domingo, 28 de abril de 2013


Dever de tentar

* Por Pedro J. Bondaczuk

As maiores conquistas humanas foram empreendidas por grandes sonhadores. Todavia, esses homens e mulheres notáveis não se limitaram a sonhar. Agiram, trabalharam, lutaram e perseguiram seus sonhos, até que eles se concretizassem. Nisso é que se diferenciaram das pessoas comuns, que também sonham, mas sonhos pequenos, pífios, medíocres, tão minúsculos que findam por se diluir no ar. Além disso, nada fazem de concreto para torná-los realidade. Desanimam ao primeiro obstáculo e optam por lamentar fracassos, que poderiam ser só transitórios, em vez de extrair deles preciosas lições.

Temos que sonhar, sim, e sonhos grandiosos. Mas, sobretudo, devemos empenhar os melhores esforços na sua concretização, mesmo que jamais tenhamos sucesso. Conseguiremos, pelo menos, construir uma vida exemplar.

Não raro, abrimos mão dos nossos mais preciosos sonhos, ao concluirmos (ou somente desconfiarmos) que eles são impossíveis de se concretizar. Ou seja, que são inatingíveis, por serem demasiadamente altos. Trata-se de um erro. Não há mal algum em ousarmos em nossas pretensões e, principalmente, em lutarmos com todas as nossas forças e toda a nossa capacidade para atingir o supostamente (ou apenas imaginariamente) impossível.

Agindo assim, teremos, pelo menos, o prazer de uma boa luta, o que, certamente, nos engrandecerá. E quais são os grandes ideais que, desde o princípio da civilização desafiaram e desafiam mais do que nunca sucessivas gerações e que a humanidade ainda está longe, muito distante de alcançar?

São, na verdade, vários, cada um mais complexo e assustador do que o outro. São desafios monumentais para os ousados, os criativos, os idealistas, os competentes, os verdadeiros líderes, que comandam multidões apenas com o argumento dos seus exemplos. Um deles, e sem dúvida o mais complexo e aparentemente irrealizável, é o de convencer o máximo possível de pessoas (se possível, todos os mais de 7 bilhões de habitantes do Planeta, com sua diversidade de condições sociais, econômicas, políticas, psicológicas, culturais etc.) a substituírem a brutalidade pela razão.

Com todos os disfarces, criados (e aperfeiçoados) ao longo de dez mil anos de civilização, o que ainda prevalece no relacionamento do dia a dia (diria, cada vez mais) – e em todos os níveis de vida – é a lei da selva. É o mais forte (ou o mais apto) subjugando o mais fraco (ou mais incapaz). É possível essa transformação? Com a mentalidade existente hoje, quando estamos convencidos, de antemão, que se trata de causa sem esperança, a resposta óbvia é: não!!!

O que fazer? Desistir? Fazer de conta que tudo está bem? Entrar no jogo e procurar ser o mais forte? Entendo que não! Concordo com John W. Gardner quando afirma que “nosso dever como homens é tentar”, nos abstraindo do fato da tentativa ter ou não validade, de haver ou não mínima chance (ínfima que seja) de sucesso. Temos que entrar nessa batalha com a plena certeza da vitória. Se ela não vier... Paciência! Pelo menos teremos tentado. Combateremos o bom combate.

Outro desafio gigantesco é o de substituir a iniqüidade pela justiça. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, em determinadas circunstâncias, nos colocamos na posição de juízes dos atos alheios (sejam eles quais forem). Sentimo-nos, contudo, injuriados quando nos reservam o papel de réus. Apesar da evolução do Direito, com o Código de Hamurabi, a Lei das Doze Tábuas de Roma, os princípios implantados por Sólon na Grécia Antiga e tantos outros avanços ao longo do tempo, ainda impera a prática do “dois pesos e duas medidas” (em maior ou menor grau, não importa) mundo afora. As leis, iníquas em boa parte, beneficiam determinadas camadas sociais e são sumamente severas com outras. Isso que há no mundo, atualmente, pois, não passa de caricato arremedo de justiça.

Um terceiro desafio, este até mais complexo do que os dois anteriores, é o de substituir a ignorância pelo esclarecimento. Convenhamos que hoje, mais do que nunca, abundam os meios para encarar essa tarefa. O que falta, no entanto, são líderes que se disponham a encará-la. Falta vontade dos que poderiam realizar isso, mas que, por comodismo, receio, egoísmo, ou seja lá porque for, não se dispõem a encarar esta batalha que reputo a mais meritória de todas. É sublime tirar alguém, não importa quem, das trevas da ignorância e conduzi-lo à luz da sabedoria!       

A responsabilidade maior, óbvio, cabe aos que foram melhor-dotados pela natureza. Afinal, não há limites para os gênios quando se propõem a criar o que as pessoas comuns não ousam sequer pensar. Por isso, são indivíduos especiais, e raros, presentes do céu à humanidade, para promover seu progresso material e espiritual. Contam com características ímpares e incrível clarividência.

Por isso conseguem enxergar “oportunidades” onde a maioria só vê “perigo”. Mas não se limitam a vislumbrar. Aplicam seu talento inato, com entusiasmo e confiança, nas tarefas a que se propõem. Operam maravilhas, enriquecendo as artes, a cultura e a ciência. São fatores imprescindíveis de progresso e bem-estar gerais.

Às vezes, somos dotados de genialidade, mas, por excesso de modéstia, sequer nos damos conta. A esse propósito, recorro, mais uma vez, a John W. Gardner – um dos gigantes da espécie na atualidade, fundador, em 1970, da “Common Cause”, organização popular de representação política, suprapatidária e sem fins lucrativos, ganhador de uma das maiores comendas civis dos Estados Unidos, que é a Medalha Presidencial da Liberdade – que escreveu, em um de seus livros: “Freqüentemente enfrentamos uma série de grandes oportunidades disfarçadas em problemas insolúveis”.
Quando isso acontece, e não conseguimos distinguir uma coisa da outra, ocorre um terrível desperdício de talento. Quem perde não somos, apenas, nós, mas toda a espécie. O compositor alemão, Ludwig van Beethoven, constatou, certa feita, a esse propósito: “Ainda não se levantaram as barreiras que digam ao gênio: ‘daqui não passarás’”. E não se levantaram mesmo! E “nosso dever como homens é tentar”. Sempre!!!!


* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk 


  



Laércio Villar: som, talento e magia

* Por Marcos Alves


O Brasil nos encanta em tudo que representa a criatividade e originalidade do seu povo. E nos decepciona sempre que parte dessa criatividade e talento ficam esquecidos ou impossibilitados de exercer seu brilho. A Cultura geralmente nos chega como arte póstuma, desinteressante, nos livros d’ história ou em coletâneas cada vez mais duvidosas. Melhorou muito com a revolução digital, mas não o bastante para recuperar décadas de descaso.
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São milhares de casos que se ouve por aí de gente com talento suficiente para viver da própria arte, e que jamais chega a sobressair-se a ponto de se extrapolar os limites das relações pessoais. Acompanha-se o trabalho do artista em vida e só. Com isso ficam poucos registros. Às vezes chegam a valer uma fortuna.

Gente que arrebentou e pouca gente conhece. Não há acervo. Não temos aquilo que poderíamos chamar de Instituto de Preservação do Talento Nacional. As leis de incentivo à Cultura são um passo importante, porém relativamente novo e de difícil prognóstico. O melhor é que a arte seja financiada por muitos, para reduzir o risco da intervenção indesejada no trabalho.

“Mas iniciativas vez em quando surgem por aí, de pessoas e organizações com gosto especial pela coisa e... lá vem Laércio Villar mais uma vez, para alegria das coisas da música!. Em Ouro Preto – palco digno de uma viagem a bordo do talento desse monstro da bateria. Salve Laércio!”

Essa foi a chamada de um cartaz sobre o show do baterista Laércio Villar em Ouro Preto, no final de 2003. Conheci Laércio no começo dos anos 90 em Belo Horizonte, em uma república – algo bem ouro-pretano por sinal! E posso dizer que assistir com ele à simples apresentação de uma banda qualquer na TV valia por uma aula de Filosofia: a conversa começava no som e depois se estendia por personalidades do mundo, conjuntura, estilo de vida, quase sempre terminando com um prato noturno para espantar a larica.

Laércio aparecia de vez em quando, geralmente quando tinha alguma apresentação em BH. Ele residia em Moeda, e para lá voltava no dia seguinte ao show. Mas deixou em nós uma marca inextinguível dessa época, entre o final dos anos oitenta e a primeira metade dos noventa.

Na época eu, então estudante de Jornalismo, me meti a fazer um artigo sobre o Laércio como trabalho da faculdade. Parte desse texto foi usada na produção do show em Ouro Preto. Vou reproduzir alguns trechos aqui – por terem sidos ditados em pessoa, por Laércio Villar e porque ajudam a reproduzir um pouco da personalidade desse mestre, e também da atmosfera daquele lugar.

Em Laércio Villar, a música está nos gestos, convicções, posicionamentos. Quase tudo o que diz tem que ser traduzido do ”Musiquês” para o Português. “A falta de harmonia é o mal maior do mundo”, define. Sobre o tom das conversas em Brasília, aponta: “A maioria dos políticos brasileiros desafina!”

 A complexidade das seqüências musicais do Jazz é definida em frases como: “O endereço é o mesmo”. E se vê uma banda ou cantor esticando sempre a mesma nota, repetindo aquele refrão interminável, manda sorrindo: “Estão cozinhando o galo”.

Laércio escolheu ou foi escolhido pela música – e a ela dedica a vida. Sofre com as dificuldades que acabam resvalando no lado pessoal. Como outros grandes artistas sentiu a falta de traquejo com os negócios. Nunca achou graça em fazer música “comercial”.  Por vezes o vi com os olhos embargados confessar que ficava “um tanto perdido e desesperançado”.

É considerado um músico ousado pela crítica, e um gênio pelos colegas de profissão. Tocou com Wagner Tiso, Neném (baterista) e ainda se apresenta bem acompanhado, como no show em Ouro Preto, quando tocou ao lado do baixista e tecladista Enéias Xavier. Foi quando o vi pela última vez e me parecia bem disposto, sorridente e gentil como sempre.

Estava ao lado da família, e exibia aquela aura dos mestres, logo depois de uma exibição. Espero encontrá-lo novamente para renovar a conversa. Quem sabe dar seqüência ao projeto Ouro Preto. Uma pena não haver outra forma de vê-lo – ou melhor, ouvi-lo tocar. Laércio é artista fora de catálogo. Ninguém sabe, ninguém viu.

* Marcos Alves é jornalista. Formado em Jornalismo pela Fafi-BH, atual UNI-BH, em Belo Horizonte.



Um dia você aprende

* Por Mário Quintana

Um dia você aprende que deve obedecer.

Um dia você aprende que não pode ter tudo o que quer, que gente que tem orgulho próprio é chato e que se deve ser solidário. Que você não deve confiar em ninguém, que deve 'fazer o bem sem olhar a quem', que, se for menino, não chora e que, se for menina, deve se preservar. Você vê que a vida é só uma e que deve aproveitá-la.

Você aprende que deve-se pensar duas vezes antes de tomar qualquer atitude. Você aprende que deve aprender com seus erros e aprende que raramente aprende com seus erros. Você aprende a se contradizer, você aprende a mudar de ideia, você aprende a se calar, você aprende a aceitar. Aprende que deve lutar pelos seus ideais. Aprende que deve sonhar e que deve ter os pés no chão.

Você percebe que quem imita os outros não tem personalidade e que quem é autêntico é esquisito e excluído. Você aprende que as pessoas podem ser muito cruéis. Que as pessoas podem dar tudo de si mesmas para ajudar. Você aprende que sentir ciúmes é ruim. Você aprende que quem não sente ciúmes é desleixado.

Aprende que não deve se preocupar muito com as coisas. Aprende que não deve deixar a vida correr solta. Que o maior tesouro são os amigos e que você perde os amigos. E ao perder, ainda jogam na sua cara que não era uma amizade verdadeira. Que os outros te julgam e que você não deve julgar ninguém. Que deve-se olhar além das aparências. Que as pessoas te julgam pelo que você aparenta. Que dinheiro importa. Que amor acaba. Que amor verdadeiro não acaba. Que não existe amor verdadeiro. Que dinheiro não trás felicidade.

Aprende que quanto mais você se esforça, mais insuficiente parece ser. E que não se deve desistir dos sonhos. Também, que se deve desistir de coisas que não se consegue depois de tentar muito. Aprende que a vida é curta. Aprende que você ainda tem a vida toda pela frente. Aprende que há burrices como preconceito e discriminação. Aprende que sente preconceito. Aprende que julga os outros e aprende que se deve aprender a tratar as pessoas igualmente. Aprende que as pessoas não são iguais. Aprende que somos iguais. E que alguns são mais iguais que os outros.

Aprende que não pode errar e que não se acerta sempre.

Aprende que cantar faz bem. Aprende que pode-se ser altamente repreendido por cantar. Aprende que dançar é bom e que as pessoas podem te repreender por dançar. Aprende que as pessoas te magoam sem nem precisarem de um motivo. E que podem fazer comentários como se você não se importasse com aquilo.

Aprende que quando a pessoa é fora dos padrões ela se sente ofendida quando lhe falam isso. Aprende que as pessoas são fora dos padrões e fingem não se importar. Que fazer piadas é legal e que é melhor fazê-las do que manter a amizade. E que quem não aceita as piadas são tolos. Que a sinceridade é utópica e desnecessária. Que sinceridade é tudo.  Que confiança se perde fácil.

Aprende que por mais que tente o contrário, um dia vai magoar alguém. Aprende que com conversas tudo se resolve. Aprende que tem gente que não sabe conversar e que nessas conversas, as palavras podem funcionar como armas.

Aprende que de repente as palavras podem significar nada, algo muito importante ou várias coisas. Aprende que alguns momentos são inúteis... e que outros, que parecem ser tão simples, mudam tudo.

No fim, você aprende que tudo o que você aprende chega a um belo resultado: aporia.

* Um dos maiores poetas brasileiros, cronista, jornalista e tradutor.



Garota de Ipanema (3)

* Por JoséTeles

Uma profecia que se mostrou verdadeira, embora tenha acontecido por puro acaso, o álbum Getz/Gilberto só seria lançado um ano mais tarde, em março de 1964. The girl from Ipanema foi escolhida para o lado B de um compacto, de 45 rotações, de Stan Getz, com Blowin'in the wind (Bob Dylan), no lado A.

Poucas vezes duas canções tão diferentes entre si compartilharam um mesmo disco. Lado B de compacto era só enchimento. A aposta era no lado A . Na outra face do compacto colocava-se qualquer música.

Em seu livro, Phil Ramone comenta como o acaso funcionou para tornar Astrud Gilberto uma estrela: “A gravação de Astrud teria ficado no anonimato se não fosse pelo DJ de uma pequena estação de rádio em Columbus, Ohio, que durante o programa, virou o disco e tocou o lado B.

De Columbus, a Garota de Ipanema invadiu as praias americanas. Ironicamente o furacão Beatles, que assolou os EUA a partir do final de 1963, levou a gravadora a adiar o lançamento do álbum Getz/Gilberto. Com o sucesso arrasador de The girl from Ipanema, o disco disputou o primeiro lugar nas paradas exatamente com os Beatles.

O álbum Getz/Gilberto ganhou quatro prêmios Grammy: Álbum do Ano, Disco de Jazz e The girl from Ipanema, Música do Ano, a primeira vez que o prêmio foi para uma canção de um álbum de jazz, e ainda deu a Phil Ramone um Grammy como engenheiro de som do disco.

Getz/Gilberto passou dois anos ininterruptos nos primeiros lugares do paradão da Billboard. Garota de Ipanema é considerada a segunda canção mais gravada em toda história da música popular. Só perde para Yesterday, dos Beatles.

Publicado no Jornal do Commercio, Recife, em 14/4/2013

*  Jornalista e crítico musical 

Extratos de composição

* Por Theófilo de Amarante

Se o Ego não fosse um computador!
Andaríamos com pilhas de alfarrábios na cabeça
que se enterraria no chão,
pela coacção do peso
e a complexidade das mensagens.

Se o estômago não fosse uma fábrica gástrica.
Teríamos no ventre,
portas e janelas dum enorme armazém de comidas e bebidas.
Estaríamos sujeitos à complexidade da conservação
e ao peso da gestão.

Se os olhos fossem uma máquina fotográfica.
Passariam a maior parte do tempo no quarto escuro,
revelando as imagens que absorve.
Viveríamos relembrando pontos fixos
sem ver a complexidade evolutiva.

Se a audição fosse um centro de gravação.
Teríamos nos ouvidos,
um auditório tão amplexo
que ouviríamos somente o boato da nascente
e o urro da morte.

Se o corpo não fosse o universo.
Seriamos diluídos nos esquemas da anteposição.
O Ego, o estômago, os olhos e a audição.
Vagariam nas trevas desunidos
na procura da união.

* Poeta

sábado, 27 de abril de 2013


Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 7 anos, um mês e um dia de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – O lado desastroso de uma crise

Coluna Direto do Arquivo – Márcio Juliboni, poema,“Outro gosto”.

Coluna Clássicos – Ezra Pound, poema, “Saudação”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica,“Na imensidão dos campos 2 (Quarenta anos depois)”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, crônica, “O Galo da Madrugada dos 500 anos”.

Coluna Porta Aberta – Paulo Reimes, artigo “E o Esporte? (1)”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: nenem138@gmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
 “Cronos e Narciso” Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



O lado desastroso de uma crise

As crises são ocorrências bastante comuns na vida das pessoas e não apenas delas, mas também na de organizações, empresas, países etc. Comparo-as à febre em nosso organismo. Ou seja, pouco (ou nada) adianta combater seus sintomas, os efeitos desagradáveis que produzem. O mais inteligente e sensato é atacar as causas, aquilo que as produz, para que não voltem a ocorrer. São chatas, desgastantes, perigosas e muito estressantes.

Todavia, as crises, se (ou quando) bem administradas, tendem a ser positivas. Permitem-nos, por exemplo, entre outras atitudes, a de correção de rumos em nossos negócios, relacionamentos (não importa se profissionais ou afetivos), comportamentos etc. Além disso, induzem-nos a recorrer àquela reserva de energia e criatividade, que nem desconfiamos que temos, mas que existe de fato e está lá, bem no fundo do nosso cérebro, à espera de lançarmos mão dela nas emergências.

Cheguei a essa constatação baseado não na observação do que acontece com os outros, em tais circunstâncias (embora me esforce sempre para observar mesmo, e com a máxima atenção, como eles agem, até como uma forma de “cortar caminho” para a solução do que me amofine e aflija), mas em minha própria experiência. Meus maiores sucessos pessoais e profissionais sucederam a devastadoras crises, que poderiam até me destruir caso não encontrasse saída. Meus textos mais expressivos e apreciados foram produzidos em ocasiões em que me sentia sem nenhuma criatividade. Meus relacionamentos mais sólidos e agradáveis ocorreram em circunstâncias igualmente críticas. Enfim, foi em ocasiões de dificuldades extremas que encontrei, não raro em desespero de causa, as soluções para problemas que pareciam insolúveis.

As crises, embora aflitivas e perigosas, embora desagradáveis e estressantes, tendem a ser janelas de oportunidade, caso saibamos lidar com elas. E isso vale tanto para pessoas, quanto para empresas, organizações, países etc. Não é raro clubes de futebol, por exemplo, emergirem de situações críticas, em que tudo parece perdido, para a conquista de títulos. Isso acontece, claro, apenas quando seus dirigentes remam numa única direção, via de regra sob uma liderança forte, criativa, sensata e consensualmente acatada, que goze da credibilidade dos liderados.

Países têm emergido de profundas crises econômicas para períodos de prosperidade e progresso. Esses casos, contudo, são mais raros. Porém acontecem quando os envolvidos conseguem transformar o que à primeira vista é apenas perigo, em amplas oportunidades. O Brasil já passou, e em mais de uma ocasião, por situações como estas. Aliás, este é o País das crises: ora políticas, ora institucionais, ora sociais, ora econômicas e vai por aí afora. É desnecessário citá-las, já que boa parte delas todos nós sentimos na carne (notadamente, no bolso). De algumas, emergimos mais fortes e aprendemos as duras lições que delas poderiam ser extraídas. De outras...nem tanto. Por isso elas representam desnecessários e evitáveis retrocessos, cujas conseqüências recaem, invariavelmente, nas gerações seguintes.

Uma das crises mais perversas e daninhas enfrentadas pelo Brasil, contudo, caiu no esquecimento. É como se nunca tivesse existido. Há raríssimas referências a ela nos relatos históricos e mesmo esses se restringem a algumas reles linhas, como se seus efeitos fossem ínfimos e desprezíveis. Refiro-me ao que ficou conhecido com o nome pejorativo de “encilhamento”. Esse é o tema que trarei à baila nos próximos dias, buscando extrair lições que parece que nossa sociedade não soube identificar e aprender.
Acho estranho, estranhíssimo que um fato de tamanha gravidade, que trouxe tão nefastas conseqüências ao nosso desenvolvimento e deixou tantas seqüelas, tenha sido “expurgado”, virtualmente, até do ensino oficial da nossa História. Aliás, convenhamos, nunca houve o desejável rigor no trato dessa tão importante disciplina por parte dos responsáveis pela Educação no País. Pouca gente sabe qualquer coisa referente ao encilhamento. E os que pelo menos ouviram falar desse episódio, desconhecem importantes detalhes a propósito.

Em grande parte, essa desastrosa política, posta em prática nos primeiros anos da República, deveu-se à condenável mania nacional de cortar caminhos, de buscar atalhos, mesmo que não confiáveis (como no caso), de queimar etapas da dura tarefa da promoção do desenvolvimento. Essa profunda crise do início do século XX não ensinou coisa alguma aos nossos dirigentes políticos. E por que afirmo isso, com tamanha convicção? Porque planos mirabolantes, como o do encilhamento, multiplicaram-se através dos anos. Seus mentores esqueceram-se de que a principal tarefa de um administrador é a de “definir prioridades” e de viabilizá-las sem recorrer a nenhuma “prestidigitação”.. “Milagres” que se revelaram na sequência não passarem de engodos, miragens e ilusões, portanto, o Brasil teve em profusão. Oxalá não torne nunca mais a enveredar por este caminho enganador, que é o lado do “perigo” e não o das “oportunidades” que uma crise (qualquer delas) proporciona. Voltarei a abordar o assunto com maior objetividade e mais detalhes.

Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk