segunda-feira, 1 de maio de 2017

Literário: Um blog que pensa


(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)


LINHA DO TEMPO: Onze anos, um mês e quatro dias dias de existência.


Leia nesta edição:


Editorial – Escritor ou “filósofo com visão de profeta”?.

Coluna Em Verso e Prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Gotas de chuva”.

Coluna Lira de Sete Cordas – Talis Andrade, poema, “O burocrata”.

Coluna Direto do Arquivo – Giacomo Mastroianni, crônica, “Nada só queria ser tudo”.

Coluna Porta Aberta – Gilberto Nogueira de Oliveira, poema, “Bonsai”.

Coluna Porta Aberta – Dinovaldo Gilioli, poema, “Reinvenção”.

@@@

Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbett Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com

“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

“Boneca de pano” - Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com

“Águas de presságio” – Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br

“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.

“A sétima caverna” – Harry Wiese – Contato: wiese@ibnet.com.br

“Rosa Amarela” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

“Acariciando esperanças” – Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br

“Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br

“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Escritor ou “filósofo com visão de profeta”?


No dia 21 de abril do ano da graça de 2010, quando nossas atenções estavam todas voltadas para o cinqüentenário de Brasília, completaram-se cem anos da morte de um escritor que, na definição do jornal “San Francisco Call” (feita naquela ocasião) era “um profundo filósofo, com a visão de um profeta”. Referia-se ao (também) jornalista Samuel Langhorne Clemens que ficou conhecido no mundo das letras com o pseudônimo de Mark Twain e que, para William Faulkner, foi o “pai da literatura norte-americana”. Se foi mesmo, ou não, é questão para se discutir. O indiscutível é que se tratou de um dos maiores escritores do seu e de todos os tempos.

Escrevi muito a seu respeito, em crônicas e, sobretudo, ensaios. Tudo o que disser sobre ele, portanto, não será novidade para meus leitores mais antigos, embora o seja para os novos. Por isso, não tenho o menor pudor em ser repetitivo ao reverenciar essa figura um tanto controvertida para muitos, mas, sem dúvida, fascinante, e sua obra aparentemente voltada para uma faixa etária específica, a dos adolescentes, mas que só entendemos e damos o devido valor ao atingirmos a maturidade.

Isso vale tanto para “As aventuras de Tom Sawyer” e sua seqüência “Huckleberry Finn”, quanto para “O príncipe e o mendigo”, entre os tantos dos seus livros, sendo este último o meu preferido. Por que? Por suscitar reflexões sobre o poder, a riqueza e a pobreza, o acaso, as circunstâncias e o comportamento das pessoas em situações extremas de vida.

Trata-se, a meu ver, de um livro alegórico, de enredo sumamente improvável, mas que o talento de Mark Twain, com seu estilo coloquial de narrar tornou verossímil. A tal ponto que chegamos a nos esquecer, se não da sua impossibilidade (costumo pensar duas vezes antes de afirmar que algo é impossível), sua improbabilidade.

“O príncipe e o mendigo”, resumindo em poucas palavras, é a história de dois irmãos gêmeos, separados no nascimento, com um sendo criado num palácio real, com todas as regalias e luxos da realeza, preparado para um dia assumir o trono e outro criado nas ruas, por indigentes, sobrevivendo quase que por milagre.

Um dia, por uma dessas casualidades incomuns, mas que às vezes surpreendentemente ocorrem, ambos se encontram. Conversam, falam de suas respectivas vidas, percebem suas semelhanças físicas embora sem atinar que sejam irmãos e desfiam suas respectivas queixas. Os dois sentem-se insatisfeitos, por motivos bem diferentes, com suas situações.

O príncipe, por exemplo, sentia-se entediado no palácio real e sonhava com liberdade, com a amplidão do mundo, com mil e uma aventuras. O mendigo, óbvio, não suportava a miséria, a sujeira, a ignorância e a violência que o cercavam e ameaçavam. Resolvem, pois, trocar de posição. Eram tão iguais, que ninguém notaria.

Ao cabo de algum tempo, todavia, cada qual anseia por retornar à situação anterior. O príncipe sentiu na carne o que é ser miserável e ter que batalhar, não raro, por reles pedaço de pão amanhecido para comer. A lição, no entanto, lhe seria útil para quando assumisse o destino do seu povo. Com o conhecimento recém-adquirido, poderia ser compassivo e compreensivo com os mais pobres.

O mendigo entendeu, por sua vez, o valor da liberdade para tomar as próprias iniciativas. Além disso, compreendeu o quão fátuas e inúteis se tornam as pessoas quando “amolecidas” por excesso de luxo e o quanto são falsas as relações entre elas.

Parece uma história simples, banal, ingênua, dessas para serem contadas à noite ao pé da cama das crianças, para fazê-las dormir. E, de fato, é. Todavia, suscita inúmeras reflexões, sobretudo sobre a vida. Eu, pelo menos, aprendi muito com ela. Seu enredo, como seria de se esperar, foi levado aos palcos de teatro e às telas de cinema, com grande sucesso em ambos os casos.

Mark Twain nasceu em 30 de novembro de 1835, quando o cometa Halley começava a se aproximar da Terra e já podia ser visto por telescópios. E, coincidentemente, morreu quando ele começava a se afastar do nosso planeta, depois de proporcionar feérico e inesquecível espetáculo e despertar fascínio nos esclarecidos e terror nos ignorantes e supersticiosos, que entendiam que a sua passagem, com toda aquela “pompa e circunstância”, era o prenúncio do fim do mundo. Não era, evidentemente.

Escrevi uma crônica, a respeito, em 1986, quando da última passagem desse – fascinante para uns e assustador para muitos – corpo celeste, embora sem o brilho de 1910, que partilhei ontem com vocês. E encerrei o referido texto da mesma forma que encerro este. Ou seja, sugerindo que o gênio das letras do seu tempo, o “pai da literatura norte-americana”, o “profundo filósofo com visão de profeta”, chegou à Terra na cauda do Halley, que quase 76 anos depois voltou para buscá-lo e levá-lo para o infinito. E isso aconteceu há cento e sete anos...


Boa leitura!


O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Gotas de chuva


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral
  
O tempo fechou
e o céu desabou.
Gotas de chuva
caem no chão
crestado.
Não corro,
ando devagar
saboreando as
gotas pesadas.


Uma mulher
Velha corre,
tem roupa
no varal.
A mulher nova
também corre
pra não molhar
o vestido novo
que só usou
no Natal.
Um menino ruivo
da cor de ferrugem
não corre, apenas
sorri sentindo um
mudo prazer.

A chuva agora diminui...
salvaram-se as roupas
do varal e o vestido
novo da moça...
aquele do Natal.


* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário
O burocrata


* Por Talis Andrade


Na velação
todo morto
um santo
e quanto
mais morto
mais santo
Incelenças cantam
as virtudes
Uma vida dedicada
à família
ao trabalho
Uma vida
de mãos limpas
sem escrita
na folha corrida
Incelenças cantam
a pobreza
cobiçada moeda
dos mortos
como garantia
da conquista
do paraíso
—
Publicado in O Enforcado da Rainha. Talis Andrade, Livro Rápido, 2009, Olinda


* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).


Nada só queria ser tudo


* Por Giacomo Mastroianni


"Livre pensar é só pensar" (Millôr Fernandes).


Era uma vez um nada. Ele nasceu do nada, nada se criou e seu maior sonho era ainda um dia chegar a ser tudo.

Mas, para isso, teria que viajar muitas estrelas, muitas galáxias, zilhões e zilhões de anos-luz, à procura de um buraco negro, o que seria praticamente impossível.

Nosso nada já ouvira falar da lenda do arco-íris, que uma vez transposto, poderia mudar a essência das coisas, aqui na terra. Mas não botava muita fé em histórias de fantasia. Para ele, além da ciência, nada é possível. Tudo é difícil.

O nada levava, pois, uma vida desolada, em companhia de outros amigos de infortúnio, como o zero à esquerda, a ausência, o silêncio absoluto, o espaço vazio, a solidão e a saudade.

Nada era filho de ninguém com nenhuma pessoa e vagava nas trevas, viajando sem rumo de um ponto qualquer em direção ignorada e incerta. Não se submetia a nenhuma lei, além da inércia.

Seus valores não eram nem positivos nem negativos. Não chegando a ser imoral, tampouco era moralista. Nada era amoral, no que residia seu paradoxo. Pois se nada era amoral, tudo poderia sê-lo.

Os homens mais sábios não ousavam fazer qualquer prognóstico sobre o destino de nada. Pois se ele não tinha nada de tudo, por outro lado, ele, somente ele, tinha tudo de nada.

Na sua infinita misericórdia, Deus então se apiedou do nada. E resolveu recompensá-lo com alguns privilégios. Nada de trabalho, nada de fome, nada de filhos para sustentar e nada de mulher para aturar.

Ainda assim, nada satisfeito, ele queria era amar. É... tudo é muito bom, quando desejado. Pois que seja.

Então... do nada, Deus criou sua Eva. Do nada, fez-lhe um trabalhador. Do nada, colocou-lhe um fardo nos ombros e do nada fez dele um sonhador. Um homem que ama e que sofre.

Para quê? Para nada.


* Publicitário, assessor de comunicação e escritor (ex-Propeg, Norton, Denison, McCann e CBC&A). Atualmente, reside em Fortaleza, onde termina de escrever o livro "Advogados Cearenses", editado pelo jornalista e advogado Sabino Henrique, a ser lançado neste mês de fevereiro, com 50 biografias de advogados mais admirados do Estado, apontados pela classe através do site www.direitoce.com.br



Bonsai


* Por Gilberto Nogueira de Oliveira


Bonsai.
Aberração
Agronômica.
Imagem
Aterradora
De 
Um
Ser
Forçadamente
Subdesenvolvido
Para 
Viver
No nanismo. 


* Poeta e romancista baiano
Reinvenção


* Por Dinovaldo Gilioli


me reinvento
no vento que sou
grão de ar
eia
alicerce do nada.

de repente a chuva
- e a hora vazia -
quantos pingos
cabem numa bacia?


* Poeta