sábado, 29 de maio de 2010




Começos de uma fortuna

Por Clarice Lispector

Era uma daquelas manhãs que parecem suspensas no ar. E que mais se assemelhavam à idéia que fazemos do tempo.

A varanda estava aberta mas a frescura se congelara fora e nada entrava do jardim, como se qualquer transbordamento fosse uma quebra de harmonia. Só algumas moscas brilhantes haviam penetrado na sala de jantar e sobrevoavam o açucareiro. A essa hora, Tijuca não havia despertado de todo. “Se eu tivesse dinheiro…” pensava Artur, e um desejo de entesourar, de possuir com tranqüilidade, dava a seu rosto um ar desprendido e contemplativo.
— Não sou um jogador.
— Deixe de tolices, respondeu a mãe. Não recomece com histórias de dinheiro.

Na realidade ele não tinha vontade de iniciar nenhuma conversa premente que terminasse em soluções. Um pouco da mortificação do jantar da véspera sobre mesadas, com o pai misturando autoridade e compreensão e a mãe misturando compreensão e princípios básicos — um pouco da mortificação da véspera pedia, no entanto, prosseguimento. Só que era inútil procurar em si a urgência de ontem. Cada noite o sono parecia responder a todas as suas necessidades. E de manhã, ao contrário dos adultos que acordam escuros e barbados, ele despertava cada vez mais imberbe. Despenteado, mas diferente da desordem do pai, a quem parecia terem acontecido coisas durante a noite.

Também sua mãe saía do quarto um pouco desfeita e ainda sonhadora, como se a amargura do sono tivesse lhe dado satisfação. Até tomarem café todos estavam irritados ou pensativos, inclusive a empregada. Não era esse o momento de pedir coisas. Mas para ele era uma necessidade pacífica a de estabelecer domínios de manhã: cada vez que acordava era como se precisasse recuperar os dias anteriores. Tanto o sono cortava suas amarras, todas as noites.
— Não sou um jogador nem um gastador.
— Artur, disse a mãe irritadíssima, já me bastam as minhas preocupações!
— Que preocupações? – perguntou ele com interesse.

A mãe olhou-o seca como a um estranho. No entanto ele era muito mais parente que seu pai, que, por assim dizer, entrara na família. Apertou os lábios.
— Todo o mundo tem preocupações, meu filho –, corrigiu-se ela entrando então em nova modalidade de relações, entre maternal e educadora.

E daí em diante sua mãe assumira o dia. Dissipara-se a espécie de individualidade com que acordava e Artur já podia contar com ela. Desde sempre, ou aceitavam-no ou reduziam-no a ser ele mesmo. Em pequeno brincavam com ele, jogavam-no para o ar, enchiam-no de beijos – e de repente ficavam “individuais” — largavam-no, diziam gentilmente mas já intangíveis: “agora acabou”, e ele ficava todo vibrante de carícias, com tantas gargalhadas ainda por dar. Tornava-se implicante, mexia num e noutro pé, cheio de uma cólera que, no entanto, se transformaria no mesmo instante em delícia, em pura delícia, se eles apenas quisessem.
— Coma, Artur –, concluiu a mãe e de novo ele já podia contar com ela. Assim imediatamente tornou-se menor e muito mais malcriado:
— Eu também tenho as minhas preocupações mas ninguém liga. Quando digo que preciso de dinheiro parece que estou pedindo para jogar ou para beber.
— Desde quando é que o senhor admite que podia ser para jogar ou para beber? – disse o pai entrando na sala e encaminhando-se para a cabeceira da mesa. – Ora essa! que pretensão!

Ele não contara com a chegada do pai. Desnorteado, porém habituado, começou:
— Mas papai! – sua voz desafinou numa revolta que não chegava a ser indignada. Como contrapeso, a mãe já estava dominada, mexendo tranqüilamente o café com leite, indiferente à conversa que parecia não passar de mais algumas moscas. Afastava-as do açucareiro com mão mole.
— Vá saindo que está na sua hora –, cortou o pai. Artur virou-se para sua mãe. Mas esta passava manteiga no pão, absorta e prazerosa. Fugira de novo. A tudo diria sim, sem dar nenhuma importância.

Fechando a porta, ele de novo tinha a impressão de que a cada momento entregavam-no à vida. Assim é que a rua parecia recebê-lo. “Quando eu tiver minha mulher e meus filhos tocarei a campainha daqui e farei visitas e tudo será diferente”, pensou.

A vida fora de casa era completamente outra. Além da diferença de luz — como se somente saindo ele visse que tempo realmente fazia e que disposições haviam tomado as circunstâncias durante a noite — além da diferença de luz, havia a diferença do modo de ser. Quando era pequeno, a mãe dizia: “fora de casa ele é uma doçura, em casa um demônio”. Mesmo agora, atravessando o pequeno portão, ele se tornara visivelmente mais moço e ao mesmo tempo menos criança, mais sensível e sobretudo sem assunto. Mas com um interesse dócil. Não era uma pessoa que procurasse conversas, mas se alguém lhe perguntava como agora: “menino, de que lado fica a igreja?”, ele se animava com suavidade, inclinava o longo pescoço, pois todos eram mais baixos que ele; e informava atraído, como se nisso houvesse uma troca de cordialidades e um campo aberto à curiosidade. Ficou atento olhando a senhora dobrar a esquina em caminho da igreja, pacientemente responsável pelo seu itinerário.
— Mas dinheiro é feito para gastar e você sabe com quê –, disse-lhe Carlinhos intenso.
— Quero para comprar coisas –, respondeu um pouco vago.
— Uma bicicletinha? – riu Carlinhos ofensivo, corado na intriga.

Artur riu desagradado, sem prazer.

Sentado na carteira, esperou que o professor se erguesse. O pigarro deste, prefaciando o começo da aula, foi o sinal habitual para os alunos se sentarem mais para trás, abrirem os olhos com atenção e não pensarem em nada. “Em nada”, foi a resposta perturbada de Artur ao professor que o interpelava irritado. “Em nada” era vagamente em conversas anteriores, em decisões pouco definitivas sobre um cinema à tarde, em — em dinheiro. Ele precisava de dinheiro. Mas durante a aula, obrigado a estar imóvel e sem nenhuma responsabilidade, qualquer desejo tinha como base o repouso.
— Você então não viu logo que Glorinha estava querendo ser convidada pro cinema? – disse Carlinhos, e ambos olharam com curiosidade a menina que se afastava segurando a pasta. Pensativo, Artur continuou a andar ao lado do amigo, olhando as pedras do chão.
— Se você não em dinheiro para duas entradas, eu empresto, você paga depois.

Pelo visto, do momento em que tivesse dinheiro seria obrigado a empregá-lo em mil coisas.
— Mas depois eu tenho que devolver a você e já estou devendo ao irmão de Antônio –, respondeu evasivo.
— E então? que é que tem! – explicou o outro, prático e veemente.

“E então”, pensou com uma pequena cólera, “e então, pelo visto, logo que alguém tem dinheiro aparecem os outros querendo aplicá-lo, explicando como se perde dinheiro.”
— Pelo visto –, disse desviando do amigo a raiva – pelo visto basta você ter uns cruzeirinhos que mulher logo fareja e cai em cima.

Os dois riram. Depois disso ele ficou mais alegre, mais confiante. Sobretudo menos oprimido pelas circunstâncias.

Mas depois já era meio-dia e qualquer desejo se tornava mais árido e mais duro de suportar. Durante todo o almoço ele pensou com rispidez em fazer ou não fazer dívidas e sentia-se um homem aniquilado.
— Ou ele estuda demais ou não come bastante de manhã –, disse a mãe. – O fato é que acorda bem disposto mas aparece para o almoço com essa cara pálida. Fica logo com as feições duras, é o primeiro sinal.
— Não é nada, é o desgaste natural do dia –, disse o pai bem humorado.

Olhando-se no espelho do corredor antes de sair, realmente era a cara de um desses rapazes que trabalham, cansados e moços. Sorriu sem mexer os lábios, satisfeito no fundo dos olhos. Mas à porta do cinema não pôde deixar de pedir emprestado a Carlinhos, porque lá estava Glorinha com uma amiga.
— Vocês preferem sentar na frente ou no meio? – perguntava Glorinha.

Diante disso, Carlinhos pagou a entrada da amiga e Artur recebeu disfarçado o dinheiro da entrada de Glorinha.
— Pelo visto, o cinema está estragado –, disse de passagem para Carlinhos. Arrependeu-se logo depois de ter falado, pois o colega mal ouvira, ocupado com a menina. Não era necessário diminuir-se aos olhos do outro, para quem uma sessão de cinema só tinha a ganhar com uma garota.

Na realidade o cinema só esteve estragado no começo. Logo depois ele relaxou o corpo, esqueceu-se da presença ao lado e passou a ver o filme. Somente perto do meio teve consciência de Glorinha e num sobressalto olhou-a disfarçado. Com um pouco de surpresa constatou que ela não era propriamente a exploradora que ele supusera: lá estava Glorinha inclinada para frente, a boca aberta pela atenção. Aliviado, recostou-se de novo na poltrona.

Mais tarde, porém, indagou-se se tinha ou não sido explorado. E sua angústia foi tão intensa que ele parou diante da vitrina com uma cara de horror. O coração batia como um punho. Além do rosto espantado, solto no vidro da vitrina, havia panelas e utensílios de cozinha que ele olhou com certa familiaridade. “Pelo visto, fui”, concluiu e não conseguia sobrepor sua cólera ao perfil sem culpa de Glorinha. Aos poucos a própria inocência da menina tornou-se a sua culpa maior: “então ela explorava, explorava, e depois ficava toda satisfeita vendo o filme?”. Seus olhos se encheram de lágrimas. “Ingrata”, pensou ele escolhendo mal uma palavra de acusação. Como a palavra era um símbolo de queixa mais do que de raiva, ele se confundiu um pouco e sua raiva acalmou-se. Parecia-lhe agora, de fora para dentro e sem nenhuma vontade, que ela deveria ter pago daquele modo a entrada do cinema.

Mas diante dos livros e cadernos fechados, seu rosto desanuviava-se.

Deixou de ouvir as portas que batiam, o piano da vizinha, a voz da mãe no telefone. Havia um grande silêncio no seu quarto, como num cofre. E o fim da tarde parecia com uma manhã. Estava longe, longe, como um gigante que pudesse estar fora mantendo no aposento apenas os dedos absortos que viravam e reviravam um lápis. Havia instantes em que respirava pesado como um velho. A maior parte do tempo, porém, seu rosto mal aflorava o ar do quarto.
— Já estudei! – gritou para a mãe que interpelava sobre o barulho da água. Lavando cuidadosamente os pés na banheira, ele pensou que a amiga de Glorinha era melhor que Glorinha. Nem tinha procurado reparar se Carlinhos “aproveitara” ou não da outra. A essa idéia, saiu muito depressa da banheira e parou diante do espelho da pia. Até que o ladrilho esfriou seus pés molhados.

Não! não queria explicar-se com Carlinhos e ninguém lhe diria como usar o dinheiro que teria, e Carlinhos podia pensar que era com bicicletas, mas se fosse o que é que tem? e se nunca, mas nunca, quisesse gastar o seu dinheiro? e cada vez ficasse mais rico?… que é que há, está querendo briga? você pensa que…
— … pode ser que você esteja muito ocupado com os seus pensamentos –, disse a mãe interrompendo-o – mas ao menos coma o seu jantar e de vez em quando diga uma palavra.

Então ele, em súbita volta à casa paterna:
— Ora a senhora diz que na mesa não se fala, ora quer que eu fale, ora diz que não se fala de boca cheia, ora…
— Olhe o modo como você fala com sua mãe –, disse o pai sem severidade.
— Papai –, chamou Artur docilmente, com as sobrancelhas franzidas – papai, como é promissórias?
— Pelo visto –, disse o pai com prazer —, pelo visto o ginásio não serve para nada.
— Coma mais batata, Artur –, tentou a mãe inutilmente arrastar os dois homens para si.
— Promissórias –, dizia o pai afastando o prato – é assim: digamos que você tenha uma dívida.

(Extraído do livro “Laços de família”, Ed. Rocco – Rio de Janeiro, 1998)



Daiane Capelo Gaivota

* Por Urda Alice Klueger

14.08.2004 – 2º dia da Olimpíada de Atenas

Amanhã Daiane vai voar. Olha que já teve gente querendo voar neste mundo: desde Ícaro até Nádia Comanecci, passando por Santos Dumont, sempre teve gente querendo desafiar a lei da gravidade, e sempre eles nos enterneceram e nos deixaram imagens lindas, até mesmo quando a gente considera o terno ângulo desabado do chapéu do nosso aviador do 14 BIS. Nádia Comanecci, então, foi alguém inesquecível: lá se vão 26 anos desde que, como uma borboleta, ela voou por uma Olimpíada e deixou o mundo de boca aberta, aquela frágil menina que vinha da terra do Drácula, e que desmascarou a Transilvânia como terra de filme de terror. Depois de Nádia Comanecci deixamos de temer o Drácula; fizeram-se até comédias sobre aquele sujeito tão trapalhão que não viu aquela borboleta esvoaçante a crescer no seu território.

Mas amanhã será Daiane quem irá voar. Ela vem ensaiando vôos impossíveis faz tempo, já tem até revoada chamada “dos Santos” pelo mundo de lá de fora, e nunca ninguém voou como ela. E Daiane não é alguém da Transilvânia: Daiane nasceu no Sul do Brasil, no Estado do Rio Grande, terra de heróis inesquecíveis, e quem um dia poderá esquecer Daiane? Ela não só voa: ela pensa, e os seus minguados 45 quilos que a transformam em beija-flor são densos não só de beleza, mas de consciência social, de consciência política. Menina da terra onde um dia viveu o Negrinho do Pastoreio, ela sabe bem dos problemas étnicos: sua sobrinhazinha de quatro anos é chamada de feia na escolinha, porque é negra como ela, e Daiane é muito consciente de tudo – sabe, com todas as letras, que as criancinhas de quatro anos ainda não sabem discriminar, que há gente grande ensinando os pequeninos, e ela sabe ter pena pela maldade que se reproduz.

O Rio Grande do Sul é terra de resistências: tem um passado repleto de heróis, e Daiane é como eles – ela nos faz lembrar de Sepé Tiaraju, que defendeu as reduções jesuíticas até se tornar lenda, índio a lutar pela terra com um crescente lunar na testa a brilhar como o sol. Daiane não se limita a brilhar através de um crescente – ela é como um passarinho de luz, a tornar linda a etnia que talvez se sentisse feia, como uma incorporação de Steve Biko[1] no Terceiro Milênio. E ela voa.

E amanhã Daiane vai voar. Será seu primeiro vôo na Olimpíada de Atenas, e fico aqui a pensar como escreveria sobre ela aquele branco de Cruz Alta que levou o Rio Grande do Sul para o mundo: que diria Érico Veríssimo sobre o passarinho que é Daiane, a voar e a competir junto aos deuses do Olimpo? Ninguém entendeu das gentes gaúchas como aquele branco de Cruz Alta – por que teve ele que partir tão cedo sem conhecer Daiane para poder escrever sobre ela? Como ele não está, tento eu escrever alguma coisa – mas como se escrever sobre a personificação da beleza, da leveza e da magia, quando uma menina como Daiane dos Santos resolve virar gaivota e já não obedece às leis da natureza? Ah! Querido Mestre, como me sinto incapaz de contar o que vejo, o que meu coração sente! Daiane voa como nunca ninguém voou – não tem as penas de Ícaro, não tem o 14 BIS, não tem que voar para fugir de Drácula. Ela é como um certo Fernão que o mundo conhece há poucas décadas, um Fernão que poderia ser pássaro bobo a arrastar as penas nas areias da praia, mas que se negou à natureza e acabou voando tão alto quanto nunca nenhuma gaivota jamais voara. Eu diria que Daiane é irmã-gêmea do tal Fernão. Que ela não é dos Santos. Que ela é Daiane Capelo Gaivota.

E amanhã ela vai voar. Das suas eternidades, galerias de heróis vão estar a aplaudi-la, tão linda, tão leve, tão densa! E eu, aqui na minha humildade, vou chorar de emoção porque uma pequena brasileira teve a coragem da perfeição e saiu voando. Não acredito que ela possa ter algum azar e quebrar alguma asa, mas a gente nunca sabe. Então, para o caso do não-esperado, Daiane, eu já lhe digo: não importa o que vai acontecer até o final da Olimpíada! Importa é que amanhã você vai voar como nunca ninguém voou, e as suas asas baterão dentro do meu coração como se fossem asas de colibri. Porque ver você voar, Daiane, é como descobrir o Amor. E não bastam os olhos para vê-la de verdade – a gente só acredita que uma Daiane dos Santos existe mesmo se olhar para ela com todo o poder do coração.

* Escritora e historiadora de Blumenau/SC e doutoranda em Geografia pela UFPR

O príncipe maldito: mazelas da realeza brasileira

* Por Luiz Carlos Monteiro

Não será novidade para os que fazem a comunidade histórica brasileira alguma notícia sobre o livro de Mary Del Priore, O príncipe maldito, por ocasião de sua reedição recente, no Rio de Janeiro, pela Objetiva. É provável, no entanto, que para muitos leitores que não tiveram imediato acesso ao texto, que perderam a oportunidade de lê-lo ou pelo menos folheá-lo na primeira edição em 2007, resenhá-lo agora sirva para chamar a atenção para alguns pontos e problemas. O fato é que a partir do subtítulo expressivo, Traição e loucura na família imperial, o leitor começa a imaginar o que virá nas suas páginas. E, realmente, a autora corresponde ao que se propôs num relato pungente e apaixonado, numa escrita de quem não mediu esforços para chegar ao seu objetivo, através do conhecimento detalhado do seu objeto. Porque nada parece escapar ao olhar de lince da historiadora.

Infância, internato, viagens, estudos, o privado e o externo são investigados com grande riqueza nominativa e documental através de pesquisa abalizada, exaustiva e segura da maioria dos eventos e relações familiares e sociais que absorveram o príncipe Pedro Augusto de Saxe e Coburgo. “O menino que queria ser rei” titula o primeiro capítulo, que enseja uma visada panorâmica em câmara lenta da chegada do navio Boyne, fazendo retornar o imperador Pedro II de terras europeias, no dia 1 de abril de 1872. O imperador, acompanhado de D. Teresa Cristina e dos netos Pedro Augusto e Augustinho, entra no Rio de Janeiro aclamado, recebido acaloradamente pelas forças aliadas que compreendiam ministros, militares, políticos, comerciantes, acólitos, cortesãos e populares. Fizera a viagem de dez meses para, entre outras coisas, visitar o túmulo da filha Leopoldina na Áustria, que morrera um ano antes de febre tifoide.

O príncipe Pedro Augusto, nascido em 19 de março de 1866, estava com seis anos e trazia esse triste legado da perda da mãe Leopoldina, além da ausência constante do pai Luis Augusto de Saxe e Coburgo, o Gusty, que pensava mais em caçar do que dedicar-se aos filhos. Gusty nutria esperanças de completar o quinto império de príncipes austríacos, alemães e ingleses, através de seu filho Pedro Augusto, que alimentava a possibilidade de expansão dessa dinastia europeia, nos anos em que a aristocracia era substituída pela burguesia em ascensão, cresciam o industrialismo e o comércio com evidências nos sinais de consumismo e de uma nova consciência da classe trabalhadora.

Posteriormente, a convivência conturbada com a tia Isabel e o seu esposo francês Gaston, o conde d’Eu, foram experiências que se somaram e levaram Pedro Augusto a estágios constantes de desequilíbrio emocional. O seu suporte era o avô, o imperador Pedro II, que o protegeu e educou após a orfandade, além de alimentar a ideia de tê-lo como seu sucessor. O imperador incentivava também a princesa Isabel a lutar pela sucessão. Essa posição dúbia de D. Pedro II teria consequências desastrosas para a família imperial e a monarquia. Ela iria permitir uma guerra surda, que duraria muitos anos, entre o neto Pedro Augusto e a princesa Isabel. A conspiração de ambos os lados era flagrante: Pedro fez aliados entre os liberais e até entre os republicanos, enquanto que Isabel tinha a seu favor abolicionistas e a gente da Igreja Católica. A circunstância de ser a filha mais velha do imperador dava-lhe direito constitucional ao trono nas viagens de Pedro II. O seu primeiro filho homem seria o sucessor natural, que nasceria somente em 1875, defeituoso de uma mão e recebendo o cognome real de príncipe do Grão-Pará. Representava uma ameaça a mais aos planos de Pedro de Alcântara, que ficara tão irado, invejoso e ressentido quanto a princesa Isabel, nove anos antes, no momento do nascimento do próprio Pedro.

A carolice da princesa e a assinatura de leis abolicionistas serão suas fraquezas maiores na luta pelo trono, gerando antipatia de uns (políticos, maçons e fazendeiros) e empatia de outros (escravos e católicos). Aliás, a passagem de Deodoro da Fonseca, antes amigo e comandado do imperador, para o lado dos republicanos, foi tida como um ato de vingança e retaliação contra Gaston, genro de Pedro II e marido de Isabel, que lutou na guerra do Paraguai substituindo Caxias, cometeu vários equívocos e deslizes arriscando vidas de brasileiros, tendo, entretanto, voltado como herói.

Uma viagem de Pedro Augusto com os avós à Europa entre 1887 e 1888 revela as suas qualidades de bon vivant, de engenheiro conferencista e colecionador de minerais, do articulador de si próprio visando o reinado brasileiro. Foi recebido pela nobreza do Velho Mundo e chamou a atenção da imprensa por onde passava, que não deixava de registrar positivamente os eventos dessa viagem. Há rumores de um suposto casamento do príncipe e as pretendentes são muitas, mas ele, solitário inveterado, pensando somente em reinar, e mesmo depois de ver frustradas suas aspirações, permanecerá solteiro por toda a vida, não tendo jamais se livrado dos efeitos da ausência do amor materno.

O acompanhamento cronológico da situação histórica da segunda metade do século 19, dos seus eventos políticos, literários e artísticos pelo mundo, autoriza a classificação do livro como literatura de não-ficção. Isso gera, também, efeitos perceptivos de outra ordem, como o deslocamento e a interpenetração de datas, estabelecendo o sincrônico de algumas décadas. Contudo, aparecem momentos em que Del Priore se deixa seduzir pela ficção, ao utilizar recursos desta, apesar de não se afastar totalmente da imagética realista renitente, da metáfora dura dos narradores historiógrafos e da ironia severa decalcada em pontos inesperados do texto. O relato biográfico excessivamente datado e descritivo transcende o histórico em passagens e trechos em que a escritora se aproxima da crônica em fragmentos e instantâneos da ficção, dando lugar a insights narrativos bem característicos do texto literário.

O príncipe maldito tem o mérito de humanizar a família real brasileira, de olhos azuis e ramos mais que misturados, a exemplo dos opostos Orléans e Coburgo. A obra mostra ainda que a estirpe da nobreza era tão mortal e tão suscetível a fatores externos e cotidianos quanto qualquer pessoa que não fizesse parte dos seus círculos fechados e reservados. O leitor, qualquer leitor, especializado ou não, se acaso entrar no embalo da leitura, terá dificuldades em abandonar o livro antes de ter virado a página final.

A loucura do príncipe D. Pedro vai intensificar-se ainda mais após a expulsão da família imperial do Brasil, com a proclamação da República. Tentará o suicídio, será internado em manicômios e clínicas, e falecerá, aos 68 anos, no sanatório austríaco de Tülln. E se aquele leitor optar por conferir depois as páginas pretas em tipos brancos que iniciam o livro, não sem intencionalidades editoriais visíveis, conhecerá as raízes de todas as mazelas do príncipe Pedro Augusto, em convulsão, isolamento e exílio na cabine de um navio em direção à Europa, sinalizadas pela morte precoce da mãe e pela não consecução do trono brasileiro.

* Poeta, crítico literário e ensaísta, blog www.omundocircundande.blogspot.com

Quando o amor se achega

* Por Yeda Prates Bernis

Quando o amor se achega
e, no outro, não encontra
espaço aberto,
ele, humilde, se aconchega
a si mesmo. E descoberto
se agasalha com pesado manto
do temor, dúvida e espanto.

E a tempo pede
que o acalente,
à desventura
que o sustente
não mais que o prazo certo,
e a um vento
inexistente que o leve
em momento brando e breve.

(Livro O Rosto do Silêncio, Edições Cutiara, 1992).

* Poetisa

sexta-feira, 28 de maio de 2010


Leia nesta edição:

Editorial – Nossos preferidos

Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto “Politicamente correto”.

Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica “O poeta imortal que não vemos”.

Coluna Visões do cotidiano – Silvana Alves, crônica “Quarteto Fantástico”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, poema, “Uma foto”

Coluna Porta Aberta – Wanda Cristina da Cunha e Silva, poema “Poema-quero”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Nossos preferidos

Caros leitores, boa tarde.
As preferências pessoais, seja de que natureza forem, têm que ser respeitadas, desde que elas não tentem nos impor seus gostos. O respeito tem que se recíproco. Podemos até criticar o que os outros gostam, mas reservadamente, com nossos botões. Até porque, não somos (ninguém é) árbitro infalível de “elegância”.
Há, até, um dito popular, em forma de pergunta, que diz: “O que seria do azul se todos gostassem só do amarelo?”. Pois é, há gosto para tudo. Para roupas, comidas, mulheres (e homens, logicamente, para elas), cores, paisagens e vai por aí afora. Não há, e nem deve haver, padrão para as nossas preferências.
Como já vivemos o clima da Copa do Mundo da África do Sul, propus-me a abordar, ao longo dos próximos cinqüenta dias, temas relacionados, de uma forma ou de outra, com futebol e literatura (não necessariamente nesta ordem). Considero uma curiosidade válida saber para qual clube determinados escritores torcem. E decidi começar aqui no nosso “quintal”, em nossa “casa” da internet, no Literário.
Dentre os nossos vinte ilustres colunistas (na verdade, dezenove, se não for considerado este editor, que exerce dupla função), conheço as preferências clubísticas de cinco, ou seja, de 25%. É que, em algum momento, deixaram escapar isso em algum texto. Como edito tudo o que é publicado aqui, fiquei atento a essas informações e posso revelá-las sem receio. Dos outros quinze, irei, somente, especular. Em alguns casos, acertarei e, em outros, errarei feio. Neste caso, o colunista tem toda a liberdade de fazer a devida retificação no espaço apropriado para comentários.
Nossa “seleção” (creio que tão boa ou até melhor do que a do Dunga) é dividida por Estados. O que tem maior representação é São Paulo, com seis colunistas. Vem a seguir, Minas Gerais, com cinco, seguido de Pernambuco, com quatro. O Rio de Janeiro teve seu quadro ultimamente reduzido, com as saídas do Daniel e da Celamar, a três representantes. Finalmente, fechando esse quadro, temos o Distrito Federal, o Rio Grande do Norte e o Rio Grande do Sul com um cada.
Comecemos pelos Estados que têm menor número de representantes. Brasília, até por ser aniversariante neste ano, ganha a preferência. Sua representante no Literário, Aliene Coutinho, na verdade é paraibana (certamente, com muito orgulho). Mas não deve torcer para times da sua terra natal, como o Treze ou o Campinense, ambos (rivais) de Campina Grande, ou pelo Botafogo, de João Pessoa. Seu time preferido, suponho, é o Brasiliense. É verdade que pode ser o Gama, mas aposto minhas fichas no primeiro.
A representante do Rio Grande do Norte é a Evelyne Furtado. Em Natal, há duas potências futebolísticas rivais, o América e o ABC. É verdade que corre por fora o Alecrim. Há os times do interior, mas acredito que ela torça por algum da capital. Vou arriscar meu palpite no “vermelhinho” de Natal. Está aí, acho que ela torce pelo América.
Já o Rio Grande do Sul (terra natal deste editor) é representado pelo Rodrigo Ramazzini. Deve gostar de algum dos dois clubes rivais de Porto Alegre (que conta, ainda, com dois menores). A rivalidade no Sul, entre Grêmio e Internacional, é uma das mais acirradas do País. Gremistas e colorados não se bicam. E afirmar que o torcedor de um deles torce pelo outro, chega a ser uma heresia. É complicado arriscar palpites, mas não ficarei em cima do muro. Aposto que o Rodrigo é colorado roxo (ou melhor, rubro, rubríssimo). Se não for... Será, certamente, zoado, pela torcida gremista.
Quanto ao Rio de Janeiro, conheço a paixão clubística de uma das colunistas. É isso mesmo, sei para quem a Núbia Nonato Araújo do Amaral torce. Ela faz parte da maior torcida do País, que engloba quase 40 milhões de brasileiros, o Flamengo. Esta foi fácil. Nem precisei arriscar palpite.
Já o Eduardo Oliveira Freire (nosso querido Dudu Oliva), discreto como é, nunca deu a menor pista sobre o time para o qual torce. Ainda assim, arrisco-me a afirmar que é o tricolor das Laranjeiras, o Fluminense. Deduzo isso do seu perfil, digamos, um tanto de elite. Não me surpreenderia, claro, se torcesse pelo Botafogo ou pelo Vasco. Mas não creio que seja flamenguista.
Já o Gustavo do Carmo... Deixe-me ver..., tem todo o jeitão de ser vascaíno. Não me parece que eu possa estar equivocado. Flamenguista é que não é. Há ligeira possibilidade de ser botafoguense, mas não creio. E nem que seja tricolor. A menos que me surpreenda e torça por algum time do interior.
Já Pernambuco tem quatro representantes. De mestre Urariano Mota conheço a preferência. Não faz muito, escreveu belíssima crônica (o que, aliás, é redundante, pois tudo o que ele escreve é belo e interessante), confessando sua paixão pelo “Leão da Ilha”, o Sport. Creio que a preferência do Talis Andrade seja idêntica. Nosso nobre poeta tem o jeitão de um torcedor rubro-negro.
Dos outros dois colunistas pernambucanos, não disponho de pistas a respeito. Suponho (notem bem, apenas suponho) que o Marco Albertim goste do time mais popular do Estado, mas que vive uma crise que parece não ter fim, o Santa Cruz. É isso. Vou cravar meu palpite no Santa.
Já o José Calvino... Tem o jeitão de gostar do Náutico. Aposto que seja torcedor do alvirrubro, do “Timbu” do Recife. Se não for, poeta amigo, me desculpe. Estou baseando meus palpites somente na intuição e esta, muitas vezes, tem me traído.
Minas Gerais tem cinco representantes, três dos quais da mesmíssima cidade: Montes Claros. A doutora Mara Narciso, acredito, seja torcedora do Cruzeiro. Ela prometeu um texto revelando sua paixão clubística. Ouso antecipar-me e “palpitar” que sua preferência seja o time estrelado. Já o Fernando Yanmar, até por questão de rebeldia (ah, essa juventude!), parece-me torcedor do Atlético Mineiro. Duvido que não seja. O Penninha, para mim, é cruzeirense. E dos mais assíduos e fiéis. O Eduardo Murta, representante de Belo Horizonte, embora nunca tenha revelado seu time, é torcedor do Atlético. Tem que ser! Afinal, escreveu (e publicou) o livro do centenário do Galo. Sei que um cruzeirense faria isso!!! Nem em sonho! Finalmente, a Sayonara Lino também deve torcer pelo Cruzeiro. Duvido que torça por alguma equipe de Juiz de Fora, o Tupi, por exemplo. Certamente, é estrelada de coração.
O predomínio é de São Paulo, com seis colunistas, sendo quatro da mesma cidade, Campinas. A Risomar Fasanaro, posto que pernambucana de nascimento, já se “apaulistou”. Deixou escapar, numa de suas crônicas, que é torcedora do Corinthians. Está em boa companhia. Integra o segunda maior torcida do Brasil. A Silvana Alves tem tudo para ser palmeirense (a menos que torça por algum time do Vale do Paraíba, o Guaratinguetá, por exemplo, que não fica longe de Lorena, onde reside).
Resta o quarteto campineiro. O Marcelo Sguassábia parece-me bugrino de quatro costados. Se não for, estou frito. Aqui em Campinas, a rivalidade entre Ponte Preta e Guarani é tão grande (se não for maior) que a de Porto Alegre, entre Inter e Grêmio. Mas vou arriscar: é bugrino mesmo. Assim como a Laís de Castro (perdoe-me, querida escritora, se eu estiver errado. É só um palpite meu e nada mais).
Restamos, no final, eu e o Renato Manjaterra. Ambos disputamos, palmo a palmo, a primazia para saber quem é mais pontepretano. Creio que seja covardia. Ganho fácil dele! Afinal, tenho de torcida pela Ponte Preta muito mais do que ele. Sou adepto da Macaca há exatos cinqüenta anos, ou seja, quase o dobro da idade do Renato. Ele diz que não tem nada a ver. E eu respondo: tem tudo. Quem está certo? Eu, evidentemente.

Boa leitura.

O Editor.



Politicamente correto

Por Rodrigo Ramazzini

Pai e filho, em uma parada de ônibus.
- Estou com fome, pai!
- Calma! O ônibus já deve vir vindo... Em casa tu comes algo...
- Mas podia comprar um cachorro quente para mim agora, né?
- Onde tem?
- Ali ó!
- A barraca daquele negão vende lanche?
- Ooooh Pai!
- O que foi?
- Não se pode chamar ninguém de negão, pai! A professora da escola ensinou...
- Tua professora não sabe nada! Ela quer tampar o sol com a peneira...
- Que sol? Que peneira?
- Pára de fazer pergunta...
- E o meu cachorro quente?
- Depois tu comes... Só pensa em comer, guri! Daqui uns dias tu vais estar uma bola, gordão que nem aquela cara lá do outro lado da rua... Vão te chamar de baleia na escola...
- Ooooh Pai! De novo...
- O quê?
- Não se pode chamar ninguém de gordo ou colocar apelido em quem na verdade é obeso e pode ter até uma doença...
- Ah tá! Quem falou essa bobagem?
- A professora...
- Essa tua professora é uma hipócrita!
- O que é hipócrita, pai?
- Pergunta para a tua professora, ela sabe tudo...
- Sabe mesmo...
- Eu vou te contar... Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece...
- Por que está dizendo isso, pai?
- Nada! Nada É que o mundo está ficando quadrado, filho! Só isso...
- Como quadrado?
- Sem senso de humor, tudo certinho... Enche o saco!
- Não entendi?
- Deixa pra lá! O que besteira mais ela falou?
- Que...
- Que machorra... Que Sapatão é lésbica... E... E... Veado se diz homossexual, isso?
- Exatamente!
- Eu sabia...
- Se sabia por que não falou certo?
- Dá para ficar quieto agora?
- Está bem... Bah!Olha lá do outro lado da rua, pai!
- O quê?
- Meu colega...
- Que colega?
- O vesguinho... OOOOOHH, VESGUINHO, E AÍ? BELEZA?
- Filho! Isso é jeito de chamar o guri?

* Jornalista