quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 9 anos, cinco meses e um dia de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Originalidade em tema nada original.

Coluna De Corpo e Alma – Mara Narciso, crônica, “A vaca Tabuleta e outros nomes complicados”.

Coluna Verde Vale – Urda Alice Klueger, crônica, “Casa com cheiro de flor”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araujo Nonato do Amaral, poema, “Alma de passarinho”.

Coluna Porta Aberta – Samuel C. da Costa, poema, “Todas as manhãs do mundo”.

Coluna Porta Aberta – Emir Sader, artigo, “Por que a direita saiu do armário?”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária”José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com 
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Originalidade em tema nada original


O amor é – e isso qualquer pessoa sabe ou no mínimo intui – o tema mais abordado por poetas de todos os tempos e lugares. Ouso dizer que não há, não houve e duvido que um dia haja qualquer deles que nunca tenha composto algum poema, um único que seja, alusivo a esse sentimento. Terá abordado (ou se não o fez, ainda irá abordar) ou o amor concreto ou o amor platônico. O amor correspondido ou o amor frustrado. O êxtase que o amor proporciona ou a dor que causa quando não dá certo etc.etc.etc. É impossível, pois, o poeta ser original na exposição da essência desse sentimento. Não consegue e não conseguirá explicá-lo, justificá-lo ou racionalizá-lo, porque ele prescinde de explicações, justificativas e racionalizações. Todavia, a originalidade é, não apenas possível, como onipresente na “forma” de exposição da experiência amorosa. Esta, pode-se dizer, tende a ser (talvez sejam) infinita. Ou quase. Ninguém a vive da mesma forma, mesmo que assim pareça e haja inúmeras semelhanças.

O poeta catarinense Harry Wiese não fugiu, pois, à regra. Destinou toda uma vertente temática, das cinco em que dividiu seu livro “IbirAMARes” (Editora Nova Letra) a esse soberano dos sentimentos. Tratou, especificamente, desse tema em oito composições. É possível que algum leitor desatento, desses distraídos, os tais “avoados” como o caracterizaria meu avô, sinta-se decepcionado com essa quantidade tão pequena de abordagens de um tema tão a gosto dos poetas. Não deveria! Se observar bem, notará que o livro todo é um vasto e original poema de amor. Amor à cidade de Ibirama. Amor à sua generosa e bela natureza. Amor ao seu povo, sua história, tradições etc.etc.etc. Tanto que o próprio título, “IbirAMARes” traz em destaque o verbo AMAR de tal sorte que fica parecendo que, ao citá-lo, e comentá-lo, cometi erro de digitação. Evidentemente, não cometi. O nome do livro é, mesmo, este, sem tirar e nem por.

Harry Wiese abre essa vertente temática com esse belíssimo poema (e chega a ser até redundante destacar a beleza de alguma composição específica, pois todas, na minha concepção são belas), que reproduzo para seu (e meu) deleite:

Alocução às rosas vermelhas

“Para que existem as rosas vermelhas,
Senão para provocar o amor-ternura,
No agreste,
Tênue na paixão infinita
E distante dos prados
De uma primavera em chamas.

Para que existem as rosas vermelhas
Senão para despertar a poesia
No meu povo,
Sofrido na luta,
Perto do rigor
De um inverno mendaz.

E nada se faz,
Tudo se aglutina.
Mais fácil é comprar consciências
Com favores mesquinhos.
Prometer soluções
Consiste em abrir crateras
É incutir nos horrores
Que olhar para o abismo
É ver o céu repleto de estrelas.

E o mundo gira
Por que gira por si mesmo.
Ah, se não girasse,
Pobre mundo!
O que seria das rosas vermelhas
Que provocam o amor-ternura
E despertam a poesia no meu povo?

A resposta, com certeza, é a própria história do tempo”.

Essa vertente temática é encerrada com outro poema, sumamente expressivo, em que o poeta, em vez de explicitar o tema “amor”, habilidosamente o “sugere”, com sensibilidade e bom gosto. Confira:

Amares 2

“Os galos da madrugada
Acompanham meu sono distante
Tentando conceder consolo
À dor exposta.
Riem-se os transeuntes tardios
Nas ruas e não me animo
A cantarolar Louis Armstrong e Frank Sinatra,
Nem canções dos tempos de euforia.
Ainda há surpresas reservadas,
Ainda há motivos de viver.
Sim, o amor revigorará
Em tempos de papoulas em flor,
E o tempo dirá: o amor é uma ordem!
Sim, o amor é uma ordem”.

Como se nota, Harry Wiese não se propõe a explicar o amor que, ademais, não é para ser explicado, mas sentido, usufruído, vivido em sua plenitude e “eternidade” (eterno enquanto dura, como declarou Vinícius de Moraes). Não procura razões para se amar, porquanto estas são incompreensíveis e inexplicáveis, É como Fernando Pessoa observou em um de seus tantos (geniais) textos: “Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?”. E não está certo? Compete a cada um de nós nos render ao seu imperioso apelo, mais que isso, ás sua ortdem, como Clarice Lispector preceituou e confessou ter feito: “Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento”. Porquanto (ainda no terreno das citações) talvez você exclame (ou secretamente cogite) isto que Mário Quintana verbalizou: “Tão bom morrer de amor! e continuar vivendo...”. E não é?!!!


Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk



A vaca Tabuleta e outros nomes complicados


* Por Mara Narciso


Minha mãe Milena defendia que se deveriam dar números aos filhos e só depois de crescidos eles escolheriam os próprios nomes. Ela não escolheu como se chamariam seus filhos Helder Etienne, Mara Yanmar, Herbert Mozer e Carla Mylenne, e sim meu pai Alcides. Como uma postagem no Facebook afirma que quem tem k, y e w no nome é pobre, meu destino foi selado ao nascimento e eu o estou cumprindo fielmente.

A pessoa pobre, para dar destaque ao filho, copia nomes americanos geralmente escritos de forma errada. Meu pai não era nenhum analfabeto. Formou-se técnico em contabilidade no Instituto Mineiro de Educação em Montes Claros, tinha boa redação comercial, não largava o dicionário e lia jornais e revistas diariamente. As minhas bonecas eram batizadas com nomes de artistas de Hollywood como Jayne Mansfield e Sandra Dee. Ele assistia a pelo menos dois filmes por semana. Assim, nomes com letras duplicadas foram uma escolha e não uma sina.

Trabalhando como médica há quase 36 anos, e atendendo em média 20 pessoas por dia (já atendi 30, mas desacelerei), tenho me deparado com nomes mal escolhidos, mal escritos, bizarros, esdrúxulos e até vergonhosos. Nomes inventados são problemas, assim como brasileiros filhos de estrangeiros, com nomes difíceis de pronunciar, de escrever, e com documentos errados. Já atendi Ostac, Cilsa, Merielen, Maikon (o mais comum). Diante disso, melhores eram antiguidades como Eurídice, Orozimbo, Vicença ou Godofredo. Ainda melhor é ser chamado Maria, João e Pedro.

Na série nome inventado que cai no ridículo, a pessoa não tem xará nem seu nome pode ser lembrado. Listo Gilcilene, Lacilda, Hordilei, Richarlyson. Baby Consuelo, depois Baby do Brasil batizou seus filhos assim: Riroca, Zabelê, Nanashara, Krishna Baby, Kriptus Rá e Pedro Baby. A minha secretária há mais de 20 anos se chama Thykysila. Outra esquisitice é família numerosa com todos os filhos começados com a mesma letra. Isso pode não acabar bem, ainda que a criatividade dos pais seja monstruosa. Os nomes ficam tão parecidos que é preciso recorrer a apelidos para diferenciá-los. É comum copiar nomes de personagens de novela ou de filhos de artistas (Enzo, Luan). Gera situações constrangedoras colocarem nomes de políticos nas crianças, que depois carregam nas costas uma ideologia que não é a sua. Ou ainda ter por nome o sobrenome de algum personagem ou ex-presidente dos Estados Unidos. Já bastam as meninas brasileiras carregarem nomes de lugares estrangeiros, como Fátima e Lourdes, seguindo o nome Maria.

Nomear lojas, carros, produtos, ou qualquer empreendimento ou cidade pode ser a diferença entre o ostracismo ou posição de destaque, chegando a ser top of mind ou mesmo significar em certa época o produto em si, como já foi Gillette, Bombril, Toddy, Modess ou Brahma. O nome Corsa, para um carro popular da Chevrollet, gerou polêmica, por ser a fêmea do veado. O remédio para diabetes Minidiab era rejeitado pelos pacientes, que não gostavam do nome. Há a tendência de um produto ter o mesmo nome em vários países, para baratear os custos, mas, pelo significado, alguns precisam ser trocados.

Portenho é referente a Buenos Aires, mas algumas vezes se vê como sinônimo de argentino, o que é errado. Soteropolitano é de Salvador, potiguar é o mesmo que norte-rio-grandense, assim como carioca (um rio local) é alguém da cidade do Rio de Janeiro e fluminense os do estado do Rio de Janeiro. Paulistano é uma pessoa da cidade e paulista é do estado de São Paulo.

As vilas vão virando cidades e anexando ou tirando parte do nome, que originalmente costuma ter algum santo protetor. Cidade de São Salvador, Cidade do Natal, e Santa Maria de Belém do Grão Pará. Há nomes curiosos como São José da Coroa Grande (Al), Cacha Pregos (Ba), Santa Rita do Mato Dentro (MG), Pai Pedro (MG), Braço do Trombudo (SC), Coité do Nóia (AL), Castelo de Sonhos (PA), Beijo das Freiras (PB), Passa e Fica (RN), Pau Grande (RJ), Pintópolis (MG) que arrancam risos. A lista de nomes bizarros como Pindamonhangaba, Itaquaquecetuba é interminável. Vitória da Conquista na Bahia deveria se chamar Conquista da Vitória, mais lógico.

Ainda que nomes pitorescos causem estranheza, são mais interessantes que as vexatórias homenagens a políticos. Montes Claros, por sua vez, já teve outras denominações, começando como Fazenda Montes Claros, Vila de Formigas, Montes Claros de Formigas e finalmente Montes Claros. Quanto ao título, a vaca Long Island tinha uma tabuleta com seu nome complicado amarrada ao pescoço, e como o vaqueiro não conseguia pronunciá-lo, era conhecida como Tabuleta (Chico Anísio). E viva o inventivo povo brasileiro!

*Médica endocrinologista, jornalista profissional, membro da Academia Feminina de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, ambos de Montes Claros e autora do livro “Segurando a Hiperatividade”   



Casa com cheiro de flor

* Por Urda Alice Klueger


Eu não faço ideia, ainda, de tudo o que possa vir a ser, vir a sentir aqui neste lugar – só sei que agora é setembro, e nas noites, quando o trânsito lá da rua principal se acalma, minha casinha fica mergulhada num oceano com cheiro de flor. Fazia décadas que não sentia nada parecido, que não vivia nada tão perfeito: nas manhãs, saio pelas muitas redondezas a passear com meu cachorro, e em um mês aqui, já consegui mapear, creio, as tantas laranjeiras que crescem nos mais diversos quintais das mais variadas casas deste lugar que se desdobra sobre colinas atravessadas por ruas calmas, onde há placas que dizem: “Atenção! Respeite: Zona Residencial – velocidade máxima 40 km”, e onde custa a passar um carro.

Então sei das laranjeiras, e há algumas tão na beiradinha da rua que paro minha andança para ficar a aspirar seu perfume do qual eu quase não lembrava mais – só que há tantas, em tantos quintais, e tantas árvores em tantos jardins e terrenos baldios, e pedaços de mata virgem, como bem ali detrás da minha cozinha ou lá na ponta da colina que vejo lá adiante, e como é setembro, tudo está florescido de alguma forma e tudo que é flor tem algum aroma que chama à fecundação e atrai insetos e gente – eu, pelo menos, estou altamente sintonizada com esta floração toda, que vai dos mais tímidos capins à mais encorpada árvore.

Nos dias, com o sol quente e as tantas emanações de toxinas pelos automóveis que passam lá na rua principal, algo de tanto perfume se perde, apesar de os dias serem lindos, como hoje, que é feriado, e o vizinho quase da frente pinta de branco a cerquinha do seu terraço, naquele marasmo de feriado, onde um amigo conversa com ele com uma cerveja na mão, e a cortina de seda amarela da janela do meu quarto baila no vento, sobre as primeiras flores coloridas que fiz florescer no meu minúsculo jardim. É lindo estar aqui, e só falei de dois ou três detalhes – não posso deixar passar mais um: lá no horizonte, por detrás das colinas, há uma distância de morros azuis, bem da cor da nostalgia, como descobri que era aquela cor, ainda na minha infância. De noite, há a lua, que será cheia hoje ou amanhã, e que demora horas inteiras atravessando meu novo horizonte, novidade para quem veio do sul deste município, onde o caminho dos astros, no céu, é sempre tão limitado pelos morros! E se espero para dar a última voltinha com o meu cachorro lá pelas onze da noite, quando já se acabou o trânsito da rua principal e parece que tudo se acalmou, então mergulho no oceano de perfume onde minha casa fica submersa, e é de estontear a densidade que há em tal mergulho. Saio fruindo o máximo de cada inspiração, encantada e fascinada demais para tentar entender o que a natureza está fazendo, como que flutuando num sonho colorido, mas assim de dia fico pensando nas tantas razões da natureza: no silêncio da noite, ela cria aquela imensidão de perfumes onde mergulha minha casa, já montando como que um engodo para os insetos da manhã não esquecerem das suas tarefas de fecundação enquanto setembro está aí – e quem sai ganhando sou eu, que agora tenho uma casa com cheiro de flor – e flor de laranjeira, ainda por cima!

Blumenau, 02 de setembro de 2009.

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais três dezenas de livros, entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).


Alma de passarinho


* Por Núbia Araujo Nonato do Amaral


Tenho em minha alma
um passarinho que às
vezes canta por falta
de opção.
Que às vezes sonha
por obrigação.
Tenho em minha alma
um passarinho que não
conta mais com o acaso.
Que triste suspira resignado,
quem sabe a ferrugem o liberte.
Canta passarinho, canta...

 * Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário


Todas as manhãs do mundo


* Por Samuel C. da Costa


Para Luana D'Oliveira


Pela manhã
Tu vens sem pedir licença
Aos deuses e deusas
 Como os teus inebriantes beijos
 Em um doce e breve despertar

Pela manhã
Na nossa aurora vermelha
São as tuas juras de amor eterno
Em belos versos
Dizer-me:
- Para sempre vou te amar! 

São flores brancas e diáfanas
Vagas
Nevoentas
Nas tuas mãos
Que vens me ofertar
Elas simplesmente sussurram-me:
- Não chores, pois nunca vou te abandonar!
 
Depois me vem à lasciva lembrança
Da noite passada!
São os nossos corpos nus
Na nossa sacrossanta alcova
Em um belo valsar

Pela manhã vens tão belo
Dizer-me
- Não ficaras sozinha...
Para sempre vou te amar


* Poeta de Itajaí/SC
Por que a direita saiu do armário?


* Por Emir Sader


Quando se usa essa expressão, não se está querendo dizer que ela estivesse escondida até recentemente. A direita, na era neoliberal, no Brasil, é representada pelos tucanos e seus aliados e sempre esteve ocupando o campo político como alternativa aos governos do PT.

O que há de novo é a consolidação de um setor de extrema direita na classe média, que teria colocado recentemente as manguinhas pra fora, constituindo-se no fator novo no cenário político nacional. E que parece que veio para ficar.

Sem discutir a tese da Marilena Chauí – que esse setor insiste em confirmar – de que a classe média seria fascista, é inegável que pelo menos um setor dela assume teses fascistas e o faz da maneira mais escancarada, quase como um clichê, pelos slogans que exibe, pela atitude agressiva e discriminatória, pelo racismo, pelo antiesquerdismo, pelo anticomunismo.

Mas por que agora, há 12 anos do começo dos governos do PT, essa ultra direita sai do armário? Onde estava ela? Por que resolveu sair agora do armário?

Essas manifestações são a prova mais eloquente que os governos do PT não amaciaram a luta de classes, mas a acirraram. Caso os governos do PT fossem apenas uma variante do neoliberalismo – como algumas atitudes sectárias, que não conhecem o país e não sabem das profundas transformações operadas no Brasil desde 2003 – a direita só poderia estar satisfeita, teria que estar comemorando a cooptação de um PT tão expressivo do campo popular – o mais importante de toda a trajetória da esquerda brasileira -, para o seu campo. Menos ainda teria por que se empenhar com todas suas forças para tirar o PT do governo e tentar desqualificar o Lula, para inviabilizar seu retorno à presidência.

Só mesmo porque sentiram que seus interesses estavam sendo afetados, que já não dispunham do governo a seu bel prazer e correm o risco de ver este período se estender muito mais, com uma eventual volta do Lula à presidência, é que a direita saiu do armário e passou a exibir sua cara de ultra direita.

De que forma esses interesses foram afetados? Em primeiro lugar, na prioridade das políticas sociais e na extensão do mercado interno de consumo de massas, com a distribuição de renda que acompanhou a retomada do desenvolvimento econômico. Se interrompeu a política econômica implantada por Collor e continuada por FHC. Seu fracasso abriu os espaços para governos que romperam com eixos fundamentais do neoliberalismo, em primeiro lugar, a prioridade dos ajustes fiscais e a centralidade do mercado.

Em segundo lugar, pela ruptura com o projeto da Área de Livre Comércio das Américas – ALCA -, levado a cabo pelos EUA, em complacência com o governo de FHC, que deu lugar ao fortalecimento dos processos de integração regional, do Mercosul à Celac, passando pela Unasul. Um processo que inclui os estratégicos projetos dos Brics, em que o Brasil tem papel chave, e que desenha um mundo multipolar na contramão dos projetos norte-americanos.

Em terceiro lugar, porque a centralidade do mercado deu lugar a espaços para a recuperação da capacidade de ação do Estado, tanto como indutor do crescimento econômico, como da afirmação dos direitos sociais e como ator nos processos de soberania externa.

A já clássica frase de que “os aeroportos estão virando rodoviárias” segue sendo a mais significativa da reação de setores da classe média à ascensão de amplos setores populares. Afora exacerbada, desde a Copa do Mundo, em que a vaia à Dilma foi como que a abertura da porteira da falta de qualquer respeito por parte de setores da direita.

A campanha eleitoral do ano passado foi um aquecimento em relação ao que se vive agora. Tanto Aécio quanto a mídia, exacerbaram sua linguagem e suas formas de atacar o governo, gerando a ideia de que tudo tinha se tornada insuportável, não apenas a situação das classes privilegiadas, mas o próprio país, pela corrupção e pela suposta incompetência do governo. Pela primeira vez na história do país um candidato a presidente triunfou nas eleições contra praticamente a totalidade do grande empresariado – confirmando como estes consideram que seus interesses fundamentais são afetados profundamente pelos governos do PT.

Para os que nunca aceitaram que os governos do PT tenham sido qualitativamente diferentes dos governos neoliberais, tudo isso é incompreensível. Na sua incapacidade de apreender a realidade concreta, tem que culpar o PT por tudo. Até pela direita ter saído do armário, usado por alguns para atribuir também aí a culpa ao PT.

Por isso a ultra esquerda não conseguiu, ao longo destes 12 anos – nem no Brasil, nem nos países com governos posneoliberais na América Latina -, construir uma alternativa e esta está sempre situada à direita dos governos do PT. Porque acredita que o os governos do PT são neoliberais, a ultra esquerda não compreende a realidade do Brasil hoje e não consegue construir raízes no seio do povo.

O PT é responsável pela saída da direita – e da ultra direita – do armário, porque afetou profundamente os seus interesses.

* Sociólogo e cientista político