domingo, 29 de agosto de 2010


Vidas inventadas

* Por Fabiana Bórgia

Muito difícil fazer mudanças drásticas em nossas vidas. Geralmente isso ocorre quando nos separamos de alguém, quando a vida traz uma dificuldade complexa no meio do caminho, quando passamos por doenças, morte na família, por exemplo.

Eu gosto de vidas inventadas. Acho uma tremenda chatice fazer tudo o que todo mundo faz, igualzinho, sem criatividade, dentro dos padrões. O fato de eu achar isso tudo uma mesmice, não muda o fato de que também faço o que todos fazem. Sigo este roteiro.

E quando menciono a palavra "mudanças", as pessoas escutam isso como se fosse uma bomba prestes a estourar. Como se fosse a coisa mais incerta do mundo, a atitude mais louca, mais insana, mais vazia. Por quê? Porque nem todos têm coragem de se aventurar.

Eu mesma admiro tanto assim as mudanças, porque me acovardo diante das possibilidades. No entanto, eu nunca critiquei pessoas ousadas. Quero ser uma delas daqui a algum tempo e ter quantas vidas inventadas eu desejar.

Quando isso acontecer, vou atrás da arte. E então posso ter todas as vidas possíveis.
Espelho não ensina nada a ninguém. A gente só cresce quando entende as diferenças. E quando busca os próprios significados para viver, sem experiências alheias. A experiência é vivência pessoal. Se não for minha, não vale para nada.

• Escritora por vocação e advogada por formação. Paulista por natureza e carioca por estado de espírito. Engenheira de sonhos: alguém em eterna construção. Autora do livro “Traços de Personalidade”

sábado, 28 de agosto de 2010




Leia nesta edição:

Editorial – Pouca técnica, mas muita eficiência

Coluna Direto do Arquivo – André Falavigna, crônica “Sobre Copa, imprensa e preguiça”.

Coluna Clássicos – Graham Greene, conto “O homem que roubou a torre Eiffel”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica “Gentileza baiana”

Coluna Porta Aberta – Luiz Carlos Monteiro, crônica “História e Literatura em Oliveira Lima”

Coluna Porta Aberta – Samuel C. Costa, poema “Nota avulsa: ser negro hoje”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Pouca técnica, mas muita eficiência

Caros leitores, boa tarde.
A Copa do Mundo de 2002 foi a que mais me surpreendeu de todas as que tive a oportunidade de acompanhar. E olhem que só perdi três delas (as de 1930, 1934 e 1938), por não haver ainda nascido quando foram disputadas.
A surpresa, quero deixar bem claro, não se deveu à conquista do pentacampeonato pelo Brasil. Afinal, o futebol brasileiro, por tudo o que já fez nos últimos 80 anos, por mais fraco que seja o grupo na ocasião, tem que ser, sempre, considerado favorito em qualquer competição internacional que venha a participar, seja copa do mundo, seja copa América, seja Copa das Confederações ou seja que torneio for. Isso é ponto pacífico. Só um tolo, ou um sujeito totalmente desinformado, pensará de forma diferente.
A surpresa ficou por conta do “como” o Brasil foi campeão. Afinal, aquela não era uma seleção técnica, não, pelo menos, como as de 1950, 1958, 1962, 1970 ou 1982. Mas foi de uma eficiência a toda a prova. Sua campanha, a exemplo da de 1970, foi impecável, com sete vitórias em sete jogos. E aquela equipe de 40 anos atrás, que tinha cinco camisas 10 jogando simultaneamente, era muitos furos superior, em habilidade, à de 2002.
Não vou dizer, pois, que não confiava nos comandados de Luís Felipe Scolari. Tanto confiava, que essa foi a Copa que me exigiu mais sacrifícios para acompanhar. Por causa do fuso horário, as transmissões dos jogos eram de madrugada aqui no Brasil, com a maioria deles começando às 3h30. Ora eu ficava acordado ao término das partidas e só então me recolhia para as minhas oito horas regulares de sono, ora acordava minutos antes do seu início (com o auxílio do despertador), indo deitar bem mais cedo, claro. A primeira alternativa foi a mais comum.
Confiava, portanto, no sucesso da Seleção. Mas... com um pé atrás. Não era uma confiança absoluta. Ou seja, confiava, desconfiando. Por que? Porque aquele grupo que iria representar o Brasil havia feito péssima eliminatória, a pior da história do nosso futebol em todos os tempos. Além do que, tecnicamente, estava longe de ser a equipe dos meus sonhos.
Em 2002, eu vivia experiências novas, tanto profissionais, quanto afetivas. Há dois anos, em 2000, conhecera a delícia de ser avô pela primeira vez, com o nascimento do meu primeiro neto, do meu xará Pedro Luís. E posso assegurar que é uma emoção muito grande e saudabilíssima. Estava, na oportunidade, prestes a entrar na faixa dos 60 anos (para ser mais exato, tinha, então, 59 anos e meio).
Profissionalmente, vivia uma experiência também inédita: chefiava a redação de um pequeno jornal diário, às voltas com graves dificuldades financeiras, o “Roteiro”, que buscava afirmação junto aos leitores e seu espaço no competitivo cenário campineiro, em que dois gigantes, o9 “Diário do Povo” e o “Correio Popular” detinham (como ainda detêm e sempre detiveram) a liderança. Tinha, pois, como rivais, justamente as duas empresas onde eu havia desenvolvido a maior parte da minha carreira jornalística. Isso era novíssimo para mim.
Há já bom tempo, eu investia na imprensa segmentada, nos chamados “nanicos”, escrevendo para uma rede de pequenos periódicos da minha cidade, ou seja, Campinas. Era trabalho digno de Hércules. Entre esses jornais de pequeno porte, de bairros, de sindicatos e de paróquias, o mais conhecido era a “Folha do Taquaral”, com o qual colaborei por quinze anos, redigindo uma crônica quinzenal (essa era sua periodicidade), além de todos seus editoriais.
Ao deixar o Correio Popular, portanto, em vez de reduzir as carga de trabalho, como esperava que viesse a ocorrer, multipliquei-a, e muito. Nessa toada, a vida social foi para as cucuias. Ossos do ofício, claro. E como desgraça pouca é bobagem, nesse período comecei a dar os primeiros passos na grande e mais promissora das mídias do futuro, a internet, como colunista semanal de quase uma dezena de sites.
Mas... voltemos a tratar de futebol. A estréia do Brasil, na Copa do Mundo de 2002, ocorreu no dia 3 de junho, no Estádio Munsu Ulsan, na Coréia do Sul. O adversário, a princípio julgado fraco, e que iríamos enfrentar de novo, na sequência da competição, e numa semifinal, foi a Turquia. A arbitragem coube a um representante local, o sul-coreano Kim Young Joo.
Começamos sendo surpreendidos nesse jogo. Aos dois minutos de acréscimo do primeiro tempo, ou seja, aos 47 minutos, o turco Hassam Sas abriu a contagem. O empate ocorreria logo aos 5 minutos da segunda etapa, através de Ronaldo. Quase tudo indicava que esse seria o resultado final quando Rivaldo virou o marcador, fez 2 a 1, aos 42 minutos. Ufa! Foi um sufoco!
O Brasil jogou e venceu na estréia com: Marcos, Lúcio, Roque Júnior e Edmilson; Cafu, Gilberto Silva, Juninho Paulista (Vampeta), Rivaldo e Roberto Carlos; Ronaldinho Gaúcho (Denilson) e Ronaldo. Registre-se que a Turquia teve dois jogadores expulsos, o que facilitou nossa tarefa.
O adversário seguinte, a China, era tido e havido como o mais fraco do grupo e provavelmente de toda a Copa. O Brasil não teve a menor dificuldade para derrotá-lo, e por goleada, ou seja, por 4 a 0. Poderia até ter construído um placar bem maior.
O jogo foi disputado em 8 de junho de 2002, no Estádio Jeju, Seogwipo, na Coréia do Sul, com arbitragem do sueco Anders Frisk. Os gols foram marcados por Roberto Carlos, aos 15; Rivaldo, aos 32 e Ronaldinho Gaúcho, aos 45 minutos do primeiro tempo e por Ronaldo, aos 10 do segundo.
O Brasil jogou com: Marcos, Lúcio, Roque Júnior e Anderson Polga; Cafu, Gilberto Silva, Juninho Paulista (Ricardinho), Rivaldo e Roberto Carlos; Ronaldinho Gaúcho (Denilson) e Ronaldo (Edilson).
Para encerrar a fase de classificação e começar as oitavas de final com moral elevado, nada melhor do que aplicar uma boa goleada. E foi o que aconteceu diante da Costa Rica. Os costarriquenhos até que endureceram o jogo, mas não eram páreo para nós.
O Brasil chegou a abrir 3 a 0 no marcador até os 38 minutos do primeiro tempo, mas Wanchope diminuiu para 3 a 1 aos 39 e Gomez fez o segundo, aos 11 do segundo tempo. A Seleção Brasileira, porém, retomou o controle do jogo e goleou por 5 a 2.
Os gols brasileiros foram de Ronaldo, aos 10 e 13 e Edmilson aos 38 do primeiro tempo, e de Rivaldo aos 17 e Junior aos 19 da segunda etapa. Felipe Scolari mandou a campo: Marcos, Lúcio, Anderson Polga e Edmilson; Cafu, Gilberto Silva, Juninho Paulista (Ricardinho), Rivaldo (Kaká) e Junior; Edilson (Kleberson) e Ronaldo). O árbitro foi o egípcio Gamal Gandhour.
O Brasil classificou-se para as oitavas de final com 100% de aproveitamento. Marcou onze gols (mais do que a seleção do Dunga em toda a Copa de 2010) e sofreu três, com saldo posi8tivo de oito. Estava dada, pois, a arrancada para o penta. Sem firula, espetáculo, mas com eficiência cirúrgica.

Boa leitura.

O Editor.



Sobre Copa, imprensa e preguiça

* Por André Falavigna

Não há, sem dúvida nenhuma, dentro das atividades humanas, um terreno tão propício ao florescimento de imbecilidades como o da crônica esportiva. E, dentre os esportes, não há nenhum que se preste tão formidavelmente ao plantio de jacas reluzentes como o futebol. Restringindo um pouco mais ainda nosso campo de observação, não há período mais fecundo para a colheita de fezes verbais do que o da Copa do Mundo. Eu digo, e vou provar.

Antes de tudo, é importante dizer o seguinte: eu amo futebol. Não seria quem sou se não fosse o futebol. O futebol, o universo do futebol, é para mim como que um plano à parte, uma fonte de lazer inesgotável, um pequeno mundo de referências indispensáveis à minha pequenina existência e, de uma forma muito estranha, uma espécie de um mais estranho ainda oráculo pessoal e lúdico. Como seria de se esperar de alguém tão ligado a um determinado assunto, eu tendo a me irritar bastante quando tratam a coisa sem carinho. E, no caso do futebol, o relaxo é a regra. Vejam só: há uma quantidade imensa de pessoas que tiram seu ganha pão do futebol. Para que exerçam suas funções exige-se delas que reservem grande parte de seu tempo para ver jogos de futebol. Um sacrifício danado. E tem gente que faz de má vontade.

Nunca houve mesas-redondas tão mau-humoradas na televisão brasileira. É chato dizer, muita gente se ofende, mas uma mesa-redonda só funciona se estiver parecida com uma conversa de boteco. Quando parece um colóquio de sábios, torna-se verdadeiramente uma merda. Não estou dizendo que o futebol não se trata de um assunto sério, pelo menos em certa medida. Se eu achasse isso, não me irritava. Mas o caso é que as pessoas que tratam do assunto como se estivessem tratando de um assunto que elas, supostamente, tomam por sério, têm sido nos últimos vinte anos as que mais falam barbaridades acerca do nosso joguinho bom.

Para começar: ninguém vai ao arquivo. Se fosse, poderia conferir que três quartos dos vaticínios peremptórios que formulou ao longo da vida excluem completamente qualquer chance de validade de nove décimos dos vaticínios peremptórios que tem formulado hoje. Com a maior cara-de-pau do mundo, enterram Ronaldo três ou quatro vezes por ano para, depois, espantarem-se com o poder de reação sujeito. Não era hora de começar a reavaliar a própria capacidade de avaliação? Para terminar: nas últimas três Copas do Mundo, a seleção foi posta abaixo de cu de cachorro pela crítica e, invariavelmente, chegou à final. Devíamos combinar o seguinte: vamos levantar os nomes de todos os especialistas que, nesse período, em seus prognósticos, não incluíram o Brasil entre os favoritos e que, com convicção constrangedora, achincalharam a equipe. Vamos conferir quem foi capaz da proeza três vezes, consecutivamente. E vamos sugerir que se especializem em outra coisa. Eu, pessoalmente, estou de saco cheio de em janeiro ouvir que o futebol brasileiro é decadente para, no julho seguinte, dar de cara com elogios desmesurados ao hegemônico futebol brasileiro. É muita empulhação.

O pior não é isso: o pior é encontrar gente que acredita que o maior problema do jornalismo esportivo no Brasil é o merchandising. Chega a ser engraçado. Eu estou me lixando para o merchandising. No rádio até que é divertido. Na televisão, às vezes irrita, mas só porque interrompe o programa. E eu com isso? Eu quero é que o sujeito, antes de sair por aí comentando futebol, confira pelo menos se o que ele está dizendo faz sentido. Confira se as referências das quais ele lança mão são verdadeiras, se o que ele diz do passado é verdadeiro. Que ele não fale as coisas de orelhada, e que goste mais de futebol do que posar de estudioso. Merchandising é um problema ético? Não sei, nem parei para pensar. Há muita discussão em torno do assunto, que talvez até seja importante. E daí? Se um sujeito não consegue conferir as coisas que diz a respeito do único assunto para o qual se lhe pede atenção, como é que ele se acha capaz de julgar, condenar e reconstruir o mundo? Os jornalistas esportivos do Brasil, com honrosas exceções, não conseguiram identificar o time brasileiro, desde 94, como um dos favoritos ao título. Não conseguiram, portanto, falar de futebol. Querem falar de ética? O sujeito não se dá ao trabalho de verificar se o que ele diz acerca do passado é ou não correto, e me arrota as maiores metafísicas? Não sabe fazer a letra “o” com um copo, e quer me convencer que detém conhecimentos herméticos sobre uma ciência oculta? Por que não vai pastar?

Vamos combinar o seguinte: futebol é para se divertir, mas é também um traço da nossa cultura que, pelo menos, não nos faz passar vergonha. Pelo contrário: dá-nos uma sensação estranha, incomum, de que podemos fazer coisas grandes. De que podemos ser grandes. De que, de algum modo, podemos deixar nossa marca neste mundo. O futebol é uma metáfora do que é possível. Portanto, vamos aproveitar a coisa. Se você vive em torno do futebol, pelo amor de Deus, desprenda-se e se divirta. Não é porque você é jornalista esportivo que precisa ser relaxado e porco. As pessoas prestam mais atenção ao que você diz do que no que diz a Miriam Leitão (se isso é bom ou ruim, não é problema seu: de alguma coisa você tinha que viver, e o futebol ainda não foi criminalizado). Respire fundo antes de falar. Assista aos jogos com calma e não tire conclusões que o obrigarão a desmentir-se dez minutos depois. Essa mania de afirmar coisas as mais absurdas em tom definitivo com dez minutos de jogo faz de você um imbecil e o vicia nisso. Aquela outra mania de achar que um time que perdeu sempre jogou mal e que todos os gols do mundo revelam algum tipo de falha de alguém ou de algum sistema, ela torna-o um perfeito filha de uma puta. Elogiar, automaticamente, a seleção da Holanda ou o São Paulo Futebol Clube não é um pré-requisito de sua profissão. Falar mal, automaticamente, de Mustafá Contoursi ou de Eurico Miranda também não. Telê Santana era humano e errava uma barbaridade. O Pelé tem direito à opinião. As palavras “profissional” e “moderno” não são sinônimos de “eficiente”, “bom” e ”lindo-maravilhoso”. Aproveite a vida, amigo. Seu trabalho é uma delícia. Se você não gosta, ou não o acha importante, não precisa fazê-lo mal feito. Vá cobrir o Congresso. Sabe como é: quem gosta de falar sobre política está mais acostumado à porcaria.

* André Falavigna é escritor, tendo publicado dezenas de contos e crônicas (sobretudo futebolísticas) na Web. Possui um blog pessoal no qual lança, periodicamente, capítulos de um romance. Colabora com diversas publicações eletrônicas.



O homem que roubou a torre Eiffel



* Por Graham Greene

Não foi tanto o roubo da torre Eiffel que me criou dificuldades, mas sim colocá-la de volta antes que alguém notasse. Devo afirmar, sem falsa modéstia, que o plano foi muito bem arquitetado. Vocês podem imaginar o que me custou — uma frota de caminhões enormes para carregar a torre até um daqueles campos planos e desertos que se vêem a caminho de Chantilly. Lá a torre podia facilmente ser colocada na horizontal. Durante a viagem, em uma manhã nevoenta de outono, havia bem pouco tráfego, e o pouco que havia era insignificante. Ninguém que tentou ultrapassar meus 102 caminhões de seis rodas notou que eles eram unidos entre si pela torre, como as contas de um colar: Os carros particulares chegavam a fazer menção de ultrapassar, mas quando os motoristas dos Fiat e Renault viam aquela fila de caminhões à frente, desistiam e conformavam-se em seguir a procissão. Por outro lado, os carros que vinham em sentido contrário tinham a estrada toda para eles: meus caminhões transformaram o trajeto Chantilly-Paris em uma longa estrada de mão única. Os carros passavam a toda velocidade e nem tinham tempo de notar que a torre estava apoiada sobre cada caminhão da corrente, como numa espécie de berço de centenas de metros de comprimento.

Tenho muito carinho pela torre, e fiquei feliz em vê-Ia, depois de tantos anos de guerra, cerração, chuva e radar, em repouso. No primeiro dia da mudança caminhei ao seu redor, de vez em quando tocando um dos suportes: o quarto andar parecia um pouco desconfortável no pedaço que passava por cima de um afluente manso e lamacento do Sena, então coloquei-o mais à vontade. Depois voltei para sua sede original — ainda temia que alguém notasse. Os grandes blocos de concreto estavam lá, sem nada em cima. Lembravam tanto túmulos, que alguém já havia deixado um maço de flores para os heróis da Resistência. Um táxi parou trazendo os últimos turistas da estação antes de, como andorinhas, rumarem para oeste com a chegada do inverno. O homem estava com uma garota e cambaleava um pouco ao caminhar. Curvou-se para ver as flores e ao endireitar-se ficou vermelho nas bochechas lisas e empoadas.
— É um memorial — disse.
— Comment? — perguntou o motorista de táxi.

A garota acrescentou:
— Chester, você disse que poderíamos almoçar aqui.
— Não estou vendo torre nenhuma — disse o homem.
— Comment?
— Veja bem — tentou explicar, gesticulando para dar maior ênfase —, você nos trouxe para o lugar errado. Fez um esforço. — Ici n 'est pas la Tour Eiffel
— Oui. Ici.
— Non. Pas du tout. Ici il n 'est pas possible de manger.

O motorista saltou do carro e olhou ao seu redor. Fiquei um pouco nervoso, com medo de que desse pela falta da torre, mas ele voltou para dentro do carro e virou-se para mim dizendo, melancólico:
— Vivem mudando o nome das ruas.
Falei com ele em tom confidencial.
— Eles só querem almoçar. Leve-os ao Tour d'Argent. — Partiram satisfeitos e o perigo passou.

Obviamente havia sempre o risco de que os funcionários chamassem a atenção do público, mas eu havia pensado nisso. Eles recebiam semanalmente e quem seria bobo de admitir que seu local de trabalho desapareceu antes de esperar a semana terminar e ver se o dinheiro entrou normalmente? Os cafés das redondezas tornaram-se o grande ancoradouro dos funcionários da torre, mas todos evitavam sentar na mesma mesa de seus colegas de trabalho para não dar margem a conversas constrangedoras. Identifiquei um boné de uniforme por bistrô em uma área de uma milha quadrada: cada homem passava as horas de seu expediente sentado tranqüilamente a uma mesa de bar, tomando uma cerveja ou um pastis dependendo do salário, levantando pontualmente para bater o ponto da saída. Não me pareceu que estivessem perplexos com o desaparecimento da torre. Era algo que podia ser convenientemente esquecido, como o imposto de renda. Melhor não pensar a respeito: se pensassem, alguém poderia esperar que tomassem uma providência.

Os turistas, obviamente, representavam o perigo maior. Aviões noturnos alegaram nevoeiro baixo, e o Ministério do Ar solicitou o "comentário" do Ministério das Relações Exteriores sobre várias reclamações de interferências no radar — um novo dispositivo russo na guerra fria. Mas logo espalhou-se a notícia, entre guias e motoristas de táxi, de que quando um turista pedisse para ver a torre Eiffel a melhor coisa a fazer era simplesmente levá-lo ao Tour d' Argent. A gerência do lugar não decepcionava, e a vista, nesses dias de outono, também era ótima, de modo que os turistas assinavam o livro de clientes a tanto por cabeça. Eu costumava ir para lá ouvi-los.

— Eu imaginava que era mais, como dizer... metálica — disse um deles. — Achei que dava para ver através dela.

— Expliquei-lhe que isso se aplicava perfeitamente ao estabelecimento em que se encontrava.


Férias nunca duram para sempre, e uma manhã, enquanto rodeava a torre aplicando um pouco de cuspe e polidor aos suportes, concluí que ela precisava voltar a funcionar antes que os empregados sentissem falta de seu salário. Só me restava esperar que, algum dia, ela encontrasse outra pessoa que, como eu, lhe desse a chance de passar uma temporada no campo. Garanto que não há risco nenhum. Ninguém em Paris admitiria que a ausência da torre passou despercebida por cinco dias — assim como um homem apaixonado não admitiria não ter notado a falta da amante.


Mesmo assim devolver a torre não foi fácil, tendo sido obrigado a lançar mão de alguns truques a fim de desviar a atenção das pessoas. Para facilitar, encomendei a um conhecido, que fazia figurinos teatrais, alguns uniformes da polícia, das Gardes Mobiles, das Gardes Républicaines e da Académie Française. Planejei uma reunião de poujadistes, uma rebelião de argelinos e um discurso pela morte de um crítico de teatro obscuro, que um amigo meu fez "disfarçado" de Ministro da Educação. Digo disfarçado, mas na verdade não havia a menor necessidade de mudar de nome, nem de cara, visto que ninguém lembrava quem ocupava essa pasta no gabinete de Monsieur Mollet.


Os turistas tiveram a última palavra e, curiosamente, enquanto admirava minha amada torre, que parecia dar piruetas na névoa da manhã, de volta a seu lugar, vi o mesmo americano chegando de táxi com a mesma garota. Ele olhou rapidamente ao seu redor e disse:
— Aqui não é a torre Eiffel.
— Comment?
— Ah, Chester — disse a garota —, onde é que nos trouxeram desta vez? Eles nunca acertam. Eu estou morrendo de fome, Chester. Estou sonhando com aquele Sole Délice que comemos.


Eu disse para o motorista:
— É o Tour d'Argent que eles querem — observei-os partir. A coroa para os heróis da Resistência havia murchado, mas eu peguei uma flor seca e desbotada, coloque lapela e acenei para a torre. Não ousei ficar mais tempo Poderia ficar tentado a roubá-la de novo.


• Escritor inglês, nascido em 1904, que morreu em 1991. Autor dos livros “O décimo homem”, “Expresso do Oriente”, “Fim de caso”, “O homem de muitos nomes”, “Nosso homem em Havana”, “O cônsul honorário”, “O americano tranquilo” e “O poder e a glória”, entre outros.



Gentileza baiana

* Por Urda Alice Klueger

Maio de 1988, e desembarquei a primeira vez em Salvador/BA, às vésperas do centenário da Abolição. Ia para o que imaginava que seria a maior festa comemorativa do evento, já que lá existia a maior concentração de população negra do país, e ia atrás dos personagens e histórias de Jorge Amado, que lia com paixão desde os doze anos de idade. Para resumir, Salvador foi a única cidade brasileira que não comemorou o centenário da Abolição - fez foi protestos e mais protestos sobre a abolição que ainda não chegou - e descobri que a Bahia era igualzinha aos livros de Jorge Amado.
Mas aprendi lições inesquecíveis naquela viagem. Ainda não amaciada pela suavidade baiana, dura filha de um Sul consumista e carente de boas relações humanas, quase morro de medo de ser assaltada ao me deparar, pela primeira vez, com a gentileza baiana. Vou contar:
Fazia uns dois ou três dias que estava em Salvador, e tomei um ônibus para ir a algum lugar. Não sabia onde deveria desembarcar, e pedi informação para o moço que se sentava ao meu lado. Solícito, ele me disse:
- Ah! Lugar tal? Vou até lá com você!
E agora? Se o rapaz saltasse do ônibus comigo, eu tinha a certeza de que iria me assaltar. Apressei-me a dispensá-lo:
- Não, não precisa! Você só me diz onde devo desembarcar!
- Ora, eu vou com você!
- Não, não precisa!
Entre o "eu vou junto" e o "não precisa", gastamos minutos inteiros, e eu estava cada vez mais apavorada, pois tinha a certeza que só um assaltante poderia ter aquele comportamento de querer seguir a turista loira para fazer seu serviço com calma, fora do recinto do ônibus.
Chegou o tal ponto, e descemos. Havia uns dois quarteirões para andar, e eu nem ouvia o que o rapaz falava, de tão tensa que estava, esperando o momento do assalto. Só que chegamos aonde eu ia, e o moço baiano me deixou na porta, despedindo-se com gentileza, sem sequer uma cantada, sem sequer querer trocar endereços, sem nenhuma cobrança, e então imaginei que ele me trouxera até ali porque morava por perto. Indaguei a respeito. Não, ele não morava por ali. Ia, agora, voltar à avenida principal, e pegar outro ônibus para ir até seu destino.
O meu queixo tinha caído totalmente enquanto observava-o afastar-se. Para a minha dura sensibilidade do duro Sul, aquela gratuita, espontânea e doce gentileza que, depois descobri, é inata no povo baiano, estava além da minha compreensão. Acho que a expressão certa para dizer o que senti é que fiquei besta de espanto. Talvez essa tenha sido uma das principais lições aprendidas naquela viagem, a de que não é necessário conhecer-se uma pessoa, para se ser gentil com ela. E põe gentileza nisso!
Agora pergunto aos leitores : algum de vocês, filhos do duro Sul, faria com um desconhecido o que aquele anônimo rapaz baiano fez comigo? "Aqui, farroupilha! que faria " - como diria o Vavá do "Sai de Baixo". Duvido com todas as letras que alguém aqui do Sul se daria ao trabalho de saltar de um ônibus, desviar-se do seu caminho, para depois voltar e pegar outro ônibus, só para ser gentil com um turista, sem nenhuma cobrança, sem nenhuma segunda intenção. Se houver alguém capaz de tal despreendida gentileza, que se manifeste - eu acho que tal pessoa não existe, que é como procurar um justo em Sodoma e Gomorra - por mais que fosse procurado, não havia nenhum.
Temos muito, mas muito a aprender com o povo baiano. Diante deles, somos tapados, duros, mal-educados e incultos. E o pior é que nos achamos o máximo. Parecemos ter o rei na barriga, a ponto de falarmos mal de um Nordeste que não conhecemos, de pormos a culpa dos nossos problemas em um Nordeste que nem imaginamos como é, a ponto de querermos fazer um país separado, para nos livrarmos dos nordestinos. Belo país teríamos! Seria uma porqueira de país, tapado, duro e inculto. A minha esperança é que, algum dia o sulista será um povo verdadeiramente culto, e então poderá olhar para trás e se envergonhar dessas bobagens separatistas de agora.


* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

História e Literatura em Oliveira Lima

* Por Luiz Carlos Monteiro

O interesse que a obra de Manuel de Oliveira Lima (1867-1928) pode ainda despertar, nos nossos dias, situa-se bem mais no âmbito de uma vasta contribuição à historiografia e ao jornalismo de fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX, do que no terreno dos assuntos literários propriamente.

Essa constatação não implica na negação da qualidade literária inerente a muitos dos escritos de Oliveira Lima. Ela refere-se ao pouco desenvolvimento, no contexto geral de sua obra, de formas e gêneros esteticamente indissociáveis do texto literário específico. E isto se reflete numa contribuição “menor” do autor em setores como a crítica e o teatro, devendo-se lembrar ainda a inexistência, na sua obra, de textos de poesia e prosa de ficção.

Sua experiência teatral envolve a escrita de apenas uma peça, publicada em 1904, embora ambientada em 1738. Secretário d’El Rei talvez tenha sido feita, em parte, para atender ao “gosto” imperial e de salão de época, predominante mesmo nos inícios da República, com os representantes do Reino no país em franco e continuado desprestígio, tendo como agravantes recentes a perda de espaços públicos e privados e a impossibilidade de exercerem aqueles quaisquer poderes e tomadas de decisão. De outra parte, a peça foi escrita para dar vazão às inclinações teatrais de Oliveira Lima, incrementadas pela formulação de alguns textos e trechos embutidos em textos, que ensejavam teorizações, proposições e levantamentos de problemas gerais ou específicos relativos a essa arte.

No caso da crítica, não se deve desprezar o esforço analítico isolado e erudito do seu segundo livro, Aspectos da literatura colonial brasileira, editado em Berlim, em 1896. Além deste, há outros trabalhos literários que somente seriam publicados e reunidos em livros muitos anos depois, como a Obra seleta (1971), e em especial o volume Estudos literários (1975), ambos organizados por Barbosa Lima Sobrinho, como se verá adiante.

De todo modo, ele se mostrará um grande produtor de textos distribuídos em outras e variadas modalidades culturais, e que terminarão por ser absorvidos pela literatura. São escritos de “publicista” – que era como frequentemente se designava homens públicos que praticavam o jornalismo e as letras –, que incluem artigos de jornal, conferências, cartas, memórias e impressões de viagens. Alguns publicados em plaquetas ou separatas como cuidadosos relatos de numerosas viagens de trabalho, participações em congressos e conferências internacionais empreendidas em países os mais diversos.

Ao esboçar os perfis biográficos de políticos, diplomatas, historiadores e escritores que mais o atacaram ou influenciaram, Oliveira Lima não se esquivava mesmo em fazer aflorar o frio e traiçoeiro rosto de alguns que eram ou viriam a ser seus inimigos.

Perfis que se caracterizavam pelo mais curto e apologético, a exemplo do primeiro texto “Joaquim Nabuco”, escrito bem antes do estremecimento de relações entre ambos, embora já no segundo “Joaquim Nabuco”, publicado em 1910 em francês em La Nouvelle Revue e em vernáculo no “O Estado de São Paulo”, mais extenso e incisivo, ele enfatizasse, de modo extremamente crítico, o cosmopolitismo de um Nabuco europeizado e norte-americanizado. Cosmopolitismo que se processava em detrimento da atenção e da importância que, na sua concepção, deveriam ser dedicadas às coisas do Brasil, como neste parágrafo inicial: “Joaquim Nabuco, falecido há poucos meses em Washington, onde exercia as funções de embaixador do Brasil, era o mais elegante ao mesmo tempo que o menos nacional dos escritores do seu país, onde o cosmopolitismo intelectual é compreensível e necessário, com a condição todavia de oferecer novos recursos ao particularismo literário”.

Acresça-se que o rompimento com o autor de Minha formação teve como causa geradora principal a divergência acerca do pan-americanismo, pelo fato de Oliveira Lima defender a participação de outros países latino-americanos, que não apenas o Brasil, na espécie de “solidariedade internacional” paradoxalmente excludente proposta pelos monroístas dos EUA. Aliás, a este respeito, Antonio Candido, no texto “Os brasileiros e a nossa América”, escreve: “Era o tempo do pan-americanismo, aceito em princípio como a melhor fórmula de convivência e progresso pelos governos e muitos intelectuais da estatura de Rui Barbosa, Joaquim Nabuco e Rio Branco (...). Decididamente crítico da política oficial foi Oliveira Lima, cujo livroPan-americanismo (1907) define o caráter imperialista e os perigos da Doutrina Monroe, opondo-lhe a posição mais livre da Argentina com a Doutrina Drago. (...) Dos intelectuais do começo do século, Oliveira Lima foi provavelmente o que mais se interessou pela análise diferencial das Américas, a saxônica e a latina, e o que melhor aprofundou o problema do relacionamento entre os nossos diversos países, graças ao conhecimento que tinha deles”.

Oliveira Lima escreveu também um texto bipartido como verdadeiro tributo em reconhecimento a Teófilo Braga, um de seus mestres do curso de Letras em Lisboa, e que para ele tinha um “aspecto de enciclopédia viva”, além de ser um dos mentores iniciais de ideias republicanas e positivistas.

Tais perfis se completavam no bem mais extenso e empático, como o “Elogio a Varnhagen”, historiador de sua maior predileção e uma de suas maiores influências, autor de um dos primeiros livros sobre história do Brasil, foi escolhido seu patrono de cadeira na Academia Brasileira de Letras, sendo o “Elogio” o discurso de posse de Oliveira Lima, somente pronunciado em 1903, seis anos após a eleição.

Apesar de servir à República como diplomata, Oliveira Lima abandonou suas inclinações republicanas iniciais, preteridas pela aceitação posterior das ideias monarquistas liberais, para ele, notabilizadas estas no Rei também obeso e escolhido como modelo humanista, a quem dedicou um de seus livros mais representativos, escrito quase que totalmente em Pernambuco, D. João VI no Brasil.

O republicanismo de juventude levou o reforço de dois textos escritos em 1896, Spt Ans de Republique au Brésil, saudando o novo regime brasileiro, não impedindo isto porém que ele fosse acusado de monarquista em 1913, a partir de deturpação de uma entrevista dada ao jornal “O Imparcial”, no Rio de Janeiro.

Ainda sobre o seu distanciamento da literatura, pode-se dizer que se deveu também a nuances e inquietações provocadas pela têmpera concentrada e destemida de seu espírito. Inquietações que o levaram à prática de uma militância combativa, de confronto direto, e que o induziam à diversidade desviante de propósitos mais estritamente literários.

Como fatores e circunstâncias que sempre se ensejaram no seu caminho, ou que sofreram o seu próprio estímulo desembaraçado e desabrido, concorreram em boa medida para esse afastamento da literatura, o alinhamento a uma contemporaneidade participante, embora em alguns momentos equivocada, a exemplo do seu “pacifismo” discutível durante a Primeira Grande Guerra. E foram ainda fatores decisivos neste processo as exigências do jornalismo, da historiografia e da sociologia militantes na transição problemática entre dois regimes e na passagem atribulada entre dois séculos, que determinavam a necessidade de envolvimento em toda uma cadeia de fatos, situações e acontecimentos originados na Revolução Pernambucana de 1817, tendo continuidade no movimento da Independência, emancipação dos escravos, instauração da República e, posteriormente, pela iminência e deflagração da Primeira Guerra Mundial.

De presença marcante e natureza complexa, Oliveira Lima era conhecido pela sua fidelidade e ligação radical às causas e valores que defendia, revelando-se no seu tradicionalismo e nas suas posições monarquistas, homem mais do século XIX que do XX. Por outro lado, poderia empenhar-se em posturas que clamassem por liberdade e justiça social, assumidas com esmero em seus ensaios de sociologia e história, sempre abalizados em constatações e reflexões que contemplavam a análise global e o detalhamento da economia e das transformações políticas e sociais aos níveis local ou internacional.

O tom de sinceridade áspera, a segurança com que preservava seus pontos de vista, a inclinação e o desassombro de polemista sempre a postos, apenas reforçavam uma característica a que ele mesmo se atribuía e que nortearia o sucesso ou influiria também nas suas perdas eventuais ou recorrentes: a sua imparcialidade. Era nela que se apoiava para travar seus embates, no mais das vezes excluindo a vida pessoal de seus desafetos, e sustentando-se sempre na correção, no rigor e na isenção com que tratava de assuntos históricos, diplomáticos e jornalísticos.

Ao descarnar a vida diplomática daquela época, em textos, palestras e atitudes críticas, Oliveira Lima foi granjeando desentendimentos com seus superiores diretos, a exemplo do Barão do Rio Branco, que esteve entre os que, com tenacidade e frieza conspiratória, o prejudicaram na sua carreira. Outro desafeto, que durante a Primeira Guerra Mundial o acusou de “germanofilia”, devido a seu pacifismo, denunciando-o a autoridades inglesas, foi o pernambucano Medeiros e Albuquerque. Oliveira Lima passou a referir-se a este e a outros que o assolavam (Assis Brasil, Fontoura Xavier, Pinheiro Machado) com uma adjetivação demasiadamente pesada para um companheiro de diplomacia – mau caráter, bandido –, e mesmo que não se queira tomar partido após tanto tempo decorrido, tal referência ainda instaura uma certa perplexidade com o seu grau inequívoco de sugestão.

No plano histórico, ele desdobrou-se em assuntos que lhe exigiram minuciosas pesquisas e trabalhosos arranjos metódicos, do que resultou uma série de livros imprescindíveis para se compreender a história do país durante a colonização, o Império e os primeiros anos da República. Em carta a Gilberto Freyre, datada de janeiro de 1922, de Washington, revela como estabeleceu o roteiro cronológico de sua obra histórica, demonstrando cuidado e exatidão ímpares, como no caso particular da época imperial, que tem a seguinte disposição: D. João VI no Brasil (1808-21), O movimento da Independência (1821-22), História diplomática do Brasil: reconhecimento do Império(1823-25) e D. Pedro e D. Miguel: a querela da sucessão (1826-1831). Além destes, há pelo menos dois que ele não cita na carta: O Império brasileiro (1822-89) e D. Miguel no trono (1828-33).

E arremata a carta explicativa dessa parte de sua obra histórica, com um desejo que somente seria satisfeito nove anos após a sua morte: “E também quero em vida publicar 1 volume ou 2 de memórias p.ª gozar do effeito da verdade, sempre exciting, embora nem sempre agradável” (sic).

O volume Memórias (Estas minhas reminiscências...) viria a aparecer em 1937, no Rio de Janeiro, pela José Olympio, sendo publicados também excertos na Obra seleta da Aguilar, em duas partes intituladas Autobiografia.

II

No centenário de nascimento de Oliveira Lima, em 1967, alguns intelectuais brasileiros cogitaram em fazer-lhe as homenagens de praxe, tanto por seus serviços prestados ao país quanto por suas obras, nunca o bastante reconhecidos os primeiros nem divulgadas as segundas.

Isto se traduziria principalmente na publicação de seus trabalhos jornalísticos, com uma quantidade imensa de material inédito existente, somada a uma antologia possível e representativa do material já editado. Este critério foi definido pela impossibilidade de reedição de seus livros anteriormente publicados, o que exigiria custos com os quais os patrocinadores daquelas homenagens – Conselho Federal de Cultura e antigo Instituto Nacional do Livro – talvez não pudessem ou não se dispusessem a arcar.

Seja como for, uma tarefa de tal amplitude ficou a cargo do jornalista e historiador Barbosa Lima Sobrinho, pois envolvia uma pesquisa de largo fôlego e zelo redobrado. Barbosa Lima Sobrinho, por sua vez, convidou para colaborador direto o historiador pernambucano Fernando da Cruz Gouvea, conhecedor profundo da obra e que estava a preparar uma biografia monumental de Oliveira Lima, em três volumes (publicada em 1976, no Recife, pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, sob o título Oliveira Lima: uma biografia).

Os artigos e outros escritos coletados e antologiados por Barbosa Lima Sobrinho e colaboradores, resultaram no livro Obra seleta, no padrão Centenário, da editora Aguilar, publicado em 1971. Neste trabalho, Fernando Gouvea participou na escolha, catalogação e revisão de artigos, notadamente do material publicado no Recife, além de ter elaborado a cronologia da vida e obra de Oliveira Lima.

A Obra seleta inicia-se verdadeiramente com uma extensa introdução crítica e biográfica de Barbosa Lima Sobrinho a respeito do autor dePernambuco, seu desenvolvimento histórico, acompanhando os seus passos literários e experiências de vida mais relevantes no Recife, em Lisboa, Londres, Berlim, Tóquio, Estocolmo, Caracas, Lima, Paris, Bruxelas, Washington e no restante das cidades e países em que viveu, trabalhou ou apenas visitou.

E embora contendo mais de mil páginas, o livro não foi suficiente para acolher o excedente de inéditos de Oliveira Lima, e nem mesmo as referências bibliográficas de sua colaboração jornalística. Pensou-se, então, na organização de um novo livro, a ser produzido pela Universidade do Recife, o que não aconteceu, mesmo com a intervenção diligente de Mauro Mota. Posteriormente, em 1975, quando a Academia Brasileira de Letras decidiu-se a produzir o livro, conseguiu-se trazer à luz o restante desse material, que levou o título de Estudos literários, com seleção e organização do mesmo Barbosa Lima Sobrinho.

O que há de mais substancial neste livro independente, mas que ao mesmo tempo dá sequência à Obra seleta, são os esboços de figuras do realismo, do naturalismo ou mesmo do parnasianismo brasileiro. Aqui, a intervenção crítica de Oliveira Lima passa a aliar o detalhe biográfico de passagem à análise possível de livros – isoladamente ou no conjunto das obras escolhidas de um determinado autor –, com os recursos interpretativos e com os parcos recursos técnicos e formais de que se dispunha ao tempo.

Assim é que aparecem no bloco “Escritores brasileiros contemporâneos”, José Veríssimo, Sílvio Romero, Olavo Bilac, Rui Barbosa, entre outros. Ele dedica também, em outras páginas, três artigos tanto a Machado de Assis como a Euclides da Cunha, além de fazer a demolição de Maciel Monteiro poeta. De Aluísio de Azevedo, afirma um tanto ironicamente, que passou de “excelente escritor” a “cônsul excelente”.

No caso de Lima Barreto, em dois artigos para “O Estado de São Paulo”, de 1916 e 1917, recebe-o criticamente de espírito aberto, de forma elogiosa, sem distinções de nenhuma espécie, embora o autor de Triste fim de Policarpo Quaresma fosse ainda um desconhecido.

Lima Barreto, que também era bom polemista, não deixou de, em 1919, tomar satisfações a Oliveira Lima, como registra Barbosa Lima Sobrinho na “Introdução” aos Estudos literários. Esta polêmica procedeu-se rapidamente, tendo como elemento deflagrador a defesa por Oliveira Lima dos EUA em artigo de jornal, quando apontou como imutável a curto prazo o preconceito de cor naquele país, e que tal preconceito pouco poderia influir nos destinos brasileiros. A questão resvalou e estendeu-se à troca de consultas e explicações, embora Lima Barreto, por seu lado, não cedesse às argumentações de Oliveira Lima, continuando a mostrar-se preocupado com o “perigo” que o racismo representava na sua transplantação para o Brasil, facilitada pela imigração constante de norte-americanos.

No entanto, Oliveira Lima não estava empenhado em assumir a defesa de um racismo que já vinha desde pelo menos 1912, segundo seu próprio testemunho, sendo por ele abandonado e execrado. Gilberto Freyre chama a atenção em seu livro Oliveira Lima: Dom Quixote Gordo, como num tempo posterior a 1912 estas mudanças de visada com relação aos negros se deram: “Note-se em Oliveira Lima que a certo desdém pelo mulato, nos seus primeiros trabalhos, sucedeu-se, então, a quase apologia dele, o reconhecimento da possível vantagem para o Brasil de uma política racial diferente da dos Estados Unidos, nas conferências que proferiu em Williamstown, em 1922 (...). Atitude – a de reconhecimento daquela vantagem – a que Oliveira Lima chegou através de hesitações e cautelas”.

Também desse tempo do Centenário é este livro citado de Gilberto Freyre, Dom Quixote Gordo, editado em 1968, pela Imprensa Universitária da UFPE, resultante da convivência de Freyre com Oliveira Lima, principalmente nos EUA, onde aquele era estudante universitário, em anos das primeiras décadas do século XX.

Dom Quixote contém na primeira parte cinco conferências de Freyre, proferidas em dezembro de 1967, e transformadas em ensaios, e na segunda, cerca de sessenta cartas inéditas de Oliveira Lima, precedidas do ensaio “Cartas de Stockolmo e outras cartas” (sic). Este livro, como o próprio Freyre antecipou, privilegia traços biográficos e psicológicos relativos a Oliveira Lima. O autor traz a lume tanto a forma íntima e extremamente pessoal de ser de Oliveira Lima, quanto as suas realizações públicas, ou ainda as muitas frustrações e retaliações de que foi vítima no contato com colegas de diplomacia, de história ou nas relações políticas com conterrâneos. Gilberto Freyre examina, em vários instantes, as consequências de suas atitudes e reflexões de Dom Quixote franca e saudavelmente gordo, provocador e rebelde. O próprio Freyre traçou mais de uma caricatura antológica e expressiva de Oliveira Lima, ressaltando nele, como não poderia deixar de ser, tanto a imensidão de seu corpo pela gordura desproporcionada, como o ar de alguém sempre em atividade, conversando ou reflexivamente concentrado em si mesmo e nos problemas intelectuais e culturais que muito dele exigiam.

Essa modelagem física lhe rendeu ser objeto, da parte de desafetos, de uma quantidade considerável de charges com texto piadístico dirigido e maldoso e alguns poema satíricos de qualidade duvidosa, a exemplo do que escreveu o parnasiano Emílio de Menezes. A isto se somavam mexericos, fofocas, boatos, achaques e maledicências diversas. Surgiram até mesmo relatórios secretos que intentavam retardar-lhe a carreira diplomática – o que terminou por acontecer, com a sua aposentadoria antes do tempo –, partindo de seus inimigos mais na política e na diplomacia, dos simplesmente medíocres e dos invejosos do seu talento inconteste, da sua imensa capacidade de trabalho e de uma consciência intelectual e cultural que ultrapassava o senso gritantemente comum.

A partir de 1920, Oliveira Lima passa a residir em Washington, após ter se estabelecido durante quatro anos no Recife. Embora mesmo com a saúde precária e abalada, continua a exercer intensa atividade intelectual e a viajar bastante. E em 1925 – suprema ironia a distinção que contemplava o diplomata formado em Letras, e não em Direito, como era comum à época – foi convidado a ministrar uma cadeira de Direito Internacional na Universidade Católica de Washington, a mesma na qual está instalada a sua imensa biblioteca particular, a Oliveira Lima Library, cuidadosamente catalogada e arrumada por ele nos seus últimos dias de exilado voluntário e desencantado com o Brasil e com Pernambuco.

(In: Suplemento Cultural da CEPE, ano XIV, jan. 2000)

* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com