quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Radiografia das paixões

* Pedro J. Bondaczuk

As pessoas que se julgam extremamente racionais agem como se o animal humano fosse um robô, capaz de ser programado para reagir aos estímulos com atitudes absolutamente lógicas e controladas. Os indivíduos até que são treinados para isso, mediante o processo que se convencionou chamar de “educação”. Acabam, no entanto, traídos por suas emoções.

Daí o conjunto de normas morais e de leis existentes no mundo ter sido impotente para acabar, ou sequer reduzir, a criminalidade, por exemplo. Pelo contrário. Apesar das punições serem cada vez mais severas, culminando com a pena de morte, os delitos crescem, por uma série de causas, entre as quais a impossibilidade de completo controle sobre as paixões.

Temos componente animal que está acima da nossa vontade. Alguns conseguem dissimulá-la, escondê-la, mantê-la sob vigilância. Mas ela sempre estará lá, no fundo da consciência, ou, mais propriamente, da inconsciência. Em determinado momento, essa bomba-relógio pode explodir, à nossa revelia e ou causar estragos irreparáveis, se for uma compulsão para a violência e ódio, ou determinar magníficas criações, obras-primas de causar espanto e inveja, caso seja positiva.

Dia desses um leitor criticou-me duramente porque defendi, numa crônica, que em tudo o que fizermos, devemos colocar paixão, e não somente razão. Argumentou que estas são “sempre” destrutivas e perigosas, conclusão a que chegou não sei por qual caminho e baseado no quê. Sua argumentação foi muito pobre, diria, até mesmo infantil.

O último livro do laureado escritor mexicano Octávio Paz (ganhador de um Prêmio Nobel de Literatura) – escrito praticamente no hospital, pouco antes da sua morte em abril de 1998 – foi exatamente sobre esse tema. Ou seja, trata-se de uma espécie de “radiografia das paixões”.

O título dessa obra, em espanhol, é “Um más allá Erótico: Sade”. Não sei como foi traduzida em sua edição em português (lançada no Brasil no segundo semestre de 1999 pela Editora Siciliano). Li-a no original, o que faço sempre que posso (quando conheço o idioma em que o autor escreveu), pois entendo que isso me possibilita valorizar determinadas nuances que, às vezes, o tradutor não capta e deixa escapar.

Em certo trecho do livro, Octávio Paz escreve: “Não sabemos nada sobre nossas paixões, exceto que elas nasceram conosco. Nossos órgãos as criam, mudam com as mudanças desses mesmos órgãos e morre com eles”. “Ah, mas determinadas paixões são anormais!”, dirão alguns, com ares doutos, como quem descobriu a pólvora. Ao que o escritor mexicano rebateria: “A natureza é singular, é uma fonte inexaurível de fenômenos. A normalidade é uma convenção social, não um fato da natureza. Uma convenção que muda com o passar dos séculos, dos climas, das raças, das civilizações”.

É comum ouvir-se por aí, ou se ler em livros, artigos e crônicas, que as paixões cegam as pessoas e as impedem de conquistar o que mais desejam, por falta de clarividência. Trata-se de mera generalização. Depende de qual tipo de paixão esses pseudo-especialistas se referem. As negativas, como ódio, cobiça e inveja, de fato têm a característica de ofuscar a visão dos que são possuídos por elas. Já no caso do amor (por uma pessoa, ideal ou causa), porém, ocorre o contrário.

As pessoas apaixonadas adquirem mais clarividência e enxergam melhor do que as que não amam. Nenhuma obra se aproxima da perfeição e adquire real valor se, na sua consecução, não houver forte dose de paixão. Claro que essa chama, esse entusiasmo, essa fúria de concretizar o que existe só em nossa mente tem que ser “temperada” com outros ingredientes, como razão, prudência e bom-senso. Ela, em si, em seu estado natural, é selvagem e muitas vezes incontrolável. Tende a alucinar quem não sabe dosar sua intensidade. Mas sem paixão, nenhuma das nossas obras parecerá, aos mais atentos (e, de fato, não o será), com alma, verdade e autenticidade. Mesmo que perfeita, na forma e na concepção, soará falsa, artificial e sem vida.

Por isso nunca canso de afirmar, de reiterar e de enfatizar que devemos pôr paixão em tudo o que fizermos, não importa o tamanho e a relevância da tarefa. Temos que ser, sobretudo, apaixonados pela vida e viver cada segundo com máxima intensidade e vigor. Somente assim conseguiremos explorar adequadamente nosso potencial, que é muito maior do que podemos imaginar.

Devemos colocar paixão em todos os nossos afazeres, quer se trate da administração de um lar, de um relacionamento afetivo, do cultivo de um jardim, da partilha de uma amizade ou de um amor, da confecção de algum objeto ou da composição de uma sinfonia ou epopéia. Nada é pequeno para quem tem grandeza de alma, para quem encara a vida como deve ser sempre encarada – com deleite e encantamento – e que põe chispas pelos olhos nos momentos de ação.

É equívoco comum considerar, porém, que se apaixonar é o mesmo que amar. A paixão pode ser (e em geral é) um princípio de amor, mas não é o próprio. É mera fagulha que, se não tiver combustível que a alimente, para que se transforme em chama, não passará de centelha que se consumirá.

O amor requer cuidado e atenção constantes e, ainda assim, dada sua fragilidade, nunca há certeza de que irá prosperar. Mas enquanto dura... Ah!, é o paraíso na terra! Por isso, valem a pena os esforços para que jamais venha a enfraquecer. Ainda assim, como flor perfumada, deixará, por muito tempo, embriagadora fragrância impregnada em nossa vida.

O tema é bastante complexo e, certamente, voltarei a abordá-lo com mais detalhes oportunamente. Por enquanto, deixo apenas ao leitor, como tema de meditação, esta conclusão de Octávio Paz: “Mais poderosas do que nosso caráter, nossos hábitos, ou nossas idéias, elas (as paixões) não são nossas: nós não as possuímos, elas nos possuem. Há alguma coisa mais antiga do que nós e que nos determina gostos, aberrações e caprichos. Têm sua origem comum na natureza”. E nós não passamos de “filhos da natureza” (ou de “Deus”, como queiram).

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

Por onde andará?

* Por Marcelo Sguassábia

Rara é a semana em que não me abordam na rua para perguntar sobre o paradeiro de Ditinho Puxa-Uma-Perna, figura que já foi assunto de crônica minha no final de 2009.

Levando em conta o apelido do Dito cujo, é óbvio que o seu paradeiro não pode estar muito longe, mesmo tendo-se passado três longos anos desde a última vez que o avistei, engraxando o sapato da outra perna. A baixa velocidade média com que se locomove e sua aversão a táxis, ônibus, metrôs e caronas, certamente não o levariam a Cingapura e adjacências. Mas o que me intriga nessa história é indagarem a mim por notícias dele, logo eu que não sou de sua família nem nunca fui propriamente chegado à sua pessoa.

É sabido que conseguiu livrar sua tradicional fábrica de gatilhos da concordata no ano de 2010, fase em que andou frequentando assiduamente o santuário de Duña, o oráculo dos oráculos, em busca de luz para o breu empresarial em que estava metido. Daí em diante, por onde andou Puxa-Uma-Perna para mim é uma incógnita. Na verdade, Puxa sempre prezou a sua notória habilidade de esconder-se do mundo quando queria ou se fazia necessário, e não é impossível que esteja neste momento zombando daqueles que o procuram, amoitado em algum porão de mercearia.

Entretanto, do pouco que conheço do sumido manquitola, arriscaria supor que talvez tenha se aproveitado das vagas que as empresas destinam às pessoas com necessidades especiais e se estabelecido como atendente de telemarketing na indústria de adubos de um camarada seu de Mato Grosso, conhecido no pantanal como BB, ou Basílio Bocó.

Outra hipótese bastante plausível é que tenha aberto um posto avançado do santuário de Mestre Duña em alguma cidade aqui da região, já que parecia realmente grande o entrosamento entre ambos. Essa possibilidade ganha força pelo fato de Ditinho possuir uma boa reserva financeira obtida por herança de seu saudoso pai - o não menos popular Jovelino Arranca-Toco, que fez relativa fortuna no setor de terraplenagem e certamente legou a Puxa-Uma-Perna quantia suficiente para um empreendimento desse porte.

Repito, porém, que estas são apenas conjecturas, já que o nosso apaga-pegadas sempre foi um sujeito de comportamento irritadiço e imprevisível. Morto não deve estar, pois notícia ruim corre rápido. Ainda que o defunto, no caso, fosse o bom, velho e sempre vagaroso Puxa, figura folclórica da terra e merecedor de nome de rua. Quem sabe de escola pública, pracinha de bairro ou até mesmo posto de saúde. No mínimo, no mínimo, uma clínica de fisioterapia.


• Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: WWW.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) e WWW.letraeme.blogspot.com (portfólio).

Evolução da espécie

* Por Fernando Yanmar Narciso

Assim como nossa geração defende tão fervorosamente a década de 80, e a dos nossos pais idolatra a década de 60 (apesar de tudo de dark que aconteceu no país naqueles tempos), com certeza haverá algum doido daqui a 20 anos dizendo que ninguém jamais criou coisa melhor para a humanidade que o iPad e o Facebook. Será?

Muitos devem se lembrar dos primeiros celulares que apareceram no Brasil na década de 90. Mesmo que nunca funcionassem, eles eram imponentes, chamativos e davam enorme status para quem os adquiria, e as pessoas faziam questão de deixá-los sobre a mesa quando saíam com família e amigos no fim de semana, para que todo mundo os visse. Agora, até mendigos compram celular, como o ex-ministro das comunicações Serjão Motta profetizara naquela década. Ficaram tão pequenos, baratos e com tantos aplicativos e distrações que é muito comum vermos uma roda de amigos no bar onde todos ficam mandando torpedos um pro outro, em vez de conversar. Sabem como é, conversa é uma forma muito arcaica de comunicação, nem nossos avós a usam mais.

Um vizinho do telefone celular que fez muito sucesso no fim dos anos 80 e início dos 90 foi o “tijolão” Walkman. Agora podíamos ouvir em qualquer lugar as fitas K-7 que embolavam e derretiam o som e a rádio FM que só pegava chuviscos. Era muito comum ver pessoas praticando Cooper com aquela caixa de leite pendurada na cintura e um desajeitado headphone nos ouvidos. Até eu já tirei onda com um desses. Tinha 10 anos e achava que estava arrasando, andando pelas ruas desertas do meu antigo bairro de olhos fechados, com aquele trambolho dentro do bolso... Na entrada do novo milênio, as fitas foram enfim substituídas por CDs, e todos na faculdade tinham seus também “discretíssimos” Discmans, que não tardaram em serem substituídos por MP3 players, pequenininhos, frágeis e baratos. E aqui estamos nós, com nossos smartphones que fazem de tudo, inclusive tocar funk carioca no último furo dentro do ônibus lotado às 6 da manhã. Este sou eu, é nisso que eu acredito! Ouçam-me!

A idéia parece absurda hoje, mas, por muitas décadas, a música teve um preço. Dá pra acreditar? Precisávamos pôr a mão no bolso e pagar por formas físicas de música. Quando músicos entravam em estúdio para gravar um disco tinha que valer muito a pena, porque era um processo caro e trabalhoso, logo os discos tinham que ser bons da primeira a última faixa.

A popularização dos CDs e, principalmente, dos grupos de pagode baianos na década de 90 foram os destruidores da nossa indústria musical. Quer dizer, coloque um CD, um disquinho de plástico brilhoso com 15 centímetros de diâmetro ao lado de um bolachão preto e me diz qual das duas mídias impõe mais respeito.

Apesar da qualidade duvidosa, tanto de figurinos como composições e atitude de palco, a “bundalização” da música brasileira da década retrasada serviu para nos mostrar uma coisa: Quem estourou nas décadas anteriores como Raul, Chico, Caetano, Gil, João Gilberto e Zé Ramalho, ou bandas como Barão, Titãs, Engenheiros, Legião e RPM, nenhum deles falava/ fala em nome da maioria. Sempre pertenceram à classe mais escolarizada e contestadora, nunca fizeram parte dos esmagadores 99% da população, alienados e incapazes de entender a maioria das composições deles. Músicos mais simples como Wando, Evaldo Braga, Waldick Soriano, Odair José e Amado Batista são as verdadeiras vozes do povão, com sua simplicidade emocional e cultural. Dessa fonte é que bebem todos os populixos, do É o Tchan ao sertanejo pop moderno.

Agora o besteirol reina triunfante. Qualquer cantor “universitário” vira ídolo da multidão. As letras parecem aquelas comédias americanas de faculdade: Só falam de baladas, bebedeira, sexo casual, egocentrismo e falta de noção. Já de enfiar a cara nos livros, que não apenas eles como todos os seus fãs deviam estar fazendo, ninguém quersaber. Estudar é para os comuns. Para quem quer ser médico, engenheiro ou advogado, e disso o planeta já tá até a tampa. Diploma é para os fracos. Queremos fama, dinheiro, mulher e carrão italiano, e queremos agora! É a evolução, baby! Mesmo que seja à custa do aprimoramento de nosso intelecto, mas não deixa de ser.

*Designer e escritor. Site: HTTP://terradeexcluidos.blogspot.com.br

Amadurecido

* Por Gustavo do Carmo

Era chamado de criança. Aos 50 anos. Renan ainda morava com a mãe e dependia financeiramente do dinheiro do pai e da irmã mais velha. Limpava todo mês a sua coleção de carrinhos em miniatura, com ajuda da mãe. Não tinha vergonha da coleção. Mas tinha vergonha da sua vida.

Estudou jornalismo. Estudou publicidade. Pós-graduou-se em Gestão da Cultura. Fez vários cursos e oficinas literárias. Não guardou aprendizado e nem amizades de nenhuma de suas escolas ao longo da sua vida.

Por isso, Renan nunca teve uma rede de relacionamentos. A cada turma que conhecia, se magoava e desentendia com todos, que, logicamente, o rejeitavam. Exatamente por esse motivo, abandonou uma pós em telejornalismo. Envergonhado com a sua imaturidade tardia, afastou-se dos primos.

Não tinha coragem de procurar empregos simples. Se era formado em jornalismo, só queria ser jornalista. Tinha inveja dos colegas que se promoviam na sua profissão. Por isso, ficava à toa em casa e costumava discutir com o pai, que queria vê-lo funcionário público. Sua imaturidade demorou 40 anos para cessar.

Um dia, tudo mudou. Renan foi contratado por uma emissora de televisão para trabalhar como roteirista. Pela primeira vez, conseguiu o seu próprio dinheiro. E um bom dinheiro. Renovou seu notebook, aumentou sua coleção de carrinhos em miniatura e... continuou morando com os pais. Por mais um ano apenas.

Casou-se com uma diretora de novelas da emissora. Teve dois filhos. Sua mãe curtiu a neta e o neto por quinze anos. O pai curtiu um pouco menos, apenas dez anos. Deu sobrinhos para sua irmã, que não teve filhos. Ficou rico. Soube educar os filhos com humildade.

Aos oitenta e um anos, adoeceu. No seu leito de morte estavam a segunda mulher – trinta anos mais jovem (a primeira já era falecida) - os filhos crescidos do primeiro casamento, os quatro netos ainda crianças e a irmã mais velha já idosa e viúva. Os pais já tinham morrido.

Renan lembrou-se de como a sua vida deu uma guinada. Tivera um infarto quando completou 51 anos. No dia do seu aniversário, descobriu que uma antiga colega da pós de telejornalismo, já falecida, estava namorando um também colega da mesma turma.

Os tais colegas ficaram com remorso, se comoveram com o drama do ex-amigo, acionaram a coordenadora do curso e esta o indicou para a emissora. Esta tinha gostado dos seus contos, recebidos vinte anos antes.

E depois de tantas oportunidades perdidas Renan finalmente amadureceu. A sua carreira profissional. Graças à compaixão dos outros. Morreu como uma criança.

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores

Ou dá ou desce – IV

* Por Fernando Barreto

Capítulo 4 - Sambadrome: A Nação Paranga

A parede do banheiro do apartamento de Brito começou a ser quebrada numa manhã de quinta-feira para o conserto de um cano. Na noite anterior seu pai foi avisar-lhe da necessidade desse reparo, causando grande chateação a Brito. Ele precisava fazer com que o dia do conserto do cano do banheiro passasse o mais rápido possível. Reformas em casa o deixavam realmente triste. Na época em que era estudante e estava sempre atrasado e o banheiro que sobrava tinha que ser dividido, essas reformas eram tão repugnantes quanto um procedimento cirúrgico nos olhos. Mas Brito cresceu ouvindo que a vida era dura mesmo para quem não tinha uma casa e muito menos um banheiro e também para pessoas que não tinham o que comer. Enfim, era algo desagradável, mas ele tentaria viver aquele dia sem lamúrias. Ele podia cagar e tomar banho no banheiro da empregada, que estava desativado.

Os caras terminariam o serviço ás 17 horas e seu pai acompanharia tudo até que fossem embora. O velho Britão gostava de cuidar de seu patrimônio. Gostava dessas reformas na mesma proporção que Brito as odiava.

Brito foi tomar café com sua mãe a partir das nove horas, quando os encanadores chegaram acompanhados de Britão. Ele via sua mãe todos os dias, mas naquele momento, na cozinha dela, a velha parecia ainda mais velha. Rosa tinha 65 anos e Brito achou triste que ela tivesse vivido toda sua vida num casamento tão farsante. Teria sido mais digno e mais humano fazer um contrato de moradia com o velho Britão, que levava o sustento financeiro da família a sério, mas que deixava todos os outros setores da vida familiar no descaso. Rosa se sujeitava às grosserias e à falta de jeito de Britão para lidar com as pessoas. Rosa tinha sido criada para isso. Nunca esboçou qualquer tipo de rebelião contra o machismo do marido. Era como se tivesse aceitado desde muito cedo um triste destino que se cumpriu com a formação de sua própria família. Uma família nos velhos moldes.

Aquela estrutura familiar era tão débil e antiquada que fez de Brito um sujeito completamente avesso aos valores familiares tradicionais, mesmo sendo ele uma pessoa não tão questionadora e rebelde. Quer dizer, ele tinha seu próprio modo de se rebelar e de questionar o que lhe era imposto. Bastava fazer tudo ao contrário. O fato de Brito chegar à beira dos 40 anos sem qualquer indício de que casaria um dia já fazia com que seus pais ficassem intrigados. E Brito procurava não dar motivos para que houvesse atritos por causa dos direcionamentos de vida diferentes dos de seus pais.

No muro do antigo Hospital Matarazzo, na frente do prédio de Brito, alguns mendigos paravam para descansar por algum tempo, antes de serem escorraçados pelos seguranças ou policiais. Havia um em particular que alcançara os 60 anos de idade e que era uma figura lendária da Bela Vista. Desde que Brito era criança, aquele homem era um morador de rua e cachaceiro. O velho homem parecia Hemingway na fase madura de sua vida. Um velho Hemingway depois da guerra. Aquele mendigo em especial já não abusava tanto da bebida como na época em que era mais jovem e conseguia comida suficiente. Podia ser visto regularmente comendo uma farta refeição num prato de papel alumínio. Vez ou outra aparecia barbeado e com banho tomado, depois de passar uma noite no albergue da Avenida Nove de Julho, quando a sujeira já não o deixava relaxar nas calçadas da Bela Vista.

Era um homem relativamente alto, cerca de um metro e oitenta e três, e acima do peso, algo em torno de 120 quilos. Perambulava pela Bela Vista e podia ser visto em vários pontos, mas era no muro do Hospital Matarazzo que passava mais tempo mendigando. Vestia sempre uma calça cinza de moletom encardida e camisetas de propaganda.
- Me dê um Toddynho! – era o que dizia o velho homem para quem quer que passasse por ele.

No dia do conserto do encanamento de seu banheiro, Brito precisou matar o tempo até que pudesse ficar sozinho em casa novamente. Havia passado toda a manhã no apartamento de seus pais ouvindo as marteladas vindas de seu banheiro, que fazia divisa com o banheiro do apartamento de seus velhos. No começo da tarde saiu para ver se na rua o tempo passava mais rápido. No momento em que saía da padaria de sua rua, onde comprara cigarros, a menos de cem metros de sua casa e que era localizada em frente ao muro de onde um dia funcionou o hospital, Brito viu o que parecia ser um ajudante de turnê do Lynyrd Skynyrd ou do Allman Brothers Band. Estava conversando com o velho mendigo da Bela Vista. Parecia que aquele sujeito ainda vivia em 1972 ou que estava fantasiado a caráter para algum evento de rock sulista americano. Tinha cerca de 45 anos, um metro e setenta de altura, magro, um volumoso cabelo preto comprido preso num rabo de cavalo e coberto na parte de cima por um chapéu. O bigode era grande como de David Crosby, só que preto. Usava botas, uma calça jeans desbotada mas limpa e uma camisa de manga comprida de um material que parecia ser seda preta. Usava anéis, fumava Hollywood e tinha só um dente visível na boca, na parte superior, que se mexia quando ele falava.. Brito viu o sujeito dando um cigarro ao velho andarilho e acendendo-o para ele.

Era uma tarde quente de uma quinta-feira e a padaria já começava a receber os primeiros bancários da região que saíam do trabalho para tomarem cerveja e comerem sanduíches de salame. Brito abriu seu maço de Dunhill e retirou dali o primeiro cigarro enquanto olhava com o canto dos olhos para aquele sujeito que parecia completamente deslocado no tempo e no espaço, enquanto ele ainda conversava com o andarilho. Já era uma figura curiosa antes mesmo que Brito visse que atrás dele e do andarilho havia uma sacola de discos de vinil encostada no muro do hospital. A sacola era vermelha e transparente, de modo que do outro lado da rua Brito pode identificar o primeiro disco. Era um belo exemplar do álbum 'Arbet Macht Frei' da banda italiana de rock progressivo Area.

Brito era um fanático por lp's a ponto de deixar de lado sua relutância em interagir quando surgia algum disco que lhe interessasse. Como geralmente conhecia as pessoas que lhe vendiam discos há muitos anos, não sofria tanto com cerimônias sociais quando ia comprá-los, fosse em lojas ou feiras de discos. Aquela situação era diferente, pois Brito não sabia se o sujeito de bigodão queria vender os discos ou mesmo deixar que Brito os examinasse. Mesmo assim ele atravessou a rua e antes de dizer qualquer palavra ao sujeito cabeludo de bigode e ao andarilho, parou na frente deles e fitou a sacola com discos. Por um segundo pensou que nunca mais teria o direito de reclamar de ser um para-raio de malucos. Havia na sacola algo entre 20 e 25 discos.
- Fala, meu jovem!! Você tem cara de roqueiro!! – disse o sujeito cabeludo de bigodão, com uma voz grossa e engraçada que parecia estar satirizando a si mesmo
- Ah, sim, eu gosto de rock. Gosto de vários gêneros musicais. Cheguei mais perto por causa dos discos que você tem aí. Fiquei curioso, também sou colecionador.
- Então é uma feliz coincidência o que está acontecendo aqui, jovem. Eu não sou mais colecionador, já me desfiz de vários belos discos, alguns realmente raros. Já tive quatro mil discos ao mesmo tempo, e no total, cerca de sete ou oito mil passaram pelas minhas mãos. Por problemas financeiros e também por falta de espaço me desfiz de milhares de discos. É doloroso, mas de qualquer forma a música nunca vai se perder de mim. Esses discos que estão na sacola eu ia vender, mas esses lojistas estão completamente loucos. Queriam pagar muito menos do que eu poderia aceitar. Em alguns casos ofereciam menos do que o valor do que valeria o xerox das capas. Eu naturalmente já salvei o conteúdo musical desses discos e também a arte das capas. Eu os reproduzo em cd e vendo. Sou um pirata, mas um pirata que dá valor ao trabalho artístico dos caras que fizeram essas obras primas. Meu nome é Ademar, mas pode me char de Dema – disse Dema, o bigodudo.
- É melhor vender esses discos pra mim, Dema. Se você vendesse quase de graça pros lojistas, amanhã seus discos estarão nas prateleiras por preços altos. Esse disco do Area é sensacional. Eu não o tenho em casa. Meu nome é José Ronaldo, mas pode me chamar de Brito – disse Brito.
- Dê uma olhada nos outros discos! – disse Dema a Brito.
(Brito pegou a sacola que estava encostada no muro e arregalava os olhos a cada disco que via naquele pequeno lote. Edições originais americanas, inglesas, alemãs e japonesas de artistas importantes, mas esquecidos do grande público, inclusive do público do rock. Bandas como as italianas Acqua Fragile, Area e Banco Del Mutuo Soccorso; bandas alemãs como Eloy, Nektar e Amon Duul; bandas francesas como Magma, Ange e Gong, além de outras mais obscuras do Hard Rock e do rock progressivo inglês e americano. Havia também uma edição original do disco As crianças da Nova Floresta, da banda brasileira de rock progressivo Recordando o Vale das Maçãs, e isso fez com que as palmas das mãos de Brito começassem a suar).
- Faça um preço razoável que eu vou comprar todos. Alguns desses discos eu tenho, mas não em edições tão legais como essas. Eu não ligo de ter discos repetidos nesses casos – disse Brito para Dema. Logo em seguida o velho andarilho falou pela primeira vez:
- Pensei que nunca mais veria algo assim na minha vida. Esse tipo de negociação me emociona. Vocês vão me pagar um Domecq? Meu nome é Guido! – disse o mendigo que parecia Hemingway.
- Sim, a garrafa do Domecq vai estar incluída no preço do pacote de discos. Nós três vamos dividir a bebida – disse Brito.

Brito contou 23 discos naquele pequeno lote, e para o caso dele querer levar todos, Dema estipulou o valor de mil reais. Individualmente aqueles discos podiam custar duzentos reais ou mais do que isso em feiras de discos e em cotações de vendedores de discos raros em sites na internet, o que fazia com que a compra de todo o pacote fosse um ótimo negócio para Brito. Venderia pela internet alguns deles, os que fossem repetidos em sua coleção, pelo preço do mercado, e com isso recuperaria pelo menos metade do dinheiro investido.

Guido sugeriu que Brito e Dema fossem fazer a operação bancária o mais rápido possível e voltassem com o conhaque. Enquanto Guido esperava ali mesmo com um Dunhill fornecido por Brito e um Hollywood fornecido por Dema, a transação foi feita num banco da Paulista. Ainda precisavam pegar o Domecq de Guido e o fizeram no mercado da Rua Pamplona, o mesmo lugar onde Braga pode conversar mais tempo com Brito poucos dias antes. Quando finalmente voltaram para encontrar Guido, este reclamou da demora mas alegrou-se muito com a chegada da bebida. Foram tomar o Domecq na ponte. Brito tinha trazido copos descartáveis e também tinha um baseado. Dema também tinha um baseado. Dema já tinha liquidado um maço de Hollywood e abriu outro maço. O sujeito realmente fumava muito. As horas passaram rápido, e durante aquele período os três foram socialmente iguais, humanamente diferentes e até certo ponto, livres. Dema fez um desabafo emocionado quando servia para si mesmo a segunda dose:
- Todo mundo que me vê associa a minha imagem a um sonho hippie, àqueles ideais dos anos 60 que aqui no Brasil se estenderam até os anos 70. Mas muito pouca gente sabe dos meus sofrimentos. Tive uma série de problemas de saúde, principalmente por causa da bebida. Hoje me vejo vivo e com mais de 50 anos e tomando conhaque com um cara mais velho e outro mais novo que eu. O que eu tinha pra perder por causa de bebida, eu já perdi. Tive e ainda tenho uns problemas no fígado, mas o pior foi a trombose hemoroidária e as doenças venéreas. Foram tantas que elas resultaram em um câncer no meu pênis. Isso só pôde ser curado com castração. Minha próstata também estava bastante comprometida. Meus amigos, eu sou eunuco e uso uma saqueira pra disfarçar – disse Dema, levantando-se na sequência e fazendo uma pose para mostrar aos amigos que sua saqueira cumpria o papel de disfarçar o desfalque físico. Brito e Guido se olharam chocados. Foi a primeira vez que Guido pareceu abalado com algo dito desde o instante em que Brito se juntou a eles. Naquele momento, aos olhos de Brito, Dema parecia-se muito com David Byron, o primeiro vocalista do Uriah Heep, só que mais velho. De fato a saqueira de Dema era discreta. Depois de alguns segundos de um silêncio gelado e reflexivo dos três, Dema voltou a falar;
- Quando eu era jovem, dividíamos lendas, mitos e ideais. Hoje os jovens dividem a própria burrice no Facebook. É bem verdade que aquele velho idealismo ceifou a vida de muita gente e daquele sexo livre dos velhos tempos antes da aids, me sobrou somente a possibilidade de fazer sexo oral com as garotas, mas elas enlouquecem com meu bigode em suas vaginas.
- Eu já cheguei a pensar que a miséria em estado puro ia me enlouquecer, mas ela vai me salvar. Nas ruas e na vida não basta correr pra não ser engolido. É preciso ser indigesto. Quando os poderosos forem donos de toda a água potável do mundo a coisa vai azedar e essa classe média asquerosa que me despreza vai pagar caro! – disse Guido, que deu o último gole da garrafa de Domecq. Então Guido se levantou e atirou acintosamente a garrafa vazia contra o asfalto que estava atrás dele enquanto estava sentado na mureta que separava a calçada da ponte e a via para os carros, causando certo estardalhaço, mesmo levando em conta que naquele momento cada carro passasse apenas a cada cinco minutos.
- Não faça isso!!! – gritou Dema enquanto levava as mãos à cabeça.
- Caiu, porra!!! – respondeu Guido em voz alta.

Leia o quinto capítulo deste conto na edição de amanhã.

• Escritor

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Leia nesta edição:

Editorial – Circunstâncias e experiências”.

Coluna De corpo e alma – Mara Narciso, crônica, “Onde está seu sonho?”.

Coluna Da Terra do Sol – Marco Albertim, conto, “Na margem da rodovia”.

Coluna Personalidade e Atitude – Sayonara Lino, crônica “Carta”

Coluna Porta Aberta – Alberto Cohen, poema, “Semeaduras”.

Coluna Porta Aberta – Fernando Barreto, conto “Ou dá ou desce-III”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Circunstâncias e experiências

O que torna determinados indivíduos bons escritores, enquanto outros, melhor preparados, cultos, autodisciplinados, organizados e observadores, não conseguem atingir grau de excelência sequer razoável? Existe alguma “fórmula” infalível para isso? Ouso afirmar: não! Não há. Se houvesse, qualquer um seria escritor digno de frequentar academias de letras e se tornar paradigma de qualidade e de sucesso. E não é isso o que acontece, claro.

Talento pode ser um dos fatores contribuintes para alcançar esse objetivo. Todavia, apenas ele não basta. Conheço dúzias de pessoas talentosas que, no entanto, nunca souberam o que fazer com sua aptidão. Conheço, também, indivíduos com imensas dificuldades de raciocínio e, sobretudo, de comunicação (principalmente por escrito), mas que, com esforço, perseverança e dedicação, produziram obras surpreendentes, de qualidade muito acima da média. Portanto, reitero e confirmo: não existe fórmula que assegure a quem quer que seja que venha a se tornar escritor sequer razoável, quanto mais excelente.

Creio que o único fator indispensável, determinante do sucesso não só na Literatura, mas em tudo na vida, seja o das circunstâncias. Se estas forem “todas” favoráveis (o que, convenhamos, é raríssimo), nada impedirá quem for bafejado por elas de atingir o topo. Em caso contrário, seus esforços e virtudes, por maiores e melhores que sejam, serão baldados e vãos. Há fatores (e muitos) que se não garantem por si sós que se alcance o pretendido nível de excelência, contribuem para isso. Não os nomearei para não ser redundante, já que o leitor sagaz sabe, de sobejo, quais são. Citarei, somente, o da “experiência”, que considero fundamental não apenas ao escritor, mas a qualquer pessoa, não importa sua atividade. E, claro, o de saber o que fazer com ela.

Este longo preâmbulo vem a propósito de uma tentativa de explicação para o sucesso do personagem que venho enfocando atualmente, Víctor Marie Hugo. As circunstâncias da sua vida favoreceram-no para que acumulasse vasta experiência, e em idade bastante precoce. E ele soube o que fazer com ela. Tornou-a matéria-prima da sua magnífica obra, que conseguiu transformar em romances, poemas, novelas e ensaios marcantes, com as “ferramentas” da Literatura, que usou com perícia, dado seu inegável talento. Mas, é mister que eu coloque ordem neste relato e parta do princípio. É o que farei.

Victor Marie Hugo nasceu em 26 de fevereiro de 1802 na cidade francesa de Besançon, filho do general Joseph Leopold Sigisbert Hugo, oficial de confiança de Napoleão Bonaparte. Durante toda a infância, acompanhou o pai em suas andanças pela Europa, às voltas com as conquistas e fracassos militares do “Grande Corso”. Dessa forma, esteve na Calábria, em Nápoles, em Roma, em Florença e em tantas outras localidades em que o general esteve em missão.

Viveu, durante certo tempo, também na Espanha. Essas viagens, certamente, contribuíram para a formação do espírito aberto e universalista do jovem Víctor, sobretudo para uma visão mais ampla do mundo, fatores que se manifestariam, anos mais tarde, sobretudo em seus romances de cunho social, especialmente em “Os miseráveis” (sobre o qual escrevi detalhado ensaio que consta do meu livro, inédito, “Dimensões infinitas”).

Aliás, em sua passagem pela Calábria – onde o pai foi governador – a família do menino vivenciou um episódio que lhe foi sumamente marcante e instrutivo, posto que dramático. O general Hugo, ao cabo de sua gestão nessa região da atual Itália, foi preso, após uma dessas reviravoltas políticas tão freqüentes e comuns na vida dos povos. Na oportunidade, dividiu a cela com o célebre bandoleiro “Fra Diávolo”, reconhecidamente perverso bandido, flagelo para todo cidadão de bem . Foi quando o garoto compreendeu, e muito cedo, que o limite entre a glória e a derrocada é estreitíssimo, ínfimo, do calibre comparável ao de um fio de cabelo. Anos depois, no auge da glória e da fama, lembrou-se desse episódio. E não se deixou, jamais, empolgar pelo sucesso, entendendo que ele era frágil e volátil, e poderia se transformar, subitamente, a qualquer momento, em catástrofe irremediável.

Aos nove anos de idade, em 1811, Víctor retornou à Espanha na companhia da família. Na oportunidade, Napoleão empenhava-se em anexar o território desse país ao da França, nomeando, inclusive, seu irmão para governá-lo. Aproximava-se, porém, um tempo de grandes provações para os franceses, decorrente das aventuras militares de seu truculento general imperador. Os poderosos da Europa deixaram de lado suas desavenças e juntaram forças para deter as desmedidas ambições de conquista do “Grande Corso”, que os fustigava e ameaçava com seus poderosos exércitos, de centenas de milhares de fieis soldados.

Todavia, a derrocada de Napoleão, na batalha de Waterloo, viria a acontecer, apenas, após sua temerária, tresloucada e desastrosa campanha na Rússia – magistralmente descrita, pela visão dos agredidos, por Leon Tolstoi, em seu clássico “Guerra e paz” – que o jovem Víctor, no entanto, não chegou a testemunhar. Preocupado com seu futuro, o pai levou-o para Paris e internou-o no Pensionato Cordier, para que aprendesse as primeiras letras, ingressando, a seguir, no Liceu Louis Legrand, no período de 1815 a 1818.

Por esta época, o rapaz enfrentou sua primeira grande batalha pessoal, posto que acadêmica: era fraco em Matemática. Todavia, tinha que dominar a matéria de qualquer maneira, para ingressar na Escola Politécnica, onde pretendia cursar Direito. Com uma garra digna de grande guerreiro, posto que não físico, mas intelectual, superou esse obstáculo com galhardia. O adolescente descobriu, na hora de maior necessidade, que era dotado de capacidade de raciocínio muito superior à média. E utilizou com maestria esse recém descoberto potencial não somente para números, mas, principalmente para as letras. Tanto que em 1819, com apenas 17 anos de idade, apresentou três peças em versos para a então famosa “Academia dos Jogos Florais”. Todas as três foram premiadas, e em primeiro, segundo e terceiro lugares. As circunstâncias apontaram-lhe, pois, o caminho a seguir. E ele, astutamente, sem relutância, o trilhou, o que o conduziu à glória, à fama e talvez à imortalidade.

Boa leitura.

O Editor.

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