segunda-feira, 28 de dezembro de 2009




Direito à informação

* Por Mara Narciso

Poucas casas tinham televisor em 1964, mas em minha sala reinava um deles onde víamos o que nos mostrava a TV Tupi no período noturno em que a torre repetidora do Pentáurea nos enviava imagens em preto e branco e muitos ruídos e chuviscos. A programação era de noticiários, musicais, novelas, filmes, programas de auditório e comerciais toscos. Pela telinha vimos o homem chegar à lua, a Copa do Mundo de Futebol de 1970, o progresso brasileiro exibidos pela Transamazônica, a Ponte Rio-Niterói, e a Usina de Itaipu. Tudo mostrava o progresso ufanista do “Brasil Grande!”.

Na minha casa as pessoas liam as revistas Fatos & Fotos, Cruzeiro e Manchete todas as semanas. Também vi de longe os exemplares da revista Realidade, em sua curta existência, pois a minha mãe, zelosa pelas suas crianças, dizia que a leitura dessa revista era proibida.

No carro do meu pai havia um adesivo plástico com a bandeira do Brasil num dos cantos, ladeando a frase que muito o orgulhava: “Brasil, ame-o, ou deixe-o”. Durante as refeições em família, ele nos dizia que o Brasil estava evoluindo devido ao trabalho dos militares que baniram do Brasil os terroristas. Também falava em tom de zombaria que a Veja, recém-lançada, era ruim, e o tamanho pequeno era indicador da ruindade da revista. Mesmo amordaçada, a revista naquela ocasião defendia a democracia.

Quando foi permitido votar, já que o prefeito era indicado pelo governador, o meu pai escolhia candidatos da ARENA, Aliança da Renovação Nacional, o partido do governo. A minha mãe alinhava-se com o irmão dela, Pedro Narciso, um dos fundadores na nossa cidade do então MDB, Movimento Democrático Brasileiro, o partido de oposição. Os filhos iam junto com a mãe.

No Colégio Imaculada Conceição, e depois, no Colégio São José, havia uma bandeira do Brasil dentro de uma moldura na parede da frente de todas as salas de aula, ao lado do quadro-negro. Antes das atividades escolares, obrigatoriamente cantávamos o Hino Nacional. Muitas vezes todos os alunos iam para o pátio e ficavam perfilados ao sol ouvindo discursos de autoridades que nem sabíamos quem eram.

Eu era ligada em rádio, televisão e revistas. Apaixonada por Roberto Carlos, tão fanática que tinha todos os seus discos, colecionava posters e as letras das músicas e tudo que lhe dissesse respeito, e não perdia o programa Jovem-Guarda nas tardes de domingo. Quando “O Rei” veio em Montes Claros, fomos ao Estádio do Ateneu ver ao show.

Na Faculdade de Medicina, em 1974, tivemos a disciplina Organização Social e Política do Brasil. Nela, o nosso professor, um coronel da Polícia Militar, nos falava as coisas boas que os presidentes marechais faziam pelo Brasil e pelo povo brasileiro. Após as preleções, certo dia nos mandou fazer um trabalho sobre os quatro presidentes militares, até então, onde eu contei, após pesquisa nas enciclopédias Barsa e Conhecer, que os governos deles foram tudo de melhor para o Brasil.

Em 1977, quando me casei, passei a ler a Veja, mas não compreendia as questões políticas. O meu então marido, filho de um sargento da FAB - Força Aérea Brasileira, contava-me que, em 1969, quando serviu ao Exército, recebeu como serviço vigiar duas mulheres e um homem que estavam presos. O crime deles era subversão, ou seja, eram comunistas. Os militares os deixavam nus para intimidá-los, jogavam água forte sobre eles para torturá-los, e outras maldades, como deixá-los com fome e sede, pois mandavam os recrutas salgarem as suas comidas. Eu repudiava, mas não entendia. Dizem que muitos de nós éramos alienados. Eu era. E não há desculpa.

O que dominava os cinemas eram filmes com imensos cortes feitos pelos censores. As produções nacionais eram em sua maioria pornochanchadas, umas pseudocomédias absurdas. Havia a revista masculina chamada Homem e depois mudada para Playboy, onde apareciam fotos adulteradas de mulheres nuas com borrões em cima das partes pudendas. A censura inominável impedia qualquer tipo de expressão artística, exercendo uma tutela vexatória. Uns poucos censores impediam uma nação inteira de ver coisas que eles julgassem imorais, inadequadas ou inoportunas. Até desenhos animados de Tom e Jerry eram cortados ou vetados por incitarem a violência, segundo vim saber depois. E assim, toda uma população era feita incapaz, pois todos eram guiados.

Sabia que meu tio Petronilho Narciso, que morava em Belo Horizonte, tinha amigos que tinham desaparecido, raptados pelos militares. Não me era possível saber o que acontecia, o que se descortinou quando fui fazer residência médica em Belo Horizonte, em janeiro de 1980. Morei justamente na casa desse meu tio, economista e leitor de “O Capital” e passei a ler o jornal Folha de São Paulo. Fiquei chocada ao descobrir que o Brasil vivia há vários anos sob censura ferrenha dos meios de comunicação, onde a delação era papel moeda, e uma ditadura reprimia todas as manifestações populares, tidas como ilegais e criminosas. Eu já tinha lido a palavra ditadura em pichações nos muros da minha cidade em letras pretas e escritas às presas pelas madrugadas: “Abaixo a Ditadura”), coisa que na época eu não compreendia.

Então eu soube dos desaparecimentos, torturas e mortes. Antes, quem não estava do lado do governo, era inimigo, mas as pessoas comuns não sabiam de nada. Entre a surpresa e a revolta de ter sido enganada por tanto tempo, busquei na memória os pedaços de fatos e de conversas. A minha mãe percebia o que se passava, era contra, mostrava rebeldia em relação ao governo. Como meu pai era ardoroso fã da chamada Revolução de 31 de Março, eu acabava ficando perdida. Havia um mistério no ar.

Na capital tive contato com os fundadores do Partido dos Trabalhadores, e participei durante 37 dias de uma greve de médicos residentes e de uma passeata no centro de Belo Horizonte, vigiados por policiais e cães enormes e não menores cassetetes, em prol de fundação da CUT, Central Única dos Trabalhadores, em setembro de 1981.

Nada entendo da teoria socialista, mas me tornei uma militante de esquerda, emocionada com os efeitos das arbitrariedades do governo militar e a coragem dos que ousaram desafiá-lo. Os generais foram hábeis castradores de toda uma geração que não podia abrir a boca, nem se manifestar e nem mesmo entender os fatos. Todas as versões contavam histórias da carochinha e o povo brasileiro as engolia sorrindo, devido à propaganda oficial.

A ocultação da verdade nos fez sentir ignorantes. Senti-me mal com as revelações, e passei a consumir toda sorte de leituras, e me abastecer nas canções dos meus ídolos Gonzaguinha e Chico Buarque. Também ri das músicas que cantávamos no passado vergonhoso, sejam as de Dom e Ravel – “As praias do Brasil ensolaradas, lá, lá, lá” – ou mesmo as músicas melosas de Roberto Carlos, um dissimulado, segundo fiquei sabendo, embora haja controvérsias. Essas lembranças deixaram-me envergonhada.

Beatriz Kushnir, mestre em História Social pela Universidade Federal Fluminense e doutora em História Social do Trabalho pela Unicamp, nos relata os dois lados da moeda da profissão Jornalista durante os anos de chumbo da ditadura no seu livro “Cães de Guarda” e nos explica a intenção do seu relato:” o objetivo é iluminar um território sombrio e desconfortável: a existência de jornalistas que foram censores federais e que também foram policiais enquanto exerciam a função de jornalistas nas redações” (p. 26). Na página seguinte faz o contraponto: “.não quero dar a entender que a autocensura e o colaboracionismo tenham sido praticados pela maioria dos jornalistas, pois isso está longe da verdade. Muitos dos que combateram nas práticas do Estado pós-1964 e pós-AI5 ficaram desempregados, foram encarcerados e perseguidos. Muitos jornalistas igualmente desempenhavam uma militância de esquerda – de simpatizantes engajados- e padeceram (muitas vezes com marcas na própria pele) por tais atitudes”(p.27).

Toda verdade tem lados, fatos e versões. É um insulto vermos burlado o nosso direito à informação, e a culpa de tudo isso se dissolveu numa abertura ampla geral e irrestrita. A nação escolheu esquecer tudo.

(Referência: “Cães de Guarda”, Beatriz Kushnir, Boitempo Editorial, 2004, São Paulo SP)..

* Médica, acadêmica do sétimo período de Jornalismo, e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”

domingo, 27 de dezembro de 2009


Leia nesta edição:

Editorial – Texto arejado

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Alma nova”.

Coluna Direto do Arquivo – Rosana Hermann, crônica “O que todo mundo quer”.

Coluna Clássicos – D. H. Lawrence, conto “O cego”.

Coluna Porta Aberta – Adélia Prado – poema “Explicação de poesia sem ninguém pedir”

Coluna Porta Aberta – João Alexandre Sartorelli, poema “Pássaros”


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Texto arejado

Caríssimos leitores, boa tarde.
Detesto ler textos massudos, com parágrafos enormes contendo mais de um período com uma série de orações encadeadas. Claro, quando necessário, leio-os, mas seu “visual”, por si só, não é atrativo. Tão logo abro um livro e noto esse tipo de conformação gráfica, adio sua leitura, a menos que tenha grande necessidade de lê-lo.
Na minha função de editor, basicamente de jornal, livro o leitor dessa tortura e, ao mesmo tempo, valorizo o que o repórter escreveu e que me coube editar. Como? Muito simples. “Arejando” o texto. Trata-se de uma técnica que pouquíssimos editores utilizam (aliás, a maioria sequer a conhece). E no que ela consiste?
Exatamente no que seu próprio nome sugere. Ou seja, permitir que o texto “respire” e que, principalmente quem o lê, não se perca no emaranhado de letras e de palavras. Quebro-o em vários parágrafos, de no máximo um ou dois períodos, com não mais do que três orações cada. Além disso, aumento o espaço nas entrelinhas.
Quando fiz isso na primeira vez, foi uma chiadeira geral dos repórteres. Todavia, diante do resultado, os mais humildes tiveram a dignidade de me agradecer. Já os mais marrudos... Pelo menos pararam de reclamar.
Apesar dos críticos e dos que são tidos como eméritos estilistas condenarem essa forma de redigir, gosto do estilo enxuto, pejorativamente chamado de “telegráfico”. E minha experiência me diz que os leitores também o apreciam e preferem-no aos textos com parágrafos enormes, que às vezes chegam ao exagero de ocupar uma página inteira de um livro.
Espelho-me, por exemplo, na maneira de escrever de Graciliano Ramos, um dos “monstros sagrados” da Literatura Brasileira. Esse escritor era “econômico”, parcimonioso, cirúrgico no uso das palavras.
Aquilo que outros, menos peritos, gastavam páginas inteiras para expressar, ele expressava em cinco ou seis linhas, sem que houvesse a mínima perda de conteúdo. Dizia muito, ou pelo menos o necessário, num espaço restritíssimo. E como é gostoso ler os livros de Graciliano!
Os textos massudos, quando impressos em corpos tipográficos minúsculos, digamos 8 ou 9, como a maioria das editoras faz, até para economizar papel e reduzir custos de publicação, são uma tortura chinesa para pessoas que, como eu, em decorrência da idade, já não enxergam tão bem. Ainda se se tratasse de algum e-book, teríamos (como de fato temos) o recurso do “zoom” do computador, que amplia o que está escrito e o torna do jeito que quisermos.
Creio que foi por isso que acabei por me acostumar a ler livros na telinha. Cada vez mais vou deixando de lado os impressos em papel, dado o desconforto que sua leitura me traz. No início, era cansativo ler minhas obras prediletas no computador. Como tudo é uma questão de costume, hoje acho isso uma delícia. Para sentir-me confortável, providenciei, antes, uma cadeira rigorosamente ergonométrica, que protege minha coluna vertebral.
É possível que, como nas outras vezes em que manifestei minha preferência por ler na telinha e não mais em papel, muitos confidenciem (ou no espaço de comentários, ou de forma mais íntima, enviando-me um e-mail) que não conseguem abrir mão do livro impresso. Tudo bem.
Respeito sua preferência, claro. Só quero ver se essas pessoas continuarão agindo da mesma forma quando chegarem à minha idade e passarem a conviver com problemas de acuidade visual (normalíssimos, por sinal, e característicos do envelhecimento). Tenho certeza que mudarão de opinião.
A você, escritor amigo, que deseja conservar seus leitores mais experientes (em geral os inveterados em leitura), facilite sua vida. “Areje” seus textos. Fuja dos parágrafos imensos, dos períodos lotadinhos de orações, da tentação de dizer as coisas da maneira mais difícil e transversa.
Seja direto, sóbrio (como Graciliano) e organizado no que escreve. Nós, leitores, que já passamos dos 60, certamente lhe agradeceremos a gentileza. E se, o que você escrever tiver conteúdo, seremos seus perenes e fiéis leitores. Pense nisso.

Boa leitura.

O Editor.



Alma nova

* Por Pedro J. Bondaczuk

O início de cada novo ano é recebido de maneiras muito diferentes pelos três principais tipos de pessoas que existem: os otimistas, os pessimistas e os indiferentes, aqueles que deixam a vida rolar, sem esperar e nem desesperar demais dela. Observe-se que otimismo não implica em alienação, pelo menos não necessariamente. É uma predisposição pessoal, uma postura positiva, uma atitude de esperar sempre o melhor, mesmo nas piores circunstâncias e situações.

Já o pessimismo, óbvio, é o comportamento diametralmente oposto. É o de achar que nada no mundo é tão ruim que não possa piorar. É a postura das pessoas que no fundo da consciência esperam mais da vida e das pessoas do que estas provavelmente lhes irão dar e que, quando essas expectativas não são satisfeitas, enxergam tudo e todos sob o prisma da decepção e da frustração, ou seja, cinzento, enfumaçado, opaco e, portanto, ruim.

Creio que a humanidade se divida, grosso modo, em partes praticamente iguais desses três tipos de personalidade. Talvez haja, admito, um pouquinho a mais de pessimistas, em decorrência, até, da imensa horda de famintos, miseráveis e sofredores que povoam o Planeta.

Otimismo, pessimismo e indiferença, porém, não dependem intrinsecamente de condições econômicas e/ou sociais. Conheço muita gente que não tem rigorosamente nada de seu ou seja, usando jargão popular, não tem nem “onde cair morta”, mas que não abre mão da esperança de dias melhores.

É alegre, de uma alegria de causar estranheza e inveja em quem não consegue senti-la, confiante e, sobretudo, batalhadora. Como sempre espera o melhor, não mede esforços para a sua obtenção, acreditando que tanto esforço trará, mais dia menos dia, resultados favoráveis (mesmo que nunca traga).

Em contrapartida, cruzo, a todo o momento, com pessoas privilegiadíssimas, que têm muito mais do que fazem ou fizeram por merecer, que jamais passaram por qualquer espécie privação, que não têm a mínima carência, nem material e nem afetiva e que, no entanto... têm a alma parecida com um reservatório de vinagre. São azedas, desagradáveis e, principalmente, insuportáveis. São como aves de mau agouro. Na verdade, sequer sabem o que querem.

Quanto aos indiferentes, há milhões, mundo afora. Estes, em vez de pensarem na vida, limitam-se a viver. Pouco desejam, mesmo que nada tenham. E quando têm, contentam-se com a posse, sem questionar se o que possuem é muito, pouco ou apenas o suficiente. Creio que essas pessoas, à sua maneira, até sejam felizes. Ao contrário dos otimistas, estes sim são alienados, na mais pura e legítima caracterização de alienação.
Esses três tipos, portanto, nem poderiam ter as mesmas expectativas em relação ao início de cada novo ano. Têm posturas opostas e, forçando um pouco a constatação, até “almas” diferentes. Raramente mudam. Embora não se saiba em que momentos da vida assumiram essas posturas, essas findam por serem definitivas.

O otimista revê o que de positivo lhe aconteceu no ano que termina e acredita, sem titubear, na pior das hipóteses, que as mesmas coisas voltem a lhe acontecer. E na melhor... Espera surpresas agradáveis e oportunidades renovadas. Quanto aos fracassos, não lamenta por eles. Avalia onde errou e busca corrigir esses erros, para que não mais se repitam.

Já o pessimista sequer menciona o que de positivo lhe ocorreu. Talvez nem saiba identificar. Provavelmente, sequer se dá conta dessa ocorrência. Concentra-se nos insucessos e busca se prevenir para que estes não se repitam.

Fá-lo, todavia, de forma equivocada. Isola-se de tudo e de todos e vê, nas situações mais triviais, corriqueiras e inocentes do cotidiano, perigos que só ele enxerga. Encara o início de um novo ano como um ano a menos de vida. E alguns chegam ao exagero de desejarem a morte, na qual vislumbram o fim dos seus sofrimentos, na maior parte, apenas, imaginários (ou exclusivamente temidos).

Nesse aspecto, os indiferentes levam vantagem sobre os outros dois tipos. Não espera vitórias e nem teme fracassos. Apenas ignora ambos. Festeja o início de novo ano porque todos o fazem, sem emprestar ao momento nenhum significado especial.

Creio que esses três tipos de pessoas deveriam raciocinar como Gilbert Keith Chesterton sugere: “O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É que nós deveríamos ter uma alma nova”.

E você, querido leitor, como encara a superação de mais uma etapa, com o consequente início de uma nova, com todo o potencial, positivo e negativo, que ela traz ou pode trazer? É otimista, pessimista ou indiferente?

Não farei nenhum juízo de valor e reservo minhas críticas (ou elogios) apenas a mim mesmo. Porquanto, qualquer que seja sua postura, lhe desejo, com absoluta sinceridade, um FELIZ ANO NOVO! E, se possível, de “alma nova”.

*Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas), com lançamentos previstos para os próximos dois meses. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com




O que todo mundo quer

* Por Rosana Hermann

O ser humano moderno tem basicamente três desejos: comer sem engordar, transar sem procriar e ganhar sem trabalhar.

O primeiro desejo vem sendo buscado na marra, à base de lipos, dietas e, como soubemos recentemente, de anfetaminas, já que o Brasil além de líder em cirurgias plásticas estéticas é também o maior consumidor do mundo de 'bola' para emagrecer. A obesidade é um problema de saúde pública mas emagrecer, em última instância, é uma tarefa de foro íntimo.

Para realizar o segundo desejo, os casais têm buscado métodos como a pílula e, principalmente, a camisinha, usada até mesmo em lugares totalmente inconvenientes, como o parque do Ibirapuera, que foi transformado em motel a céu aberto e boca fechada. De qualquer forma, excetuando-se o atentado ao pudor público, a questão sexual só interessa ao casal envolvido.

O problema maior, porém, está no terceiro objetivo do homem moderno, o de ganhar sem trabalhar. Para alcançar este sonho, muita gente tem tentado transformar a justiça em fonte de renda, processando pessoas físicas e jurídicas atrás de qualquer tipo de indenização, com ou sem bom senso. Mas a questão mais grave, endêmica é aquele método de enriquecer sem o suor do trabalho, o método mais disseminado em nossas entranhas, a corrupção.

A corrupção, a roubalheira, os crimes de colarinho branco, o suborno, a sonegação, deveriam ser considerados como crimes hediondos, porque roubar dinheiro público também é assassinato. A diferença entre o desvio de verba do povo e uma bala de revólver é apenas de escala e de tempo. O tiro tem uma correspondência biunívoca e aguda: para cada pessoa, um tiro, que mata na hora. A corrupção é coletiva e crônica: mata muita gente, a longo prazo, em filas de hospital, pela falta de escola e oportunidades ou pelo desemprego. Qualquer pessoa que já tentou usar um serviço público de saúde sente que chegou ao outro extremo das notícias de corrupção.

Mas o cenário desolador da nossa realidade não está dissociado de cada um de nós. Por isso, hoje, quando vemos reportagens mostrando crianças armadas que trabalham para o tráfico, falando da morte como um amigo de infância, devemos ver ali, também, o resultado da loucura dos nossos desejos. Não há como separar a perversidade doentia do ser humano da exploração sexual de homens, mulheres e crianças; nem como separar a compulsão patológica do tráfico de drogas; a vaidade está ligada ao mercado negro de remédios assim como a ambição desmedida é irmã da corrupção. No fundo, vivemos uma grande ilusão: a de que se formos lindos, atraentes, poderosos, tudo vai dar certo na nossa vida.

Devem estar certos os budistas que dizem que só o desapego e a eliminação da ignorância, do sofrimento, da ilusão e do desejo podem nos levar à iluminação e à paz. Sem isso, vamos continuar atolados, pisando num acelerador que só nos faz afundar mais sem sair do lugar, no meio da lama onde estamos hoje.

*Rosana Hermann é Mestre em Física Nuclear pela USP de formação, escriba de profissão, humorista por vocação, blogueira por opção e, mediante pagamento, apresentadora de televisão.




O cego

Por D. H. Lawrence

Isabel Pervin estava à escuta de dois sons: do som das rodas na estrada, lá fora, e do rumor dos passos do marido, no vestíbulo. O seu amigo mais velho e estimado, um homem que parecia quase indispensável à sua vida, devia chegar naquele anoitecer chuvoso de fins de novembro. A carripana tinha ido buscá-lo à estação. E o marido, que tinha perdido a vista na Flandres e apresentava na fronte uma cicatriz que o desfigurava, devia entrar em casa, vindo dos barracões.

Fazia agora um ano que regressara a casa, completamente cego. E, contudo, tinham sido muito felizes. A granja era propriedade de Maurício. Na parte traseira ficava a quinta com edifícios, onde os Wernhams, que viviam desse lado, trabalhavam como quinteiros. Na bonita residência da frente vivia Isabel com o marido. Ambos tinham passado quase inteiramente sós, desde que ele fora ferido. Conversavam, cantavam e liam juntos, numa esplêndida e inefável intimidade. Depois, satisfazendo um velho interesse, ela fazia a crítica de livros para um jornal escocês, e ele ocupava-se bastante da herdade. Embora privado da vista, discutia tudo com Wernham e fazia também muito trabalho por ali – trabalho miúdo, é certo, mas que lhe dava satisfação. Mungia as vacas, transportava para dentro os baldes, movia a desnatadeira e tratava dos porcos e cavalos. A vida era ainda bem cheia e estranhamente serena para o cego, pacificado pela paz quase incompreensível do contato imediato com as coisas, nas trevas. Na mulher possuía então um mundo completo, rico, real e invisível.

Eram felizes, de uma maneira nova e vaga. E ele nem sequer lamentava a perda da vista, nesses tempos de sombria, palpável alegria. Inflamava-lhe a alma uma suave exultação.

Mas à medida que o tempo se escoava, acontecia por vezes que este precioso encantamento lhes fugia. Algumas vezes, depois de meses desta intensidade, uma sensação de peso se apoderava de Isabel, um cansaço, um terrível tédio, naquela casa silenciosa a que conduzia uma dupla colunada de pinheiros alterosos. Então julgava que ia enlouquecer, pois não podia suportar tal coisa. Outras vezes, acometiam-no devastadores acessos de depressão, que pareciam ir destruir todo o seu ser. Era pior do que a depressão – era um sofrimento sombrio em que toda a sua vida se transformava numa tortura para ele e a sua presença se tornava insuportável para a mulher. A esta, um pavor lhe penetrava até às raízes da alma, quando chegavam estes dias sombrios. Numa espécie de pânico, procurava então consubstanciar-se ainda mais com o marido. E forçava a velha satisfação e alegria espontânea a continuar. Mas o esforço que isso lhe custava era quase insustentável. Sabia que o não podia aguentar. Sentia que essa tensão lhe iria arrancar gritos, e daria tudo para o evitar. Ansiava por possuir totalmente o marido; dava-lhe uma alegria desordenada tê-lo inteiramente para si. E contudo, quando de novo ele se deixava apoderar por um sofrimento sombrio e maciço, não podia suportá-lo, não podia suportar-se a si própria. Desejava então desaparecer de vez da face da terra, tudo menos viver a tal custo.

Atordoada, procurava então uma saída. Convidava pessoas amigas, procurava dar-lhe qualquer nova ligação com o mundo exterior. Mas de nada valia. Depois de toda a sua alegria e sofrimento, depois do seu sombrio, do seu longo ano de cegueira, solidão e indizível proximidade, as outras pessoas pareciam-lhes, a ambos, superficiais, tagarelas, bastante impertinentes. A tagarelice superficial parecia-lhes balofa. Ele ficava impaciente e irritado, ela cansada. E então recaíam na solidão, pois a preferiam.



Explicação de poesia sem ninguém pedir

* Por Adélia Prado

Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.

* Poetisa