e ampla divulgação na imprensa, com o obituário in memorian de Péricles.

Patrícia ia autografar os livros. Seria feita uma homenagem póstuma ao autor, com direito a discurso emocionado da irmã e do pai, que queria comprar 50 exemplares de cada livro, mas foi impedido pela filha. A mãe, muito idosa, não quis ir, com medo de se emocionar demais e passar mal.

No Rio, só compareceram os parentes e amigos de Patrícia. E poucos, no máximo vinte. Destes  vinte, só cinco compraram. Nos lançamentos em São Paulo e Belo Horizonte não apareceu ninguém. O de Brasília e Salvador foram cancelados. Depois, o livro não vendeu mais nada. A editora teve um enorme prejuízo e rompeu o contrato com a empresa onde a irmã de Arnaldo trabalhava.

Patrícia ficou envergonhada com o fracasso dos contos do irmão. Esbravejou contra o marido, aos prantos:
— Eu não disse que os contos do meu irmão eram uma porcaria??? Com que cara eu vou olhar pra sua irmã, que quase perdeu o emprego?

Arnaldo ficou quieto, dando razão a esposa. Patrícia sonhou com o irmão que confessou:
— Eu roguei uma praga contra vocês. Se eu não fiquei rico com os meus contos quando era vivo, ninguém vai ficar.



* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos”.
Seu  blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores



Viva o povo brasileiro


* Por Dinovaldo Gilioli


O povo brasileiro
Orgulho dessa nação
Não divide o país
Seria uma aberração

Todos os estados unidos
Sem dependência estrangeira
Seria uma nação mais forte
Uma nação mais brasileira

Vamos juntos nessa ideia
Fortalecendo o Brasil
Uma nação de todos
De um povo varonil

Tenha orgulho de ser brasileiro
No mundo somos respeitados
As diferenças de opinião
É uma conquista, um legado

Abaixo o preconceito
A arrogância e prepotência
Quem age desse jeito
Lhe falta inteligência

Se somos todos iguais
Como prega a constituição
Quem se acha superior
Devia voltar à razão

A livre expressão de ideias
Conquistada a duras penas
Tem que ser mais valorizada
Isso não é o problema

Se pensa diferente
O melhor é dialogar
O respeito a toda gente
Faz a vida melhorar

O povo brasileiro
Que luta e vai em frente
Mostra inteligência
Quando une toda gente

Viva o nosso país
Viva o povo trabalhador
Que em todos os rincões
Mostra o seu valor

Vou já me despedindo
Agradecendo a sua atenção
Vamos ajudar o Brasil
A ser uma melhor nação


* Poeta, tem 6 livros publicados, entre eles,“Cem Poemas” (Editora da UFSC)
,



Capiba


* Por Clóvis Campêlo

Hoje (28 de outubro) é o aniversário de nascimento de Lourenço da Fonseca Barbosa, mais conhecido como Capiba. Nascido na cidade pernambucana de Surubim, em 1904, estaria completando 110 anos de idade. Morreu no Recife, em 31 de dezembro de 1997.

Capiba nasceu em uma família de músicos (Severino Atanásio de Souza Barbosa, seu pai, foi maestro da banda municipal de Surubim), e aos oito anos de idade já tocava trompa. Ainda pequeno mudou-se com a família para o estado da Paraíba. Lá, ainda criança trabalhou como músico pianista em cinemas.

Chegou a jogar como zagueiro no Campinense Clube, porém abandonou os gramados e aos 20 anos de idade gravou seu primeiro disco com a valsa "Meu Destino". Era torcedor declarado do Santa Cruz Futebol Clube, compondo, inclusive, um dos seus hinos.

Com 26 anos de idade, mudou-se para o Recife. Aprovado em concurso, tornou-se funcionário do Banco do Brasil, o que lhe rendeu sustento financeiro e lhe deu tempo para se aprimorar como músico.

Capiba escreveu mais de 200 canções, em sua maioria de frevo, mas também de samba e música erudita. Várias são sempre lembradas nos carnavais de Pernambuco.

Também musicou poemas de Carlos Drummond de Andrade, Vinício de Morais e outros poetas brasileiros.

Entre os seus sucessos, estão as músicas Maria Batânia, A Mesma Rosa Amarela, Serenata Suburbana, Verde Mar de Navegar e vários outros. No gênero frevo, compôs mais de cem canções.

Capiba produziu uma obra caudalosa, tanto gravada, quanto inédita (neste último item, estima-se que tenha deixado mais de quatro centenas de composições, entre frevos e peças eruditas.

* Poeta, jornalista e radialista, blogs:



quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, seis meses e vinte e oito dias de existência..

Leia nesta edição:

Editorial – Visão realista de um arremedo de civilização.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “João Mamulengo é nome de boa música’”.

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, conto “Perfil de um voto”

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Simplicidade”..

Coluna Porta Aberta – Assionara Souza, conto, “Brinquedo”

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “O silêncio”..

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Visão realista de um arremedo de civilização


O que é civilização? E, em contrapartida, o que é barbárie? Sociólogos, jornalistas, filósofos, antropólogos e, sobretudo, historiadores falam muito sobre esses conceitos, mas a imensa maioria das pessoas mundo afora não tem noção exata (na verdade, não tem nenhuma) do que se trata. Aliás, a rigor, e sem nenhum exagero, oito entre dez habitantes do Planeta jamais pensaram nisso. Sejamos realistas: são raros os que pensam “qualquer coisa” que não seja banalidade. Quando muito, pensam em seus problemas cotidianos, mas não por muito tempo. Empurram as coisas com a barriga e se deixam levar pelas circunstâncias ou pelo acaso. Creiam, não estou dizendo nada de novo e nem de revolucionário. Basta observar o que se passa ao nosso redor para chegarmos, sem nenhum esforço, a essa constatação.

A pergunta, portanto, se destina aos que “pensam” e que são minoria. Bem, as definições de civilização e barbárie são bastante diferentes para habitantes de lugares bem diversos. Para um europeu, por exemplo (ou norte-americano, ou mesmo brasileiro de classe média) ser “civilizado” é ter acesso a determinados bens, materiais e/ou imateriais – como uma casa confortável em um bairro bem urbanizado, um carro de preferência potente e do ano, uma conta bancária recheada e a meios de informação e de cultura – sem o que não concebe uma vida minimamente digna, que valha a pena.

Até de forma inconsciente, consideramos que, os que não têm esses privilégios e confortos (não importa se por opção ou por incapacidade), são “bárbaros”. Será? Discordo! O conceito a esse propósito, digamos, de um aborígene da Tasmânia, ou dos membros de algum clã do Cazaquistão, ou de habitantes de determinados países insulares do Pacífico Sul, isolados e esquecidos por todos, tende a ser (provavelmente é) muito diverso deste. Eles não dão tanta (talvez nenhuma) importância a essas conquistas nossas, que consideramos o suprassumo de civilização. Para eles contam mais os laços de família, as tradições legadas pelos antepassados que se empenham em transmitir aos filhos e netos, e os costumes, virtualmente imutáveis, mesmo que a nós pareçam primitivos, selvagens, bárbaros, que cultivam. Quem está com a razão? Talvez ambos. Talvez nenhum. Honestamente, não tenho resposta, embora tenha preferência e pense muito no assunto. Mas com a visão do pesquisador, do escritor, da testemunha do tempo que vivo.

A civilização, em seus aspectos mais nobres, como a ética, o direito, a justiça social e a solidariedade, só evolui quando líderes iluminados e lúcidos conseguem conduzir esse imenso rebanho humano na direção do bem comum. Poucos, porém, são os povos, e os períodos, que contam com essa felicidade. Daí a história apresentar recuos e avanços, assim como as marés, que se sucedem e se mostram intermináveis através de gerações. As pessoas consideradas "comuns" sequer têm culpa disso. Reitero, nem pensam no assunto (isso quando pensam no que quer que seja que não se trate de um conjunto de banalidades, como o futebol, fofocas da vida alheia e outras tantas trivialidades, cuja citação é dispensável). Afinal, elas são alienadas. São frutos da educação (na verdade, da falta dela) que recebem (ou deixam de receber), determinada pela elite que as comanda. Esta é que decide como e "para o quê" os indivíduos devem ser educados. Ou seja, condicionados (na verdade, só adestrados como animais de estimação).

Mesmo nós, que temos o privilégio de ter acesso ao conhecimento e à informação, valorizamos em excesso esse simulacro de civilização que aí está e nos encantamos com os valores materiais que são seus fundamentos. Esquecemos que ela privilegia ínfima minoria, em detrimento da maioria, que vegeta na miséria, ignorância e violência. Fomos condicionados para tal. Surpreendemo-nos com notícias dando conta que apenas 85 bilionários, detentores das maiores fortunas, são proprietários da mesmíssima quantidade de riqueza que 40% da população adulta do mundo, ou seja, de 3,2 bilhões de indivíduos!!! Dependendo do nosso grau de consciência, ou nos indignamos com essa absurda distorção (mas nada fazemos para corrigir), ou logo esquecemos dessa informação. Quando não, mesmo que penalizados por tão surreal concentração de renda, a defendemos, argumentando com a tal da “meritocracia”. Ou seja, raciocinamos: “Se esses bilionários chegaram a essa condição, reuniram méritos para tal”. Será que reuniram? Todos eles? Essas fortunas são “todas” lícitas? Nosso questionamento, porém, não chega a esse ponto. E a vida segue.

É fato que vez ou outra criticamos as injustiças, mas o fazemos ou genericamente, ou pouco (ou nada) fazemos para mudar esse estado de coisas, mesmo tendo condições para fazer. O relativo conforto da vida moderna que eventualmente conquistamos nos amolece e neutraliza a fibra para lutar por ideais elevados, sobretudo os de caráter altruístico. Mas essa “civilização”, que tanto prezamos (ou que nada fazemos para aperfeiçoar e melhorar) é um fracasso, quando se sabe que dois terços da humanidade vegetam nos limites da indigência para sustentar os desperdícios do um terço restante. Concordo com o poeta Gibran Khalil Gibran quando, em seu magnífico livro “O Profeta”, constata: “A civilização é uma árvore idosa e carcomida, cujas flores são a cobiça e o engano e cujos frutos são a infelicidade e o desassossego”.

E será sempre assim, piorando de ano para ano, se não fizermos nada para mudá-la. Se continuarmos a entendê-la a partir de pressupostos equivocados. Se acharmos que são “civilizados” só os que têm acesso a uma boa moradia (com toda a parafernália que a vida moderna proporciona), a um carro potente e de preferência do ano, a uma boa universidade, às informações fartas e múltiplas etc. Mesmo que não digamos, somos tentados a achar que quem não conta com essas facilidades é bárbaro, inculto e vive na “idade da pedra lascada”. Mas os verdadeiros princípios de civilização não estão ligados a bens e/ou facilidades materiais. São o respeito irrestrito ao próximo, a solidariedade, a justiça e a bondade, entre outras virtudes.

Não foi sem razão, pois, que o escultor francês Auguste Rodin, criador da célebre escultura “O Pensador”, constatou: “A civilização não é, em suma, senão uma camada de pintura que qualquer chuvinha lava”. Pelo menos esta, que aí está, é (infelizmente) apenas isso e nada mais. Pessimismo? Longe disso! É realismo! Se fosse pessimista sequer pensaria no assunto. Tal conclusão, todavia, não é a do cidadão, pseudo-civilizado e satisfeito com seu padrão de vida, que considera adequado ou pelo menos aceitável, mas do observador, do pesquisador, do estudioso do comportamento, enfim, do escritor, testemunha do seu tempo. Mas... quem se importa?

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk. 
João Mamulengo é nome de boa música


* Por Mara Narciso

Ouvi a música duas vezes na Rádio Unimontes no Programa Nossa Arte Nossa Gente, que mostra canções que não tocam na grande mídia e dá oportunidade a toda gente. Trata-se de uma composição que disputou o Festival de Música Fenae 2008 Apcef, Colatina, ES, e que foi classificada em segundo lugar. A sua letra foi considerada a melhor delas. Feita por Dimas Deptulisk que a canta junto com Efrahim Maia, entrou pelo meu ouvido, avançando alma adentro, seduziu, emocionou e acabou tirando-me lágrimas. Aconteceu como a flauta de Hamelin. Fui seguindo os seus acordes e acabei conduzida à dura realidade de um João Ninguém, o João Mamulengo, solitário, morador de rua, bêbado compositor, ou compositor bêbado, que se inspirava na Bíblia para fazer versos. Ainda ontem, já chegou à praça “meio tomado, prenhe de cachaça”, levava nas mãos um litro e um livro. Sentou-se no banco da praça e começou a compor.

Mas a vida de João nunca tinha sido leve. Trazia uma imensa carga, pois, sendo escória do mundo, carregava todos os lixos, todas as infâmias e misérias da existência. Não teve escolha. Era carregar e muito ainda carregar, e esses lixos lhe eram jogados pelos olhares de desdém dos passantes. Assim “nas costas a carga, do lixo do mundo”. Mais abandonado que um cão sem dono, esse homem perdido tem alma, e esta alma tem fundo, para sofrer e se perder a cada dia mais no mundo. “Mundo, mundo, vasto mundo, e se eu me chamasse Raimundo? Seria uma rima, e não uma solução” (Drummond).

A vida de João Mamulengo é uma desafinação só, do começo ao fim, e seu violão acompanha sua sina, de corda quebrada, empenado, desafinado. Como fazer composições em situação tão adversa? Mas João Mamulengo segue fazendo, e nem sabe o porquê. Ajudado pela cachaça e pela Bíblia, vai catando e criando versos, retirados lá de dentro das suas dores históricas. Vida de morador de rua, quem quer saber dela? Nem olhar, muito menos sentir-lhe os odores. Medo de “pegar” a triste sina.

Na má sorte não se está acompanhado. É imperativo estar só. O peso do mundo dobra as suas costas, e João está encurvado.  Grávido que estava ao chegar, cheio de ideias, prenhe de versos e de cachaça, vê seu parto acontecer. “Fazendo sozinho seu parto na praça, um bicho parindo na solidão”. Mas não tem alegria seu soneto, e nem poderia. As dores da vida não lhe favoreceram o talento e os versos são sem graça.

Sem forças, João sabe que esta será sua última música. Vai compondo, tirando palavras do livro, tocando seu violão claudicante, empenado, poucas cordas. E sem energia, João “menino perdido na multidão”, vai se encurvando mais e mais, vai ficando parado, calado, torna-se pálido, está morto. Morreu deixando uma música inédita. Ninguém sabe como seria esta sua última obra.

O que a música de João Mamulengo mais faz, é machucar quem ouve seus lamentos, porque quem a escuta sabe que em muitas esquinas há homens grávidos de vontade e sem oportunidade de colocá-la em prática. A melodia é má, pois maltrata e faz chorar. É algo que, ao se ouvir, não se consegue passar incólume. Eu não passei. Corri pela internet e trouxe um pouquinho do que senti ao ouvir essa dramática canção. Sua letra está abaixo e a sua melodia no Youtube. Espero que gostem, porque eu gostei.

“Ainda ontem vi João
Sentado no banco da praça
Tava prenhe de cachaça
Levava uma Bíblia
E um litro na mão
Nas costas a carga
Do lixo do mundo
No fundo da alma
O abandono de um cão
Menino perdido
Na multidão
Eh! João
O violão do mundo/ tá desafinado
Tá faltando corda
Tá todo empenado
E João Mamulengo
Ali parado
Vem ver João
Com a espinha curvada
Bebendo cachaça
Fazendo sozinho
Seu parto na praça
Um bicho parindo
Na solidão
Vem ver João
Tirando do livro
Um soneto sem graça
Compondo na praça
A última canção
Eh! João
O violão do mundo tá desafinado
Tá faltando corda
Tá todo empenado
E João Mamulengo
Ali parado
Menino perdido
Na multidão
Um bicho parindo
Na solidão
Curvado, ali, parado
Pálido, ali, parado
Morto, ali, parado
E João Mamulengo
Calado”.



*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   


Perfil de um voto


* Por Marco Albertim

 - Por que a senhora está vestida de azul?
- Pra ninguém saber que eu voto em Dilma.

Seria um fim de tarde rotineiro, caso Dilma Rousseff não viesse ao Recife. Seria uma tarde tão cinzenta quanto a amurada de concreto em volta dos tanques com peixes e tartarugas, no Parque 13 de Maio. A mulher, vestida de azul, viu-se diluída no meio da multidão vestida de vermelho. Não decidiu mostrar-se de vez, ficou por trás de um sombreiro de tronco grosso. Mas logo cansou e foi sentar-se num banco, assim que uma estudante fogosa resolveu agitar sua bandeira vermelha, quando ouviu do alto-falante distante, que Lula viera com Dilma. A estudante fora dar expansão a sua energia revolucionária. A mulher acomodou-se para fazer o cálculo das consequências, caso decida votar em Dilma Rousseff.

Com pouco mais de sessenta anos, inda que aparentando ter setenta nas costas abauladas. O vestido, um tailleur caboclo, sem o casaco, cobrindo os ombros, metade dos braços e tão comprido que não se via um palmo das pernas abaixo dos joelhos. A singularidade do traje chamou a atenção da estudante, de cabelos tão ruivos quanto sua camiseta e a bandeira balouçante. Com pernas curtas e ágeis, voltou para o banco onde estivera sentada. Por certo movida pela energia, e por ter cedido a prerrogativa de usar o assento, insistiu com a mulher:
- Hoje é dia de usar vermelho!

Sem poupar o riso febril no rosto sardento, tirou um adesivo pequeno, dos muitos que tinha no tiracolo pendurado no ombro; tirou-o e colou-o no vestido da mulher, acima do peito. Pasma, meio tonta, a sexagenária reagiu como alguém que quer se livrar de um incômodo percevejo.
- Mas a senhora disse que vai votar em Dilma...!
- Mas não quero que ninguém saiba.
- A senhora sabia que nesta praça cem mil pessoas aplaudiram Carlos Prestes num comício?
- Quem é Carlos Prestes?
- O Cavaleiro da Esperança.
- Ele não está aqui não!?
- Ele já morreu.
- E agora?
- Agora, Dilma é a esperança.
- Essa festa toda só por causa de uma mulher.
- Não é só por causa de uma mulher. É porque a vida vai mudar pra todo mundo, até pra senhora. De onde a senhora é?
- De Panelas de Miranda. Lá tem muita terra e pouca gente plantando.
- E isso que pode mudar.

Formou-se um reboliço a dez metros dali. Um crioulo retinto, de olhos vivazes, fazendo uso do pragmatismo sem retórica, anunciou a distribuição de camisetas vermelhas. A estudante correu para perto, conseguiu uma camiseta e trouxe para a mulher.
- Tome.

A mulher dobrou-a, segurando-a entre as mãos sobre o regaço.
- Vista agora!
- Não. Só quando chegar em casa.

Ao lado das duas, o homem da carrocinha de sorvete, usando camiseta vermelha, instalou uma bandeira da mesma cor, na bandeja da carrocinha. Instalou-a e aumentou o preço do sorvete, para tirar proveito da festa vermelha.

O alto-falante, por fim, anunciou a presença de Dilma Rousseff ao lado de Lula. A multidão correu para a frente da Câmara Municipal. O sorveteiro também se pôs em disparada. O céu do Recife, o do centro, fechou-se com a cor chumbosa do fim da tarde. Difícil mesmo era perceber que a sombra densa acima das cabeças, era um envoltório blindado a chuvas e trovões. Não se viam nomes, inda que sorvessem o fôlego espectral de Cristiano Cordeiro, Gregório Bezerra, Diógenes Arruda, Pelópidas Silveira e Miguel Arraes.

A mulher do vestido azul viu-se só, sem a interlocutora de presença fugaz. Quis seguir o cortejo na marcha galopante. Tinha força nas pernas grossas, mesmo com as ancas bamboleantes. Seguiu lenta, inda que dando pistas de seu rumo. Não foi para avenida Cruz Cabugá, com medo de sofrer um tropeção. Alcançou os fundos da Câmara e andou pelo passeio na lateral livre do prédio. Não foi para a frente, vestiu a camiseta vermelha sobre o vestido azul e encostou-se na esquina; encolhida para não ser vista.

*Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.