domingo, 2 de outubro de 2016

Literário: Um blog que pensa

(Espaço dedicado ao Jornalismo Literário e à Literatura)

LINHA DO TEMPO: Dez anos, seis meses e quatro dias de existência.


Leia nesta edição:

Editorial – Neurose nossa de cada dia.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema, “Megalópoles”.

Coluna Direto do Arquivo – Risomar Fasanaro, conto, “O retorno”.

Coluna Clássicos – Alejo Carpentier, aula magna na Universidade Central da Venezuela, “Consciência e identidade da América”.

Coluna Porta Aberta – José Ribamar Bessa Freire, crônica, “Professor até debaixo d’água”.

Coluna Porta Aberta – Aleilton Fonseca, crônica, “A musicalidade explícita do poeta José Nêumanne”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.





Neurose nossa de cada dia

O nosso cérebro é uma das estruturas mais fantásticas e misteriosas que existem e, por isso, é a que requer maior cuidado para que se tenha uma vida saudável, equilibrada e produtiva. Não há nada no mundo que se compare, ou que rivalize, com o seu funcionamento. Seu potencial é tão grande, que se torna impossível de delimitar até onde vai.

É o cérebro que rege a totalidade dos nossos atos – voluntários e involuntários; conscientes e inconscientes.  Tanto a Medicina, quanto o Direito, estão de pleno acordo que é nele que se localiza a verdadeira “sede” da vida. Por essa razão, para efeito de doação de órgãos com vistas a transplantes, a morte do possível doador é legalmente  definida não quando o coração pára de pulsar, mas quando a atividade cerebral cessa.

O cérebro tem a capacidade de promover a cura de um sem-número de doenças, de aplacar as piores dores e de operar tantas e tantas outras maravilhas, desde que corretamente estimulado. Por exemplo, através de uma técnica chamada de Visualização, é possível tratar males graves e crônicos, além de curar medos e vícios. Nos Estados Unidos, o método é usado amplamente, há anos, na preparação de atletas, com sucesso total.

Em contrapartida, o mesmo cérebro, que tem tamanho potencial curativo, pode causar (ou agravar) severos desarranjos comportamentais, que findam por afetar também o restante do organismo, em caso de mau-funcionamento, e causar doenças de difícil cura ou até mesmo fatais. É o caso específico, por exemplo, das várias neuroses, que afetam parcela considerável da população mundial, e que provocam sofrimentos, constrangimentos e prejuízos incalculáveis aos que são afetados por elas.

Alguns cérebros são resistentes à maioria dos vários tipos de agressões psicológicas externas do cotidiano a que todos estamos sujeitos. Proporcionam, dessa forma, aos seus detentores, reações equilibradas, compatíveis a quaisquer circunstâncias traumáticas e/ou tensionantes que venham a enfrentar. Reagem, de maneira espontânea, no sentido de contornar esses perigos racionalmente e assegurar, dessa forma, a saúde e a felicidade às pessoas consideradas resistentes. Outros, no entanto, são vulneráveis a esses mesmos estímulos. E a ciência sequer sabe explicar a razão porque uns resistem, e até saem fortalecidos das agressões psicológicas do cotidiano, e outros não.

Tecnicamente, a neurose não é doença. É, sim, uma reação anormal, exagerada, do sistema nervoso, em relação a uma experiência vivida (reação vivencial). É, pois, uma maneira de a pessoa ser e de reagir à vida. Pode ser evitada mediante um comportamento positivo, em que se cultive o bom-humor, a alegria, a esperança e a fé.  O problema, na maioria das vezes, é de natureza constitucional. Ou seja, o neurótico é mais sensível do que o normal a determinadas situações ou acontecimentos. É como se tivesse alguma espécie de alergia, só que, no caso, de caráter psicológico. Por isso, não se pode dizer que a pessoa “está” neurótica, mas que “é” neurótica. Mesmo que não manifeste essa reação, ela pode ser deflagrada a qualquer momento, face determinadas situações. Há pessoas potencialmente sujeitas às neuroses e que, no entanto, não as manifestam a vida toda. E há outras que convivem com esse desajuste desde a infância e não se livram nunca dele.

A maneira exagerada de reagir leva o indivíduo a adotar uma série de comportamentos que fogem da normalidade. Evita, por exemplo, determinados lugares e recorre a certas práticas para aliviar a ansiedade, entre outras tantas coisas inusitadas e, por isso, anormais, que faz. O neurótico tem plena consciência do seu estado, mas, muitas vezes, sente-se impotente para modificá-lo, o que só multiplica a sua angústia, o seu desespero e o seu sofrimento.

Um dos principais tipos de neurose é o chamado “Transtorno Fóbico-Ansioso”. Caracteriza-se pela prevalência da fobia (medo exagerado de determinadas coisas ou situações), entre outros sintomas de patológica ansiedade. As mais comuns são, entre tantas, as de ficar só, as de trovoadas, as de contrair doenças e as de cometer pecados. Os especialistas, contudo, já catalogaram mais de 700 fobias e acreditam que existam mais de mil delas.

Outra forma de neurose é o “Transtorno Ansioso”. Trata-se de uma ansiedade intensa e persistente, que traz sérios e profundos reflexos orgânicos. Algumas pessoas podem ter, por exemplo, sintomas cardiovasculares, como palpitações, sudorese ou opressão no peito. Outras manifestam reações gastrointestinais, como náusea, vômito ou vazio no estômago. Outras, ainda, sentem profundo mal-estar respiratório ou predomínio de tensão muscular exagerada, tipo espasmo, torcicolo e lombalgia. Como se vê, a sintomatologia é das mais variadas. Psicologicamente, a ansiedade pode comprometer desde a atenção e a memória do paciente dessa espécie de anomalia, até a sua capacidade de interpretação fiel da realidade.

A “Histeria”, por sua vez, é um tipo de neurose que tem, como sintoma principal, a teatralidade, a sugestionabilidade, a necessidade de atenção constante e a manipulação emocional das pessoas que convivem ou que estejam ao redor do neurótico. O histérico pode desmaiar, ficar paralítico, sem fala, trêmulo e desempenhar todo tipo de papel de doente.

Já os “Transtornos do Espectro Obsessivo-Compulsivo” têm, como principal reação, a incapacidade da pessoa de controlar manias e rituais. Os pacientes dessa patologia, entre outras coisas, não conseguem administrar pensamentos desagradáveis e absurdos. Vivem num permanente terror de perigos que, na verdade, são, na maioria, apenas imaginários. Finalmente, entre as neuroses mais comuns, está a “Distimia”, que é a tendência a longos períodos de depressão, que levam o neurótico, não raro, a perder até a vontade de viver e, em casos extremos, a cometer suicídio.

A psicóloga gaúcha, Ana Maria Rossi, autora do livro “Visualização: o sucesso através dos olhos da mente” (Editora Rosa dos Tempos) explica que o cérebro não distingue o real do imaginário. Por isso, ter pensamentos e imagens positivos ajuda conseguir o que se quer. E, se a pessoa for propensa às neuroses, esse comportamento ideal atua como um poderoso, perfeito e eficaz antídoto, capaz de nos assegurar não só absoluta saúde mental, mas, sobretudo, uma vida equilibrada, produtiva, sadia e feliz. Daí eu insistir tanto, nestes nossos periódicos contatos, na necessidade de nunca nos deixarmos levar pela tentação de pensar e, principalmente, de agir com negativismo, com mau-humor e com pessimismo. Esse comportamento equivocado não leva a nada, além de nos expor a riscos que não precisamos correr.

Boa leitura!

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk      


Megalópoles


* Por Pedro J. Bondaczuk


Caminho, sonâmbulo inconsciente
qual conspurcante zumbi
disforme, raquítico, trôpego,
por ruas desconhecidas
da cidade dos pesadelos.

Sombra entre esquivas sombras,
encasquetado, ensimesmado
e perdido na tarde suja
de intensíssimo calor
vago sem bússola nem mapa.

Arranha-céus monstruosos
abatem a luz antisséptica do sol
e desenham disformes silhuetas
em muros emporcalhados de negro
e arruinadas calçadas de pedra.

Vislumbro pedaços irregulares,
nesgas ínfimas de céu,
de azul profundo, azul intenso,
por entre rasgos assimétricos
no encardido, no roto manto
de nuvens acinzentadas, violáceas
e espessas de tóxicos humores.

Carros desalinham-se, irregulares,
imensas lesmas de metais.
deixando oxidantes rastros.
Arrastam-se, sonolentos e ruidosos
num alarido insano, ensurdecedor,
dissonantes trombetas de Jericó.

Megalópoles torturante, nauseabunda,
máquina de moer sonhos e vidas,
monstruosa devoradora de homens,
infame, faminta e gulosa canibal
que ilude, com suas miragens,
arapucas, ilusões, sortilégios
de fortunas, glória e poder,
os cúpidos, incautos e canalhas.

(Poema composto em Campinas, em 21 de outubro de 2011).

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk

    
O retorno


* Por Risomar Fasanaro


Ante o espanto de todos, a coisa aconteceu.

Embrulhado em farrapos sobre a cama, o velho agonizante, embora mal pudesse falar, derramava impropérios e maldições sobre a filha que só lhe trouxera desgostos. Respirando com  muita dificuldade, quase sussurrando, pedia-lhe que não chorasse sobre seu cadáver já que era ela a causa de sua morte, com sua vida fácil, sua sem-vergonhice, sua desonra. Pagaria. Ficasse certa de que pagaria. Deus haveria de lhe fazer justiça, se Ele existisse... Foram suas últimas palavras.

A moça não chorava, não dizia nada. Os olhos  fitavam o pai. Águas de um lago congelado. Ninguém saberia dizer quanto tempo ficou assim.

Logo depois o velho entrou em coma e morreu. As poucas pessoas presentes dentro do quarto, nem mesmo souberam repetir direito como tudo acontecera. Nem mesmo elas acreditavam no que tinham visto.

Morto sobre a cama, o rosto começou a remoçar. Foi remoçando, remoçando, remoçando diante da surpresa dos que ali permaneciam, grudados no chão; estupefatos.

O tempo passava rápido e, era como se houvesse enlouquecido. Como se os relógios acelerassem em sentido inverso e, em segundos, o corpo pareceu ter setenta, sessenta, cinqüenta anos, e aquilo continuou. Foi ficando mais e mais jovem, tomando as feições de um adolescente, de uma criança, diminuindo, diminuindo  até que se tornou um bebê.

A filha, horrorizada, continuava imóvel. As mãos crispadas sobre o peito em desespero total, não tirava os olhos do que se passava sobre a cama.

E a coisa não parou ali. O bebê  foi  se transformando em feto e diante de todos, uma película, sabe-se lá saída de onde, o envolveu. Foi quando as pessoas viram que, de repente o ventre da moça tornou-se enorme, como se em final de gravidez.

No mesmo instante, atônitas, procuraram no morto a explicação para o que estava acontecendo, mas constataram que a cama estava vazia.

Depois, o ventre da filha foi diminuindo, diminuindo... diminuindo... e, então ela começou a suar frio e a sentir enjôo.

Foi até a sala, sentou-se em uma poltrona, para ver se melhorava, mas o enjôo aumentou. Aumentou tanto que ela não conseguiu segurar. Levantou-se apressadamente e se dirigiu ao banheiro quase correndo. Lá se pôs a vomitar tudo que comera durante o dia.


* Jornalista, professora de Literatura Brasileira e Portuguesa e escritora,  autora de “Eu: primeira pessoa, singular”, obra vencedora do Prêmio Teresa Martin de Literatura em júri composto por Ignácio de Loyola Brandão, Deonísio da Silva e José Louzeiro. Militante contra a última ditadura militar no Brasil.


Consciência e identidade da América


* Por Alejo Carpentier


Aos latino-americanos da minha geração coube um estranho destino que por si só bastaria para diferenciá-los dos europeus; nasceram, cresceram, amadureceram, em função do concreto armado... Enquanto o europeu nascia, crescia, amadurecia, entre pedras seculares, velhas edificações modificadas ou anacronizadas somente por alguma tímida inovação arquitetônica, o latino-americano nascido nos albores deste século de inventos prodigiosos, mutações, revoluções, abria os olhos no âmbito de cidades que, quase que totalmente estagnadas durante o século XVII ou XVIII, com um baixíssimo aumento de população, começavam a agigantar-se, a estender-se, a espalhar-se, a elevar-se, ao ritmo das misturadoras de concreto. A Havana que percorri na minha infância era ainda parecida à de Humboldt; o México que visitei em 1926 era ainda o de Porfírio Diaz; a Caracas que conheci em 1945 era ainda muito semelhante à Caracas descrita por José Martí.

E, de repente, eis que nossas modorrentas capitais se tornaram cidades de verdade (anárquicas em seu desenvolvimento repentino, anárquicas em seu traçado, excessivas, desrespeitosas em seu afã de demolir para substituir), e o nosso homem, consubstanciado com a cidade, torna-se homem-cidade, homem-cidade-do-século-XX, quer dizer: homem-História-do-século-XX, em povoados que rompem com seus valores tradicionais, passam, em poucos anos, pelas tremendas crises de adolescência e começam a firmar-se com características próprias, ainda que em atmosfera caótica e desacertada.

O latino-americano viu surgir, nesta época, uma nova realidade, realidade da qual foi juiz e parte, criador e protagonista, espectador atônito e ator principal, testemunha e cronista, denunciante ou denunciado.  "Nada do que me cerca me é alheio" poderia dizer, parafraseando o humanista renascentista. "Isto foi eu que fiz, aquilo eu vi construir; aquilo mais adiante me prejudicou ou eu amaldiçoei. Mas fiz parte do espetáculo - seja como ator principal, seja como corista, ou como coadjuvante"... Mas, montado o cenário, colocadas as bambolinas, pendurados os telões, é preciso ver, agora, o que vai ser reapresentado - comédia, drama ou tragédia - no vasto teatro de concreto armado.

E aí que está o verdadeiro problema: com que autores poderemos contar? Quem serão estes autores?... E para começar... quem sou eu, que papel serei capaz de desempenhar e, acima de tudo, que papel me cabe desempenhar?... Eterno reviver do "conhece-te a ti mesmo ". Mas, de um "conhece-te a ti mesmo", que se formula num mundo - o que circunda nossas ambiciosas e irreverentes cidades modernas - que, para ser honestos, conhecíamos muito mal até agora e que só agora (de poucos anos para cá: meio século apenas) estamos começando a conhecer profundamente. Está longe o tempo em que os famosos e envaidecidos "cientistas" de Porfírio Diaz, nas comemorações do centenário da independência mexicana, proclamavam que estavam resolvidos todos os enigmas do nosso passado pré-colombiano. Está longe o tempo em que contemplávamos nossos grandes homens do passado do ponto de vista único de uma devoção que excluía qualquer enfoque crítico, do imediato e do contingente... Está longe o tempo em que víamos nossa História como uma mera crônica de ações militares, quadro de batalhas, intrigas palacianas, ascensões e quedas, em textos que ignoravam o fator econômico, étnico, telúrico, de todas aquelas realidades subjacentes, de todas aquelas pulsões soterradas, de todas as pressões e apetites estrangeiros - para ser exato, imperialistas - que faziam da nossa história uma história diferente das demais histórias do mundo. História diferente desde o começo, já que esta terra americana foi o teatro do mais sensacional encontro étnico registrado nos anais do planeta: encontro do índio, do negro e do europeu de tez mais ou menos clara, destinados, no futuro, a misturar-se, entremisturar-se, estabelecer simbioses de culturas, de crenças, de artes populares, na mais tremenda mestiçagem já vista... "Temos que ser originais" - costumava dizer Simón Rodríguez, mestre do Libertador... Mas, quando pronunciava estas palavras, não tinha que fazer o menor esforço para ser original - pois já éramos originais de direito e de fato, muito antes que o conceito de originalidade nos fosse dado como meta.

Não incorre em vão convencimento americanista quem afirmar hoje, com perfeito conhecimento de causa que, antes que os conquistadores espanhóis o contemplassem sem o entender, exibia-se no Templo de Mitla, no México, o mais perfeito apogeu de uma arte abstrata longamente amadurecida - arte abstrata que não resultava de uma mera intenção de ornamentação geométrica, simétrica e reiterada, mas sim da disposição perfeitamente intencional de composições abstratas, de idêntico tamanho, nunca repetidas, vistas, cada uma como um valor plástico completo, independente e fechado. Não é preciso ser guiado por um excessivo amor à nossa América, para reconhecer que nas pinturas que adornam o templo de Bonampak , em Yucatán, apresentam-se diante de nós figuras humanas em escorços de uma audácia desconhecida pela pintura européia da mesma época - escorços que se assemelham, embora muito anteriores, ao de um Cristo de Mantegna, por exemplo. E tem mais: só agora estamos começando a nos aprofundar na maravilhosa poesia náhuatl (2) e estamos começando a perceber a singular e profunda essência filosófica das grandes cosmogonias e dos mitos originais da América.

E tem mais. Sem citarmos exemplos que poderiam se multiplicar ao infinito, desde o tempo da Conquista e da Colônia, vemos afirmar-se, de mil maneiras, a originalidade e a audácia do homem americano em obras de caráter muito diferente. É aqui, nesse nosso continente, onde nunca chegaram o romântico e o gótico, onde a arquitetura barroca encontrou suas expressões mais diversas e completas - no México, por todo o espinhaço Andino - com o emprego de materiais policrômicos, o uso de técnicas aperfeiçoadas pelo artesão índio, que os arquitetos europeus desconheciam. É aqui, nesta terra, onde, com as ininterruptas sublevações de índios e negros (desde os primórdios do século XVI), com os Comuneros de Nova Granada, com a gesta de Túpac Amaru, até o tempo das nossas grandes lutas pela independência, se assistiu às primeiras guerras anticoloniais - pois foram fundamentalmente guerras anticoloniais - da história moderna... E, indo aleatoriamente sem me deter nesta ou naquela mostra de nossa originalidade, caberia lembrar, neste ano que se denominou "Ano da mulher", que o primeiro documento energicamente feminista, firmemente feminista (documento onde se reivindica para a mulher o direito de acesso à ciência, ao ensino, à política, a uma igualdade de condição social e cultural oposta ao "machismo" que muito se vê em nosso continente...), esse documento se deve (em 1695) à portentosa mexicana Sor Juana Inés de la Cruz - autora, diga-se de passagem, de poemas "negros" que, pelo tom, se antecipam de maneira incrível a certos poemas de Nicolás Guillén, o grande poeta que vocês ouviram, há pouco, neste mesmo salão nobre.

Mais, mais e mais se poderia falar de tudo isso. Sobram bons exemplos. Nossos libertadores, nossos mestres de pensamento, nos legaram milhares de páginas cheias de observações, de análises, de considerações, de advertências, que nos deixam atônitos por sua atualidade, pela sua vigência, pela sua aplicabilidade ao presente... E agora, que há pouco mais de um século, a obra de Marx nos abriu o vasto continente de uma história que anteriormente tínhamos apenas entrevisto; agora que, dispondo de um instrumental analítico que transformou a história em ciência, podemos considerar o passado sob novos ângulos, comprovando verdades que passaram desapercebidas pelos nossos antepassados, é que o homem-cidade-século-XX, o homem nascido, crescido, formado em nossas proliferantes cidades de concreto armado, cidades da América Latina, tem o dever incontestável de conhecer os clássicos americanos, de relê-los, de meditar sobre eles, para encontrar suas raízes, suas árvores genealógicas de palmeira, de apamate ou de ceiba , para tentar saber quem é, o que é e que papel deverá desempenhar, absolutamente identificado consigo mesmo, nos vastos e turbulentos cenários, onde, atualmente, estão sendo representadas as comédias, os dramas, as tragédias - sangrentas e multitudinárias tragédias - do nosso continente.

Homem que cresceu com a Havana do século XX, homem que viu crescer a Caracas do século XX - homem que viu crescer esta universidade, que viu construir-se o stábile de Calder que se abre permanentemente sobre nossas cabeças neste anfiteatro, não saberia agradecer com palavras de mero protocolo a demonstração de afeto e estima que me oferecem aqui esta noite. Dizer que estou emocionado é pouco. Melhor e mais válido é dizer que esta noite ficará escrita com maiúsculas na cronologia de minha existência, agora que acabo de dobrar o temível cabo dos setenta anos no reino deste mundo... E é inútil dizer que agradeço profundamente a meu amigo Aléxis Márquez Rodríguez pelas palavras que sobre mim, minha trajetória e obra, acaba de pronunciar.

E lhe agradeço mais ainda, se levarmos em conta que disse coisas, sobre mim, que pertencem a categoria daquelas coisas que um escritor não pode dizer sobre si mesmo, tendo que esperar que a sagacidade crítica de outros sublinhe certos fatos que têm uma enorme importância para a pessoa, objeto da crítica. Ressaltou Aléxis Márquez Rodríguez, para minha satisfação, confesso-o, que nos meus escritos - desde os da minha primeira juventude - observa-se uma certa unidade de propósitos e anseios. Quer dizer que pouco me distanciei de uma trajetória ideológica e política que já se tinha firmado em mim quando, lá por 1925, escrevi um artigo sobre o admirável romance soviético de Vsevolod Ivanov, O trem blindado 14-69, onde dizia o que poderia repetir agora se tivesse que expressar meu pensamento, minhas convicções ante o processo e as contingências da época que estamos vivendo agora... É certo - e me orgulho disso - que tive uma visão precoce da América e do futuro da América (me refiro, é claro, àquela América que José Martí chama "Nossa América")... Mas... Tinha eu muito mérito nisso?... Não acredito. Tive sorte, isso sim. A grande sorte de ter me encontrado, quando cheguei a Havana, cheio de ambições juvenis, depois de uma infância no campo, com homens que pude imediatamente considerar - apesar de sua juventude - como verdadeiros mestres. E esses mestres foram o admirável Julio Antonio Mella, que, precocemente amadurecido pelas agitações universitárias da época, fundou, em 1925, com Carlos Balinto, o Partido Comunista de Cuba; Rubén Martínez Villena, magnífico poeta que um belo dia renunciou a toda glória literária para dedicar-se a uma luta determinante no processo revolucionário que conduziu à queda e fuga do ditador Gerardo Machado, em 1933; Juan Marinello, hoje mais ativo e enérgico que nunca, apesar de ter dobrado, faz tempo, o cabo dos setenta anos - totalmente entregue ao serviço da Revolução com que sempre tinha sonhado - e que me revelou a grandeza e a profundidade da obra martiana que (é triste ter que reconhecer isso) era muito pouco conhecida na Cuba dos anos 20, por ainda não existirem edições satisfatórias nem completas dessa obra... Com tais mestres estive e com eles aprendi a pensar. E é interessante lembrar que já em 1927, pude assinar com tais homens um manifesto premonitório, onde nos comprometíamos a trabalhar: pela revisão dos valores falsos e ultrapassados; pela arte vernácula e, em geral, pela arte nova em suas diversas manifestações; pela reforma o ensino público; pela independência econômica de Cuba e contra o imperialismo ianque; contra as ditaduras políticas unipessoais no mundo, na América, em Cuba; pela cordialidade e união latino-americanas.

Ao assinar este documento não nos atrevíamos a sonhar que viveríamos para ver realizados tais anseios, que nos pareciam extremamente distantes, remotos contrariados de antemão - acreditavam muitos - por uma fatalidade geográfica, e que veríamos cumprir-se no início de 1959, com o triunfo da Revolução Cubana, e a reafirmação desse triunfo na decisiva e transcendental batalha de Playa Girón, primeira grande vitória de uma nação de nossa América mestiça (como a chamou, mais de uma vez com orgulho, José Martí) contra o mais temível dos imperialismos... ("O do gigante com botas de sete léguas que nos despreza" - e volto a citar Martí).

Sei que alguns se surpreenderam quando, no início de 1959, encontrando-me tão feliz entre vocês, estando tão incorporado à vida venezuelana, tendo aprendido tanto sobre sua natureza, sobre sua história, sobre suas tradições tão profundamente latino-americanas, rompi com essa trajetória venezuelana de 14 anos, para regressar a meu país... Mas havia vozes que me chamavam. Vozes que tinham voltado a erguer-se sobre a terra que as tinha sepultado. Eram as vozes de Julio Antonio Mella, de Rubén Martínez de Villena, de Pablo de la Torriente Brau, de tantos outros que tinham mergulhado numa longa, tenaz e cruenta luta. E eram as vozes vivas, bem vivas ainda, de Juan Marinello, de Nicolás Guillén, de Raúl Roa e de tantos outros que tinham entregue sua energia, sua experiência, seus conhecimentos, seu entusiasmo, à grande obra revolucionária que vinha em gestação desde a história transcendental e jornada de 26 de julho de 1953, com a tomada do Quartel de Moncada, dirigida por aquele que, meses depois, interrogado sobre os motivos inspiradores de sua ação, responderia simplesmente: "Fomos guiados pelo pensamento de Martí". Ouvi as vozes que tinham voltado a soar, devolvendo-me à minha adolescência; escutei novas vozes que agora soavam e achei que era meu dever empregar a minha energia, a minha capacidade - se é que a tinha - a serviço da grande tarefa histórica latino-americana que se estava levando adiante em meu país.

E essa tarefa estava profundamente enraizada na própria história de Cuba, em seu passado, no pensamento ecumenicamente latino-americano de José Martí, para quem nada que fosse latino-americano lhe era alheio. Correspondia a uma tradição que remontava aos dias em que uma primeira tentativa de liberação de Cuba, através de uma guerra anticolonial contra o poderio espanhol, originou-se no seio de uma sociedade secreta que não por acaso ostentava o nome de "Os Raios e Sóis de Bolivar ..." Daí que diante da imagem de um passado cristalizado em ação presente, em realidade atual e tangível, tenha se intensificado de tal modo, na Cuba de hoje, não só o estudo da história da pátria mas também da história do continente, convencidos que estamos de que nada do que é latino-americano pode nos ser indiferente, e que as lutas, as vitórias, os dramas, as quedas e os triunfos das nações irmãs do continente, são acontecimentos que nos concernem diretamente e nos trazem alegria ou tristeza, conforme se ofereçam ao mundo como motivo de gozo ou de desconsolo momentâneo.

Não sei até que ponto os jovens latino-americanos de hoje se dedicam ao estudo sistemático, científico, de sua própria história. É provável que a estudem muito bem e saibam tirar fecundos ensinamentos de um passado muito mais presente do que se costuma acreditar, nesse continente, onde certos fatos lamentáveis costumam repetir-se, mais ao norte, mais ao sul, com cíclica insistência. Mas, pensem sempre - tenham sempre presente - que, no nosso mundo, não basta conhecer a fundo a história da pátria para adquirir uma verdadeira e autêntica consciência latino-americana. Nossos destinos estão ligados diante dos mesmos inimigos internos e externos, diante das mesmas contingências. Podemos ser vítimas de um mesmo adversário. Daí que a história de nossa América deva ser estudada como uma grande unidade, como a de um conjunto de células inseparáveis umas das outras, para chegar-se a entender realmente o que somos, quem somos, e que papel devemos desempenhar na realidade que nos circunda e dá um sentido a nossos destinos. Dizia José Martí, em 1893, dois anos antes da sua morte: "Nem o livro europeu, nem o livro ianque, nos darão a chave do enigma hispano-americano", acrescentando mais adiante: "Ë preciso ser, ao mesmo tempo, homem de sua época e homem de seu povo, mas deve-se ser antes de mais nada, o homem de seu povo". E para entender esse povo - esses povos, acrescentaria eu - é preciso conhecer sua história a fundo.

Quanto a mim, a título de resumo das minhas aspirações presentes, citarei uma frase de Montaigne que sempre me impressionou pela sua beleza simples: "Não há melhor destino para o homem que o de praticar cabalmente seu ofício de homem". Esse ofício de homem, tentei praticá-lo da melhor maneira possível. Nisso estou e nisso continuarei, no seio de uma revolução que me fez encontrar a mim mesmo no contexto de um povo. Para mim terminaram os tempos de solidão. Começaram os tempos de solidariedade. Porque como bem disse um clássico: "Há sociedades que trabalham para o indivíduo. E há sociedades que trabalham para o homem". Homem sou e só me sinto homem quando meu palpitar, meu pulsar profundo, sincroniza-se com o pulsar de todos os homens que me rodeiam.

(1)Discurso pronunciado por Alejo Carpentier na Aula Magna da Universidade Central da Venezuela, a 15 de maio de 1975, por ocasião da homenagem que lhe renderam a própria Universidade, o Ateneu de Caracas, a Associação de Escritores Venezuelanos e a Associação Venezuelana de Jornalistas. (Nota do comentarista)

(2)Principal idioma falado pelos índios mexicanos. (N do T.)


* Novelista, ensaísta e músico cubano.
Professor até debaixo d’água

* Por José Ribamar Bessa Freire


Será que o deputado José Mendonça Filho (DEM vixe vixe), citado na 23ª fase da Operação Lava Jato, vai encaminhar seus três filhos para a Kennedy School (EUA), a mesma onde ele estudou? Ou matriculará os jovens na escola brasileira, cujo ensino médio quer agora reformar como ministro temerário da Educação? Qual o modelo de professor que ele propõe? Como será qualificado? Com qual salário e em quais condições de trabalho? O ministro tem consciência de que existem professores nadando no Brasil?

Essas perguntas me vieram à mente quando reli notícia que há tempos vem circulando na internet, contando a história do professor Abdul Mallik, de 44 anos, que vive em Kerala, no Sul da Índia. Diariamente, ele acordava de madrugada, disputava vaga em linhas de ônibus entupidos e neles dava uma longa volta contornando o caudaloso rio que separa a sua casa da escola, onde ensina crianças do ensino fundamental. Demorava três horas. Decidiu, então, encurtar o caminho e atravessar o rio a nado, com água até o pescoço, o que vem fazendo diariamente há 25 anos.

Essa é sua rotina. Ele caminha a pé por uma floresta de teca, árvore nativa da Índia usada para fazer móveis e embarcações e muito valiosa por resistir ao sol e à chuva. Dez minutos depois chega à margem do rio. Coloca dentro de um saco de plástico sua roupa, a marmita com o almoço, livros e cadernos e vai nadando no poluído rio Kankirapuzha apoiado em uma câmara usada de pneu. Ao chegar na outra margem, se seca, troca de roupa, escala uma pirambeira e anda um quilômetro até a escola. Trabalha a tempo integral por um salário mensal de 25 mil rúpias, equivalente hoje a R$ 1.250,00.

Ele explicou, em entrevista a uma televisão local, que a Índia é um país com graves problemas de evasão escolar e que seu compromisso é motivar os alunos para que não abandonem os estudos. Militante ambientalista, leva as crianças em passeio pelo rio para observarem a sujeira acumulada e se conscientizarem de que o rio Kankirapuzha não pode morrer. Uma delas, Jahangir, de sete anos, quando perguntado o que queria ser quando crescer, respondeu: “Quero ser como o mestre Mallik".

Contra a corrente

Suspeito que Mendonça Filho, assessorado por Alexandre Frota, talvez não saiba que nos rios desses brasis existem muitos professores nadando contra a corrente, que ainda servem de modelo a seus alunos. Desconfio que sequer sabe qual é o salário de um professor, discriminado não apenas pela remuneração indecente, mas porque sequer é consultado sobre a medida provisória editada arbitrariamente que afeta o destino da educação escolar. A reforma silencia sobre salário, condições de trabalho e qualificação. No lugar de qualificar professores, Mendonça propõe a contratação de pessoas sem licenciaturas que seriam portadores de "reconhecido saber". Reconhecido por quem? Que tipo de saber?

O saber que eles querem pode ser qualquer um, desde que não seja ferramenta crítica para pensar. A proposta inicial previa que Artes, Educação Física, Sociologia e Filosofia deixariam de ser obrigatórias no currículo do Ensino Médio, o que na prática representa sua eliminação. Diante do protesto generalizado, esta decisão foi remetida para a controvertida BNCC - Base Nacional Comum Curricular. Mas os burocratas continuam achando que é tempo desperdiçado com inutilidades, e não se preocuparam em saber o que pensam professores e estudantes.

Um deles, filho de Fernanda Torres e neto de Fernanda Montenegro, expressou opinião contrária. Com seu pensamento se identificam muitos alunos. Ele reagiu aos cortes "dizendo que o objetivo das medidas é escravizar a rotina de estudo para impedir que os alunos pensem". Reclamou ainda do pouco tempo atualmente reservado à sociologia, à filosofia e à literatura, e disse que se ressente de um intercâmbio entre disciplinas, conforme informou sua mãe em artigo na Folha de SP (30/9). Ela condenou o currículo que desconsidera a saúde mental e física dos alunos.

Retrocesso

A reforma proposta por Mendonça Filho é obscurantista e representa um enorme retrocesso. Nesta sexta (30), falando a uma plateia de empresários convidados pela revista "Exame", o presidente Michel Fora Temer reconheceu isso quando declarou abre aspas: "É interessante no Brasil que as coisas se renovam para voltar ao passado", fecha aspas.

Não foi nesse projeto que votaram 54 milhões de brasileiros. Nesse sentido é que fica evidenciado o golpe dado sob a batuta de Eduardo Cunha, o correntista de bancos suíços, que continua circulando livremente pelos restaurantes da capital sem ser incomodado por Sérgio Moro ou Deltan Dallagnol. Desprezaram a vontade de milhões de brasileiros.

O Ministério da Educação foi entregue como prêmio a Mendonça Filho por ter sido ele o coordenador do Comitê Impeachment Já, apesar de, além da Lava Jato, se encontrar envolvido na Operação Castelo de Areia deflagrada pela Polícia Federal em 2009. Na época, foi identificada doação de R$100.000,00 da Construtora Camargo Corrêa para a sua campanha.

Com esse currículo, o ministro não tem cacife para melhorar o ensino escolar no Brasil, nem sensibilidade para conversar com educadores que, como o professor da Índia, nadam diariamente para poder ensinar.   "Encontrei professores em Moçambique na mesma situação no tempo de chuva, são heróis" comentou Eva Johannessen, que foi professora no Instituto de Educação Especial na Universidade de Oslo e conhece bem a realidade amazônica.

Tive o prazer de viajar com Eva pelos rios Uaupés e Tiquié, em 2003, na região do Rio Negro, para avaliar a escola bilíngue Ütapinopona dos índios Tuyuka, num processo que abrangia ainda as experiências-piloto na Escola Indígena Pamáali dos Baniwa e Coripaco e o Centro de Cultura Tariana. Os burocratas que redigiram a Medida Provisória muito ganhariam se pudessem assistir uma aula de leitura e escrita em língua tuyuka ou de etnomatemática. A metodologia original desenvolvida pela professora com crianças de 5 a 10 anos merece uma crônica à parte.

* Jornalista, professor e historiador.


A musicalidade explícita do poeta José Nêumanne


* Por Aleilton Fonseca


As Fugas do Sol é um expressivo título tanto para um livro de poemas, como para um disco de música. No caso, é as duas coisas: poesia e música reunidas num CD, em que o poeta e jornalista José Nêumanne Pinto declama 30 poemas de sua autoria, escolhidos do livro Solos do Silêncio (1996). As músicas que acompanham os textos foram compostas por Marcus Vinícius de Andrade especialmente para a edição.

A publicação de poesia em CD é ainda pouco cultivada entre nós. Mas já é hora de se considerar esse objeto lítero-musical, desenvolvendo uma crítica que avalie a qualidade dos textos, a declamação, a música, enfim o projeto como um todo. As Fugas do Sol é uma produção exemplar do gênero. O registro da voz do autor agrega um valor especial, tornando o CD um marco e um testemunho importante de sua carreira. Aliás, a performance de Nêumanne vai além desse registro. Sua voz tem qualidade elocucional, é firme, atraente, bem impostada, não perde a naturalidade. Além de recitar bem, ele se dirige indiretamente a quem o ouve, dando breves explicações sobre a escolha, a concepção e as circunstâncias de criação dos textos. Esse procedimento aproxima o ouvinte, que tem a sensação de estar assistindo, frente a frente, o autor "falar" seus poemas.

De fato, o contato com a voz do poeta é um atrativo a mais. A audição não substitui nem ameaça a leitura do poema no livro, experiência particular em que o próprio leitor projeta sua voz, sua entonação, seu ritmo. Entretanto, na leitura silenciosa ou mesmo em voz alta, nem sempre a musicalidade do texto é bem (re)produzida pelo leitor. A gravação, com tratamento artístico profissional, acrescenta uma outra possibilidade de apreciação em que a voz, o ritmo e a entonação refletem mais fielmente a vontade do autor. Enquanto isso, o fundo musical desperta ou intensifica a sensibilidade do ouvinte, criando condições mais propícias à recepção estética. No CD de José Nêumanne isso é bastante evidente. A música de acompanhamento não é um mero enfeite, mas se coloca em diálogo, ocupando as pausas normais da declamação e evoluindo ao lado dos versos sem se sobrepor. O compositor Marcus Vinícius utiliza recursos da ambiência musical nordestina, mistura elementos eruditos e populares, cria frases e acordes precisos que enfatizam os temas, numa perfeita conjunção com a voz e a emoção do poeta.

Mas tudo isso seria um esforço vão se os poemas fossem simples "letras", se não tivessem a qualidade que garante seu estatuto poético, mesmo no silêncio das páginas de um livro. Ora, José Nêumanne Pinto é, sem favor, um dos nossos melhores poetas contemporâneos. Críticos exigentes como Ivan Junqueira, José Paulo Paes e Nelly Novaes Coelho já destacaram as virtudes de seus temas e de sua linguagem. Nota-se a sua força lírica ao tematizar a cultura sertaneja, haja vista "O encontro de Cristino com Virgulino na viola de Seu Raimundo", "Desafio de viola repentina e guitarra elétrica", "Na casa avoenga" e "Seresta sertaneja". Outra fonte criativa são as experiências de viagem, como se observa nos cinco poemas da série Barcelona, e as vivências paraibanas, poetizadas nos sete textos da série Borborema. As composições breves, como "Discurso" e "Tríptico marinho", são momentos de condensação lírica, em que o poeta mostra a sua habilidade, o seu "drible curto" e inventivo com as palavras. É preciso citar também "Lua no lago", dedicado a Octavio Paz, cuja figuração plástica, sonora e semântica encanta o leitor mais exigente. Os versos de Nêumanne têm uma eloqüência envolvente, fluem com agilidade e não se dispersam. O autor sabe extrair os significados viscerais das palavras e das frases, fazendo associações e criando metáforas surpreendentes. Um exemplo disso é "A seara de Saramago", dedicado ao escritor luso, um canto de crença e louvor à língua portuguesa. Neste e em outros poemas, como "Decomposição da folha", as referências intertextuais extrapolam a mera citação, se reelaboram e se impõem com sutileza, de modo que os sentidos originais se agregam a novas conotações poéticas, bem ao estilo neumanniano.

A poesia recitada por Nêumanne tem uma estrutura melódica que mescla os recursos da oralidade e dos cancioneiros populares com a dicção da lírica erudita. Talvez venha daí a força do ritmo, da acentuação e da pontuação de seus versos, à feição do ágil compasso binário. Quem solfejar os poemas vai perceber o valor musical das pausas. Elas suavizam a cadência, criam uma expectativa agradável e cedem espaço para a música instrumental emergir. O equilíbrio entre a fala e a recitação garante a espontaneidade do discurso, que nunca se torna solene ou cansativo.

O título do CD é sugestivo. As "fugas", como canto lírico, seriam um modo de conjurar a transitoriedade da existência. Por sua vez, "sol" representa o tempo e a fonte da vida que é a matéria dos poetas. Na forma, os poemas tendem a reiterar o ritmo, a cadência e a melodia. Por isso comportam a acepção musical de "fugas" como variações sobre um mesmo tema, que não é outro senão a própria vida imersa no mundo da cultura. Enfim, se ler As Fugas desperta emoção estética, melhor ainda é ouvi-las, saboreando a música de Marcus Vinícius e a poesia de Nêumanne.

in Jornal da Tarde, 10 de julho de 1999

* Aleilton Fonseca é escritor, Doutor em Letras (USP), professor titular pleno da Universidade Estadual de Feira de Santana, membro da Academia de Letras da Bahia, da UBE-SP e do PEN Clube do Brasil.