domingo, 1 de janeiro de 2017

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, nove meses e um dia de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – O que estamos celebrando.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Ano Novo”.

Coluna Direto do Arquivo – Risomar Fasanaro, crônica, “Paulinho do Bandolim”.

Coluna Clássicos – Fernando Pessoa, poema,  “Ano Novo”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, artigo, “O lobo e os ovos de Hegel”.

Coluna Porta Aberta – Pedro Du Bois – poema – “Luta”.

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Livros que recomendo:

“Poestiagem – Poesia e metafísica em Wilbert Oliveira” (Fortuna crítica) – Organizado por Abrahão Costa Andrade, com ensaios de Ester Abreu Vieira de Oliveira, Geyme Lechmer Manes, Joel Cardoso, Joelson Souza, Levinélia Barbosa, Karina de Rezende T. Fleury, Pedro J. Bondaczuk e Rodrigo da Costa Araújo – Contato: opcaoeditora@gmail.com  
“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Boneca de pano” -  Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Águas de presságio”Sarah de Oliveira Passarella – Contato: contato@hortograph.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“A sétima caverna”Harry Wiese – Contato:  wiese@ibnet.com.br
“Rosa Amarela”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br
“Acariciando esperanças”Francisco Fernandes de Araujo – Contato: contato@elo3digital.com.br   
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br




Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.





O que estamos celebrando



O que é o tempo, caríssimo leitor? É um conceito abstrato, embora tratando do concreto. É uma criação exclusiva do homem, tendo nosso planeta, a Terra, e nossa estrela, o Sol, como referenciais. Os animais e demais seres vivos não contam o número de alvoradas e de ocasos (dias e noites) e muito menos a volta completa deste nosso mundinho ao redor do astro que o ilumina e aquece (os anos) de suas vidas. Limitam-se a viver e a seguir seus instintos, sem se aterem à questão de “idade”, coisa exclusivamente humana. Mesmo que haja vida inteligente em outras partes do universo (o que não deixa de ser uma probabilidade, mesmo que não se trate de possibilidade), se esses seres tiverem criado o conceito de tempo, duvido que sua contagem seja sequer “parecida” com a nossa. Nem poderia ser.

Explico. Para que fosse igual (o que a lógica me induz a duvidar), teriam que habitar um planeta igualzinho à Terra (sem tirar e nem por), com as mesmas dimensões, peso e características, além de contar com um satélite estritamente igual à Lua, orbitar uma estrela que não difira em absolutamente nada do Sol, e que, de lambuja, apresente a mesmíssima distância e também radiação do nosso “astro rei”. Convenhamos, leitor, a probabilidade de haver outro mundo assim beira a zero. Só não descarto por completo que isso possa ocorrer dada a dimensão absurdamente imensa, quiçá infinita, do universo.

Basta olhar para o céu para intuir que este conjunto monumental conta com bilhões e bilhões de galáxias. Estas, por seu turno, têm bilhões e bilhões de estrelas. E tais sois, ao fim e ao cabo, têm bilhões e bilhões de planetas e vai por aí afora. Para isso, nem é preciso ser astrônomo ou contar com sofisticados telescópios. A observação a olho nu pode nos dar essa certeza. E quantos são todos esses astros, que ascendem a 10 elevado á enésima (e põe enésima nisso!!!) potência? Ninguém jamais poderá sequer estimar, mesmo que com baixíssima possibilidade de acerto, quanto mais saber de verdade.

O homem só criou esse “conceito”, sem o qual não existiria, entre outras coisas, a disciplina chamada de Física, após “inventar” os números. Ou seja, após conceber a idéia de “contagem”. Isso é tão lógico que constitui o óbvio dos óbvios, sem dúvida. E quando se deu essa criação? Como saber? Esse é mais um dos tantos e tantos mistérios que cercam nossa origem (como, quando e por que?), finalidade e destino, e que jamais será desvendado, mas que permanecerá, enquanto esse animal inteligente existir como espécie, espicaçando nossa insaciável curiosidade.

O que vem a ser, segundo nossa convenção, um dia? Qualquer criança razoavelmente instruída sabe que é uma volta completa da Terra ao redor do seu próprio eixo (imaginário), por sinal inclinado, diferente de outros planetas. Qual a causa dessa inclinação? Só se pode especular a propósito. Esse giro integral foi subdividido por vinte e quatro, e tal subdivisão foi batizada de horas. Para sofisticar ainda mais nossa contagem de tempo, as horas foram divididas por sessenta (os minutos) e cada um destes foi repartido novamente por outros sessenta (os segundos).

Convenhamos, é engenhosíssima essa “invenção” e, sobretudo, é prática. Nossa espécie não consegue mais ficar sem esse conceito. E o que vem a ser um ano? É a volta completa da Terra, em sua órbita elíptica, ao redor do Sol. É isso o que estamos celebrando, mais uma vez, desde ontem e ao longo deste domingo. Sua duração aproximada é de 365 dias, cinco horas, 48 minutos e 48 segundos. A cada quatro anos, se faz o acréscimo de mais um dia em nosso calendário, o Juliano (que, aliás, é relativamente novo), inserido no mês de fevereiro, embora faltem resíduos de minutos e segundos, que são desconsiderados.

A humanidade já teve dezenas de calendários diferentes para medir o tempo. Ainda hoje, há pelo menos uns dez deles, mundo afora, embora para efeitos práticos (para o comércio, por exemplo), a comunidade mundial regule suas atividades pelo que vige no Ocidente, o Gregoriano. Daí eu não levar muito a sério essa questão de datas no estudo da História. Enfim... Destaque-se que, sem o conceito de tempo, não haveria, também, o de “velocidade”. Afinal, esta vem a ser o quanto um  objeto (ou uma pessoa) se desloca num espaço definido, em determinado período.

Sei que não lhe trouxe nenhuma novidade, esclarecido leitor, e nem era a minha intenção. Tratei do assunto apenas para lembrar o que estamos celebrando desde a noite de ontem e no correr deste domingo. Encaramos essa passagem de ano como o fim de um ciclo e início de outro, com a esperança de que seja melhor do que o período que se encerrou. Até pode ser. Contudo, somente será se todas as circunstâncias forem favoráveis e se fizermos a nossa parte. Façamo-la, pois! E que ao cabo dos próximos 365 dias, 5 horas, 48 minutos e 48 segundos não tenhamos o que lamentar (ou, se tivermos, que isso seja pouco, quase nada) e que tenhamos muitíssimo a agradecer e a celebrar. É o que desejo, do fundo do coração, a todos vocês que me honram com seu prestígio e amizade.

Boa leitura!


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk  
Ano Novo


* Por Pedro J. Bondaczuk


Corrida de obstáculos do tempo. Ousado,
sem dúvidas, temores, avanço confiante,
salto sobre o abismo de um pico elevado.
Nenhuma coisa me detém. Avante! Avante!

Supero pantanais e areia movediça,
escalo altas montanhas que ninguém escala,
sufoco desânimos, dores e preguiça,
e pulo por sobre a mais larga e funda vala.

Nada me desanima, nada me detém.
pois não há o que abale minha confiança,
da dúvida não me deixo fazer refém
e jamais abro mão de tanta esperança.

Atravesso rios e rios, que sequer dão pé,
e supero os desertos mais calorentos,
pois escudado em minha inabalável fé
não temo o tempo. Desafio os elementos.

Embriagado de entusiasmo, forte e viril,
sem dúvidas, temores, eu salto no escuro,
despojado de qualquer sentimento vil,
íntegro, aterrisso nos braços do futuro.

Pensando no próximo, no bem coletivo,
na justiça e felicidade do meu povo,
feliz, bendigo à vida, ao meu tempo bendigo,
adentrando outro desafiador Ano Novo!!!

(Poema composto em Campinas, em 30 de dezembro de 2011)

 * Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk


Paulinho do Bandolim


* Por Risomar Fasanaro

Quando ele estava ausente, minha mãe sempre se referia a ele como “Paulinho, meu filho”...Ele era o seu predileto, embora ela negasse isso de pés juntos, mas nós, os outros três, sabíamos que ele era tudo pra ela.

E mesmo quando  já bem doente, e era eu  que cuidava dela 24 h por dia, era assim que a ele, ela  se referia: “Paulinho meu filho é muito bom, todos os domingos vem me visitar...” E eu tinha de engolir aquilo calada, mesmo porque sou talvez sua fã número 3, já que ela era a número um e Dalmar, a mulher, a número dois.

Acho que até hoje, lá no céu, onde sempre nossas mães estão, ela não nos cede seu lugar. Uma prova? Sabia todos os nomes dos choros que ele tocava.

Mas a ligação de  Paulo com o bandolim começou com uma brincadeira. Todas as tardes, quando todos nós, crianças, nos juntávamos para brincar, na Vila Militar de Socorro, Pernambuco, íamos à casa do seu Bonfim, um dos sargentos que moravam na Vila.

Seu Bonfim tinha um cavaquinho, e não me perguntem a razão, porque não tocava nada, nem a esperança de ter algum descendente que viesse a tocar havia, já que ele não tinha filhos, nem sobrinhos, nem nada. Era só ele e a mulher, dona Luci, um casal gaúcho maravilhoso...

Ele tinha o hábito de todos os dias  presentear o cavaquinho a um de nós. Só que no dia seguinte pedia o instrumento de volta. Assim, o cavaquinho passou por umas oito, dez mãos, passeou por umas dez casas, mas sempre voltava ao lar: a casa do seu Bonfim.

Há coisas inexplicáveis: por que diariamente ele dava aquele cavaquinho a um de nós e no dia seguinte o pedia de volta? Eu sempre lhe dizia: quando for minha vez, não vou devolver, vou ficar com ele pra sempre e aprender a tocar.

E aquele dia chegou: ele me deu o cavaquinho de presente. E fiz metade do que havia prometido. Levei o instrumento para casa. Creio que já naquele tempo meu anjo Guerrilheiro cochichava  coisas, inspirações em meu ouvido.

No primeiro dia tentei “tocar” alguma coisa, mas em poucos instantes ficou provado que eu não tinha o menor  talento para a música. 

Durante alguns dias o instrumento ficou em cima do guarda-roupa sem que ninguém mexesse nele. Sempre acreditei que os objetos confeccionados com matéria viva também têm alma, e que alguns se destinam ao seu dono desde sua fabricação. Aquele cavaquinho talvez soubesse disso. Não sei. Ali ficou, como se precisasse de algum tempo se preparando para a missão que viera cumprir.

Lembro-me de que meu pai foi falar com o colega, “preciso devolver o cavaquinho que minha filha levou...” mas  seu Bonfim o sossegou: “pode deixar, eu dei o instrumento a ela”.
Depois daquele estágio em cima do guarda-roupa, meu irmão Paulo começou a arranhar o instrumento. Ficávamos encantados ouvindo-o tocar as primeiras notas de “É com esse que eu vou...”

Como se tudo estivesse premeditado, alguns dias depois Bernardo, um primo de minha mãe que viera de Natal, foi morar conosco  e disse ao meu irmão que aquela afinação não era bonita. Que afinação bonita era a de bandolim. Afinou o instrumento e ensinou   uns sete acordes ao meu irmão, que a partir dali começou a achar que tocava. Mal, mas tocava. Paulo estava com catorze anos naquela época.

Um dos amigos dele, Everaldo, era metido a cantor, e assim o grupo de meninos criou o “Divina Poeira”. Grupo que hoje se chamaria de banda. Uma banda musical de quinta categoria, e que recebeu aquele nome porque  tocava embaixo de um poste em frente à nossa casa em meio a poeira da rua, porque o som era tão ruim que ninguém agüentaria aquilo dentro de casa, atrapalhando os programas da estação de rádio  cujo slogan era: Rádio Jornal do Comércio de Pernambuco falando para o mundo. No caso, o mundo não chegava  nem à beira do rio São Francisco, mas que dava um orgulho danado ouvir aquilo na voz  de um apresentador eloqüente, dava...

Enquanto isso meu irmão  Paulo ia tocando seu cavaquinho com afinação de bandolim.

Vendo  seu interesse por música, sargento Albuquerque, maestro da banda do quartel, pediu a ele que tocasse alguma coisa, e após a execução lhe disse: “menino, você tem que tocar é bandolim. Bandolim tem um som mais grave, mais cheio, as cordas são duplas... Tocar cavaquinho com afinação de bandolim não é o ideal...”

O sonho de ter um bandolim passou a ocupar a cabeça do meu irmão. Naquela época ele estudava no Ginásio Pernambucano  e quando saía do colégio, ia até a rua da Imperatriz ver os instrumentos musicais na  Casa Moderna, uma  loja de instrumentos  que ficava na esquina da rua Nova com a Praça Joaquim Nabuco. Na vitrine, seduzindo-o, brilhava um bandolim de cuia, que custava R$ 550,00 (mil réis,cruzeiros?...não sei dizer).

O que sei é que o preço daquela cuia mágica de onde emanava a promessa de muitas canções custaria  muitos vestidos, blusas e saias costuradas por minha mãe, até altas madrugadas; pois o salário de sargento do meu pai, mal dava para as despesas normais.  E todos nós sabemos, já naquela época o que é essencial para o artista é supérfluo para as demais  pessoas. Ainda mais quando esse artista é apenas semente que sequer germinou.

Enquanto isso, durante a semana ele ia a Piedade, onde se juntava a Miruca, Baixinha e Zé do Carmo, três grandes músicos, e nos finais de semana  saía com os outros integrantes do “Divina Poeira” para ir à Curva do Caranguejo, em Jaboatão. Lá existia um casarão imenso com umas oito janelas na frente. Os garotos ficavam na janela que dava para um salão onde Tia Amélia (Amélia Brandão)  tocava piano e  Aprígio de França bandolim. Aquelas audições acirravam mais e mais seu desejo de ter um instrumento.

Todos os dias  pedia um bandolim à minha mãe, e um dia ela conseguiu juntar o dinheiro e os dois foram à Loja, no Recife,  comprar o instrumento que veio sem capa, mas ela costurou uma de brim azul para protegê-lo.

Por essa época, o bandolinista da família andava mal em matemática, por isso meus pais contrataram um professor particular para ele em Coqueiral, bairro próximo do Recife.  Um dia, saindo da aula de matemática, “Paulinho meu filho” passou em frente a uma casa de onde saía o som de um bandolim. Encostou-se à janela e ali ficou ouvindo o instrumento. A partir daquele dia todas as vezes que saía da aula particular, passava por aquela casa para  ouvir Aprígio de França.

Aprígio não só tocava todas as composições de Luperce Miranda, um dos maiores bandolinistas do país e que faleceu há  poucos anos,  como era também exímio em sua arte. E curioso: ele fazia parte da banda musical da polícia de Pernambuco e lá o instrumento que tocava era prato.

Paulo um dia criou coragem e pediu  a ele que o ensinasse, mas ele alegou não ter tempo para dar aulas, e indicou o livro de Jacó Tomás, recomendando que ele estudasse aquele livro. Para decorar a posição das notas, meu irmão colou etiquetas com os nomes de cada uma, no braço do bandolim, e assim aprendeu.

O tempo passou e viemos para São Paulo. Aqui meu pai contratou um professor de música para  lhe dar aulas. Lembro-me de que um mês depois meu pai chegou todo orgulhoso contando que o professor lhe havia dito: Fasanaro, eu não tenho mais o que ensinar ao seu filho. Ele já é um músico, sabe tudo. Daqui a pouco ele é quem  vai me ensinar...” E de todas as lições que recebeu a mais importante talvez tenha sido a daquele  professor, tenente músico do 4° RI de Quitaúna (onde Lamarca serviu),  que lhe disse: “vá para o canto da parede e fique tocando até que não ouça o mínimo barulho da palheta. Quando você conseguir isso pode se considerar um bandolinista. “É só isso que lhe falta.”

Só agora, depois que ele me contou essa lição que recebeu naquela época, é que me dou conta de que achava estranho ver meu irmão pelos cantos da sala, de frente para as paredes, quase grudado a elas, tocando. Pensava com meus botões: “como os artistas são estranhos...”

A verdade é que ele passava todo tempo livre agarrado àquele instrumento. Já era rapaz, quando às vezes chegava de madrugada, dava umas batidas leves na porta do meu quarto e perguntava: “você está dormindo?” e eu que tenho um sono levíssimo, já acordada dizia que não e ele: “eu quero te mostrar um acorde novo que eu descobri. Quer ouvir?” Eu dizia que sim e ele sentava aos pés da minha cama e me mostrava.

Paulo comprava todos os discos de choro de Jacó do Bandolim, de Pixinguinha e de vários outros. Quando já tocava muito bem, fundou, com mais dois violonistas e um pandeirista o Conjunto Odeon. Com esse grupo ganhava o primeiro lugar em todos os programas de calouros que participavam.

Além de instrumentista Paulinho do bandolim tem mais de oitenta composições. Entre elas “Um piano e uma saudade”, valsa composta assim que aqui chegamos, “Caxangá” e “Gaibu”, choros, a valsa  “Flauta de Ébano” e “Um maxixe para Elisa”, entre outras. Suas composições atualmente são executadas por vários dos seus amigos, mas apenas “Bandolins também choram” está gravada  em uma faixa do CD de Arnaldo do Cavaquinho, músico que ele considera um dos maiores do país.

Tem entre seus compositores prediletos  Pixinguinha, Jacó do Bandolim, Rossini Ferreira, Luperce Miranda, Marco César, Waldir Azevedo e Ernesto Nazareth.

No final dos anos setenta ele viajava daqui pro Rio de Janeiro. Descia no aeroporto e seguia direto para o MIS. Lá copiava à mão partituras inéditas dos seus compositores favoritos. Nos últimos anos em que fez isso, de tanto freqüentar o museu dois funcionários passaram a copiar as partituras, também a mão, e enviar-lhe pelo correio.

Hoje  possui um dos maiores arquivos de partituras do país. Partituras que ele repassa aos amigos que, como ele, amam a música, e  em especial, o choro.

Atualmente toca em casa e aos sábados na Loja Contemporânea, onde se reúnem músicos de todo o país. Lá é conhecido como Paulinho do Bandolim ou Fasanaro.

Mas de todo seu repertório o mais emocionante pra mim, é ouvi-lo tocar “Asa Branca” em dueto com a filha Simone ao piano. Emoção só superada ao vê-lo  executar “Gaibu.

Pra mim talvez seja esta sua composição mais importante, já que  ele se inspirou naquilo que não viveu, é a composição da ausência, porque quando em 45 meu pai foi transferido para lá, todos nós fomos, mas ele ficou na casa dos meus padrinhos. É possível  que  aquela separação o tenha marcado para sempre, daí a razão desse choro. Composição que poderia ser uma valsa, mas a que ele imprimiu o ritmo de choro.  


* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora,  autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.



Ano Novo


* Por Fernando Pessoa

Ficção de que começa alguma coisa!
Nada começa: tudo continua.
Na fluida e incerta essência misteriosa
Da vida, flui em sombra a água nua.
Curvas do rio escondem só o movimento.
O mesmo rio flui onde se vê.
Começar só começa em pensamento.


* Poeta, escritor, publicitário, astrólogo, crítico literário, inventor, empresário, tradutor, correspondente comercial, filósofo e comentarista político português.
O lobo e os ovos de Hegel


* Por José Ribamar Bessa Freire


Confesso que este amazonense aqui morre de inveja dos amigos de outros estados do Brasil. É que no Rio, o ex-governador Sérgio Cabral, sua mulher Adriana e o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha roubaram dinheiro público, mas passam o réveillon no xilindró. Em Brasília, os ministros Geddel Vieira e Romero Jucá prevaricaram, mas tiveram de renunciar ao cargo. Já no Amazonas, o crime compensa. Desde 1542, quando Orellana matou índios até as recentes denúncias contra o secretário de Fazenda Afonso Lobo, ninguém é preso, ninguém renuncia. Parece até crime cometido pelo PSDB de Minas Gerais.

Quando é que o Amazonas vai assistir a prisão de um de seus corruptos de peso? Unzinho apenas! A Operação "Maus Caminhos", da Polícia Federal, comprovou que uma quadrilha desviou aqui quase R$ 300 milhões de recursos da saúde, um crime que brada aos céus e clama a Deus por vingança, pela sua iniquidade, pelas mortes que acarreta, pelo sofrimento que provoca. Mas nenhum corrupto ilustre é preso e nem pede pra pagar e sai. Eles estão vagando e andando para a opinião pública.

Este Diário do Amazonas, cumprindo sua função informativa, correu atrás do "Mau Caminho". Xeretou, investigou, vasculhou o Portal da Transparência do Estado e deu um flagrante no secretário de Fazenda, Afonso Lobo, que aparece como suspeito de favorecer a empresa Tapajós Comércio de Medicamentos Ltda, cujos donos eram sócios dele até 2010 e que, em seis anos, faturou em contratos com o governo do Estado R$ 36 milhões, doando R$ 250 mil para a campanha do senador Omar Aziz.

Dois meses após assumir o cargo, Afonso Lobo concedeu benefícios fiscais à empresa do qual é sócio, aponta o Diário Oficial do Estado (DOE) de 27 de fevereiro de 2013. Lá consta o documento no qual a Sefaz reduz percentuais de ICMS de produtos farmacêuticos à Tapajós Perfumaria Ltda.

Santo remédio

O Diário teve acesso ao contrato de constituição da Tapajós Perfumaria, em janeiro de 2003, onde Afonso Lobo Moraes aparece como um dos sócios, mas o secretário jura – e quer ver o governador José Mello mortinho no inferno se estiver mentindo – que não há qualquer vínculo societário entre a Tapajós Medicamentos e a Tapajós Perfumaria. Uma vende perfume, a outra remédio, as duas comerciam ilusões. E o Governo do Estado, como sabemos, compra remédios superfaturados, mas ainda não compra perfumes idem.

Acontece que, segundo levantamento do Diário, os mesmos donos da Tapajós Medicamentos são os donos da rede de drogarias Santo Remédio, que monopoliza a praça da cidade de Manaus. E o secretário Afonso Lobo, quando era presidente do Conselho Fiscal, isentou multa milionária da Santo Remédio, tornando-se sócio dela no outro ano, deixando depois convenientemente de sê-lo. Os ex-sócios de Lobo foram dispensados de licitações, conforme atestam portarias no DOE.

Além disso, a Tapajós Distribuidora foi acusada de irregularidade na aquisição e distribuição de remédios pela Central de Medicamentos do Estado do Amazonas, de 2003 a 2005, quando houve repasse de recursos federais, o que deu origem a processos no Tribunal de Contas da União (TCU) e na Justiça Federal. O TCU determinou que os responsáveis pelo superfaturamento dos remédios restituam ao Fundo Nacional de Saúde o que lhe foi surrupiado. Quem quiser verificar, basta consulta os acórdãos publicados no DOE.

Qual a reação de Afonso Lobo diante das denúncias? Declarou que "a simples situação de sócio cotista de iniciativa privada não representa em si ilegalidade ou infração ética, não há vedação legal”. Lobo concluiu o blá-blá-blá com um uivo que deixou os raros cabelos de José Melo Merenda em pé: “O Amazonas já teve governadores e secretários de Fazenda sócios, inclusive majoritários de empresas privadas”.

Santificada merenda

Diante do escândalo, o governador José Mello Merenda não tem forças para desnomear seu secretário Afonso Lobo Remédio e parece que não deseja fazê-lo, porque ambos teriam executado operações similares, um na educação, o outro na saúde. É a aliança do santo remédio com a santificada merenda. Por seu lado, Lobo diz que não renuncia ao cargo nem que a vaca tussa. Sem apresentar qualquer dado para esclarecer as denúncias,  se fez de vítima e partiu para o ataque contra o jornal.

Desprezando a função fiscalizadora da imprensa, Lobo soltou nota, dizendo que sofre "ardilosos ataques" e "retaliação desesperada feita por quem teve interesses contrariados". Fala que não vai se intimidar com a chantagem, nem com as "futricas dos enviados de Belzebu que servem ao inferno da discórdia" e que defenderá sua honra e sua carreira da "leviandade" cometida por "um garoto inexperiente" - é assim que ele nomeia o  vice-presidente da Rede Diário de Comunicação, Cyro Batará Anunciação. O leitor só não entende é como é que a "inexperiência do garoto" inocenta o Lobo. Essa não parece a história dos ovos de Hegel?

O filósofo alemão Hegel (1770-1831), no texto “Quem pensa abstrato?”, se diverte relatando os "argumentos" de uma velha trapaceira que vendia ovos estragados na feira da cidade de Stuttgart. Uma freguesa reclamou:

- Puxa vida! Na semana passada, a senhora me vendeu ovos podres.

A velha contra-atacou uivando como Lobo:

- Quem você pensa que é, sua sirigaita, para prejudicar meu negócio? Tua mãe fugiu com um soldado francês, teu pai era um corno manso. E eu conheço os machos que compram teus vestidos.

O discurso da velha serviu para Hegel exemplificar as artimanhas de uma argumentação torta. Preocupado com o método de busca da verdade, ele pergunta: afinal, o que é que a honra da moça tem a ver com os ovos podres? Ou, traduzido para uma linguagem regional: o que é que o urucu tem a ver com as calças? Não há qualquer relação de causalidade entre uma coisa e outra. O que a feirante tinha de provar era que os ovos não estavam estragados. É isso que se espera do Lobo em pele de cordeiro. Falar da "molecagem" ou da "inexperiência do garoto" não passa de um truque para esconder a verdade.

* Jornalista, professor e historiador.


Luta


* Por Pedro Du Bois


Luta perpetrada
em esperanças vãs
de desenlaces

- jovem soldado
  remete o soldo
  para casa -

luta entranhada
na atualidade amordaçada
em discursos

- o soldo permite retornar
   ao ponto de partida -

luta desgraçada
no nome comercializado

- nome lembrado
 na homenagem.

* Poeta, autor dos livros “Brevidades” e “Tânia”, lançados através do Projeto Passo Fundo – blog HTTP://pedrodubois.blogspot.com.br