terça-feira, 1 de setembro de 2015

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 9 anos e cinco meses de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – O poeta e a natureza.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, crônica, “Enquanto você não vem”.

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, artigo, “De professor a policial”.

Coluna Do real ao Surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “’Encontro no trem”.

Coluna Porta Aberta – Mouzar Benedito, artigo, “A estratégia xavante não previa o inimigo refrigerante”.

Coluna Porta Aberta – Frei Betto, artigo, “O que é ter fé”.

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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas”Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso”Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer”Fernando Yanmar Narciso.
“Cronos e Narciso”Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal”Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


  
O poeta e a natureza


O homem é fruto da natureza. Isso é ponto pacífico. Aliás, é afirmação que parece acaciana, de tão óbvia. Todavia muitos (diria a maioria) não se dão conta dessa obviedade. “Agridem”, de forma estúpida e irracional, esta que é sua matriz e, sobretudo, nutriz, que os alimenta e assegura sua vida. O chamado Homo Sapiens age como se fosse o único ser vivo que devesse ser levado em conta, desprezando as demais 8,7 milhões de espécies animais vivas, conhecidas (6,5 milhões terrestres e 2,2 milhões aquáticas), excluídos vírus e bactérias. Esse número estratosférico está longe de ser definitivo, sendo atualizado, constantemente, face descobertas praticamente diárias de novas espécies.

É verdade que o homem leva considerável vantagem sobre esses “companheiros” na espaçonave Terra, que singra o espaço rumo a um destino que não se conhece qual seja: conta com a capacidade de entendimento, com a razão, com a chamada inteligência. Essa característica, se lhe dá suposta vantagem, confere-lhe, em contrapartida, algo que esse ser pensante parece não se dar conta: responsabilidade. Tem a obrigação de proteger essa entidade abstrata que lhe assegura a vida e não depredá-la, como faz há tempo, sobretudo de uns três séculos para cá, a partir da tal Revolução Industrial.

Por isso, não se pode deixar de dar razão ao teólogo, músico, filósofo, médico e humanista alemão Albert Schweitzer (ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 1952), quando afirmou: “O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos”. É esse domínio sem responsabilidade, sem estar preparado para tal, que tende a levar a espécie à extinção. Há, porém, pessoas que se constituem em exceção a esse comportamento destrutivo, predatório e irracional. São os poetas. Se não protegem a natureza, pelo menos não a agridem. Pelo contrário, veneram-na. Fazem dela fonte de inspiração. Tentam, com os recursos de que dispõem, conscientizar multidões.

Não me surpreendo, portanto, que Harry Wiese tenha dedicado a maior parte do seu livro “IbirAMARes e outros poemas” (Editora Nova Letra) a essa entidade que é a fonte de toda vida. Destina a segunda das cinco vertentes temáticas desse precioso volume à natureza, sob o título “Ecologia”. Em 18 inteligentes e sensíveis composições, louva os rios, riachos e ribeirões de Ibirama, cidade à qual dedica seu livro, além das montanhas que a circundam, da mata atlântica quase intocável ali, das nuvens, das plantas, dos bichos, da chuva etc.etc.etc.

Desta vertente temática, destaco o poema “IbirAMARes”, que dá título ao livro, que diz:

“Como serpente resoluta,
Oh, rio ligeiro,
Corres sobre as pedras lisas
Transportando divisas.

Tuas ´águas rolantes sobre o pétreo chão
São vestígios da longínqua nação,
Original.
Não desanimes, não chores
São ibiramares, irmão!

No caminho das águas longas
Ainda vistorias a metamorfose da flora monumental
E dos vales e montanhas adjacentes.

Não te constranjas, não te entristeças,
Tuas lutas ibiramares,
São cantares em construção.

O murmúrio dos ventos
Da Mirador gigante
Vem da distância que isola
E das montanhas circundantes,
São ibiramares transmudados em cantares,
Oração.

O meu povo
Nas lutas progressistas,
Não cultiva violências,
Constrói castelos singulares,
Como se fossem cantares.
Ah, são ibiramares,
Com perfeição”.

Como é essa Ibirama, que Harry Wiese tanto ama? É uma dessas bucólicas cidadezinhas do interior catarinense, situada no Vale do Itajaí, de cerca de vinte mil habitantes, que em 8 de novembro completará 118 anos de fundação. Suas belezas naturais atraem milhares de turistas anualmente, que se deliciam com sua luxuriante natureza. Foi fundada por imigrantes italianos e, principalmente alemães, com economia baseada na agricultura e nas indústrias têxteis e moveleiras. Ibirama é a prova de que o homem pode conviver harmoniosamente com a natureza, auferindo de todos os benefícios que ela lhe proporciona, sem depredá-la, emporcalhá-la e destruir suas belezas que tanto encantam poetas, como o inspirado Harry Wiese. Faz jus, portanto, ao significado do seu nome: “terra promissora”. Afinal, como perguntou o filósofo francês Blaise Pascal, “o que é o homem na natureza?”. E, em seguida, o sábio respondeu: “Um nada em relação ao infinito, um tudo em relação ao nada, um ponto a meio entre nada e tudo”. E não é?!!!

Boa leitura.

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk  


Enquanto você não vem



* Por Evelyne Furtado

 

Enquanto você não vem, decidi cuidar de mim. Esperar sentada é acumular frustrações a cada expectativa desfeita. Contar as horas é um exercício torturante, para quem aguarda.

Não aboli os passatempos, mas entre uma distração e outra, há espaço para a ausência se instalar. Por isso optei por olhar para mim e cuidar da minha realidade.

Sou alguém sem você. Alguém que pensa, sofre, ri, lê, aprende e cresce. Descobri que a realidade está aqui, ainda que você não esteja. Meu mundo é real e tudo a minha volta existe, apesar de você.

Tenho fantasmas a enterrar, dores a curar, vida a viver. Pensar apenas em você não sanará minhas dores. Sou eu quem tem que tratá-las, ou pelo menos tentar. Preciso encarar meus medos e abrir minhas chagas, se tiver coragem de fazê-los, pois a coragem nem sempre se encontra em mim.

Tenho que ganhar a vida, tenho que tratar meu corpo afetuosamente, tenho que alimentar meu espírito.

Por isso, recebo o carinho do sol no meu corpo quando caminho na praia olhando o mar e o horizonte. É a minha visão do mar e não preciso de você para isso. Leio meus livros com prazer e esses, como todos os deleites que disponho, são meus e não dependem de você.

As músicas que ouço lembram você, mas o gozo que agracia meus sentidos é meu. A conversa com amigos, as risadas, os abraços e o calor da minha família também podem ser vivenciados por mim com alegria, apesar de sua ausência.

O pranto da saudade ou de dor é a minha maneira de desafogar o peito quando comprimido pela dor. As linhas que escrevo põem em ordem minha bagunça emocional. E cuido de mim, assim, enquanto você não vem.

Quando você chegar estarei bem, graças à minha decisão e a Deus. Partilharei com você todos os momentos vividos e serei melhor para você.

Se você não vier, vou sofrer, mas estarei íntegra, pois não deixei uma parte da vida à mercê de você. A memória dos nossos momentos está aqui e é parte de mim.


* Poetisa e cronista em Natal/RN
             
De professor a policial*


**Por José Calvino

“Povo educado, polícia educada. Povo ignorante, polícia ignorante”. (Extraído do livro “O ferroviário, p.76 – ed. 1980).

Baseado nos censos penitenciários, que mostram serem os presos brasileiros, em sua maioria, pobres, pretos e analfabetos, lembro que perante a lei, ao menos, todos nós somos iguais, mas será que é  mesmo assim na prática? Não acredito que no nosso Brasil se tenha uma educação básica que nos prepare para vivermos felizes da vida. Observo sempre que a maioria dos que nascem neste país não tem preparo para viver dignamente, e não tem sequer o nível escolar primário! Eu continuo afirmando que a culpa é dos maus governantes por que, do contrário, será então que os meninos e meninas e meninas é que teriam culpa? Atualmente assistimos policiais militares praticarem arbitrariedades  e truculências, até mesmo em festas religiosas. Então, cadê o respeito à Declaração Universal de Direitos Humanos? Sinceramente, eu sou a favor    da desmilitarização da Polícia Militar, evitando assim a perpetuação do sistema ditatorial no Brasil. Lembrei-me do Curso Internacional de Policia (anos 70) quando então recebi aulas sobre o artigo de George L. Kirkham, ilustre Professor da Escola de Criminologia da Universidade da Flórida, Estados Unidos da América, intitulado" De Professor a Policial". Creio que tomar conhecimento do seu conteúdo seja muito importante para toda a sociedade que gosta de ler, sobretudo, para a formação do policial brasileiro.  Aproveito o ensejo e  transcrevo o referido artigo, com todo prazer, em resumo:

“Como professor de criminologia, tive problemas durante algum tempo, devido ao fato de que, como a maioria daqueles que escrevem livros sobre assuntos policiais, eu nunca fui policial. Contudo, alguns elementos da comunidade acadêmica norte-americana, tal como eu, foram muitas vezes demasiado precipitados ao apontar erros da nossa política. Dos incidentes que lemos nos jornais, formamos imagens estereotipadas, como as do policial violento, venal ou incorreto... Muitos dos meus alunos tinham sido policiais, e eles várias vezes opunham às minhas críticas o argumento de que uma pessoa só poderia compreender o que um agente da polícia tem de suportar quando também experimentasse ser policial. Por fim, me decidi a aceitar o repto. Entraria para a polícia e assim iria testar a exatidão daquilo que vinha ensinando. Um dos meus alunos (um jovem agente de polícia de Jacksonville, Flórida) me incitou a entrar em contato com os xerifes comandantes  e vice-comandante e explicar-lhes minha pretensão...

LUTANDO POR UM DISTINTIVO

Jacksonville me parecia ser o lugar ideal. Era um porto de mar e um centro industrial em crescimento acelerado. Ali ocorriam também manifestações dos maiores problemas sociais que afligem nossos tempos: crime, delinquência, conflitos raciais, miséria e doenças mentais. Tinha igualmente a habitual favela e o bairro reservado aos negros. Sua força policial era tida como uma das mais evoluídas dos Estados Unidos... Pretendia um lugar não como observador, mas como patrulheiro uniformizado, trabalhando em expediente integral durante um período de quatro a seis meses. O comando concordou, mas puseram também a condição de que eu deveria primeiro preencher os mesmos requisitos exigidos a qualquer outro candidato a policial: uma investigação completa ao caráter, exame físico, e os mesmos programas de treinamento. Havia outra condição com a qual concordei prontamente: em nome da moral, todos os outros agentes deviam saber quem eu era e o que estava fazendo ali. Fora disso, em nada eu me distinguiria de qualquer agente, desde o meu revólver Smith Wesson calibre 38 até o distintivo e uniforme...Concluído o curso, eu aprendia como utilizar uma arma, como interrogar suspeitos, investigar acidentes de trânsito, treinamento de luta de defesa pessoal, com os músculos cansados, pensava que estava precisando era de um exame de sanidade mental por ter-me metido naquilo...

PATRULHANDO A RUA

Ao escrever este artigo, já completei mais de 100 rondas como policial iniciado, e tantas coisas aconteceram no espaço de seis meses jamais voltarei a ser a mesma pessoa. Nunca mais esquecerei também o primeiro dia em que montei guarda à porta da delegacia. Sentia-me no mesmo tempo estúpido e orgulhoso no meu novo uniforme azul e com a cartucheira de couro. A primeira experiência daquilo que eu chamo de minhas ‘lições de rua’ aconteceu logo de imediato. Com meu colega de patrulha, fui destacado para um bar, onde havia distúrbios, no centro da zona comercial da cidade. Lá chegando, encontramos um bêbado robusto e turbulento que, aos gritos, se recusava a sair. Tendo adquirido certa experiência em admoestação correcional, apresentei-me a tomar conta do caso. ‘Desculpe, amigo’, disse eu sorridente, ‘não quer dar uma chegadinha aqui fora para bater um papo comigo?’. O homem me encarou esgazeado e incrédulo, , com os olhos raiados de sangue. Cambaleou para mim e me deu um empurrão no ombro. Antes que eu tivesse tempo de me recuperar, chocou-se de novo comigo - e desta vez fazendo saltar da dragona a corrente que prendia meu apito. Após breve escaramuça, conseguimos levá-lo para a radiopatrulha. Como professor universitário, eu estava habituado a ser tratado com respeito e deferência e, de certo modo, presumia que iria continuar assim em minhas novas funções. Agora, porém, estava aprendendo que meu distintivo e uniforme, longe de me protegerem do desrespeito, muitas vezes atuavam como um ‘imã’ atraindo indivíduos que odiavam o que eu representava. Confuso, olhei para meu colega, que apenas sorriu.

TEORIA E PRÁTICA

Nos dias e semanas seguintes, eu iria aprender mais coisas. Como professor, sempre procurara transmitir aos meus alunos a idéia de que era errado exagerar o exercício da autoridade, tomar decisões por outras pessoas ou nos basearmos em ordens e mandatos para executar qualquer tarefa. Como agente de polícia, porém, fui muitas vezes forçado a fazer exatamente isso. Encontrei indivíduos que confundiam gentileza com fraqueza – o que se tornava um convite à violência. Também encontrei homens, mulheres e crianças que, com medo ou em situação de desespero, procuravam auxílio e conselhos no homem uniformizado. Cheguei à conclusão de que existe um abismo entre a forma como eu, sentado calmamente no meu gabinete com ar condicionado, conversava com o ladrão ou o assaltante a mão armada, e a maneira como os patrulheiros encontram homens – quando eles estão violentos, histéricos ou desesperados. Esses agressores, que anteriormente me pareciam tão inocentes, inofensivos e arrependidos depois do crime cometido, agora, como agente da polícia, eu os encarava pela primeira vez como uma ameaça à minha segurança pessoal e à da nossa própria sociedade.

APRENDENDO COM MEDO

Tal como o crime, o medo deixou de ser um conceito abstrato para mim, e se tornou algo bem real, que por várias vezes senti: era a estranha impressão em meu estômago, que experimentava ao me aproximar de uma loja onde o sinal de alarme fora acionado; era uma sensação de boca seca quando, com as lâmpadas azuis acesas e a sirene do carro ligada, corríamos para atender a uma perigosa chamada onde poderia haver tiros. Recordo especialmente uma dramática lição no capítulo do medo. Num sábado à noite, patrulhava com meu colega uma zona de bares mal freqüentados e casas de bilhares, quando vimos um jovem estacionar o carro em fila dupla. Dirigimo-nos pra o local, e eu lhe pedi que arrumasse devidamente o automóvel, ou então que fosse embora – ao que ele respondeu inopinadamente com insultos. Ao sairmos do carro de radiopatrulha e nos aproximarmos do homem, a multidão exaltada começou a nos rodear. Ele continuava a nos insultar e se recusando a retirar o carro. Então, tivemos que prendê-lo. Quando o trouxemos para a viatura da polícia, a turma nos cercou completamente. Na confusão que se seguiu, uma mulher histérica me abriu o coldre e tentou sacar meu revólver. De súbito, eu estava lutando pra salvar minha vida. Recordo a sensação de verdadeiro terror que senti ao premir o botão do armeiro onde se encontravam nossas armas. Até então, eu sempre tinha defendido a opinião de que não devia ser permitido aos policiais o uso de armas, pelo aspecto agressivo que denotavam, mas as circunstâncias daquele momento fizeram mudar meu ponto de vista, porque agora era minha vida que estava em perigo. Senti certo amargor quando, logo na noite seguinte, voltei a ver já em liberdade o indivíduo que tinha provocado aquele quase motim – e mais amargurado fiquei quando ele foi julgado e, confessando-se culpado, condenaram-no a uma pena leve por ‘violação da ordem’.

VÍTIMAS SILENCIOSAS

Dentre todas as trágicas vítimas do crime que vi durante seis meses, uma se destaca. No centro da cidade, num edifício de apartamento, vivia um homem idoso que tinha um cão. Era motorista de ônibus, aposentado. Encontrava-o quase sempre na mesma esquina, quando me dirigia para o serviço, e por vezes me acompanhava durante alguns quarteirões. Certa noite, fomos chamados por causa de um tiroteio numa rua perto do edifício. Quando chegamos, o velho estava estendido de costas no meio de uma grande poça de sangue. Fora atingido no peito por uma bala e, em agonia, me sussurrou que três  adolescentes o tinham interceptado e lhe pediram dinheiro. Quando viram que tinha tão pouco, dispararam e o abandonaram na rua. Em breve, comecei a sentir os efeitos daquela tensão diária a que estava sujeito. Fiquei doente e cansado de ser ofendido e atacado por criminosos que depois seriam quase sempre julgados por juízes benevolentes e por jurados dispostos a concederem aos delinqüentes uma ‘nova oportunidade’. Como professor de criminologia, eu disponha do tempo que queria para tomar decisões difíceis. Como policial, no entanto, era forçado a fazer escolhas críticas em questão de segundos (prender ou não prender, perseguir ou não perseguir), sempre com a incômoda certeza de que outros, aqueles que tinham tempo para analisar e pensar, estariam prontos para julgar e condenar aquilo que eu fizera ou aquilo que não tinha feito.

Como policial, muitas vezes fui forçado a resolver problemas humanos incomparavelmente mais difíceis do que aqueles que enfrentara para solucionar assuntos correcionais ou de sanidade mental: rixas familiares, neuroses, reações coletivas perigosas de grandes multidões, criminosos. Até então, estivera afastado de toda espécie de miséria humana que faz parte do dia-a-dia da vida de um policial.

BONDADE EM UNIFORME

Freqüentemente, fiquei espantado com os sentimentos de humanidade e compaixão que pareciam caracterizar muitos dos meus colegas agentes da polícia. Conceitos que eu considerava estereotipados eram, muitas vezes, desmantidos por atos de bondade: um jovem policial fazendo respiração boca a boca num imundo mendigo, um veterano grisalho levando sacos de doces para as crianças dos guetos, um agente oferecendo à uma família abandonada dinheiro que provavelmente não voltaria a reaver.

Em consequencia de tudo isso, cheguei à humilhante conclusão de que tinha uma capacidade bastante limitada para suportar toda a tensão a que estava sujeito. Recordo em particular, certa noite em que o longo e difícil turno terminaria com uma perseguição a um carro roubado. Quando largamos o serviço, eu me sentia cansado e nervoso. Com meu colega, estava me dirigindo para um restaurante a fim de comer qualquer coisa, quando ouvimos o som de vidros se quebrando, proveniente de uma igreja próxima, vimos dois adolescentes cabeludos fugindo do local. Conseguimos interceptá-los e pedi a um deles que se identificasse. Ele me olhou com desprezo, xingou e me virou as costas com intenção de se afastar. Não me lembro do que senti. Só sei que eu agarrei pela camisa, colei seu nariz bem no meu e rosnei: ‘Estou falando com você, seu cretino!’

Então, meu colega me tocou no ombro, e ouvi sua reconfortante voz me chamando à razão: ‘Calma, companheiro!’ larguei o adolescente e fiquei em silêncio durante alguns segundos. Depois, me recordei de uma das minhas lições, na qual dissera aos alunos: ‘O sujeito que não é capaz de manter completo domínio sobre suas emoções em todas as circunstâncias não serve para policial’.

DESAFIO COMPLICADO

Muitas vezes perguntara a mim próprio: ‘Por que um homem quer ser policial?’ Ninguém está interessado em dar conselhos a uma família com problemas às três da madrugada de um domingo, ou entrar às escuras num edifício que foi assaltado, ou em presenciar dia após dia a pobreza, os desequilíbrios mentais, as tragédias humanas.

O que faz um policial suportar o desrespeito, as restrições legais, as longas horas de serviço com baixo salário, o risco de ser assassinado ou ferido?

A única resposta que posso dar é baseada apenas na minha curta experiência como policial. Todas as coisas eu voltava para casa com um sentimento de satisfação e ter contribuído com algo para a sociedade - coisa que nenhuma outra tarefa me tinha dado até então. Todo agente da polícia deve compreender que sua aptidão para fazer cumprir a lei, com a autoridade que ele representa, é a única ‘ponte’ entre a civilização e o submundo dos fora da lei. De certo modo, essa convicção faz com que todo o resto (o desrespeito, o perigo, os aborrecimentos) mereça que se façam quaisquer sacrifícios.”

* O artigo “De professor a policial”, foi publicado na página 84 de seleções do Reader’s Digest do mês de março de 1975. Tomo VIII, nº 46.

Foto – Quartel da Polícia do Exército, Cabanga-Recife, 1960. Na foto, aparecem soldados  da PE e, ao centro em pé, com capacete (assinalado), o soldado apelidado por “Barruada”, abatido pela Polícia do Exército, no golpe militar de 1964. Próximo, aparece o autor, o terceiro da direita para a esquerda, idem de capacete. Os demais estão de gorros de pala.

Nota do autor: No Recife, o regime fez as suas primeiras vítimas: os estudantes Ivan Rocha Aguiar e Jonas José de Albuquerque Barros (mortos) e um ferido, não identificado!

** Formado em Comunicações Internacionais, escritor, poeta, teólogo e teatrólogo. Como escritor e poeta, tem trabalhos publicados nos jornais: Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e em vários sites... Tem 13 títulos publicados, todas edições esgotadas.
 



Encontro no trem



* Por Eduardo Oliveira Freire



S
ozinho na multidão observa a paisagem em movimento. De repente, olha para o lado e vê uma jovem observando-o. Fica desapontado, decide que não cederá. A jovem se aproxima. Tenta fugir. Ela é mais rápida:
 - Oi. Não quero incomodar, mas sempre acompanhei suas novelas. É um excelente ator. A tevê produz um fenômeno estranho, quando você aparecia na TV lá de casa, o considerava um amigo íntimo. Estou passando uma temporada por aqui e o que me conforta é a reprise de uma novela muito antiga sua. Você tá tão engraçado sendo dublado... sentia saudades de sua voz. Desculpa por importuná-lo. Pode me dar um autógrafo?
- Sim. O seu nome?
- Antônia.

Ele autografou com o coração terno. Antônia tinha uma beleza frágil. Pensou que para fazer amor com a moça, precisaria ter todo o cuidado, para não partir os seus ossos sensíveis. Convidou-a para ir ao café.
- Não posso. Tenho que trabalhar. Foi muito bom encontra-lo.

 Ele quis pegar endereço de Antônia, mas ela saiu rapidamente do vagão, misturou-se logo na multidão. Voltou à condição de anônimo e continuou a viajar no trem.

* Eduardo Oliveira Freire é formado em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, está cursando Pós Graduação em Jornalismo Cultural na Estácio de Sá e é aspirante a escritor

A estratégia xavante não previa o inimigo refrigerante


* Por Mouzar Benedito


Os jornais trouxeram um dia desses, uma notícia triste: os xavantes, povo indígena que conseguiu por muito tempo não se sujeitar aos invasores brancos, está agora sendo atacado por algo mortal da nossa cultura: o consumo exagerado de refrigerantes, que no caso dos índios, é mais prejudicial à saúde e causa diabetes em uma boa parcela deles. Muitos já morreram com a doença e outros estão mal.

Isso me trouxe à lembrança um filme brasileiro muito premiado fora daqui, que nunca vai entrar no circuito comercial e fazer sucesso de público, mas deveria ser visto pela grande maioria dos brasileiros, especialmente pelos que acham que índio é menos inteligente ou menos humano do que os descendentes de europeus.

O filme, de 2007, chama-se “Estratégia Xavante”. Ele não tem batalhas, não é apelativo, é equilibrado e muito interessante. Merece parabéns o diretor Belisário França.

Conta uma história que teve início com a percepção de um líder indígena de que, para seu povo sobreviver, era preciso entrar no cerne da cultura dos brancos, entender essa cultura e saber como se defender dela, para desenvolver uma estratégia tentando preservar seu território e suas tradições.

Na década de 1940, depois de muitas tentativas, sertanistas liderados por Sebastião Meirelles, conseguiram fazer contato com os xavantes do nordeste de Mato Grosso. Meirelles se admirou tanto pela sabedoria do líder desse povo que colocou em seu filho o nome dele, Apoena.

Nos anos da ditadura, o governo começou a incentivar fazendeiros a ocupar terras indígenas e para isso matava-se índios como se não fossem gente.

O cacique Apoena, já idoso, convenceu seu povo de que era preciso mandar meninos para a cidade dos brancos, para que estudassem, entendessem o que se passava na cabeça desses invasores e voltassem para suas aldeias, com estratégias para não serem mortos nem perderem suas terras e sua cultura.

Um sertanista de Ribeirão Preto, Paulo Barbosa, se ofereceu para levar os meninos para lá, cada um viveria com uma família. E assim, na década de 1970, oito meninos foram levados para Ribeirão Preto. As mães desses meninos choraram muito, mas entenderam que isso era preciso.

Os meninos tiveram que se adaptar a uma realidade que não conheciam, mas foram tratados com muita dignidade por famílias que cuidaram deles como seus filhos legítimos, estudaram, aprenderam as manhas da nossa cultura e, com inteligência, a criar maneiras de resistir a elas.

As teorias do cacique Apoena estavam corretas. Dos oito meninos xavantes que foram para Ribeirão Preto, só um não voltou para seu povo, mas continuou militando pela causa indígena e foi um dos que ajudaram a produzir o filme.

Os outros se tornaram líderes da nação deles, preservando sua identidade e suas tradições, mas usando muitos dos benefícios da sociedade branca. Conseguiram inclusive, com base nos conhecimentos adquiridos, reconquistar parte do território que pertencia a eles e foi invadida nos anos da ditadura.

Mas alguns “benefícios”, na verdade algumas facilidades do nosso modo de vida, que mais recentemente foram introduzidos no cotidiano dos xavantes, acabaram se revelando inimigos muito destrutivos. Cavalos de Troia!

Os aparentemente inofensivos refrigerantes conseguem o que outros meios de agressão não conseguiram: estão minando a cultura indígena e também a saúde dos orgulhosos xavantes. Que pena!

De qualquer forma, aproveito para recomendar a quem tiver oportunidade, para que assista a esse filme. E pense no que está acontecendo agora.


* Jornalista
O que é ter fé


* Por Frei Betto


Todos conhecemos pessoas que frequentam a igreja e, no entanto, se comportam de modo contrário aos valores evangélicos: tratam subalternos com desrespeito; sonegam direitos de empregados; discriminam por razões raciais ou sexuais.

Pessoas que enchem a boca de Deus e trazem o coração entupido de ira, inveja, soberba; são indiferentes aos direitos dos pobres; omitem-se em situações graves que lhes exigem solidariedade.

E temos à nossa volta, no círculo de amizades, pessoas ateias ou agnósticas que, em suas atitudes, transparecem tudo o que o Evangelho acentua como valores: amor ao próximo, justiça aos excluídos, solidariedade aos necessitados, partilha de bens etc.

O Catecismo da Igreja Católica, aprovado por João Paulo II, em 1992, e elaborado sob a supervisão do téologo Ratzinger, futuro papa Bento XVI, define a fé como "adesão pessoal do homem a Deus". E acrescenta que é "o assentimento livre de toda a verdade que Deus revelou." E a portadora dessa verdade é a Igreja.

Assim, só teria verdadeira fé cristã quem submete seu entendimento ao que ensina a autoridade eclesiástica (papa, bispos e pastores).

Devido a essa maneira de entender a fé, o que se crê se tornou mais importante do que como se vive. Criou-se uma ruptura entre fé e vida. A ponto de pesquisa na França, ao indagar a diferença entre um empresário sem religião e outro cristão, a maioria apontou um único detalhe: o segundo vai à missa de vez em quando. No resto, em nada diferem...

Para Jesus, quem tinha fé? A resposta é desconcertante. Em Mateus 8, 10, Jesus declara que o homem com mais fé que até então havia encontrado era um oficial romano, um centurião.

Ora, como Jesus pôde elogiar a fé de um oficial pagão? O episódio demonstra que, para Jesus, a fé não consiste, em primeiro lugar, naquilo que se crê, e sim no modo de proceder. Aquele pagão era um homem sensível, solidário, preocupado com o sofrimento de um servo.

A mesma atitude de Jesus se repete no caso da mulher cananeia, que também era pagã. A mulher pede a Jesus que lhe cure a filha. Diante dela, Jesus reconhece: "Mulher, grande é a sua fé!" (Mateus 15, 28). Grande, não por causa da crença da mulher, e sim por seu procedimento amoroso.

O mesmo ocorre no caso do samaritano hanseniano, curado em companhia de nove judeus (Lucas 17, 11-19). Os judeus, segundo suas crenças religiosas, se apresentaram aos sacerdotes, como recomendou Jesus. Já o samaritano, que não obedecia às prescrições das autoridades religiosas e não se sentia obrigado a submeter-se a elas, retornou para agradecer a Jesus, que lhe exaltou a fé: "A sua fé o salvou" (Lucas 17, 19).

Para Jesus, portanto, a fé, antes de se vincular a um catálogo de crenças, a uma doutrina, se relaciona a um modo de viver e agir.

Jesus, por vezes, duvidou da fé de quem estava mais próximo dele (Marcos 4, 40). Discípulos e apóstolos foram considerados "homens de pouca fé" (Mateus 8, 26).

Jesus fez a desconcertante afirmação de que prostitutas e cobradores de impostos terão precedência no Reino de Deus, e não os "exemplares" sacerdotes (Mateus 21, 31).

Isso deixa claro quem Jesus reconhecia como crente. Não propriamente quem aceita o que prega a religião, e sim quem age por amor, solidariedade e justiça, como o bom samaritano (Lucas 10, 29-37).

Ter fé é, sobretudo, viver de acordo com os valores segundo os quais vivia Jesus.

A Igreja está em crise. Suas autoridades culpam o laicismo, o relativismo, o hedonismo. Ora, será que as autoridades religiosas, e nós, frades, freiras, padres e pastores, não temos culpa nisso, por apresentar a fé cristã como verdades cristalizadas em doutrina, e não expressada em vivência?

* Frei Betto é escritor, autor de “O que a vida me ensinou” (Saraiva), entre outros livros.