domingo, 2 de novembro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, sete meses e um dia de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – Utopias que não se sustentam.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, poema “Vasto renascer”.

Coluna Direto do Arquivo – Edmundo Pacheco, conto, “Astolfo e Ana - I”.

Coluna Porta Aberta – Ariano Suassuna, conto, “O gênio máximo da humanidade”..

Coluna Porta Aberta – Donald Malchitzky, crônica, “Sou ignorante, tenho medo”.

Coluna Porta Aberta – Lúcia Rodrigues, artigo, “Por trás da falta d’água, privatização e ganância”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com “Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br



Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.



Utopias que não se sustentam


O professor Lucien Sfez, da Universidade de Paris, cita uma nova utopia dos tempos modernos: a da saúde absoluta.  O corpo saudável (felizmente) tornou-se ideal, empenho, obsessão de muitas e muitas pessoas ao redor do mundo. Pena que poucos tenham acesso áquilo que o viabiliza: alimentação adequada, saudável e equilibrada, exercícios devidamente compatíveis com o potencial de cada organismo e ritmo de vida sem vícios, excessos e nem descuidos. A Medicina foi um dos ramos da ciência e da tecnologia de maior evolução e progresso, em especial a partir da segunda metade do século XX. Até 1929, os antibióticos, por exemplo, eram desconhecidos, até que nesse ano, Alexander Fleming descobriu (por puro acaso) a penicilina. Novos medicamentos, equipamentos ultra-sofisticados de diagnóstico e técnicas cirúrgicas são desenvolvidos praticamente todos os dias. No outro extremo, porém, há doenças novas surgindo, atingindo, logicamente, os que não têm sequer o suficiente para comer.

Lucien Sfez aborda a questão da saúde em uma entrevista publicada pelo caderno "Mais!", do jornal Folha de S. Paulo, na edição de 7 de abril de 1996. Afirma: "A Biosfera 2 e o Genoma são o retorno à origem, são o reencontro de Adão antes da queda, uma espécie da Adão perfeito, o Adão do paraíso terrestre, geneticamente purificado. O que é a Biosfera 2? O paraíso terrestre. Do lado do genes, quer se encontrar o puro em si. O homem selvagem. Os dois projetos se fundem nisso: a origem sonhada, o Éden, antes das doenças e da poluição".

Mais adiante, respondendo a uma pergunta do repórter, o professor Sfez acrescenta: "As utopias mudaram de signo, e a ideologia perdeu a sua base tradicional. As utopias não se opõem à realidade e a ideologia deixou de ser um signo das coisas, para se transformar em signo-coisas, coisas-signos. E o inimigo não está  no exterior para ser combatido ou civilizado. Não é mais o selvagem, o negro, o judeu, o burguês. O inimigo está dentro de nós, na cidade poluída, nos nossos genes, na camada de ozônio, na droga, no colesterol, anônimo, e quem o combate é a tecnociência onipotente. A ideologia está aqui, mas como que entrelaçada na utopia da saúde perfeita do corpo e do Planeta, interdependentes. E essa utopia é prática".

De fato, tem vários dos ingredientes que julgo essenciais. Mas sonho com uma era em que todas as doenças, tanto do corpo quanto do espírito, sejam erradicadas. Em que não haja, de um lado, uma raça de gigantes, saudável e longeva, e de outro, multidões de seres raquíticos, famintos, doentes e frágeis, morrendo de doenças simples, subprodutos da fome e da extrema miséria, como a diarréia e a dengue, para não dizer o ebola. A utopia de Sfez, portanto, embora apresente alguns fragmentos da minha, não é, ainda, ela, na sua integralidade.

Desde 1989, data tomada como marco do fim da Guerra Fria, com a derrubada do Muro de Berlim e que antecipou a dissolução da União Soviética, dois anos depois, vem se propalando uma tal de "globalização", que seria uma espécie de Éden econômico. Apregoa-se nova era, que no entanto ainda não mostrou sua cara. Não impediu a crise econômica, que ainda penaliza o Primeiro Mundo, mas cujo reflexo mais perverso recai sobre a infinidade de país pobres da África, Ásia e América Latina. O "mercado" é deificado e em seu nome são praticados determinados atos que, em vez de diminuir, ampliam o profundo fosso existente entre os homens. De um lado, uma minoria perdulária, que desperdiça recursos e depreda o Planeta e que tudo tem e tudo pode. De outro, dois terços da humanidade nos limites entre a pobreza e a indigência, o que é inconcebível. A "globalização" é a nova utopia das classes políticas e econômicas. Mas não é a minha.

Carlos Gabaglia Penna, diretor do Comitê Brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, no artigo "A Sagração Econômica", publicado no dia 12 de abril de 1998, no Jornal do Brasil, informa: "A produção mundial de bens e serviços ultrapassou US$ 23 trilhões em 1997. De 1987 a 1995, a economia global expandiu-se em US$ 3,8 trilhões, igual ao total da produção de 1950. Apesar do crescimento demográfico, a renda per capita mundial passou de US$ 1.500 anuais em 1950, para US$ 3.600 em 1995. Desde 1900, enquanto a população do Planeta triplicava, a economia aumentava 20 vezes, o consumo de combustíveis fósseis multiplicava-se por 30 e a produção de bens por 50. Cerca de 80% desse crescimento vertiginoso ocorreram após 1950. São números econômicos que confirmam o inexorável caminho da civilização industrial para o paraíso. Serão mesmo?" E Gabaglia acrescenta: "Em 1960, os 20% mais ricos do mundo tinham uma renda 30 vezes maior do que os 20% mais pobres. Em 1980, essa relação já era de 45 vezes e, em 1991, a concentração de renda alcançava a proporção de 61 para 1. Os 60 homens mais ricos do Globo têm mais riqueza do que a África inteira e boa parte da Ásia juntas". Dados recentes apenas confirmam essa tendência de hiperconcentração de riquezas em pouquíssimas mãos;

E Penna conclui: "Com toda a riqueza material, sem paralelo na história humana, as crescentes mazelas sociais estão aí para quem quiser ver: drogas, alcoolismo, crime organizado, violência urbana, alienação social. Os suicídios aumentaram muito nos países ricos. O número de refugiados políticos e ambientais é o maior desde a Segunda Guerra Mundial. Países como o nosso apresentam ainda elevadas taxas de favelização, baixa escolaridade, mão-de-obra infantil e trabalho escravo". Decididamente, a "globalização" que aí está não é e nem pode ser a minha utopia.

Como aceitar que, em um mundo globalizado, mais de um bilhão de pessoas passem fome, quando a natureza tem sido generosa e safras recordes se sucedam de ano para ano? Como conceber uma pretensa Nova Era na qual 850 milhões de pessoas ao redor do mundo estejam desempregadas ou subempregadas, fazendo bicos para sobreviver? Como se ousa insinuar o novo Éden, quando há vinte milhões de nossos irmãos vivendo em acampamentos de refugiados, vítimas das várias guerras civis nos quatro quadrantes do Planeta? Onde mais de 100 milhões de "homeless" fazem das ruas, de vãos de pontes e viadutos seus lares, vegetando em situação muito mais precária do que os ancestrais das cavernas, pois nem estas possuem para se abrigar? Onde crianças de oito a onze anos trocam canetas e cadernos por fuzis e metralhadoras, nas várias guerras étnicas na África e na Ásia ou nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Campinas etc? Não! Esta não pode ser, e nem é, a minha utopia!!!.

Desde a invenção da escrita, milhares de textos foram deixados à posteridade, sobre uma suposta e desejável "Idade de Ouro", quando os homens teriam vivido em inocência, o vício da cupidez ainda não havia criado as odiosas divisões de classe e a humanidade seria harmoniosa e feliz. Provavelmente, os autores, das mais diversas épocas, lugares e costumes, expressaram somente o seu ideal, a utopia das utopias. A partir da Renascença, com o advento da era das grandes navegações, circularam lendas a propósito da existência de um lugar de plena felicidade. Seria uma ilha, perdida em vastidões oceânicas e isolada do mundo, para evitar o contágio das pseudocivilizações existentes, mormente as européias e asiáticas. Foi à procura desse hipotético paraíso que Cristóvão Colombo aportou na América, julgando estar na Ásia, próximo à procurada "ilha das especiarias".

O espanhol Cabeza de Vaca situou esse edênico local no coração da América do Sul, nos altiplanos andinos, provavelmente nos arredores do Lago Titicaca, no Peru, ou no centro da Colômbia. Fernão de Magalhães circunavegou o Planeta e julgou ter descoberto a "ilha de ouro" nas Filipinas, onde morreu em combate com os nativos locais. Mungo Park e Richard Burton entenderam que esse paraíso existisse no interior da África e empreenderam, em vão, exaustiva jornada por vastas extensões desse continente, que lhes exauriu a saúde e abreviou a vida. Vitus Behring procurou esse lendário lugar no Extremo Norte da Terra, sem encontrá-lo. Encontrou foi a morte, mas descobriu a passagem entre a Ásia e a América.

Essa "ilha de ouro" não existe. Ainda está por ser construída por pessoas de larga visão e de boa vontade. Sua localização não vai estar em algum minúsculo pedaço de terra do Pacífico Sul, do Atlântico Norte ou de qualquer outro dos mares da Terra. Será neste próprio e bizarro planeta azul, em sua totalidade, assim que seus habitantes reciclarem suas prioridades e se derem conta da estupidez de acumular bugigangas, como fazem desde que tiveram o primeiro lampejo de consciência. Embora seja óbvio que deste mundo não levamos coisa alguma, tão logo a morte – fatalidade biológica que atinge indistintamente o humilde e o poderoso, o sábio e o néscio, o rico e o miserável – nivele a todos, mas ao contrário deixamos atos e fatos e gestos de amor, o ideal das últimas gerações tem sido apenas o de juntar coisas, em geral inúteis. Voltarei ao assunto.

Boa leitura.

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk 
Vasto renascer

* Por Pedro J. Bondaczuk


“... A superfície civilizada da terra é um vasto renascer de coisas e idéias”. Bela frase! Bela e verdadeira! Todavia, não é (infelizmente) da minha lavra. Bem que eu gostaria que fosse minha. O que fazer? Meu talento não chega a tanto. Quem fez essa constatação foi ninguém mais e ninguém menos do que o escritor que tomei como modelo, como parâmetro, como referencial nessa minha caminhada pelo fascinante mundo da Literatura. Quem pensou em Machado de Assis, acertou.

O “Bruxo do Cosme Velho”, que morreu em 29 de setembro de 1908 (portanto, há um século) escreveu essas marcantes palavras na sua coluna de 1º de julho de 1876, intitulada “História de quinze dias”, que publicava duas vezes por mês no jornal “Gazeta de Notícias” do Rio de Janeiro.

Não gosto de conceituar escritores e dizer “este é o maior”, “aquele é o menor”, “este é o rei da poesia brasileira”, “aquele é o príncipe” (e eu, então, sou o plebeu dos plebeus!)   ou coisa parecida. Para mim, todos os que li são grandes. Devo-lhes infinita gratidão, pois foram meus generosos mestres (sem nada cobrar e sequer me conhecer). Concordo, pois, com Mário Quintana, a esse propósito (e a tantos e tantos outros, para não dizer a todos).

Certa feita, perguntaram-lhe quem ele achava que era o maior poeta do País. Sem titubear, meu ilustre (e sublime) conterrâneo respondeu, na bucha, com a singeleza e a sinceridade que o caracterizavam: “Deixe disso. Nenhum poeta é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar”. Diria, no caso, que “nenhum escritor é cavalo de corrida para ser obrigado a chegar em primeiro lugar”. Abro, apenas, uma, uma única e exclusivíssima exceção: Machado de Assis.

Considero-o incomparável (e que me perdoem os demais). Digam o que quiserem os meus críticos, chamem-me dos nomes mais feios que souberem, escrevam furiosos comentários me contestando, entupam minha caixa de correspondência virtual de e-mails malcriados e ofensivos, mas afirmo, e sustento: o Bruxo do Cosme Velho foi, é e continuará sendo, provavelmente, enquanto existir o mundo, o “top”, o máximo, o número um da Literatura Brasileira (e, se bobearem, disputará a liderança mundial). Exagero? Talvez! Parodiando Cazuza, “sou mesmo exagerado”.

Afirmo isso não de ouvir dizer. Li tudo o que tive notícia que Machado de Assis escreveu, inclusive textos nunca publicados em livros. Deliciei-me com  seus romances, emocionei-me com sua poesia, aprendi demais com seus contos (gênero em que tento me especializar), “devorei” suas crônicas e conheci (como se tivesse vivido nesses tempos que nos parecem tão remotos, mas que na verdade são tão próximos) como era nosso segundo império através dos seus agudos, inteligentes, oportunos, mas sempre divertidos e bem-humorados comentários políticos.        

Quem esperava que eu homenageasse Machadão (forma carinhosa com que sempre me refiro ao meu ídolo) escrevendo alguma resenha de qualquer de seus livros, algum ensaio sobre suas fontes ou, talvez, apresentando dados biográficos supostamente desconhecidos a seu respeito, certamente irá se frustrar. Se o fizesse, convenhamos, não estaria sendo nada original. Por estes dias, certamente, muitos e muitos estão fazendo ou farão tudo isso e divulgarão em jornais, revistas e na TV.

Quem escreve, agora, estas linhas sem nexo, não é o escritor Pedro e muito menos o jornalista ou o crítico literário. É o leitor, apaixonado e agradecido, sem a mínima necessidade de ser objetivo ou sequer coerente. Às favas com a coerência! Ademais, não pretendo, depois de velho, entrar no requisitadíssimo time dos “idiotas da objetividade” (expressão que empresto, com muito gosto, de outro dos meus favoritos, Nelson Rodrigues).        

Machado de Assis escreveu, nesse mesmo comentário que citei: “Passam-se os séculos, as repúblicas, as paixões; a história faz-se dia por dia, folha a folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se, modificam-se, transformam-se”. Só faltou posar com uma caveira nas mãos, com esta legenda: “sic transit gloriam mundi”. Pois é assim que tudo termina: em alterações, corrupção, mudanças e transformações. Em poeira e esquecimento.

Mas, o consolo é que, como Machado frisou, “toda a superfície civilizada da terra é um vasto renascer de coisas e idéias”. Minha esperança é que, quando se completar o segundo século do “encantamento” do nosso escritor número um (afinal, como garantiu Guimarães Rosa, os grandes homens nunca morrem, “ficam encantados”), em 2108, esta destrambelhada crônica seja encontrada por alguém, alhures. E que, apesar da sua falta de coerência e de objetividade, seja a semente do renascer das idéias que Machado de Assis nos legou. Tenho a maluca pretensão de que, de fato, seja.

* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos), “Cronos & Narciso” (crônicas), “Antologia” – maio de 1991 a maio de 1996. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 49 (edição comemorativa do 40º aniversário), página 74 e “Antologia” – maio de 1996 a maio de 2001. Publicações da Academia Campinense de Letras nº 53, página 54. Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk 



Astolfo e Ana – I

* Por Edmundo Pacheco


Desabava um aguaceiro de Deus quando Dom Astolfo resolveu-se por acampar. DeSilva, um negro de quase dois metros de altura e olhos enormemente brancos, largou os pesados apetrechos que trazia sobre suas costas marcadas pelas chibatadas do passado, e pelo peso das cangalhas, e gritou para os outros mateiros.
- EEEIII!!!!   Paaarem!!   EEEIIIAAAA!!!!

O grito do ex-escravo ecoou  pela pequena ravina. Não fosse noite alta já, os pássaros e macacos, habitantes das árvores mais altas, teriam fugido apavorados com o barulho desmedido.

Uns 200, 300 metros abaixo, à beira de um córrego de águas agora negras, uma família de porcos do mato não esperou o dia amanhecer. Fugiram todos na direção contrária ao alvoroço.

Corria o ano da Graça de Nosso Senhor de 1745. E um cinco de janeiro dos mais chuvosos já vistos. As chuvas constantes e as dificuldades de se enfrentar léguas e léguas mata adentro, teriam desanimado o mais otimista dos bandeirantes. Mas não eram bastante para desanimar, sequer para desbotar a determinação de Dom Astolfo. Determinação que tinha nome, sobrenome e, sobretudo, um rosto de anjo inocente num corpo de mulher trepadeira, que faria suar o mais afrescalhado dos fidalgos da corte: dona Ana de Vasconcelos e Almeida.

Do alto de seus 22 anos, dona Ana de Vasconcelos e Almeida era a própria encarnação de um anjo. Um anjo que Dom Astolfo tivera, numa tarde calorenta e ensebada de São Sebastião do Rio de Janeiro, a felicidade e o azar supremos  de deitar os olhos. Um olhar cruzado e foi o quanto bastou. Estava decidido que pertenceriam um ao outro pelos séculos e séculos vindouros, ante qualquer empecilho que o destino porventura pudesse caprichosamente impor. Dom Astolfo assim o decidira. Mesmo que dona Ana de Vasconcelos e Almeida jamais viesse a saber.

Mas ela sabia. Também ela, recém-chegada à estranha terra de seus avós, ainda desacostumada ao odor forte dos escravos, dos penicos despejados às calçadas num sem-cerimônia selvagem, à poeira e à lama das ruas e à grosseria dos homens, sentira a marca quente da retina daquele cavalheiro de traços largos e olhos negros penetrantes.

Descia a ladeira que daria à entrada do casario, no centro da cidade, amparada e abanada por duas negras gordas, destas pajens de trato comum, quando, sem demência, deixou os olhos escorrerem em direção ao mar. Gostava da visão. Apesar do mundo grotesco que a cercava e a que estava pouco acostumada, o mar, com suas águas extremamente azuis da baia da Guanabara, era de uma rara beleza. Coisa rara de se apreciar neste mundo perdido do lado de cá dos oceanos. E foi esta atração que a fez desviar-se da atenção, cuidados necessários do caminho, para encontrar-se espiritualmente com a pessoa a quem secularmente pertenceria.

Os olhos se cruzaram por apenas um segundo, não mais que isto. Ninguém, nem mesmo as duas pajens, percebeu o acontecido. Mas durou dias, meses, anos, décadas. Foi como se naquele lampejo, aquelas duas almas perdidas neste mundo pagão, tivessem vivido uma vida.

O moço de cabelos mui negros, cortados à moda militar, sentado à entrada do casario de Dom Fernando, tio de dona Ana de Vasconcelos e Almeida, era, então "Tofinho". Filho de uma escrava mulata, trazida prenhe das lavouras de cana-de-açúcar da Bahia, para ajudar no trato da casa de Dom Fernando Algraves das Neves Filho, um fidalgo dos mais renomados da corte. Pelo que se dizia à época, a mulata-pajem, de uma beleza exuberante, era mucama do dono e fora trazida para a cidade para ter o rebento e para lhe amenizar os esforços. No casario era a rainha dos escravos. Mandava e desmandava. A segunda dona da casa. Também, mãe do único rebento macho da família, havia de ter seus direitos. Era  o que se dizia. Dizia, mas não provava.

O certo, verdade ou não, é que Tofinho veio ao mundo cuspido e escarrado a cara do dono da mãe e teve que ser criado isolado da casa grande, pra evitar constrangimentos à dona Maria de Alcantara Algraves das Neves, a dona, Dom Fernando e suas três filhas legítimas. Que por sinal, em nada lembravam ao pai.

E assim a vida fez-se. Enquanto as três meninas, apesar da desnecessidade, por serem mulheres, freqüentarem as melhores escolas da corte e terem mais que as lições de costura e bordados, exigidos, o pobre Tofinho era ensinado na arte de fazer artes entre as negras. E, já mocinho, na arte de fornicar e reproduzir os escravos. Atividade que também era sempre bem-vista, se bem que oficiosamente.

Só quando as três filhas oficiais de Dom Fernando partiram em direção à Europa, acompanhadas pela mãe, para completar os (desnecessários) estudos e aprender a conviver numa sociedade civilizada, é que Tofinho obteve o privilégio de poder subir ao casario para foder as pretas mais novas, as pajens mais bem-tratadas e limpas. E lá pôde botar os olhos num outro mundo, que, se sabia existir, era de ouvir falar, mas de pouco interessar.

De súbito, percebeu as diferenças e resolveu que não pertencia ao mundo das senzalas. Tofinho era branco. Tinha a semelhança física e de atitudes de seu pai, mas isso nunca havia ficado evidente até o dia em que, aí pelos 16, 17 anos não contados, sua mãe pegou-o pela mão e anunciou.
- Hoje você vai conhecer a casa grande.

Meio com medo, meio assustado, Tofinho ainda pensou em correr, embrenhar-se nos cafezais como sempre fazia e esquecer a bobagem. Mas, pensou melhor e resolveu que deveria encarar o desafio, fosse qual fosse. E encarou.

Não encontrou nada de assustador, como lhe parecia em seu sonhos. A casa era extremamente simples, com a diferença da limpeza e da alvura das roupas. Alvura que ele só via em sua mãe, mesmo assim, quando ela lhe vinha visitar na senzala, nas tardes de domingos. Entrou pela porta da cozinha, meio ressabiado, ainda tentando puxar a mão que a mãe levava, mas, como não havia mais ninguém no recinto, deixou-se cair numa cadeira onde passou a tarde.

Só à noite, quando Dom Fernando chegou da rua, fazendo um barulho de patrão chegando em casa, é que teve algum desassossego. Mesmo assim, pouco. Logo ele foi-se para o quarto e a casa retornou ao marasmo do dia. Quando pensou em voltar para a senzala, sua mãe apresentou-lhe outra surpresa: um quarto, bem arrumado. Quarto, na parte de baixo da casa, ao lado da cozinha, onde devia ficar.

A noite passou arrastada, doída pela falta de costume de colchão de palha de primeira, lençóis limpos e perfumados, cobertas de pena de ganso e essas coisas de gente rica. Na manhã seguinte, dormia um sono acanhado, quando viu, de soslaio, uma figura imponente, de cabelos mui brancos e ondulados, parada à porta. De início, pensou estar sonhando. Só teve certeza que não quando ouviu Dom Fernando conversando aos cochichos com sua mãe.
- De agora em diante, quero ele junto de mim. Por enquanto, deixa ele aqui neste quarto, mas logo que possível, ele sobe pro quarto maior. Mais tarde, quando ele acordar... não vá fazer barulho pra acordar o menino... Mais tarde, quando ele acordar, você me manda avisar. Vou mandar uma charrete buscar ele pra ir comprar umas roupas, cortar cabelos, essas coisas. Ah, e ainda hoje vou mandar um professor, pra iniciar ele nos estudos...
-Tá certo sim sinhô.

CONTINUA

*Jornalista, editor-chefe da TV Guairaca (afiliada Globo) Guarapuava, PR





O gênio Máximo da humanidade


* Por Ariano Suassuna

Aquilo também me interessava profundamente, pelo que, sem querer; dei uma esporeada no vazio de "Pedra Lispe", que deu uma poupa. Reequilibrei-me e falei:
- Como é? E o cargo de "Gênio Máximo da Humanidade" também ainda está vago? Pergunto, porque, no "Seminário da Paraíba", a gente estudava Retórica num livro do Doutor Amorim Carvalho, as Postilas de Retórica e Gramática. Esse Doutor era "Retórico do Imperador Pedro II", de modo que sua palavra não é brincadeira, e ele afirma que, de todos os Poetas, "o primeiro, no tempo e na glória, é Homero"!
- Discordo inteiramente, porque está absolutamente errado! - disse Clemente. Essa idéia da autoria individual das obras é reacionária e está ultrapassada! Hoje, está provado que Homero nunca existiu! Os dois poemas que são a "obra da raça grega" foram compostos aos poucos, pelo Povo, e reunidos depois pelos eruditos!
- A autoria da obra é sempre trabalho de um homem só! - disse Samuel, já se irritando. - Homero não foi o "Gênio Máximo da Humanidade", mas o motivo principal disso foi a vulgaridade, a grosseria que o levou a lançar mão daquelas horríveis histórias populares!

Eu procurei, de novo, desviar a briga. Interrompi:
- Bem, o importante é que já estão demonstradas três teses! Primeiro, que o "Gênio da Raça" é um escritor. Segundo, que o cargo de "Gênio da Raça Brasileira" está ainda vago. E terceiro, que ainda está vago, também, o de "Gênio Máxima da Humanidade", porque o único candidato apontado até agora, Homero, além de não existir, era grosseiro e vulgar! Tudo isso constará da nossa ata, recebendo, assim, o selo oficial e acadêmico que lhe dará certeza! Mas existe ainda um problema importante: qual deve ser o assunto da Obra nacional da Raça Brasileira ?

***

Meu plano era obter aos poucos, deles, sem que nenhum dos dois pressentisse, a receita da Obra da Raça, para que eu mesmo a escrevesse, passando a perna em ambos. Eles me olharam um momento, em silêncio, entreolharam-se, e então Samuel falou:
- Bem, é difícil dizer assim, depressa! Mas acho que o assunto da Obra da nossa Raça tem que ser o Brasil!
- O Brasil? - indaguei, perplexo. - Mas o Brasil, como? - O Brasil, o Brasil! - repetiu Samuel, impaciente. - Que assunto melhor do que o feito dos nossos antepassados, os Conquistadores, a "raça de gigantes ibéricos" que forjou o Brasil, introduzindo-nos na Cultura mediterrânea e católica?

Clemente zangou-se e vociferou, de lá:
- Esta é a idéia sua e dos seus amigos, patrioteiros e nacionalistas! De fato, a Obra da nossa Raça deve ter como assunto o Brasil! Mas que "cultura" foi essa que os Portugueses e Espanhóis nos trouxeram? A cultura renascentista da Europa em decadência, a supremacia da raça branca e o culto da propriedade privada! Enquanto isso, a Mitologia negro-tapuia mantinha, aqui, uma visão mítica do mundo, fecundíssima, como ponto de partida para uma Filosofia, e profundamente revolucionária do ponto de vista social pois incluía a abolição da propriedade privada! É por isso que, a meu ver, a Obra da Raça Brasileira, será uma Obra de pensamento, uma obra que, partindo dos mitos negros e tapuias, forje uma "visão de conhecimento": uma visão do mundo; uma visão do homem; uma visão do homem no mundo; e uma visão do homem a braços com o próprio homem!
- É visagem demais para um livro só! - disse eu.
- Alto lá, Quaderna! - falou Clemente, sobranceiro. - Não me venha, agora, com suas "tiradas de almanaque" não, porque isso é coisa muito séria, é o cerne da minha "Filosofia do Penetral"!


* Dramaturgo, ensaísta, romancista e poeta, membro da Academia Brasileira de Letras
Sou ignorante, tenho medo

* Por Donald Malchitzky

Mesmo que as pessoas disfarcem, o preconceito permeia as relações com portadores de doenças, e isso aumenta na razão direta do tamanho da ignorância ou dos ignorantes.  Quando a AIDS começou a ser conhecida e analisada, muita gente já havia morrido por causa dela, mas o fato de descobrir-se que uma forma de transmissão era por via sexual,  e mais, detectada num comissário de bordo gay, bastou para estabelecer o estigma: era castigo pelo duplo pecado: de fazer sexo e de ser gay. Disso ao medo de se aproximar de um homossexual, foi um passo.

Esse preconceito ignorante e maldoso perdurou por muito tempo, e suas sequelas continuam até hoje, apesar de a ciência ter desvendando a origem da doença, todas formas de transmissão e até remédios avançadíssimos de controle. A ciência descobriu e disponibilizou conhecimento e remédios, as pessoas decentes divulgaram os avanços, tornando-os acessíveis à toda população.  Algumas denominações religiosas ainda se negam a aceitar a verdade.

Em nosso País de todas as cores, o vírus do Ebola ainda não chegou, mas já inoculou o preconceito e a maldade em brasileiros. Um cidadão de Guiné foi atendido pelo serviço de saúde  de Cascavel, no Sudoeste do Paraná, com suspeita de estar com a doença. Encaminhado para hospital de referência, o diagnóstico foi negativo, mas, por ter havido uma suspeita, o preconceito e a discriminação  mostraram  suas garras e atacaram com ferocidade.

De uma vez, sumiram os empregos para negros estrangeiros na cidade; as agências enviam os candidatos mas a maioria, por ser negra, sequer é atendida nas empresas. Nos ônibus, os negros ouvem ofensas e mensagens xenófobas do estilo: “Saiam de nossa cidade, voltem para seu país”, e dificilmente alguém senta ao lado de um negro. As pessoas guardam distância deles e os olhares se tornaram hostis. O vírus do Ebola também não chegou no Haiti, país da América Central que fica mais longe da África do que o Brasil, mas os haitianos – milhares deles vivem em Cascavel -, por serem negros e falarem uma língua estrangeira ou com sotaque, são alvos constantes dessas maldades.

O preconceito é o filho predileto da ignorância e da maldade, a ignorância é o não saber; combinada com a maldade, ela não deixa saber, e assim,  nasce o preconceito, um serial killer social.

E o Brasil se orgulha de sua pluralidade étnica!

* Escritor


Por trás da falta d’água, privatização e ganância

* Por Lúcia Rodrigues

Obcecada por lucros e bolsa de Nova York, empresa de saneamento abandonou investimento em mananciais, até deixar população à míngua

A falta de água em São Paulo não pode ser atribuída à ausência de chuvas no último período. A principal causa para o esvaziamento do sistema Cantareira, maior reservatório da região metropolitana, se deve à falta de investimentos do governo do Estado na ampliação de novos mananciais. Essa é a conclusão do professor aposentado da Escola Politécnica da USP e engenheiro de hidráulica e saneamento Julio Cerqueira Cesar, um dos maiores especialistas na área.

Ele explica que estiagens são comuns em outros países e nem por isso a população fica sem água potável nas torneiras. “O que está acontecendo em São Paulo, acontece em qualquer lugar do mundo. Faz parte do ciclo hidrológico. A chuva não é a culpada. O problema é que o sistema de abastecimento de água tem de ter a capacidade de suprir essa variação na precipitação, e isso não ocorreu aqui”, enfatiza.

“O governo não investiu na ampliação de mananciais, são os mesmos de 30 anos atrás. Nesse período, a população cresceu em 10 milhões de pessoas (saltou de 12 milhões para 22 milhões). Os mananciais existentes não são capazes de atender a essa demanda. Essa é a grande causa da falta de água em São Paulo”, ressalta.

A falta de investimento na ampliação de novos mananciais tem explicação. Segundo o professor Julio, até o início da década de 1990, o objetivo da companhia era atender a população com saneamento básico, para manter a saúde pública em níveis adequados. “Até 90, a companhia era comandada por engenheiros sanitaristas, depois disso a Sabesp aderiu ao lucro de corpo e alma. Deixou de se preocupar com seus usuários e passou a se preocupar com seus acionistas. Hoje quem comanda a Sabesp são economistas e advogados. O objetivo da empresa mudou. É para dar lucro para os acionistas.”

Para o geólogo e deputado estadual Adriano Diogo (PT-SP), líder da minoria (PT – PSOL – PCdoB) na Assembleia Legislativa de São Paulo, a lógica do lucro na Sabesp é anterior à década de 90, e remonta à época da ditadura militar. “Vem desde o Maluf, mas os tucanos intensificaram a mercantilização da água ao abrir o capital da Sabesp em Bolsa. Isso agudizou o problema, porque os acionistas não querem abrir mão do lucro para se fazer os investimentos necessários, por exemplo, na ampliação dos mananciais.”

Apesar de não ter sido privatizada nos moldes tradicionais, na prática a Sabesp deixou de ser pública. Em 2000, a companhia teve inclusive seu capital acionário aberto na Bolsa de Nova York. “Com a abertura do capital, a companhia deixou de ser uma empresa de saúde pública e virou um balcão de negócios. Só se preocupa com o lucro dos acionistas, que estão muito satisfeitos”, afirma o professor Julio.

Com faturamento anual na casa dos R$ 10 bilhões e lucro líquido em torno de R$ 2 bilhões, a Sabesp tem repassado anualmente a seus acionistas aproximadamente R$ 500 milhões. “Os acionistas estão dando risada, enquanto os usuários choram”, ironiza o professor, ao se referir à falta de água que atinge os moradores da região metropolitana de São Paulo.
O professor conta que dez anos após o capital da companhia ter sido aberto na Bolsa de Nova York, a Sabesp foi premiada nos Estados Unidos por ser a empresa que mais se valorizou no período. “Sucesso financeiro e fracasso completo em saúde pública…”, sentencia.

Lucro X Investimento

Para ele, a abertura das ações na Bolsa de Nova York é um dos principais motivos da falta de investimento na ampliação dos mananciais para o abastecimento de água da população de São Paulo. “Não investe porque só quer ter lucro para repassar aos acionistas. Estar na Bolsa de Nova York é sintomático. A Sabesp entrou na lógica do lucro, deixou de se preocupar com água e saneamento básico, para se preocupar com seus acionistas.”

O deputado petista destaca que o comportamento da Sabesp é diametralmente oposto ao da Petrobras, que também tem ações em Bolsa, mas não abriu mão de investir. “A Petrobras não deixou de fazer os investimentos necessários, tanto é que descobriu o pré-sal”, alfineta. Adriano Diogo também é critico em relação ao valor da tarifa cobrada dos usuários pela Sabesp. “É uma das contas de água mais caras do mundo. Isso é para dar lucro para os acionistas.”

Para o ex-governador do Paraná, senador Roberto Requião (PMDB-PR), “o aumento da tarifa e a fantástica distribuição dos lucros nas bolsas” são consequências da privatização do interesse público. “O objetivo não é mais o saneamento básico e a purificação da água, mas dar lucro aos acionistas. Transformaram a água numa commodity [mercadoria]”, critica.

Requião afirma que o resultado de uma empresa de água deve ser medido pelo serviço que presta à população e não pelo lucro que gera a seus acionistas. Ele teme que seus adversários também abram o capital acionário da Sanepar, a companhia de água e saneamento do Paraná, em Bolsa. Parte dela já havia sido vendida por seu antecessor.

“Empresa de água tem de ser pública. Quando saí do governo, deixei em caixa na Sanepar R$ 1 bilhão. O Beto Richa (atual governador do Estado) chegou e aumentou a participação (dos acionistas) de 25% para 50% e passou a não fazer mais investimentos. O Estado não tem de tirar dinheiro da empresa, tem de reinvestir.”

O governador Beto Richa, do Paraná, é do mesmo partido de Geraldo Alckmin, seu colega paulista: PSDB.

Medo da eleição

Mas a falta de investimentos em novos mananciais devido à preponderância na valorização dos interesses dos acionistas em detrimento do bem-estar da população está se tornando o grande pesadelo do governador paulista, Geraldo Alckmin (PSDB).

A falta de água representa um risco real à sua reeleição. “O governador não assume o racionamento porque quer ser reeleito e acha que se fizer, não será. Está empurrando a crise da água em São Paulo, com a barriga, politicamente… É impressionante a desproporção entre o tamanho do problema e a pequenez das soluções adotadas pelo governo”, critica o professor.

Além da crise que atinge os moradores da região metropolitana neste momento, três milhões de pessoas já sofriam com a falta de água antes desse problema. “A Sabesp faz ligação de rede pra todo mundo, porque assim cobra a tarifa, só que depois não leva a água até a casa das pessoas. Diz que o cano furou… Infelizmente são os pobres que pagam…”

Ele revela que há um déficit de 13 metros cúbicos de água por segundo entre o que é oferecido pela Sabesp e o que é demandado pela população. Os reservatórios fornecem em torno de 72 metros cúbicos por segundo, quando deveriam liberar 85.

A situação é gravíssima. Um técnico da companhia que não quer se identificar com medo de represálias, porque a Sabesp persegue quem aponta seus erros, reforça a preocupação do professor. “Este ano há o risco de um colapso.”

“A Cantareira seca no próximo mês”, frisa Julio. “E o Alto Tietê deve secar até no máximo novembro, se as coisas continuarem do jeito que estão”, completa o funcionário.

Desperdício

Um dos problemas levantados pelo técnico para o agravamento da crise é o desperdício de água pela própria Sabesp, que hoje ultrapassa os 30% do volume produzido, segundo dados da Agência Reguladora de Saneamento e Energia de São Paulo (Arsesp). Esse percentual de desperdício é suficiente para abastecer uma cidade como Campinas.

Os vazamentos em grande medida são fruto da política adotada pela companhia, que optou por terceirizar parte de seus serviços. “Isso tem reflexo na qualidade do serviço prestado. Não dá pra comparar o trabalho de um funcionário da Sabesp com o de uma (empresa) terceirizada. Quem é terceirizado não recebe a mesma formação que nós, a rotatividade dessas empresas é muito grande. Por isso, não é raro que logo depois de se instalar uma rede, ela esteja vazando”, explica.

Ele revela como essa política também pode aumentar drasticamente o valor da conta de água. “Quando falta água, entra ar nos canos e o hidrômetro começa a girar que nem louco. Isso faz com que a conta de água aumente muito, sem a pessoa saber o porquê. Se são técnicos da Sabesp, fazem ventosas no sistema para retirar esse ar, mas os terceirizados não fazem isso…”, lamenta.

Racionamento vai perdurar

Para o professor Julio, a população vai pagar pelo erro do governo do Estado de São Paulo. Ele considera inevitável o racionamento no curto e médio prazo. O próximo ano deve ser ainda mais difícil. Ele prevê que o racionamento dure em torno de dois anos.

“Se (Alckmin) quisesse resolver tecnicamente o problema, já deveria ter começado o racionamento em dezembro do ano passado e tomado uma série de providências, mas não fez isso. O governador quer empurrar o problema para depois das eleições.”

“A boa notícia é que temos água em condição de ser trazida para as cidades, o problema é que essas obras demoram muito para serem concluídas.”

O professor se refere à bacia hidrográfica localizada no Vale do Ribeira. “Lá há pouca gente e uma quantidade enorme de água. Não vai afetar em nada a vida dos moradores.”


* Jornalista