quinta-feira, 30 de maio de 2013

Capitalismo x Comunismo

* Por Raul Longo

Pouca gente tem paciência para ler e entender “O Capital” de Karl Marx. Eu não me considero suficiente para tanto e das vezes que tentei, entendi coisa ou outra. Mas divaguei na maior parte.

Maior parte do que li, e foi muito pouco. Afora publicações que continham trechos da obra, completo mesmo apenas um dos 4 densos e portentosos livros.

Infelizmente não conheci o Che Guevara, mas gostaria de perguntar como conseguiu ler e entender “O Capital” e ao mesmo tempo fazer revolução. Apesar de estudioso, Che não deve ter lido “O Capital” inteiro.

A Rosa Luxemburgo leu e quando quero entender alguma coisa do Marx, recorro a ela. Não sei se por ser polonesa ou por ter sido mulher, compreendo melhor a Rosa.

Apesar de ter escrito “O Capital” para explicar ao proletariado de todo o mundo como e por que meios o Capitalismo nos explora, infelizmente poucos de nós o entendemos em toda sua abrangência crítica ao sistema. Daí é que alguns governos se aproveitaram para dominar totalitariamente seus povos em nome do Comunismo, sem nada terem de comunistas.

Por sua vez os Capitalistas usaram os crimes sociais praticados por aqueles falsos comunistas para se apontarem como libertários. Uma ova!

Tiranos hipócritas praticaram muitos crimes fingindo-se de Comunistas, sim; mas não menos hipócritas nem menos tiranos os que justificaram as barbáries cometidas em todo o mundo, inclusive aqui no Brasil, dizendo combater o totalitarismo Comunista.

O verdadeiro Comunismo não é nem pode ser totalitário. Como o que tem de ser comum, pode ser exclusivo? Se for exclusivo, não é Comunista.

Já o Capitalismo, não tem jeito. É essencial que seja exclusivista.

O que é o Capital se não o acúmulo? E como todos podem acumular a mesma coisa? Não há meio! É ilógico, inviável e inexequível!

Essa história de que aqueles que acumulam Capital se tornam distribuidores do que acumularam, é conversa para enganar criança pequena ou adulto tolo. É preciso ser muito tonto para acreditar que apenas 10% (média europeia) ou 1% (média latino-americana) tenham de ficar cada vez mais ricos, para que haja alguma distribuição de riqueza?

Pode haver um raciocínio mais estúpido do que esse?!!

Aí vêm aqueles exemplos, muito comuns na mídia cotidiana, pintando o Capitalismo de rosa na divulgação da boa vida dos cidadãos da parte ocidental do Hemisfério Norte. E não aparece ninguém para avaliar dois aspectos simples, evidentes e gritantes:

Quem que mantém o consumismo irresponsável dos cidadãos dos países ricos? É só raciocinar um pouco: os estadunidenses poderiam ser tão gordos se os africanos não fossem tão magros?

A maior parte dos minérios utilizados pelas indústrias que enriquecem o Hemisfério Norte é levada da África. E todos os governos tiranos da África foram impostos pelos governos das nações do Hemisfério Norte.

Isso é uma evidência e não é preciso ler Marx para enxergá-la. É só não se deixar cegar e emburrecer pela mídia.

Mas há ainda uma realidade menos evidente, mais difícil de ser enxergada, porque escondida, omitida, não informada: existem pobres e miseráveis também no Hemisfério Norte. E não são poucos!

Segundo o US Census Bureau, o IBGE dos Estados Unidos, 58,5% da população daquele país entre 25 e 75 anos de idade viverá ao menos um ano abaixo do nível de pobreza. https://es.wikipedia.org/wiki/Pobreza_en_Estados_Unidos. Ou seja, mais da metade da população do país que concentra os maiores acumuladores de Capital do mundo, por pelo menos 360 dias de sua vida passará fome.

Claro que não consecutivos, pois todo ser humano acaba morrendo se ficar esse tempo todo sem comer coisa alguma. É preciso encontrar algum resto de sanduíche jogado ao lixo pelo crasse merdia dos Estados Unidos ou do Brasil.

Obesos e untuosos pela fartura, lá como cá a crasse mérdia se sente feliz por pertencer aos 40% dos privilegiados que não passam fome um único dia e continuam ignorando as omissões e acreditando nas mentiras com que a mídia internacional, Hollywood incluída, embala seus sonhos pueris de meninos abobados.

Continuarão dizendo que Comunista é comedor de criancinha enquanto assistem pela TV ou leem nos jornais e revistas quanto o mundo Capitalista é elegante, fofo e aconchegante.

Sentindo-se assim tão seguro e protegido, claro que o crasse mérdia jamais lerá Karl Marx e não será por aí que poderá perceber que o sistema Capitalista não tem o menor interesse em sua condição de vida, tão descartável quanto o lixo que produz e sem o menor significado perante o objetivo único e exclusivo do sistema: o acúmulo de Capital.

Num rasgo de inteligência o crasse mérdia se defenderá lembrando que o sistema depende intrinsicamente de seu poder de consumo. E é verdade, sem o consumo da crasse mérdia o Capitalismo vai a falência, assim como a mídia desaparece se não houver quem acredite em suas mentiras ou questione suas omissões.
Já que ler Marx não vai mesmo, envie o arquivo anexo para o crasse mérdia que você conhece. Por certo ele gosta de brincar de carrinho e quem sabe essas informações consigam que comece a pensar em alguma coisa a respeito do sistema que Marx analisou em “O Capital”. Ou pelo menos a desconfiar do que a mídia lhe anuncia.


* Jornalista e escritor
A guerra do Paraguai: uma tríplice infâmia?

* Por Raquel Moysés

A universidade oferece um momento para superar o desconhecimento sobre uma história muito mal contada nas escolas e em diversos livros. É só participar da conferência do historiador argentino Alejandro Olmos Gaona nesta quinta-feira, 23 de maio. Ele vai falar sobre "Os mitos da guerra da Tríplice Aliança", a obscura guerra contra o Paraguai, que foi levada a cabo pela Argentina, Brasil e Uruguai, e sobre a qual Olmos está escrevendo um livro. A conferência vai ser às 18h30min, no Auditório do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFH), numa promoção do Núcleo de Estudos de História da América Latina (Nehal) e do Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA/UFSC).

Professor da cátedra sobre Dívida Externa da faculdade de Direito da Universidade de Buenos Aires, Alejandro Olmos pesquisa história medieval e história colonial latino-americana, com ênfase em política internacional argentina. Integrante da comissão encarregada de fazer a auditoria da dívida externa do Equador, é autor do livro “La deuda odiosa: El valor de uma doctrina jurídica como instrumento de solución política”. Nesta obra, Olmos apresenta os fundamentos de uma doutrina para colocar em xeque a legitimidade das dívidas externas dos países. Para aliviar a pesada carga que massacra nações endividadas, ele discute no livro como se opor com firmeza aos credores de dívidas ilegítimas e execráveis, contraídas contra os interesses dos povos por ditaduras, monarquias, ou ainda sob coação.

Alejandro Olmos participa também, nesta sexta-feira, no Auditório da Reitoria, às 8h30min, da sessão latino-americana do VIII Encontro da Associação Mundial de Economia Política (World Association for Political Economy – Wape), realizado pelo IELA entre os dias 24 e 26 de maio. Nesta sessão, que vai tratar da economia política da dívida externa na América Latina, o professor aborda o tema “A farsa do ‘desendividamento’ externo da Argentina”.

Tríplice infâmia

Olmos é um dos historiadores que discute criticamente a guerra contra o Paraguai, cuja verdade histórica tem sido frequentemente boicotada pelo relato oficial. Este, em geral, oferece versões em que o Paraguai é apresentado como uma expressão de barbárie, e o seu presidente à época, Francisco Solano López, como um déspota, o que justificaria a campanha “civilizadora e democrática” da tríplice aliança, como bem lembram Norberto Galasso e Germán Ibañez, no texto “A guerra da tríplice infâmia”, em Cuadernos para la otra historia.

Por trás dos bastidores, explicam os autores, a tríplice aliança visava destruir o modelo de desenvolvimento autônomo do Paraguai. Uma nação que, em 1860, era a mais desenvolvida da América do Sul. Com um Estado que supria quase todas as necessidades da administração pública através do monopólio governamental da exploração do mate, de madeiras de construção e do tabaco. O que fazia com que o povo paraguaio praticamente não tivesse que pagar impostos.

Era inaceitável para o Estado, naqueles dias, que um paraguaio não tivesse moradia ou terra. Assim, o governo distribuía terras e ferramentas aos índios. E até gado a gente pobre do campo recebia para criar e tirar o próprio sustento. Na zona do Chaco, erguiam-se colônias agrícolas e de produção pecuária, além de fábricas de papel e serrarias. Até mesmo a indústria metalúrgica começava a prosperar, chegando a ser construída, em 1861, a primeira estrada de ferro e a primeira linha telegráfica no país.

Além do mais, como destacam Galasso e Ibañez, o ensino era obrigatório, o que não ocorria à época nem mesmo na maioria das cidades europeias. O Estado paraguaio se responsabilizava por oferecer alojamento, roupas, livros, material e merenda escolar para os filhos de pais pobres. Da Europa, Solano López trazia engenheiros, mecânicos, escritores, arquitetos, matemáticos, geógrafos. Tudo isso pensando em habilitar tecnicamente o povo e criar indústrias modernas no país. De lá também vinham centenas de técnicos industriais, que davam suporte à criação de vias férreas, escolas de artes e ofícios, fundições metalúrgicas.

Mas “este Paraguai das maravilhas”, nas palavras do historiador Sánchez Quell, que teria sido logo “o mais brilhante centro de civilização do novo mundo”, não sobreviveu à catástrofe da guerra da tríplice aliança. A nação Paraguai sucumbiu aos interesses da oligarquia portenha e montevideana e ao império do Brasil e da Grã-Bretanha, empenhados em liquidar focos nacionalistas populares na América do Sul, e especialmente em destruir o modelo paraguaio de crescimento.

Outro historiador argentino, Milcíades Peña, em seu livro “História del Pueblo argentino”, também faz uma análise crítica sobre a guerra do Paraguai, que ele classifica como a última etapa de uma guerra da oligarquia contra o litoral e as províncias interiores argentinas. No Paraguai, ele lembra, não existia uma classe tão rica como os estancieiros ou os burgueses comerciais portenhos, mas sim um Estado, que pelo seu poder econômico e centralização política, podia competir vitoriosamente com aquelas classes capitalistas bonairenses, que eram as mais poderosas e prósperas da América do Sul.

O Paraguai oferecia então, explica Peña, uma alternativa distinta e superior à oligarquia portenha, já que se baseava no desenvolvimento autônomo da economia nacional com base nas conquistas da civilização europeia, industrial e capitalista. Mas com a guerra, que contou com a cumplicidade usurária dos bancos e do comércio ingleses, implodiu a primeira tentativa de implantação de um capitalismo industrial na América Latina.

Ao fim da guerra, o Paraguai restava ao solo, completamente destruído. Ao iniciar-se a luta, a nação paraguaia somava um milhão e 300 mil habitantes. Depois de cinco anos, sobravam apenas 350 mil pessoas, a maioria mulheres. “Nem em tempos antigos, nem nos modernos, a história registra nada semelhante”, assinalou o escritor e diplomata venezuelano Rufino Blanco Fombona. Foi uma guerra para levar a “civilização” ao Paraguai e acabar com a “barbárie” das estradas de ferro e dos telégrafos, ironiza Carlos Pereyra, no livro “História para quê?”


* Jornalista

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, dois meses e dois dias de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Fases recorrentes de apogeu e decadência.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica “Imagens que não existiriam sem Cau Gomez”.

Coluna Da terra do sol – Marco Albertim, conto “A bandeira vermelha”.

Coluna A favor de tudo, contra todos – Fernando Yanmar Narciso, crônica, “Loucos não usam calça de hóquei”.

Coluna Porta Aberta  – Luciano Siqueira, artigo, “A torcida contra faz ouvidos de mercador”.

Coluna Porta Aberta – David Fernandes, poema “Fotografias”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.
   
Fases recorrentes de apogeu e decadência

As primeiras óperas tiveram, como principal característica, o rígido equilíbrio entre a música e o texto cantado, que dava sentido ao enredo. A melodia era expressivamente dramática, criando um clima de tensão, que ora amainava, ora se exacerbava, até o desfecho final. Para haver essa unidade, o tema musical e a letra eram compostos conjuntamente, um em função do outro. Nas composições iniciais, não havia, pois, adaptações de libretos.

O grande nome do período inicial do novo gênero, responsável direto por sua consagração, foi Cláudio Monteverdi. Esse compositor conseguiu, com bastante perícia, reunir todos os elementos que caracterizam uma ópera: recitativos, árias, coros, além de expressiva orquestração. Suas composições mais marcantes foram “La favola d’Orfeo” e “L’Incoronazzione di Poppea”. A primeira foi apresentada em 24 de fevereiro de 1607 e seu libreto foi escrito por Antonio Striggio. A segunda, estreada para uma grande platéia de seus já muitos apreciadores, foi levada ao palco em 1642 (não consegui apurar a data exata) e teve uma característica que a tornou marco na história do gênero. Tratou-se da primeira ópera em que o tema abordado não foi de caráter mitológico, como havia ocorrido até então. O enredo foi a dramatização de um fato histórico. O texto, ou seja, o libreto musicado por Monteverdi, foi escrito por Francesco Bosenello. Narra como o imperador romano Nero, caracterizado por ações no mínimo insanas, repudiou Otávia, para poder casar com a amante, Popéia, à qual fez coroar como imperatriz.

Todavia, a ópera não obteve unanimidade. Muitos consideravam-na, apenas, um “modismo”, como tantos outros que surgiram e logo desapareceram. Estavam equivocados, claro. O gênero teve sucessivas e profundas oscilações de aceitação, indo do apogeu e da consagração à completa decadência, ao quase desaparecimento, para retornar de novo, ser ameaçada outra vez, e assim sucessivamente.,

Em vários círculos intelectuais, o novo gênero era encarado como “brincadeira” de mau gosto, se não, como engodo. Afinal, não era nem música, em seu estado puro, e nem teatro, nos padrões vigentes na época. Houve, até, quem ridicularizasse a ópera, como foi o caso do irreverente filósofo francês, François Marie Arouet (que se consagrou com o pseudônimo de Voltaire), que chegou a escrever a propósito: “O que é imbecil demais para ser dito, está sendo cantado”.

De fato, ao longo da segunda metade do século XVII, o novo gênero passou por um processo de profunda decadência e tudo levava a crer que aqueles que o consideravam mero e passageiro modismo estavam com a razão. O problema, porém, não estava na ópera em si, na sua concepção teórica, no seu objetivo de unir música e teatro, mas na má qualidade das composições. Muito compositor de contestável talento (para não dizer medíocre) começou a compor esse tipo de peça. Ademais, vários recorreram a adaptações de outros tipos de textos, nem sempre apropriados para serem musicados, em vez de escreverem ou encomendarem libretos originais. E, pior, boa parte deles versando sobre temas banais e sem interesse de ninguém.

Antes desse período – em que tudo levava a crer que o gênero iria desaparecer simplesmente – havia ocorrido o que alguns historiadores de arte classificaram como o “Primeiro Apogeu”. Essa fase teve, principalmente, três grandes compositores, autores de obras marcantes e de inegável valor artístico: Pietro Francesco Cavali, em Veneza; Antonio Cesti, em Florença e Alessandro Scarlatti, em Nápoles.

A partir daí, a música, que desde o surgimento da ópera sempre havia sido melodicamente rica, harmônica, variada, polifônica, perdeu, subitamente, relevância. Passou a servir, mais, como pano de fundo para ressaltar o aspecto dramático das peças, papel mais ou menos parecido com o das trilhas sonoras do cinema. Essa descaracterização, que ia contra, inclusive, o espírito original da ópera, passou a espantar o público dos teatros, notadamente as pessoas de refinado gosto musical. Houve um momento em que se pensou, até mesmo, que o novo gênero estava extinto. Puro engano.

A ópera sobrevive há já mais de quatro séculos por sua capacidade de renovação, quer temática, quer musical. Em sua já longa história, oscilou bastante, como destaquei, com períodos de apogeu e de decadência. Não tardou em se tornar o gênero preferido dos maiores e mais geniais compositores da chamada “música clássica”, cada qual trazendo para ela saudáveis e imprescindíveis sopros de renovação.

Em fins do século XVII, havia a predominância das árias, em detrimento da ação dramática, sufocada por artifícios cênicos. O visual passou a ser mais valorizado do que o auditivo, bem de conformidade com o gosto barroco, superficial e incapaz de se aprofundar nos sentimentos. A ópera, nesse período, não passava de mera “coleção de árias”, em detrimento do conjunto, pecado por falta de harmonia. É verdade que, num momento crítico, contou com a genialidade salvadora de um Georg Friedrich Handel, com suas composições “Júlio César” (apresentada em 20 de fevereiro de 1724), “Rodelinda” (13 de fevereiro de 1725), e “Alcina” (16 de abril de 1735).

Contou, ainda, com o talento de Jean-Phillipe Rameau, que legou, à posteridade, entre outras obras do gênero, “Hippolyte et Arice” (1 de outubro de 1733) e “Castor e Polux” (24 de outubro de 1737). Foi quando começou a se processar saudável reforma de conceitos. A primeira dessas mudanças veio, mais uma vez, da Península Itálica, , com o que ficou conhecido como “ópera buffa” napolitana, com altíssimo nível artístico. Seu pioneiro foi Giambattista Pergolesi, que estreou “La serva patrona” em 28 de agosto de 1733.

O objetivo dessa inovação foi tornar as peças encenadas menos insípidas e monótonas, conferindo-lhes toques de humor. Foi o de desvincular a ópera da tragédia, mediante renovador sopro de comédia. Esses enredos cômicos, dotados da vivacidade característica dos italianos, foram compostos, inicialmente, para serem encenados nos intervalos das “óperas sérias” (diria sisudas e artificiosas), mas não tardou para que ganhassem espaço próprio. Tratarei a esse propósito em ocasião oportuna. .

Boa leitura.


O Editor

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Imagens que não existiriam sem Cau Gomez

* Por Mara Narciso

Meu primeiro contato com o pintor e cartunista Cau Gomez, nascido Cláudio Antônio Gomes, foi através de um convite virtual. Nágila Almeida e Rosângela Alves convidavam, através de Mosaico, empresa de resultados, para um vernissage do artista na Galeria Márcio Leite. A capa do convite virtual era um quadro coalhado de garrafas amarelas, bem espremidas em cena, e cada uma tinha uma personalidade, não sendo uma garrafa qualquer. Na hora da festa, o primeiro quadro que vejo é justo o do convite. Está na entrada, e ocasiona o que se espera de uma obra desse tipo: parece gritar. É viva e fala alto. Tem garrafa homem, garrafa mulher nua, garrafa boca aberta, garrafas arrumadas e caídas. O artista não usa os pinceis com suavidade, mas com a força de quem quer exorcizar alguma entidade de dentro do corpo. Seu traço forte consegue mexer, agitar, atordoar. E por pouco não deflagra uma guerra.

O amarelo está presente em quase todos os 14 quadros pintados para a mostra de Montes Claros. Aos meus olhos destaca-se dos demais o quadro Sarau da Rural. São duas metades. Na de cima, sobre um amarelo vibrante um óvulo azul, depois um feto em formação e depois formado, vira criança que vira adulto com um sax na boca, de claro apelo fálico. Na metade de baixo uma majestosa Rural, daquele azul inesquecível, ladeada por duas caras. Amarelas. Coisa para paixão. Cau Gomez falou que era uma homenagem a um amigo que tinha um carro de som que era uma Rural. De nome Rui, era chamado de Ruiral. Hoje, como tem uma Land Rover, é chamado de Ruiover. Todos melhoraram de vida.

Há uma mão engraçada na qual cada dedo é uma pessoa; um relógio em que os ponteiros são um homem que prova não estar bêbado, pois, de copo na mão, faz um quatro com as pernas, sendo o outro ponteiro uma garrafa de cachaça. Com a sua origem no cartum, diverte-se fazendo piada na tela grande, sugerindo que seu Macunaíma, o herói sem caráter, cujos dentes branquíssimos são o nome do personagem, possa ser um auto-retrato. E com a camisa da Seleção Brasileira de Futebol. Há dois palhaços, sendo um deles quase abstrato, mas deixando-se sugerir pela boca branca e pelo nariz vermelho.

A tela chamada “Primeiro de maio” traz dois operários de capacete e na frente deles, duas engrenagens que remetem ao filme “Tempos Modernos” de Chaplin. Cau Gomez, mineiro de Belo Horizonte, disse que “figuras icônicas não são buscadas, mas surgem na obra e não há como fugir delas”.

Algo irado em certos momentos, seu traço rascante nos foi trazido por Márcio Leite, um anfitrião que abre a sua galeria para abraçar a grande arte. E nos surpreender. Quem viu o sanfoneiro-cangaceiro, com cara de mau e cercado de inesperadas bandeirolas e “boca letra a” achou a criação única e entendeu que aquelas imagens jamais existiriam, caso não tivessem saído da imaginação do homem de rastafári direto para as telas. Mora na Bahia, e tem tudo para ser soteropolitano, e é, ainda que seja como cidadão honorário, mas nasceu de verdade foi nas proximidades das minas de ouro. Talvez, também por isso, a sua arte brilhe dessa maneira. E desconcerte.

As suas bandeirolas, que lembram as de Alfredo Volpi, atenuam a ambientação e aplacam o ar sombrio das cores vivas. Mesmo vivas. Afirmando ter traço livre, aproxima-se do abstrato, sem, contudo, desvincular-se em definitivo da figura humana. Há momentos de crítica social, além dos já citados toques de humor pesado. A sua arte livre fala das situações opressoras das grandes cidades, nas quais janelas apertadas sugerem prisão e falta de espaço, dando peso à condição dos civilizados oprimidos pelas pinceladas em preto, e pelas garrafas presas na prateleira. Janelas, portas e garrafas dão seu recado urbano, que o levaram a ganhar prêmios nacionais e internacionais. Diz que estudou e segue a Escola Guignard, de Belo Horizonte, e numa fala rápida mostra modéstia e simpatia.

Ver arte dá prazer sem precisar entender de arte, e nem saber daquela arte específica. Sofisticação é desnecessária para apreciar. Pessoas comuns merecem consumir o produto (santa heresia!) sem se perturbar com definições técnicas que tentam amarrar artistas num cercado. A arte de Cau Gomez no cartum, charges, caricaturas, ilustrações gráficas, vinhetas, quadrinhos, pinturas em tela, e tudo que lida com imagem pode aceitar definições, mas não a tutela de um limite.

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   


A bandeira vermelha

* Por Marco Albertim

Caboré morreu numa quinta-feira. Um único tiro fora disparado do rifle papo-amarelo. O estrondo se fez ouvir no canavial já maduro para a colheita. De cima do cavalo, o vigia apontara para o piquete. Quinze homens no piquete, convencendo outros cortadores de cana a não continuar o corte; a assembleia decidira na noite anterior, no sindicato.

Os homens que ainda trabalhavam tinham vindo do distrito de Pasmado, na carroceria do caminhão da usina. O mesmo caminhão os conduzira de volta para casa, por ordem do administrador, logo que terminaram a lida; assim, não tiveram como participar da votação que decidira pela greve.

O corpo de Caboré ficou estendido na piçarra fria, posto que o dia não se anunciara ainda com o sol pleno. Os olhos não se fecharam; a bolota de cada pupila, fixas, no rumo das sobrancelhas. A boca semiaberta, num ricto onde se distinguia a palavra que fora interrompida a meio caminho de sua sonoridade completa. Tinha o jeito, Caboré, de falar conforme o sopro do vento; do vento brando da Zona da Mata, doce porque ainda carregando o frescor de um resto de mata verde na beira de um córrego. Juntando-se à voz sem ruído de Caboré, feito um veludo na pele, o vento acumpliciara-se ao conteúdo de suas palavras. Isso, por certo, contrariara a lógica patronal do vigia no cavalo. O homem disparou na ponta da curva do caminho piçarrento, disparou sem mirar alguém em particular, certo de que a vermelhidão do sangue, misturada à terra seca, daria conta do vivo bodum da minhoca-brava sob a raiz de cada cana; a minhoca voraz, não estranha aos vermes comedores de defuntos. O cavalo com o vigia no lombo, seguiu para a usina; para a estrebaria nos fundos da moenda da cana, junto a outros cavalos com outros vigias conversando numa roda, cada um com um palito de galho de bambu entre os dentes.

Os piqueteiros, inda que o pardo-escuro do tempo não lhes comprimisse as frontes, renderam-se à náusea da morte anunciada pelo disparo. Os cortadores de Pasmado, os mesmos que espreitaram a paciência na voz de Caboré, recolheram a foice; cada um enfiando o cabo de madeira, com a navalha para cima, nas amarras da cintura, entre o cinturão de couro sem verniz e as rugas do tecido grosso da calça.

O piquete fez-se grande com a adesão dos pasmadenses.
- Fala, Caboré, diz alguma coisa... Tu não é de se entregar à morte!

Caboré gemeu sem mexer com os olhos; o estertor fez o queixo esticar-se para baixo, para um de seus lados; com os olhos para cima, os cabelos lisos, no desalinho contrário ao penteado de costume, o rosto pareceu dar razão à estreiteza tortuosa da terra entre um lado e outro do canavial, aos sulcos abertos pelas patas dos burros de carga. Caboré soltou o gemido, o derradeiro; o sangue na boca escorreu grosso, com pressa em coagular-se.
- É o pieiro da morte!

A explicação, à moda de uma senha já esperada, fez acender a luz nada bacenta do sol. Os tizius, arribados da restinga ali perto, há muito pousavam às palhas verdes em volta dos pendões da cana; os cantos seguidos pelos saltos em viés, não foram vistos pela curiosidade telúrica dos camponeses. Desceram para o chão úmido da terra, arrancando com o bico os talos da grama rala, regalando-se com as raízes sob a terra escura.

O corpo com o rosto exposto à aurora luzente, carregada de brumas invisíveis, deixou-se encolher com o arredamento dos homens. Eles sentaram-se nos ressaltos paralelos, em cada lado da plantação. Por trás de cada um, o canavial ainda renhido, à espera dos cortes. Ouviam-se os piados buliçosos dos tizius, os gemidos de um sapo com o dorso espinhento sendo espremido entre os dentes e as gengivas babentas de uma jararaca. Nada lhes aguçou os sentidos. O piquete fora engrossado, mas a rigidez nos olhos de Caboré cobriu os olhos de cada um com o torpor igual à calda venenosa que a usina espalha no rio maior, o mesmo que irriga todo o massapê sob as canas.

O Jipe do sindicato, sem o capuz de lona, chegou. O corpo de Caboré, estendido entre os bancos de trás, teve a cabeça levantada entre as pernas do camponês em cujos ouvidos ainda zunia o pieiro da morte. Seguiu em pouca velocidade, o Jipe. A maioria do cortejo, quase em andrajos, caminhou sem queixas pelo chão desigual rumo a Goiana.

Na rua principal da cidade, em frente à prefeitura, os funcionários, mudos, debruçaram-se no parapeito de cada janela. O prefeito não foi avisado, mas advertiu-se com a súbita interrupção do trabalho. Abriu caminho rumo à janela principal do andar de cima; e acendeu um charuto tirado do bolso do paletó de linho.

O Jipe, sem que o motorista desse conta do pé no acelerador, roncou sem ruído na frente do prédio. O mesmo camponês que advertira os outros do pieiro da morte, tinha numa das mãos uma bandeira vermelha presa ao cabo de uma enxada. O lume da manhã avermelhou o desenho de uma foice e um martelo no meio da bandeira.

 *Jornalista e escritor. Trabalhou no Jornal do Commércio e Diário de Pernambuco, ambos de Recife. Escreveu contos para o sítio espanhol La Insignia. Em 2006, foi ganhador do concurso nacional de contos “Osman Lins”. Em 2008, obteve Menção Honrosa em concurso do Conselho Municipal de Política Cultural do Recife. A convite, integra as coletâneas “Panorâmica do Conto em Pernambuco” e “Contos de Natal”. Tem três livros de contos e um romance.

Loucos não usam calça de hóquei

* Por Fernando Yanmar Narciso

Sou a favor do vigilantismo, da justiça com as próprias mãos. Quem não consegue defender a si próprio contra a maldade e o crime não merece o direito de cobrar melhor segurança dos governantes, por isso vivo de olho roxo. Há um ano, influenciado pela trilogia de filmes Cavaleiro das Trevas de Christopher Nolan, resolvi colecionar as revistas do Batman. Sei o que os leitores não-escolados devem estar pensando agora... Crianção! Cria vergonha na cara! Vira homem e assina a Penthouse! Esse tipo de mentalidade estreita não deixa de ser prejudicial para o universo dos quadrinhos, afinal, quem assistiu à trilogia sabe que não há nenhuma criancice naqueles filmes, tampouco nos gibis.

As revistas do Batman são uma leitura no mínimo peculiar. Tenho certeza que os escritores e desenhistas não se esqueceram que, na essência, ele é um psicopata que gosta de socar bandidos à noite vestido de morcego. Mesmo assim, as histórias que eles escrevem têm um teor tão sério, brutal e complexo que às vezes eles parecem estar escrevendo um livro de Dan Brown. Mas quão a sério alguém poderia levar uma figura como ele? Quer dizer, ele é um personagem irremediavelmente apaixonado pelo que faz, nunca sorri ou demonstra alguma leveza de espírito. Conseguem imaginar a ele ou a qualquer outro super-herói passando diante de um espelho e mantendo a mesma seriedade? ELE É CHARLES MANSON METIDO NUMA ROUPA DE MORCEGO, GENTE! ESSE CARA PRECISA TER SENSO DE HUMOR! Até o Coringa vive fazendo chacota com a roupa do morcegão, e ele é um palhaço branco de cabelo verde!

Quando se pensa no homem-morcego, provavelmente a primeira coisa que vinha à cabeça era a comédia de TV dos anos 60. Graças à toda a censura e perseguição do Macarthismo na década de 50, há muito Batman não representava nenhuma ameaça aos criminosos, ele até sorria e tinha distintivo da polícia! A série de TV basicamente pegou o tom farsesco e pueril dos quadrinhos daquele tempo e lhe deu uma overdose de Ritalina. Reza a lenda que Adam West, quando escalado para dar vida ao herói, foi instruído para interpretá-lo como se fosse Hamlet. Não sabemos até que ponto ele levou a instrução a sério, mas que a série era um verdadeiro baile de carnaval caricato e sem um pingo de respeito pelo legado do personagem, isso era. Depois dela, só mesmo o filme do Superman de 1978 para devolver alguma dignidade ao universo dos super-heróis. Por todo o mal que a série causou, apesar de ser hilária e memorável, o homem que se dispusesse a propor um filme do Batman na década de 80 certamente sairia da sala de reuniões numa camisa de força, e seria posto na mesma cela acolchoada que Bruce Wayne divide com o Coringa.

Porém, os tempos eram outros. No mundo dos quadrinhos, Frank Miller, o artista mais lunático do ramo, teve a macheza de trazer o morcegão de volta ao básico, despido de todos os exageros e como o que ele costumava ser: Um vigilante sociopata com uma vontade tão grande de combater o crime que essa vontade o cega para tudo o mais à sua volta. Batman: O Cavaleiro das Trevas é até hoje considerada um tipo de evangelho dos fanáticos por super-heróis, e foi dessa fonte que os filmes da época, lançados pelo diretor estreante Tim Burton, beberam com gosto. Apesar de atualmente Batmane Batman- O Retorno nos parecerem um tanto ultrapassados e até meio tolinhos, são adorados pelos fãs. Eram o supra-sumo do dark e do gótico na década de 90, e fizeram o homem-morcego recuperar seu status de ícone cultural.

Mas talvez Burton tenha pesado um pouco a mão quanto à violência e ao clima fantasmagórico dos filmes, pois as criancinhas saíam do cinema chorando apavoradas. E, mesmo para dois dos filmes de maior bilheteria da história e que venderam toneladas de brinquedos, isso não é um bom sinal. E o que a Warner Bros. fez então? Limou Tim Burton da cadeira do diretor e começou a fazer inúmeras alterações para que o público infantil não se apavorasse mais.

O, na época, conceituado diretor Joel Schumacher- e que agora não pode mais nem mostrar a cara em público, foi contratado para dirigir o Magic Busde Gotham de acordo com o tom familiar que o estúdio buscava. E, em suas duas deploráveis empreitadas no universo de Batman, ele basicamente atualizou a velha série cômica dos anos 60, trazendo de volta o odioso Robin e a Batgirl, efeitos especiais de ponta exagerados e carnavalescos e, principalmente, muitas, MUITAS piadinhas sem graça, do tipo que nem a mãe de quem conta consegue rir.

Batman Eternamente e Batman & Robin, apesar de terem vendido bem mais bonequinhos de Mc Lanche Feliz, agora pertencem à infâmia de Hollywood, e a simples menção desses nomes faz com que os nerds nos escorracem da cidade, cobertos de piche e penas. No entanto, por mais ridículas que as encarnações da série de TV e dos primeiros filmes nos pareçam hoje, temos de reconhecer que, pelo menos, tinham a consciência de que a função deles era nos divertir e do quão deslocados da nossa realidade estavam nossos heróis e vilões favoritos, porque agora...

Não vou mentir. A nova trilogia do Batman faz justiça a todas as grandes trilogias do cinema como Senhor dos Aneis e O Poderoso Chefão. Gosto muito de todos os três filmes, mas o erro de Nolan foi ter literalmente trago o Batman para o mundo real. Na visão do diretor, Bruce Wayne vive na Npva York Taxi Driver ou na Londres de Laranja Mecânica. Não senhor, esse Batman aqui não tem tempo para brincadeira. Esse Batman aqui é basicamente um agente da SWAT de armadura preta de kevlar e que anda de tanque. Gotham é um local tão triste, os filmes são tão claustrofóbicos e depressivos que no fim nem nos importamos se o morcegão conseguiu salvar o dia, só queremos que aquele delicioso pesadelo acabe! Não importa o quão intenso e realista seja o roteiro, não importa se seus filmes sejam mais sombrios que o fundo da minha carteira, não há nada que me convença de que uma figura como o Batman seja plausível no mundo real. O tipo de coisa que só os nerds fanáticos fundamentalistas seriam capazes de acreditar.

Para o Bat- carrinho de mão!