domingo, 27 de novembro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Os campeões de vendas.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Moderno ou eterno”..

Coluna Direto do Arquivo – Nei Duclós, crônica “O vigia do mar”.

Coluna Clássicos – Josué Montello, conto. “O combate”.

Coluna Porta Aberta – Giovani Roehrs Gelati, artigo “Coisas do passado”..

Coluna Porta Aberta – Emir Sader, artigo “A natureza da crise atual”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Os campeões de vendas

O levantamento para se apurar os livros mais vendidos da semana, e apenas em determinada região, já é tarefa gigantesca. Implica em estafante pesquisa junto a dezenas, se não centenas de livrarias. Imaginem país afora! E imaginem, mais ainda, através do mundo!!!

Por mais meticuloso que esse tipo de levantamento seja, é impossível garantir sua exatidão. Ainda assim, essas relações são úteis, por fornecerem um relativo parâmetro, até que razoável, às editoras e aos autores envolvidos. Desses “rankings”, aprecio, particularmente, o elaborado semanalmente pela revista “Veja”, que acompanho há anos. Infelizmente neles nunca constaram meus livros “Lance fatal” e “Cronos e Narciso”. Todavia... não perco as esperanças de algum dia testemunhar esse “milagre”.

Um leitor pede-me algo que raia ao “miraculoso” e que considero impossível. Quer saber se posso pesquisar (e, claro, divulgar os resultados) sobre quais são os livros mais vendidos em todos os tempos e... no mundo! Bem, esses levantamentos semanais, e só no País, são relativamente recentes. Digamos que tenham um século (embora não creia que tenham tudo isso). No mundo, não sei se já foram feitos. Duvido que o sejam.
Ademais, temos que considerar como esse objeto tão útil e necessário (o livro) era considerado num passado ainda recente. Houve tempo, não tão remoto, em que em torno de 70% da humanidade era analfabeta. Além disso, pouquíssimas pessoas tinham acesso a livros que, até meados do século XIII da nossa era – quando da invenção dos tipos móveis, por parte do alemão Johann Guttenberg (de quem dizem que era, entre outras coisas, grande apreciador de vinhos) – era muito diferente do que hoje conhecemos. Não era impresso, óbvio (pois a imprensa não havia sido inventada), mas copiado, exemplar por exemplar, a mão. Por isso... as “tiragens” eram limitadíssimas, de somente algumas dezenas, quando tanto.

Ainda assim, não vou decepcionar (pelo menos não por completo), o leitor que me fez a solicitação, que me parece, na verdade, um capcioso desafio (e claro que é!). Para tanto, porém, recorro à enciclopédia eletrônica Wikipédia, que elaborou uma relação dos 11 livros “provavelmente” mais vendidos em todos os tempos. Claro que excluiu algumas obras que devem ser consideradas “hors concours”.

A principal exclusão, sem a menor dúvida, foi a Bíblia (na verdade uma biblioteca inteira enfeixada em um único volume), que, como se estima, já teria vendido seis bilhões de exemplares mundo afora. Ou seja, quase uma unidade para cada habitante vivo do Planeta (a população mundial atual já passou da casa dos sete bilhões). Outros livros da mesma natureza também não foram considerados, como são os casos do Alcorão e do Livro dos Mórmons, por exemplo.

A propósito dessa relação, baseada na Wikipédia, menciono (antes que me acusem de plágio), o excelente trabalho do site “Livros e Pessoas” (WWW.livrosepessoas.com), com base, também, na citada enciclopédia eletrônica. As cifras mencionadas são meras estimativas (claro) e podem ou estar “infladas” ou “subestimadas”.

Ademais, muitas dessas obras foram reeditadas e continuam vendendo, mundo afora, sem cessar. Portanto, não esperem exatidão, que neste caso, ouso assegurar sem medo de equívoco: é impossível. Todavia, sem mais delongas, vamos ao referido “ranking”. Oportunamente, pretendo tecer ligeiros comentários sobre cada um dos livros citados.

A relação dos “mais vendidos de todos os tempos”, elaborada pela Wikipédia (e reproduzida e comentada pelo site “Livros e Pessoas”) é esta, de trás para a frente:

11º) “O Alquimista” – Paulo Coelho – 1988 – teria vendido mais de 65 milhões de exemplares.
10º) “O Apanhador no Campo de Centeio” – J. D. Salinger – 1951 – mais de 65 milhões de exemplares.
9º) “O Código Da Vinci” – Dan Brown – 2003 – mais de 80 milhões de exemplares.
8º) “O Pequeno Príncipe” – Antoine de Saint-Exupery – 1943 – mais de 80 milhões de exemplares.
7º) “Ela a Feiticeira” - Henry Rider Haggar – 1887 – mais de 83 milhões de exemplares.
6º) “O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa” – C. S. Lewis – 1950 – mais de 85 milhões de exemplares.
5º) “O Caso dos Dez Negrinhos” – Agatha Christie – 1939 – mais de 100 milhões de exemplares.
4º) “O Sonho da Câmara Vermelha” – Cao Xueqin – Século XVIII – mais de 100 milhões de cópias.
3º) “O Hobbit – J. R. R. Tolkien – 1937 – mais de 100 milhões de exemplares.
2º) “O Senhor dos Anéis” – J. R. R. Tolkien – 1955 – mais de 150 milhões de exemplares.
1º) “Um conto de Duas Cidades” – Charles Dickens – 1859 – mais de 200 milhões de exemplares.

Que esta relação seja, de fato, ao menos minimamente próxima da real, nem Wikipédia, nem o site “Livros e Pessoas” e muitíssimamente eu podemos assegurar. Coincidentemente, no entanto, tenho, em minha caótica biblioteca, todos esses onze livros, os quais já li e alguns já reli mais de uma vez.

Considere, pois, este “ranking” como ele deve ser considerado. Ou seja, como mera especulação ou, se assim o desejar, como simples curiosidade, dessas que constam em almanaques, mas jamais como informação jornalística, pela total, completa e absoluta impossibilidade da devida comprovação. De qualquer maneira, está atendida a solicitação do leitor, que me pareceu desde o primeiro momento (e foi) um desafio à minha capacidade de pesquisa (que sequer é tão grande como ele certamente supõe).

Boa leitura.

O Editor.



Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Moderno ou eterno


* Por Pedro J. Bondaczuk


O poeta Carlos Drummond de Andrade, num de seus poemas, expressou que seu desejo não era "ser moderno, mas eterno". Mal sabia que, em decorrência do bom uso do seu talento, já, àquela altura, havia atingido a pretendida eternidade.
Não da forma como os místicos a entendem, como uma outra vida, incorpórea, ou como eventual reencarnação. Se isso existe, ou não, fica no terreno da fé, sem possibilidade alguma de comprovação. Mas todo homem tem uma chance – alguns, maior, outros, muitíssimo menor – de evitar a segunda morte. Aquela representada, não apenas pela extinção física, mas até da lembrança da sua passagem pela Terra, como ocorre com a maioria absoluta da humanidade.
Raros, raríssimos indivíduos conseguem deixar alguma obra marcante, a ponto de sobreviver ao tempo e ao esquecimento. Homero, Ovídio, Cícero, Dante Alighieri, Leonardo da Vinci, e outros tantos são exemplos destes gênios imortais, muitos dos quais desprezados, ridicularizados e até perseguidos pelos contemporâneos.
É verdade que o sucesso depende de circunstâncias. Mas tem, também, elementos de autodisciplina, de determinação, de clarividência e de muita, muitíssima vontade.
O escritor Murilo Mendes escreveu a respeito. Observou: "Muitos homens julgam que a idéia de eternidade reside num plano de mito, de ficção, ou que a eternidade é a vida de além túmulo. Entretanto, a vida eterna começa neste mundo mesmo: o homem que distingue o espírito da matéria, a necessidade da liberdade, o bem do mal, e que aceita a revelação de Cristo como solução para o enigma da vida, este homem já incorpora elementos eternos ao patrimônio que lhe foi trazido pelo tempo".
E nem é necessário ser reconhecido pelo nome, pela identidade pessoal, para que se seja eterno. Quem descobriu a maneira de produzir fogo à hora em que desejasse se eternizou nessa descoberta. Não há registro do autor dessa proeza. Todavia, ela significou importante salto nas civilizações.
O mesmo aconteceu, por exemplo, com o inventor da roda. Não se sabe quem foi este gênio, mas se tem certeza da sua existência. E sua imortalidade reside nesta invenção.
A modernidade depende das definições feitas a seu respeito. O que é tido como "moderno", hoje, numa fração não conhecida de tempo será obsoleto, antiquado, "demodé". O que se deve buscar, no entanto, é o eterno. São aqueles princípios e valores que o passar dos anos, dos séculos, dos milênios não consegue alterar.
A liberdade é um desses conceitos. O amor é outro. E há uma infinidade deles eternizada, depois de provada e comprovada. Uma das parábolas de Cristo fala sobre a distribuição de talentos – no caso, o nome de uma moeda da época.
Quem recebeu a maior quantidade, aplicou-a e dobrou-a. O segundo servo, que ganhou uma quantia mediana, igualmente fez bom uso desse capital e o multiplicou. Todavia, justo quem foi menos aquinhoado, não soube o que fazer com o patrimônio.
Enterrou seu talento e teve que devolver essa única moeda recebida, ficando sem nada. E ainda foi repreendido por sua falta de iniciativa. O mesmo ocorre no mundo. Os mais talentosos, em geral, têm autodisciplina para desenvolver novas habilidades. Os tacanhos preferem encolher-se e ficar reclamando das injustiças. E acabam por sumir, sem deixar pegadas.



* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk






O vigia do mar


* Por Nei Duclós

A realidade do pescador é a brusca mudança, o rochedo que aflora, o sumidouro, o roçar de um monstro, a mistura do vento, o peixe maior do que os braços. Ele vive diante da oportunidade perdida, da história afundada no tempo, na curva da onda batizada de Iemanjá, na tentação sonora em forma de sereia. O pescador perde a forma para adaptar-se às imposições mutantes da paisagem. Sua percepção sofre com esse penoso exercício e por isso não é convincente para quem vive fora do seu mundo. Mas ele sabe o quanto pode se enganar, principalmente quando fica de olho na água para vislumbrar a presa. Sua salvação é contar com o apoio do mais preparado dos seus pares, aquele que vive no alto do morro, só e desperto. É o vigia do mar. Ele vê cardume no escuro e dá o alarme quando todos estão dormindo. Visitei um velho vigia um dia desses, no Muquém, bairro ao sopé de um morro e que fica no caminho para a Lagoa, aqui em Florianópolis.

O homem cultiva orquídeas e me contou várias histórias do tempo em que detectava tainha para os pescadores das praias de ingleses, Moçambique, Santinho. Tinha esperança que eu levasse alguma de suas raridades, mas a ilha é prudente na circulação da moeda e todos vivem no aperto, aguardando a chegada de turistas. Ele nos mostrou sua coleção, que vai florir no verão e que chega até o pé do morro. Sua chácara começa bem rente à rua, num velho engenho onde vive. Lá impera o grande forno e o fogão de pedra, alto. Sua esposa varre o chão com vassoura de folhas catadas no quintal e faz café de chaleira amassada, com gosto e aroma fortes. Os olhinhos apertados do velho me fuzilavam enquanto desfiava suas histórias. Fala rápido demais e não dá bola se o interlocutor não tem a mínima idéia de várias palavras e expressões que usa para descrever seu ofício.

Garante que vê cardume de tainha em noite sem lua e não é o barulho ou a forma diferente da superfície do mar que dá a pista. É algo muito mais profundo, que só o vigia sabe, e que não conta para ninguém, pois esse é o segredo mais bem guardado desses mestres tratados com reverência pelos outros pescadores. Uma colônia de pesca depende da habilidade do seu vigia e se ele for bom é possível colher toneladas num só arrastão. A palavra mais usada pelo velho é peixe. Ele diz peixe para tudo, usando-a como costura de causos sem fim, quando costumava surpreender os incrédulos que viviam dizendo que ele já estava ultrapassado, não enxergava mais nada. Mas o vigia não enxerga, ele simplesmente sabe.

O velho ri ao lembrar que um desses incrédulos estava falando asneira enquanto o peixe ameaçava roçar a perna dele. O cardume se alvoroçava perto do rochedo e a assombração da sua presença era notada pelo vigia bem na beira. É a cor do mar que muda? pergunto, e ele ri. O mar fica marrom, vermelho, borbulhante, dizem os leigos. O vigia, entretanto, vê o cardume de tainha quando o mar está calmo e tudo parece normal. Por isso há respeito na voz dos que se referem ao mestre. Fomos mais tarde procurar outros vigias e abordamos um grupo sentado em frente a um barraco que guardava barcos. Pergunto mas ninguém me responde. Invoco então o nome próprio da pessoa procurada e digo a senha: pronuncio o nome do mestre, que me deu a dica. Todos levantam o olhar e as caras mudam.

Imediatamente apontam com todos os dedos o vigia deles, o que está atualmente na ativa, e que fica de olho no mar ao lado de outro companheiro . São dois de plantão. O mestre era solitário. Pegava uma garrafa pequena de água e ia para o seu posto. O senhor era um bom pescador? pergunto novamente. Nunca pesquei, diz ele, mas sempre comi peixe. Sou da lavoura, planto para comer. Ou pelo menos plantava. Hoje está tudo proibido, não se pode nem colher um pé de mandioca. Esses dias um menino foi vender mandioca num carrinho de mão e um fiscal do Ibama disse que era proibido. Antigamente a gente plantava feijão, comia e guardava. Mas não durava três meses. Antes de estragar, a gente fervia e dava para os porcos. Hoje você compra um quilo de feijão no armazém e o grão pode durar anos. Está tudo envenenado. Precisamos pagar pelo alimento e ainda comemos veneno.

Em cima da porta que dá para o orquidário, há uma tainha aberta ao meio, secando ao sol. Ele recebe presentes dos pescadores ainda agradecidos. Às vezes chega um repórter e fotografa suas orquídeas. Ou um estudioso alemão que nunca viu coisa igual e sai feliz com as novas espécies. Ele é famoso, mas continua simples, jamais humilde. O velho vigia é o especialista em sua arte, o olho enfeitiçado que enxerga assombração. Faça perguntas e veja como ele ri. Um mestre não aceita perguntas, ele sabe o que falar. Por isso fala sem parar e eu escuto por horas. Saio então em direção ao mar. As gaivotas ficam de sentinela. O mar está para peixe? Quem sabe é o vigia e seus aprendizes. É possível aprender o ofício? O velho ri. Essas pessoas fazem cada pergunta... Quer mais um café? Vai levar uma orquídea?

* Autor de três livros de poesia: “Outubro” (1975), “No meio da rua” (1979) e “No mar, Veremos” (2001); e de um romance: “Universo Baldio” (2004). Jornalista desde 1970 e bacharel em História. Trabalha atualmente em Florianópolis, onde é editor-executivo de duas revistas.






O combate


* Por Josué Montello

Na véspera do combate, quando a lua despontou por cima dos contrafortes da serra do Medeiro, já encontrou as tropas do Capitão Nelson de Melo a poucos quilômetros do lugar escolhido para o duplo movimento - de vanguarda e retaguarda - contra as forças governistas. O batalhão marchava em silêncio, cobrindo a picada no passo certo da marcha, de baterias prontas para a ofensiva, enquanto a cavalaria se alongava em fila indiana, com os animais de orelhas fitas, rédeas soltas, batendo cadenciadamente os cascos nas pedras do chão. Adiante, nas carretas vagarosas, seguiam dois canhões, ladeados por quatro artilheiros.
Por volta das dez e meia, o batalhão parou para acampar. Dali se podia ver, banhada pela claridade do luar, a silhueta compacta das montanhas fechando o cenário da luta. Ocultos pela vegetação das encostas, já os canhões inimigos espreitariam, alongando o pescoço comprido, prontos para atirar.
João Maurício, que dispensara a barraca de campanha, preferira ficar ao relento, na companhia de seus soldados, sentindo à sua volta a noite imensa e clara. Jamais tinha visto outra assim. Afeito a galgar escarpas e desfiladeiros, vivia agora uma emoção diferente, com aquela luz úmida, aquele silêncio espaçoso, aquelas cumeadas, aquelas árvores que a brisa balouçava. Por terra, junto aos fuzis e às mochilas, jaziam os companheiros adormecidos, agasalhados nas mantas e nos capotes, sem que se lhes ouvisse o ressonar sobressaltado. Parecia a João Maurício que, afora as sentinelas, que se mantinham alerta nos postos avançados, somente ele permanecia vigilante, àquela hora tardia, sentado no chão, com as mãos frias escorando o corpo, que se reclinava para trás. Apesar da marcha longa, não sentia sono nem cansaço. Aquela vigília não seria um aviso de que seu fim se aproximava? Entregava-se às mãos de Deus, convicto de que tomara o partido da boa causa. E alongava para os alcantis a vista insone. A noite, olhada daquela iminência, com as montanhas empinadas sob a luz alvacenta, tinha a imponência inaugural do mundo primitivo, como se Deus houvesse acabado de fazer tudo aquilo. Aqui, além, esguios pinheiros imóveis, perfilados no sopé das encostas, abriam-se no alto, como em gesto de oferenda. Com o passar das horas, a luz adquiria gradações novas. A própria lua, suspensa sobre a crista da serra, dava a impressão de buscar alguma coisa na claridade fosca, com um ar de notívaga assustada.
Nisto João Maurício percebeu que um vulto se movia ao seu lado, firmando as mãos no solo para erguer a cabeça, e logo reconheceu o Cabo Ruas, que por fim se sentou, esticando os braços curtos:
— Não quis dormir, Tenente? Eu passei pelo sono. Em noites assim, durmo e acordo, durmo e acordo. Tomara que esta briga acabe depressa. Já estou sentindo a falta de casa. Vou brigar ainda um mês ou dois, depois pego licença: já está em tempo de ver minhas crianças. Agora mesmo sonhei com a patroa. Ela fazia um festão com a minha chegada.
E após um silêncio longo, olhando a noite erma:
— Isto aqui mete medo. Aquela montanha ali, muito escura, muito alta, parece que está de dedo empinado, ralhando com a gente. E olhe o vento assobiando. Deus não pode ter inventado a guerra, Tenente. Isto é coisa do Diabo. Eu, aqui, com o meu fuzil, e o senhor, aí, com a sua pistola, só estamos pensando em matar para não ser morto. Deus disse: "Não matarás." E nós, aqui, não fazemos outra coisa. Acho que foi esse pensamento que me tirou o sono. Estou dizendo besteira, Tenente? João Maurício bateu-lhe no ombro:
— Não. Mas trata de dormir. Precisas estar descansado, e eu também. Fica quieto.
E alongou-se ao comprido do chão, com o rosto voltado para o céu, como em busca das estrelas, enquanto o Cabo Ruas se deitava de borco com a cabeça no braço dobrado. Mas, mesmo quieto, João Maurício não dormiu. Para os lados de Belarmino, voltavam a retumbar tiros isolados, que as montanhas repetiam.
— Boa-noite, Tenente.
— Boa-noite, Ruas.
E João Maurício, com as mãos sob a nuca, ia vendo farrapos de nuvens que o vento levava. Quando a luz da aurora se espalhasse por aquelas alturas, haveria sangue no horizonte, por cima das árvores, e sangue na terra, com os primeiros mortos e feridos. Os cavalos se precipitariam sobre o verde dos desfiladeiros, e muitos deles relinchariam, ouvindo o toque das cornetas, por entre o rugir dos canhões, o sibilar das balas, e o estrugir nervoso da metralha. E tanto de um lado quanto de outro, os corpos iriam tombando, à proporção que o dia fosse crescendo.
Sem perceber a transição da vigília para o sono, João Maurício deixou cair pesadamente as pálpebras, e só voltou a si com o Ruas a lhe sacudir o braço:
— Depressa, Tenente: o ataque está começando.
De um salto, ele ficou de pé, ouvindo em redor o alvoroço dos companheiros que se apresentavam para o combate. Na manhã ainda clareando, estrondavam as primeiras cargas cerradas do bombardeio inimigo. Soavam longe os clarins e as cornetas. Alguns cavalos galopavam, outros relinchavam com o repuxo das rédeas e o toque das esporas. E as granadas não tardaram a explodir ali no alto, arrancando touceiras de mato e salpicos de terra revolvida. De vez em quando, um grito. E os canhões rugiam dos dois lados, escancarando na luz atônita o clarão instantâneo das balas detonadas.
Após a desordem assustada dos momentos iniciais de luta, uma ordem natural ia-se impondo — com os soldados nas posições de combate, a resposta rápida dos tiros, o corpo-a-corpo que lá adiante se travava, a arremetida dos cavalarianos, os grupos que se infiltravam pelos capões de mato e pelo aclive das ribanceiras. A cada instante, uma nova ordem da corneta. Novas cargas cerradas. As granadas de mão que se amiudavam, e já um ou outro soldado inimigo tentava infiltrar-se nas linhas rebeldes, enquanto a luz da manhã crescia e se alastrava.


• Escritor, jornalista, professor e teatrólogo






Coisas do passado

* Por Giovani Roehrs Gelati

Quando tecnologias são ultrapassadas, condenamos o que é obsoleto à extinção. O Blu-Ray tem se popularizado e, com facilidade, fazemos download gratuito de filmes pela internet. Os sons automotivos deixaram de lado os CD e DVD e passaram a adotar a entrada USB. O resto é antiguidade. Em casa, basta conectar o computador a caixas de som potentes e as músicas serão tocadas diretamente do PC. No passado, era necessário gravar um CD de mp3 para ouvir e, antes ainda, um CD de áudio. Para não se falar das fitas K7, do disco de vinil e dos rádios a pilha, relíquias que servem para exposição.
Além disso, a evolução fantástica dos computadores substituiu os trambolhos volumosos por máquinas mais compactas e potentes: dos computadores de mesa para os notebooks, netbooks, palmtops e tablets. Lembra-se dos mimeógrafos? Grande parte das escolas deixou de utilizá-los e passou a adotar o projetor multimídia como ferramenta auxiliar de trabalho.
Mesmo com essa gama de novidades eletroeletrônicas, os equipamentos antigos resistirão ao tempo. E quem aposta na sobrevivência, apenas, das novas tecnologias, demonstra uma visão muito parcial da realidade. Não conhece o mundo ao seu redor ou, então, não faz questão alguma de sair do seu sofá elitista e olhar para os lados.
Essas evoluções, muito bem-vindas por sinal, chegaram e facilitaram a vida. Deixaram as ações mais dinâmicas. Podemos conectar-nos ao Orkut e Twitter pelo celular ou achar qualquer ponto numa cidade desconhecida com facilidade através do GPS. Contudo, as inovações tecnológicas não são acessíveis a todos, porque boa parcela da população recebe um salário que mal paga o alimento. Terão condições de adquirir um bem desses? Não há boas perspectivas para isso.
Na crônica “Escrever à mão” de 17 de julho, no Caderno Donna, do jornal gaúcho Zero Hora, a colunista Martha Medeiros sentenciou que, em breve, ninguém mais usará cadernos, e sim, tablets. Canetas, lápis e apontadores serão artigos de museu e, possivelmente, substituiremos os livros impressos pelos e-books.
Acreditar que toda a população terá condições de comprar um tablet para usar como caderno é ter uma visão muito simplista. É ilusão das grandes crer que as escolas evoluirão ao ponto de excluírem os cadernos e adotarem, apenas, as mídias digitais. Quem sabe daqui a mil anos... Eu gostaria muito que essa integração com as tecnologias ocorresse nas escolas nessa intensidade, porque já há muito tempo deveria ser realidade, mas estamos muito aquém do que fantasiou a cronista.
É impossível imaginar uma escola de última geração se há poucos professores capacitados para trabalhar com computadores e afins e os recursos financeiros mínimos previstos na constituição nem sempre são cumpridos pelas autoridades. Apresenta-se improvável o amplo uso das tecnologias, pois os problemas da educação são vários, as soluções, complexas e devem ocorrer em conjunto com os demais setores. E não é da noite para o dia que se chega a um resultado positivo. Depende de políticas públicas que, dentre outros fatores, diminuam as desigualdades sociais.
É fácil se enclausurar numa redoma de vidro, num mundinho perfeito, bem parecido com o nosso. Porque a pobreza é algo feio de se ver e sentir. Muito mais conveniente crer que todos comprarão tablets quando o preço baixar de atuais R$ 900,00 (os modelos mais baratos) para R$ 200,00. Acreditar nisso é ser como o protagonista Jimmy, do filme “Jimmy Bolha”, que, por ter o sistema imunológico debilitado, vivia numa bolha de plástico, sem contato com os ares impuros da realidade. De lá, imaginava e vivia o seu mundo de acordo com o que supunha ser o real.
Não é inusitado ver alguém ouvindo música ou jogo de futebol em radinhos a pilha. Nas escolas, o mimeógrafo já deveria ter caído em desuso há vários anos, mas permanece sendo utilizado, concomitante à fotocopiadora e ao projetor. Se eu fosse apostar na longevidade do mimeógrafo ou na disseminação dos tablets nas escolas, não teria dúvidas em apontar a prevalência do primeiro. É uma triste constatação, mas é real.

Publicado no Jornal da Cidade Online em 21 Ago 2011

• Contista, cronista e escritor gaúcho, graduado em Língua Portuguesa pela PUCRS Campus Uruguaiana


A natureza da crise atual

* Por Emir Sader

O pensamento conservador pensa a sociedade como um sistema governado por tendências ao equilíbrio, em que as crises são apenas desvios temporários. Para o próprio Marx, as crises são inerentes ao capitalismo, como resultado das suas contradições intrínsecas entre produção e consumo, entre produção social e apropriação privada. Mais tarde, o economista russo Kondratrieff classificou as crises cíclicas do capitalismo em ciclos longos de caráter expansivo e recessivo.
Há um certo consenso no pensamento crítico de que ao longo ciclo expansivo do segundo pós-guerra aos anos 70 do século passado, se sucede um ciclo recessivo do capitalismo em escala mundial, em que estamos imersos até hoje. Isto se deve a que a desregulamentação promovida pelo neoliberalismo produziu uma gigantesca transferência de capitais do setor produtivo ao financeiro – sob a forma especulativa -, porque o capitalismo não está feito para produzir e sim para acumular. Se os capitais encontram melhores conduções de ganho na especulação – como passou a acontecer – se transferem e se concentram maciçamente aí.
A hegemonia do capital financeiro, por sua vez, representa um freio à expansão da produção, ao mesmo tempo que agudiza a contradição entre a produção e o consumo. O capital financeiro, ao viver da compra e venda de papeis, não tem interesses na extensão do mercado popular de consumo, nem na geração de empregos. Tem assim dificuldades de gerar suas próprias bases sociais de apoio, salvo setores mais restritos da classe média alta. Daí também seu esgotamento relativamente prematuro, ao desembocar em derrotas políticas.
Porém, as próprias transformações operadas pelo neoliberalismo dificultam a construção de alternativas a ele – seja por sua auto-reforma, seja pela sua superação. A desregulamentação econômica, a hegemonia dos mecanismos anárquicos de mercado, o enfraquecimento dos Estados nacionais, a fragmentação social – tudo gera situações de crises hegemônicas, em que o velho – o neoliberalismo – sobrevive, a preços cada vez mais caros, enquanto as vias da sua superação encontram dificuldades para se impor.
O maior drama do nosso tempo vem de que, enquanto o capitalismo exibe abertamente seus limites e contradições, escancara, na crise atual, sua impotência para solucionar os próprios problemas gerados por ele, o socialismo e os fatores para sua construção também sofreram vários retrocessos, com a desmoralização do socialismo, das economias planificadas, do Estado, da politica, dos partidos, das soluções coletivas aos problemas da sociedade. Abriu-se assim um longo período de crise hegemônica, de disputa pelas alternativas ao neoliberalismo, que não deve ter solução em prazos curtos, enquanto o próprio sistema atual não consiga gerar alternativas para sua recomposição – sempre mais conservadora – e não se consiga ainda recompor as forcas sociais, políticas e ideológicas que possam dirigir uma superação do neoliberalismo e do capitalismo. Um longo período de turbulências e instabilidades, em que as crises serão mais regra do que exceção.
A essa instabilidade econômica haveria que agregar a instabilidade geopolítica mundial, produto do enfraquecimento da hegemonia global norte-americana, sem que surjam ainda no horizonte forças que possam deslocá-lo desse lugar e substituí-lo, numa dinâmica de construção de um mundo multipolar.
A crise surgida em 2008 não é uma crise cíclica tradicional do capitalismo, da qual ele costuma emergir queimando estoques, empregos, com grandes retrocessos, em que o mercado depurava as empresas mais frágeis e se retomava o ciclo expansivo, a partir de um nível mais baixo. A discussão sobre a forma da crise iniciada naquele momento – se em formado de V ou de W – vai se revelando claramente a favor deste ultimo, com perspectivas de sucessivas e reiteradas recaídas, como esta, de 2011.
No primeiro momento, a crise – que significativamente apareceu no setor financeiro, mediante créditos fictícios, que finalmente explodiram e deram início a um processo recessivo do conjunto das economias do centro do capitalismo – foi combatida com a recomposição do setor financeiro, privilegiado nos apoios governamentais. Os governos salvaram os bancos, acreditando que os bancos salvariam os países. Os bancos se salvaram a si mesmos e deixaram os países abandonados à anarquia dos mercados especulativos.
Ha’ quem diga que seria a crise final do capitalismo. Giovanni Arrighi caracteriza a predominância do capital financeiro como uma marca do final de um sistema hegemônico – característica fortemente presente no estágio atual de crise do sistema capitalista. Immanuel Wallerstein se arriscou a predizer que o capitalismo deve terminar em 50 anos. Mas como o capitalismo nao é apenas um sistema econômico, mas também um sistema de poder – representado pelo imperialismo como poder hegemônico no mundo -, ele não se auto-destroi, não terminará se não for derrubado, não apenas por um projeto alternativo, mas pelas forças que este projeto consiga gerar, as previsões sobre o futuro do capitalismo – e da humanidade – dependem das lutas sociais, politicas e ideológicas e da capacidade de se gestar, nestas, as alternativas concretas ao capitalismo.
O neoliberalismo pode chegar a ser substituído – até por alternativas ainda mais conservadoras – no marco do capitalismo, sobrevivendo, com formas ainda mais reacionárias.
A crise econômica atual vê na Europa a substituição da vontade popular, expressa nas eleições, pela ditadura dos mercados que derrubam governos e elegem seus próprios governantes, destruindo as democracias e os Estados de bem estar social produzidos por décadas de lutas de lutas populares.
A verdadeira natureza da crise é assim uma crise de hegemonia, uma crise de alternativas, que deve ter um caráter prolongado, em meio a um mundo instável econômica e geopoliticamente. A construção de um mundo multipolar e de projetos pós-neoliberais é o objetivo imediato dos que desejam superar este mundo guiado pelas guerras e pelos mercados, que só tem trazido violência e sofrimento para grande parte da humanidade.
Nós, na America Latina, que lutamos pela construção dessas alternativas, sabemos o que significam esses sofrimentos - tivemos ditaduras militares e governos neoliberais – e como sua superação só pode se dar com políticas de paz e de negociações políticas dos conflitos, e com políticas econômicas e sociais de desenvolvimento com democratização social.

• Sociólogo e cientista político