sábado, 29 de outubro de 2011







São Pedro de Atacama - a vida

* Por Urda Alice Klueger


(Excerto do livro "Viagem ao Umbigo do Mundo", publicado em 2006)

Nossa turma dirigiu-se a hotel já conhecido de outras viagens, algo com uma aparência bem estranha por fora, com seu muro e suas paredes de adobe não rebocado, mas logo me dei conta do luxo sofisticado que havia no interior das construções, onde se pagava mais de cem dólares para se dormir uma noite, onde havia uma cozinha internacional e pequenas cabanas de adobe em torno de um pátio, com amplos banheiros luxuosos, que tinham um único inconveniente: toda a água era salgada. A gente lavava o cabelo e ele ficava duro como pau, e era como se se tivesse tomado um banho de mar. A cobertura era de palha, mas poderia não haver – faz perto de 500 anos que não chove por ali. Uma característica das coberturas das casas nessa região do deserto é que, acima da palha, penso que para barrar as ondas de calor que o sol provoca durante o dia, há uma camada de barro.
Num instante eu tomara meu banho salgado, comera um prato de comida internacional (daquelas que vem só um pouquinho por pessoa, e que me deixa com fome) e saíra para descobrir São Pedro de Atacama.
Meu, era um encanto andar por ali, naquele mundo um pouco indefinido entre o colonial espanhol e o do antigo povo de Atacama, ver aquele museu fantástico, observar os muitos turistas de línguas estranhas a conversarem na praça e nas ruas – eu acho que só tem um jeito de explicar São Pedro do Atacama: é indo lá e vendo pessoalmente. O povo local é gentil e simpático, e quando fui a um café cibernético, descobri que o rapaz que lá trabalhava era um escritor de contos. Ficamos de nos comunicar depois mas, infelizmente, acabei perdendo o endereço dele antes de chegar em casa. Foi uma pena, pois queria muito saber o que pensa um jovem atacamenho em pleno século XXI. De qualquer forma, ele me ajudou um bocado, fez um novo endereço eletrônico para eu ir armazenando até chegar em casa as principais coisas que estava recebendo e que não podia perder, inclusive os diários daquela viagem, que estava mandando para muitos lugares.
Aquele dia se finou dentro do encantamento de São Pedro de Atacama, e olhando para trás agora, vejo-me a farejar as ruas, os cantos, a praça, bem como se fosse um cachorro vadio que fizesse aquilo com muita alegria, abanando o rabo. Depois dormi aconchegada e quietinha na minha luxuosa cabana de adobe e palha, feliz porque na manhã seguinte não teria que levantar cedo. Haveria um passeio opcional na madrugada, e quando soube que para ir era necessário levantar às três da manhã, achei que era melhor ver as fotos, depois. Uma parte do nosso pessoal foi ao passeio, ver o El Tatio, um lugar ali nas redondezas onde se tinha que chegar às seis da manhã, para se ver geisers que afloravam jatos de água fervente à superfície rochosa de um plano e formavam um quadro curioso e encantador, tanto pelas fotografias que vi quanto pelo entusiasmo com que contaram a respeito os que lá estiveram. Entre outras coisas, os guias de turismo faziam e serviam um café da manhã, preparando-o nas águas ferventes dos geisers, isto é, fervendo caixas de leite e cozinhando ovos, entre outras coisas, para servir aos turistas. Naquele lugar estava-se a grande altitude e era muito frio, mas havia tantos geisers e tanta água fervente saindo para o mundo gelado, que as águas acabavam formando piscinas naturais de boa temperatura, e quem quis, pode tirar a roupa e tomar banho naquela prodigiosa delícia da natureza.
Como não fui a El Tatio, dormi quanto quis, e ainda aproveitei para mais uma sessão de passeios e de Internet. Fui almoçar a boa comida que nem sei se é típica, e que existe nos pequenos restaurantes de adobe de São Pedro de Atacama. Há tanta gente lá, de tantas partes do mundo, que é possível que hoje haja comidas de todos os continentes vicejando naqueles pequenos restaurantes. Quisera ter comido alguma coisa tipicamente atacamenha, mas não sei se o fiz.

• Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.


O anjo que morava em mim

* Por Clóvis Campêlo

O anjo que morava em mim
despediu-se e foi embora,
pois tudo tem sua hora
e tudo tem o seu fim.

Ainda o vi vacilante
dobrando a primeira esquina,
montado por sobre a crina
do cavalo rocinante.

Levantava altaneira
a espada da justiça,
a qual cortava linguiça
nos dias que ia à feira.

O anjo que morava em mim,
com toda a sua utopia,
foi tristeza e alegria,
histórias de folhetim.

Fez revoluções inúteis,
construiu muitas quimeras,
transformou gato em panteras;
em verdades, coisas fúteis.

Deixou-me aliviado
de tanta melancolia
pois só esperava o dia
de curtir os meus pecados.

• Poeta, jornalista e radialista


Poema

* Por Flora Figueiredo

A lembrança é um barbante.
Uma ponta amarrada no começo da história,
outra, em nosso tornozelo.
Se o fio estica muito, mal dá para continuar.
É a linha da Memória que vai ficando puída,
a da lembrança, não.
Feita de fibra grossa,
não afrouxa até que um anjo venha desatá-la
e a transforme numa corredeira de estrelas.
E quanto mais a corredeira for cumprida,
tanto mais rica há de ter sido a vida.

* Poetisa, cronista, compositora e tradutora, autora de “O trem que traz a noite”, “Chão de vento”, “Calçada de verão”, “Limão Rosa”, “Amor a céu aberto” e “Florescência”; rima, ritmo e bom-humor são características da sua poesia. Deixa evidente sua intimidade com o mundo, abraçando o cotidiano com vitalidade e graça - às vezes romântica, às vezes irreverente e turbulenta. Sempre dentro de uma linguagem concisa e simples, plena de sutileza verbal, seus poemas são como um mergulho profundo nas águas da vida.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Terra da promissão.

Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica, “Graciliano Ramos, juiz de Guimarães Rosa”.

Colunas No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto “Reflexo”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, minicontos “Pílulas literárias 99”.

Coluna Porta Aberta – Lêda Selma, conto,“Descomunicação”..

Coluna Porta Aberta – Raul Fitipaldii, artigo, “Noite humana”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Terra da promissão

O Brasil sempre foi tido e havido como “a terra da promissão”. Não se trata de ufanismo barato, mas de pura realidade. E não é de hoje que aqui e no exterior se pensa isso deste “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Desde que foi descoberto, fez a riqueza de muitos exploradores, sustentou Portugal e inflamou a fantasia e a cobiça de aventureiros de toda a sorte, de várias partes do mundo.
Fortunas incontáveis aqui forjaram-se (e dissiparam-se). Isso, só do ouro e pedras preciosas (principalmente diamantes) extraídos do subsolo deste País. Caso esses recursos ficassem por aqui (uma quantidade ínfima ficou), nossa situação econômica (que atualmente até que é razoável) eles nos colocariam entre as potências mais ricas (se não a mais rica) do Planeta.
Apesar de toda essa exploração alienígena das nossas riquezas, é quase certo que o País detém, ainda, muita,. Mas muita preciosidade mesmo a ser descoberta e revertida em nosso benefício. Só em reservas petrolíferas, na chamada área do pré-sal, há um potencial tamanho, que é impossível de calcular com razoável exatidão a quanto ascende. Há lugares em nosso território onde pessoa alguma jamais pisou. Sabe-se lá quanta surpresa esses locais não reservarão a quem lograr descobri-los e explorá-los adequadamente!
Fala-se muito, por exemplo, da corrida do ouro na Califórnia, nos Estados Unidos, que enriqueceu muita gente e fez a fortuna e a grandeza dessa que é a única superpotência remanescente do Planeta. O Brasil, todavia, teve, também, a sua. Ou as “suas”, caso consideremos o ainda recente fenômeno de Serra Pelada, no Pará. E não duvido que venha a ter outra, ou outras num futuro remoto, ou próximo, sabe-se lá. Não dá para duvidar.
É sobre uma dessas “corridas do ouro” que trata o livro-reportagem do jornalista Lucas Figueiredo, “Boa ventura! – A corrida do ouro no Brasil (1697-1810)”, lançado no primeiro semestre de 2011 pela Editora Record. É uma obra fascinante, que prende a atenção do leitor, e revela fatos até então pouco conhecidos e nebulosos, ou completamente desconhecidos. Essa reportagem histórica é fruto de três anos de pesquisas do autor, feitas em arquivos de Portugal, França, Inglaterra, Benin e, claro, do nosso País.
Querem uma “palhinha” sobre o conteúdo do livro de Lucas Figueiredo? Tomo a liberdade de transcrever o seguinte trecho da sinopse publicada no próprio blog do autor: “Fevereiro de 1876. O falido rei d. Luís I vasculha os cofres portugueses à procura de joias e outras peças de valor que possam ser vendidas para pagar dívidas. Na busca, ele encontra uma pepita de ouro de pouco mais de 20 quilos, do tamanho de um melão. Esquecida por décadas nos Tesouros Reais, a pedra retirada de solo brasileiro é o último remanescente de uma época de riqueza incalculável para o velho império lusitano. É com esta cena – insólita e absolutamente verdadeira – que o jornalista Lucas Figueiredo inicia sua fascinante reportagem histórica”.
Num texto promocional da Editora Record, há, ainda, mais esta indicação do conteúdo da obra: “A América Portuguesa estava entre as nove províncias gemológicas do mundo. Com um solo impregnado de pedras preciosas, sobretudo, diamantes. Mas foram mais de dois séculos até a Coroa ver algum sinal de riqueza. E apenas a metade do tempo para dilapidar esses recursos. Em cem anos, Portugal torrara mais da metade do metal precioso produzido no mundo daquele período”. Isso é que é gastar muito, e mal, o que se tem!!! Mas...
Falemos um pouco do autor. Até porque, quem quiser saber mais a propósito do livro, que o compre e o tenha sempre à mão, até para consulta. Lucas Figueiredo, 43 anos, mineiro, nascido em Belo Horizonte, é um jornalista consagrado, que não tem que provar mais nada a ninguém. Pudera! Já conquistou três Prêmios Esso (2004, 2005 e 2007), a maior premiação jornalística do País. Conquistá-la uma vez, já é uma façanha para pouquíssimos profissionais. Imaginem ser premiado três vezes!
Mas Lucas ganhou, ainda, os Prêmios Imprensa Embratel (2005), Vladimir Herzog (2005 e 2009) e Folha (1997). Como escritor, foi premiado com o Jabuti de 2010. É autor de quatro outros livros-reportagens, da mais absoluta atualidade, todos publicados pela Editora Record. São eles: “Morcego negro” (2000), sobre os escândalos que resultaram no impeachment do presidente Fernando Collor de Mello e no assassinato de PC Farias; “Ministério do silêncio” (2005), a história do Serviço Secreto brasileiro, de Washington Luís a Lula; “O operador” (2006), sobre como (e a mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e PT, no que a imprensa batizou de “Valerioduto” e “Olho por olho” (2009), sobre a ditadura militar no Brasil.
Quanto ouro foi levado para fora do Brasil? Quais eram as rotas para escoamento do metal? Quem foram os principais personagens desta saga? Lucas Figueiredo revela tudo isso e muito mais. Destaca, também, alguns benefícios para a então colônia portuguesa em decorrência dessa frenética corrida do ouro. Claro que, embora verdadeiros, foram sumamente desproporcionais às riquezas subtraídas do Brasil, que nunca mais voltaram (e certamente jamais voltarão) para o País.
A busca pelo metal precioso, por exemplo, ensejou espetacular onde de imigração para o território brasileiro. Propiciou um sem-número de atividades econômicas paralelas, notadamente comerciais, para prover a subsistência dos mineradores. Ensejou a ocupação de novas áreas até então despovoadas, semeando vilas que se transformaram em cidades.
O autor enfatiza que, da noite para o dia, a imigração transformou “uma esquálida colônia de 300 mil habitantes em robusta colônia de 3,6 milhões” (e, note-se, essa cifra equivale à metade da população atual de Portugal).
Outro benefício apontado foi a ocupação e proteção das fronteiras brasileiras, contribuindo para a manutenção da integridade territorial do Brasil. Estimulou, ainda, o desenvolvimento da agricultura, fez circular riquezas e, como Lucas enfatiza, favoreceu, até, o desenvolvimento das artes. Mas o ouro, mesmo, que é bom... Este se foi da “terra da promissão” para jamais retornar. Uma pena...

Boa leitura.

O Editor.




Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk








Graciliano Ramos, juiz de Guimarães Rosa

* Por Urariano Mota

O aniversário de Graciliano Ramos, nascido em 27 de outubro, serve de gancho para lembrar um episódio histórico, no qual ele julgou e não aprovou um livro de Guimarães Rosa. Ainda que este colunista não se inclua entre os admiradores incondicionais do escritor mineiro, vamos ver se pelo menos mantém aparências de imparcialidade ao lembrar o julgamento de Graciliano Ramos sobre Guimarães Rosa.

O fato é que em 1937 Rosa escreveu a primeira versão de Sagarana, que então possuía o nome simples de Contos, e o inscreveu sob pseudônimo de Viator (que nome!) no prêmio Humberto de Campos. Em 1938, na última sessão de julgamento, o corpo de jurados se dividiu entre dois concorrentes. Um finalista era Maria Perigosa, de Luis Jardim, outro, o Contos, de Guimarães Rosa. Graciliano Ramos, presidente do júri, deu o voto de desempate, em favor de Maria Perigosa, por razões que veremos a seguir.

Antes que os fervorosos de Rosa apedrejem Graciliano, é bom saber que o Sagarana apresentado ao concurso de contos não era o mesmo livro publicado muitos anos depois. Transcrevo as palavras do mestre de todos os escritores brasileiros, que explica o seu julgamento em linhas jamais contestadas por Guimarães Rosa:

“Aborrecendo-me assim, abri um cartapácio de quinhentas páginas grandes: uma dúzia de contos enormes, assinados por certo Viator, que ninguém presumia quem fosse. Em tais casos rogamos a Deus que o original não preste e nos poupe o dever de ir ao fim. Não se deu isso: aquele era trabalho sério em demasia. Certamente de um médico mineiro, lembrava a origem: montanhoso, subia muito, descia – e os pontos elevados eram magníficos, os vales me desapontavam. Admirei um excelente feitiço, a patifaria de Lalino Salatiel e, superior a tudo, uma figura notável, dessas que se conservam na memória do leitor: seu Joãozinho Bembém. Por outro lado enjoei um doutor impossível, feito cavador de enxada, o namoro de um engenheiro com uma professorinha e passagens que me sugeriam propaganda de soro antiofídico...

Em fim de 1944, Ildefonso Falcão, aqui de passagem, apresentou-me J. Guimarães Rosa, secretário de embaixada, recém-chegado da Europa.

— O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938.

— Como era o seu pseudônimo?

— Viator.

— Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando.
Ildefonso Falcão ignorava que Rosa fosse médico, mineiro e literato. Fiz camaradagem rápida com o secretário de embaixada.

— Sabe que votei contra o seu livro?

— Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento.

Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo. Havia suprimido os contos mais fracos. E emendara os restantes, vagaroso, alheio aos futuros leitores e à crítica. [...]

Vejo agora, relendo Sagarana, que o volume de quinhentas páginas emagreceu bastante e muita consistência ganhou em longa e paciente depuração. Eliminaram-se três histórias, capinaram-se diversas coisas nocivas. As partes boas se aperfeiçoaram: O Burrinho Pedrês, A Volta do Marido Pródigo, Duelo, Corpo Fechado, sobretudo Hora e Vez de Augusto Matraga, que me faz desejar ver Rosa dedicar-se ao romance”. (Conversa de Bastidores)

E concluo rápido, para situar o mestre e julgador Graciliano Ramos.

Erros de avaliação possuem casos que fizeram história na literatura. Podemos lembrar precedentes mais graves e ilustres que a rejeição a Sagarana. Como, por exemplo, a de André Gide aos originais de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. Ou mesmo a miopia de Lukács em ver o gênio fundamental de Kafka. Mas nem por isso devemos crer que todas as recusas a obras-primas do mundo se reuniram para coroar a recusa de Graciliano Ramos a Guimarães Rosa. Nisso haveria um pouco de excesso, digamos. Sagarana deve ser um pouco menor que A Metamorfose, A Colônia Penal, ou Sodoma e Gomorra.

Nos limites de nossa experiência, no gancho do nascimento de Graciliano Ramos, preferimos chamar a atenção para um livro e autor que cresceram anos depois da leitura honesta do seu julgador. O juiz, autor clássico de Memórias do Cárcere, se achava em posição impossível de melhor avaliação. Seria como, se nos permitem uma comparação plebeia, julgar Pelé o maior jogador do mundo quando ele possuía apenas 13 anos. Antes, portanto, que ele pudesse escrever obras mais belas que Sagarana. Ele, Pelé, queremos dizer. Com o devido respeito à glória de Guimarães Rosa.


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici e “Soledad no Recife”. Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.






Reflexo

* Por Rodrigo Ramazzini

Numa lanchonete. Uma multidão entra e sai, come e bebe, cumprimenta-se e fala no lugar. Senta-se a uma mesa. Beberica um café. Os pensamentos perambulam soltos na velocidade da agitação dos presentes. Os olhos fazem movimentos contínuos para todos os lados acompanhando cabelos, rostos e pernas.

“Quantas histórias de vidas em só espaço”, pensa. Em meio a tanta gente, focaliza o olhar em uma mesa. Uma jovem loira entre 21 e 24 anos que toma um café. Está sozinha. Mônica. Deve se chamar, Mônica. Assim, deduz. Tem um ar triste. Depressiva, talvez. Passa a imaginar os motivos. Frustração profissional? Pode ser.

Pela roupa, parece ser recepcionista. Ninguém gosta de ser recepcionista. Mas, ao analisar mais profundamente, os olhos deixam transparecer que é algo mais profundo do que acordar às 6 da manhã, pegar três ônibus e aturar o dia inteiro um chefe incompetente no trabalho. “É mais que isso”, reflete. Falta de dinheiro? Pode ser.

Ser despejada do apartamento por falta de pagamento. Duro golpe. As incertezas do futuro geram apreensão. O ser humano não se habitua às contínuas mudanças da vida. Prefere a rotina, apesar de negá-la. Não. Aqueles olhos refletem as profundezas da alma. Só uma coisa pode tocar tão fundo. O amor. Claro, o amor. Desilusão? Rompimento? Paixão não correspondida? Fica a dúvida. Mas, obviamente, é por amor que aquela mulher sofre. “Como não percebi antes?”, pensa.

Agora, observa um jovem. Usa óculos e cabelos bem cortados. Toma uma coca-cola, em uma mesa bem à frente. Está sozinho. A face séria deixa transparecer que é um sujeito sério. Estudioso. Sim, estudioso e ligado a tecnologias. Parece ser o cara que toda mulher quer na vida. É para casar, como dizem. Comportado, engraçado e amoroso, que não deixa desabrochar esse lado por causa da timidez. Diz para os amigos que curte Pearl Jam, mas no fundo, escondido no recôndito do quarto, escuta Zeca Pagodinho.

Um casal conversa animadamente na mesa ao lado. São amigos, aparentemente. Atrás daquelas histórias de vida há um segredo. Ele esconde uma paixão secreta por ela. Até parece coisa de novela. Ela conta seus dramas, aventuras e frustrações amorosas. Isso só faz aumentar sua admiração. Os olhos refletem o encantamento dele por aquele ser humano. Só ela não percebe. Ingenuidade ou artimanha?

Noutra mesa uma morena fala ao telefone. Linda. Olhos verdes que deixam transparecer traços da personalidade. Uma personalidade forte. O mundo é dos fortes. Ou isso não passa de uma casca para esconder as fragilidades e medos? Pensa: “Aposto que deitada na cama chora feito criança. Ninguém é só razão ou emoção. É a mescla. Humano. Mas, precisa-se conservar a imagem. E a maquiagem”
.
Olha para a mesa à sua esquerda. Parece uma boa história de vida. Uma mulher de trinta e poucos anos lambe a colher do cafezinho e lê um livro. A imagem de uma pessoa lendo reflete automaticamente que ela é culta. Ou está buscando cultura. O que rivaliza com o ato de molecamente lamber a colher. “Mundo cheio de convenções”, pensa. Cada um é livre para fazer o que quiser. Desde que não pese na consciência. Nem que “encha o saco” dos outros. Estereótipos construídos pela televisão. Todo mundo tem dois lados. Ou mais.

São 13 horas e 55 minutos. O relógio diz que é hora de voltar ao trabalho. Tentar desvendar o mundo, imaginar as histórias alheias, é um passatempo divertido. Reflexivo também. “Procurar esmiuçar os sentimentos dos outros faz entender melhor a vida”, pensa. Hora de partir. Amanhã tem mais. Levanta-se e dirige-se até o caixa para pagar o café. Um pensamento surge como um raio. Ou melhor, uma constatação. Não estava imaginando, nem desvendando as histórias alheias. Estava apenas projetando a própria historia e sentimentos em outros personagens.


• Jornalista