sábado, 1 de novembro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos e sete meses de existência.

Leia nesta edição:

Editorial – As utopias que não são a minha.

Coluna Direto do Arquivo – Deonísio da Silva, crônica, “O português das bulas (2)”

Coluna Clássicos – Vianna Moog, Trecho de livro, “Separatistas e anti-separatistas”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica “As vinhas da ira”

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, poema, “Tudo valerá”.

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo, “Quão ‘cordial’ é o povo brasileiro?”..


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com “Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


As utopias que não são a minha


As utopias sucederam-se no correr dos séculos, desde Platão, com filósofos, teólogos, ideólogos e escritores expressando qual seria, na sua concepção, a sociedade ideal, sem injustiças e sem conflitos, que no seu entender a humanidade deveria instituir, para que o homem merecesse, de fato, ser classificado como “racional”.  São, todas, claro, projeções para um futuro indeterminado. Nenhum desses sonhos, todavia – a maioria mirabolantes e alguns até surreais – se concretizou, mesmo que parcialmente. Tenho em mente, também, a minha, fruto dos valores que cultivo e nos quais acredito. Embora seja um sujeito otimista, estou convicto que ela jamais deixará o plano da idealização para se tornar concreta. A natureza humana não permite isso.

O escritor Mário Donato tratou desse tema, inclusive com preciosos detalhes históricos para sua contextualização, em um ensaio intitulado “Utopia e o sonho azul da Colônia Cecília”. O referido estudo data de 1983 e foi publicado, em abril daquele ano, no suplemento “Leitura”, do Diário Oficial do Estado de São Paulo. Recomendo-o aos que tiverem acesso a ele, pela riqueza de informações que contém. Em determinado trecho desse ensaio, Mário Donato escreve: "Thomas Morus, cujo livro (Utopia), foi escrito em latim no ano de 1516, constrói uma ilha em oposição à Inglaterra de Henrique VIII, o que lhe custou a cabeça. A sua sociedade, uma amálgama das virtudes platônicas e paulinas, eliminava a propriedade privada da terra e a exploração do povo pelos `landlords'. Em contrapartida, não deixava lugar a quem, como ele, quisesse erguer a voz para uma crítica, mesmo que construtiva".

Thomas Morus tem, evidentemente, seu valor. Foi eminente humanista, íntimo de Erasmo de Rotterdã, que o celebrou no seu "Moriae Encomium" ou "Elogio da Loucura". Tanto que foi beatificado em 1886 e canonizado por Pio XI em 1935. A força de suas idéias foi de tal sorte que, embora santo da Igreja Católica, tem uma estátua em pleno centro de Moscou e foi reverenciado pelos soviéticos como herói do comunismo, enquanto a URSS existiu. Ainda o é até hoje. Mas... sua utopia não é a minha.

Mário Donato prossegue em sua meticulosa análise: "Logo após Thomas Morus, no mesmo século, surge outro religioso sonhando a sua utopia, agora um calabrês, Tommaso Campanella, dominicano, hostil ao aristotelismo escolástico. É ele autor de ‘A Cidade do Sol’, em que defende a propriedade coletiva de todos os bens produzidos pela comunidade. Nela, os funcionários têm o dever de persuadir os insubmissos a aprovarem o seu próprio castigo, em conseqüência do que piedosamente os matam". Evidentemente, esta não pode ser minha utopia. Afinal, valorizo a vida mais do que a qualquer outro bem ou virtude.

Mário Donato relaciona algumas outras utopias. Escreve: "Pela ordem cronológica, o utopista seguinte é Etienne Cabet, dos fins do século XIX, autor de ‘Viagem a Icária'. Nesta cidade havia um toque de recolher permanente, vexame que, na interpretação mais do que ingênua do autor, era acolhido com grande júbilo pela população!". Cabet, líder espiritual dos icários, tentou fundaar colônias utópicas nos Estados Unidos, na época o país das liberdades e das possibilidades ilimitadas. Seus adeptos e outros utopistas fundaram, entre 1830 e 1860, vários núcleos em território norte-americano, mas todos malograram. Esta, portanto, como as anteriores, ainda não é minha utopia, que é muitíssimo mais transcendental.

Por volta de 1860, o utopismo parecia praticamente desacreditado. O poeta inglês William Morris, em seu livro "News from Nowhere" ("Notícias de parte alguma"), renova a tradição iniciada por Thomas Morus. Sua sociedade ideal, todavia, nunca saiu do papel e jamais foi tentada na prática. Donato acrescenta: "O mais recente de tais utopistas é o norte-americano Edward Bellamy (1850-1898), cujo ‘Cem anos depois’ (título em português) se passa em Boston no ano 2000. Felizmente, os bostonianos do terceiro milênio não contam criminosos entre si: os que se insubordinam são tratados como loucos", destaca. Embora tenha alguns ingredientes interessantes, esta, igualmente, não é a utopia que proponho.

Mário Donato observa: "Todos estes utopistas tinham a melhor das intenções. Comoviam-se com a pobreza, a doença e a desesperança, e buscavam dar-lhes remédio através de uma nova organização social, cuja base era, sempre, a propriedade coletiva de todos os bens. Thomas Morus ia ainda mais longe: depois de certo tempo, embora todas as casas fossem idênticas, as famílias deveriam mudar-se, a fim de eliminar delas sinais de singularidade de cada grupo familiar, como um retrato na parede, um enfeite, um bibelô. Enfim, era proibido tudo quanto pertencesse ao indivíduo e escapasse ao Estado anônimo e todo-poderoso".

Estas utopias colocavam o ser humano, concreto, sob férrea subordinação de uma entidade abstrata, não mais do que mero conceito organizacional. Subjugavam as pessoas. Ditavam onde elas deveriam morar, com quem se casar, como educar os filhos, o que deveriam pensar etc. Enfim, desumanizavam o homem. Tratavam-no como robô, teleguiado por uma inteligência que presumivelmente lhe seria superior. Nenhuma delas é, evidentemente, minha utopia: a da racionalidade irrestrita, a do autodomínio e a da espontânea solidariedade. Reitero que tenho plena consciência de sua inviabilidade, a menos que o homem mude radicalmente sua forma de pensar e de agir.

Donato observa na sequência: "Em todas as utopias, o Estado, de uma forma ou outra, está sempre presente e o trabalho é uma obrigação a que ninguém pode furtar-se. Sobretudo no caso dos chamados ‘socialistas utópicos', como Jean Greve, Saint-Simon, Fourier, Proudhon, Godwin, Owen, Morris, todos do século XIX, que invocavam outras soluções para a produção de bens, como o cooperativismo ou o contrato livremente estabelecido entre as partes. Nunca nenhum deles atreveu-se a criar uma utopia ‘anarquista', ou seja, um paraíso edênico, sem governo nem trabalho, onde os seus felizes cidadãos pudessem colher nas árvores plantadas por Deus, além dos frutos naturais, algo como conjuntos completos e grátis de ‘prêt-a-porter', liquidificadores, óculos rayban e radinhos de pilha. Nem James Hilton, autor de ‘Horizonte Perdido', que vimos no cinema, e cuja terra de sonho, Shangri-lá, abrigava a chamada eterna juventude, disponível ao menos para os eleitos. Como também ‘Ela', de Ridder Hagard, em que Hilton disse ter se inspirado. Em todas as utopias há governo e trabalho. Nenhuma terra é a Coconha dos italianos – aquele pau-de-sebo em cuja ponta os mais espertos colhem brincando os prêmios da sua ociosidade legal".

Nenhuma das utopias mencionadas, portanto, é a minha, embora algumas tenham muitos ingredientes que julgo possíveis, desejáveis e factíveis. E qual é, pois, essa sociedade ideal, na qual eu gostaria de viver e que deixaria, com orgulho, como herança à minha descendência? É tão complexa (tendo em vista a natureza humana) que precisará de vários textos, mais ou menos como este, se não muito mais extensos, para ser minimamente resumida.

Boa leitura.

O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.    



O português das bulas (2)


* Por Deonísio da Silva         

O cliente toma óculos ou lupa e começa a difícil tarefa de ler a bula. Na compra do remédio – os marqueteiros dos laboratórios diriam 'produto' – houve dificuldade prévia. O balconista foi obrigado a decifrar os garranchos do médico. Como é que a sociedade brasileira tolera tamanha desconsideração e irracionalidade? A simples troca de letras pode transformar um remédio em veneno. E muitos médicos prescrevem suas receitas numa caligrafia incompreensível.

Um dia desses fui surpreendido com insólita metodologia de interpretação. Balconista e escritor tentavam ler o que certo doutor prescrevera a uma velhinha que, como a mãe do presidente Lula e todas as outras do universo, nascera analfabeta e ainda não tinha aprendido a ler. Foi então que uma luz desceu sobre a mente da balconista. 'Ah, esta receita é do doutor Fulano de Tal'. Ela sabia que aquele médico receitava sempre o mesmo remédio! O estilo, no léxico, lembrava o de Marcel Proust na sintaxe!

Cápsula, drágea, posologia, solução oral, ingestão concomitante etc, eis amostras de palavras e expressões muito freqüentes em bulas. Quem as entende? Na bula de uma pastilha, que sequer entrou numa escola de judô e por isso não tem faixa preta, lemos esta maravilha nas indicações: 'nas irritações e dores orofaríngeas oriundas de infecções ou processos cirúrgicos, como auxiliar no tratamento de angina de Vincent'. Modestos, os pesquisadores dão o próprio nome às doenças que identificaram. O médico francês Henri Vincent estudou a angina e morreu aos 88 anos. Terá chupado muito a tal pastilha? Com faixas vermelhas ou pretas, os remédios custam sempre uma nota preta.

A bula tem uma história curiosa. Veio do latim e significa bolha. As primeiras bulas eram marcas feitas com anel para autenticar documentos oficiais e tinham a aparência de bolhas. Bola em latim é bulla. Foi o rei francês Luís II, o Gago, que entre 877 e 879 denominou bula o selo real. Afinal, semelhava uma esfera ou bola.

Antigamente a embalagem mais comum dos remédios era uma garrafinha. Pendurada num cordão vinha a bula que tinha o fim de atestar que não era uma garrafada, era um remédio oficial. A garrafinha passou a ser denominada frasco. A substância, que era líquida, passou a ser oferecida em comprimidos.

A linguagem das bulas dos remédios deixou de defender os fracos e oprimidos. Hoje, só defende os frascos e comprimidos, como já ironizou antiga peça publicitária.

A Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) – parece nome de cartão de crédito – tomou a iniciativa de modificar as regras para a redação das bulas. Que os laboratórios chamem profissionais que saibam escrever.


* O escritor Deonísio da Silva é Doutor em Letras pela USP e tem trinta livros publicados, entre romances, contos e ensaios, entre os quais os romances Os Guerreiros do Campo, Avante, soldados: para trás, e De onde vêm as palavras, todos publicados pela Girafa. Site: www.deonisio.com.br


Separatistas e anti-separatistas


* Por Viana Moog

O que temos a fazer é separar o Rio Grande afirma o promotor, olhos postos no prefeito como a pedir aprovação. E como visse que o chefe aprovava com a cabeça, acrescentou: O Norte é o peso morto do Brasil: só dá seca, impaludismo e febre amarela. Mas lembrando-se de que Geraldo era amazonense, procurou suavizar: Aqui o amigo não repare. Que diabo! Já come churrasco e toma chimarrão.

Está bem disse Geraldo, sem jeito. Não se constranja. Fale com toda a franqueza. Mas que vantagem vê você na separação?

Ora, ficávamos livres...

Não, o Rio Grande só ficava muito pequeno interrompe o secretário. Podíamos incorporar Santa Catarina, Paraná e São Paulo. Precisamos de São Paulo por causa do café e das indústrias.

Ruben Tauben queria também o Rio de Janeiro. Cidade bonita, a mais bonita do mundo. Tinha um tio que conhecia Constantinopla e não a achara tão bonita quanto o Rio. Ele mesmo podia dar o seu testemunho. No centenário tinha ido lá com o tiro-de-guerra.

Karl Wolff procurava interessar-se, mas não conseguia. Um Brasil do Amazonas ao Chuí, limitando-se ao norte com Mampituba ou com o Oiapoque era-lhe indiferente. Ele mesmo não sabia, nem podia compreender como o Brasil chegava a constituir um Estado independente. Por mais que revolvesse a memória, esta só lhe restituía fatos vagos, imprecisos, esfuminhados, coisas da escola, dispersas, desconexas. Primeiro uma data, 1500, depois um nome, Pedro Álvares Cabral, o Seu Cabral das últimas canções carnavalescas; algumas guerras sem importância contra os franceses e os holandeses; o 7 de Setembro, onde aparecia um príncipe de espada desembainhada, cercado de cavaleiros, à margem de um riacho, como no motivo de tapete que acabara de ver na sala de honra do Centro; a guerra do Paraguai, que o Brasil não teria vencido se não fosse a ajuda dos primeiros colonos alemães; o 13 de Maio, que proclamou a libertação da negrada, uma gente que podia afinal de contas continuar escrava e não precisava andar por aí a faltar com respeito aos arianos. Depois, uma série de revoluções, de correrias, de requisições que só serviam para atrapalhar o comércio e a indústria, fruto exclusivo do esforço germânico.

Pois bem, incorporamos o Rio de Janeiro sentenciou o prefeito, pondo termo à discussão.

Sim, mas até agora ninguém me deu ainda as razões por que deva ser feita a separação insiste Geraldo. Que conveniência vêem os senhores em que o Rio Grande, São Paulo, Santa Catarina e o Rio de Janeiro para fazer a vontade aqui ao nosso amigo Tauben devam constituir um estado à parte?
Por favor, o senhor que é engenheiro e entende de números, então não está vendo logo? E o dinheirão que o Norte representa nas nossas despesas, sem entrar com quase nada para a receita? Veja as obras contra o seca?

O prefeito achava agora que talvez não fosse preciso fazer a separação. Eram todos irmãos. Mas opinava que vinte por cento da arrecadação devia tocar ao município. Não era justo que a Coletoria Federal de Blumental arrecadasse perto de 5.000 contos e não ficasse nenhum tostão desse dinheiro para o município.

Nesta altura o agente fiscal resolve intervir.

Quem paga diretamente são efetivamente os estados do Sul. Mas indiretamente quem entra com grande parte desse dinheiro é o Norte.

Mas, como? exclamou o promotor.

Muito simples. Aqui o Karl, que é o dono de uma fábrica de sandálias, sabe bem disso. Ele compra o selo na coletoria e sela as suas sandálias. E quem são os maiores consumidores dos artigos de Wolff & Filhos?

Karl estava neste momento pensando em que essa riqueza do Sul era produto exclusivo do trabalho alemão. Com os colonos alemães é que tinham aparecido as indústrias no Brasil. E considerava com orgulho a ascensão de Blumental, de mera feitoria há cem anos, até o parque industrial que lhe valia o nome de Manchester do Brasil. Tudo trabalho dos alemães, como dizia o pastor: "O que é o Sul do Brasil deve-o ao trabalho alemão. Se fizermos abstração dos alemães, restará uma mísera carcaça." Percebendo que o fiscal se dirigia a ele, Karl despertou, pedindo que repetisse a pergunta.

Quais são os maiores compradores de sandálias de Wolff & Filhos?

É o Norte responde Karl. Para ele o Norte era tudo quanto ficasse situado além do Mampituba.

Não, eu quero saber quais os estados.

Ah, os estados que mais nos compram são Pernambuco, Ceará, Sergipe, Alagoas e Paraíba. Quase toda a nossa produção é remetida para a nossa filial de Recife.

Compreendeu? volve o fiscal, virando-se para o promotor. Feitas as contas, o dinheiro do Norte, que paga, vai aparecer nos orçamentos como arrecadação de Blumental. O que se dá com as sandálias de Wolff & Filhos, meu caro, dá-se com o vinho, com os tecidos e com quase todos os produtos de exportação dos estados do Sul.

Resta ainda averiguar outra questão acode Geraldo. É se, sem o resto do Brasil, o Sul poderia manter esse grau de prosperidade que ostenta atualmente.

Ah, que podia, podia! assegura o promotor.

Tenho minhas dúvidas. Atualmente a exportação dos senhores para os países estrangeiros é diminuta. O verdadeiro mercado consumidor do Rio Grande é o Norte. Ele é que fica com o excedente da produção do mercado interno. Pergunto: teria o Rio Grande à sua disposição os mercados do país, no dia em que se constituísse estado independente?

O promotor vacila. Geraldo, respondendo à própria pergunta, afirmava que não deviam fazer-se ilusões. Na luta de concorrência contra os similares estrangeiros, em igualdade de condições, e os similares dos demais estados, protegidos então por suas tarifas alfandegárias, o Sul seria vencido. Ficaria sem mercado. Teria dentro de pouco tempo, na própria casa, o colapso pelo excesso, com todo o seu cortejo de crises. E havia mais ainda, acrescenta Geraldo, aprofundando a tese que ia desdobrando. Sob certos aspectos até podia sustentar-se que o Norte é que era o sacrificado.

Como? disseram a um tempo o prefeito, o promotor e Karl Wolff, agora interessado na discussão.

Tomo o caso do meu estado, o Amazonas. O nosso mercado normal é o exterior. Os nossos dois produtos quase que exclusivos são a borracha e a castanha. Vão para a Inglaterra, para os Estados Unidos, para Portugal, de quem, em compensação, não podemos comprar nada.

Não compram porque não querem, ora essa é boa! aparteia o promotor, atirando-se para trás na cadeira.

Não, não compramos deles porque somos obrigados a comprar dos senhores, porque a isso nos força o governo, impondo taxas proibitivas aos produtos estrangeiros que possam fazer concorrência à produção dos senhores. Tomo ainda o caso do vinho e do tecido há pouco lembrado por Armando. Acha o senhor que o vinho do Sul é do melhor do que o vinho português, o francês e o italiano? Que acontece? Por causa do imposto nas alfândegas, para se adquirir uma garrafa de vinho português, cujo custo real poderia ser de um ou dois mil-réis, paga-se três e quatro vezes mais. Com o tecido então nem se fala. A casimira inglesa custa os olhos da cara. E qual o resultado de tudo isso? O Norte, que só teria a lucrar com a supressão das tarifas, porque a regra da reciprocidade manda comprar de quem nos compra, está escravizado ao imperialismo das indústrias do Sul. Somos colônias do Sul conclui Geraldo.

Neste momento Karl Wolff tinha chegado a uma conclusão quanto às idéias do engenheiro: o homem era comunista.

Fazemos o que os outros países estão fazendo há mais tempo pontificou o prefeito delicadamente.

Isso é outra questão. Não quero dizer que se proceda de outra maneira e que haja alguma coisa a retificar. Hoje temos um tal amontoado de erros do passado acumulados pelos povos, à nossa revelia, que não há nada mesmo a fazer, senão acompanhar a marcha do mundo.

E o Norte por que não se industrializa? pergunta o promotor, que não queria deixar a discussão parar num ponto em que se sentia derrotado.

Geraldo não respondeu. Apenas deu de ombros, fatigado.

O promotor sentia agora o terreno mais firme. Vendo que Geraldo recuava, tomou novo impulso.
A prosperidade do Sul vem da raça. Somos um povo mais forte e decidido.

Geraldo permanece calado.

Então lá se pode comparar a nossa gente continuou o outro , uma mistura de açorianos, de charruas, de bandeirantes, alemães e italianos, com a mestiçagem do Norte? Note-se: falei em açoriano. Não confundir açoriano com português... É outra coisa. O açoriano é celta... Não, não me venha defender esse pessoal de perna fina e cabeça chata.

Geraldo quis reagir. Pensou, porém, na cena do bolão e continuou calado. Ruben Tauben, que vinha acompanhando distraído a discussão, quando ouviu falar em portugueses, acordou. Agora podia entrar na palestra. Sabia umas anedotas muito engraçadas de portugueses...

Mas o promotor não lhe deu tempo. Gesticulando com os braços curtos e magros, procurava novos aliados contra o engenheiro:

Aqui só dá isso: essa alemoada forte que você está vendo. E batia amigavelmente no ombro de Karl, que procurava fugir à intimidade. Desta gente não sai Antônio Conselheiro, nem Padre Cícero.

E os Muckers? avança Geraldo, sem poder dominar-se. Mas logo se arrepende. Em lugar de atingir o promotor, ia talvez ferir o irmão de Lore.

Era tarde para recuar. Já Karl Wolff intervinha, para explicar que a história dos Muckers estava mal contada. Fora escrita por um padre. Isso bastava para tornar o livro suspeito. O que ele pretendera fora desmoralizar os protestantes, quando entre os Muckers havia muitos católicos. Um livro parcial, cheio de exageros. Os Muckers não haviam sido o que eu dizia. No princípio fora uma simples luta entre colonos em torno da interpretação da Bíblia e de questões de terra. Jacobina queria reparar certas injustiças. Ele sabia, estava bem informado, tinha amigos, rapazes direitos, descendentes de Muckers. A culpa fora do governo, mandando a polícia para resolver o caso pela violência. Os padres também tiveram muita culpa. Os soldados agiram como verdadeiros selvagens. Não foram só os Muckers que mandaram matar e incendiar. Na picada dos portugueses os católicos fizeram o diabo. Acabaram om os protestantes. Mas isso tudo nada seria se não fosse a polícia. Os Muckers apenas se defenderam. Bem se podia ver que os colonos alemães por si mesmos não seriam capazes de barbaridades. Uma vergonha mandar prender os chefes e trancafiá-los nas cadeias de São Leopoldo e Porto Alegre, só porque dirigiam as cerimônias religiosas do Ferrabrás, umas festas inocentes de cantos e orações e leitura da Bíblia! E não havia nada que justificasse a remessa para lá de tantas forças do exército com o fim de chacinar os colonos, como bichos. Degolamentos à vontade. E o pior é que a história nunca seria contada direito. Os que restavam eram poucos e não podiam falar. Ele não queria fazer comparações... Mas o que se dissera contra os Muckers era mais ou menos o que os judeus contavam contra o nacional-socialismo. Pura mentira. Exagero. Eles é que envenenavam tudo. 
Hitler era um homem muito bom.

Armando aprestava-se para contrapontear, quando da porta Ben Turpin vem avisá-lo e a Ruben Tauben de que a roda já se tinha formado e só estava esperando por eles.
Karl Wolff sentiu um alívio. Já era quase meia-noite. Uma noite perdida, pensou. Podia ter ficado em casa, no seu canto, ouvindo no rádio as estações de Berlim. Mas sua mãe é que não devia saber onde estivera. Na certa havia de escandalizar-se quando soubesse que entrara no Centro, aquele antro de jogatina, e passara toda uma noite conversando com tal gente. Agora, felizmente, chegara a oportunidade de retirar-se.

Armando quis pagar a despesa, mas o prefeito não deixou. Não, aquela mesa era dele.

À saída, Becker, todo mesuras, respondeu aos boas-noites, de acordo com a hierarquia: para o prefeito e o fiscal foi uma saudação enfática, calorosa. Para Karl Wolff um pouco mais discreta. Para Geraldo, o secretário e o promotor, uma resposta cansada.

Quando ganharam a praça, o prefeito chega junto de Geraldo e diz:

É preciso preparar os homens da hidráulica. As eleições estão chegando.

Geraldo, sem saber o que havia de responder, apenas pôde murmurar, vago:

Pois não, não há dúvida.

Karl Wolff se aproxima para despedir-se.

Então estamos combinados. Sábado ou domingo, se não chover, podemos fazer a nossa partida.

Um vento forte levanta a poeira da rua. O grupo se dispersa. Ruben Tauben e o fiscal tomam o rumo do Centro. O major, o secretário e o promotor pendem para o ângulo direito da praça. Karl Wolff encaminha-se num passo largo e batido para o fim da rua. O engenheiro se recolhe ao hotel.

(Um rio imita o Reno, capítulo 7, 1938.)


* Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras
As vinhas da ira


* Por Urda Alice Klueger4

O grande escritor estadunidense John Steinbeck, no seu incomparável livro “As vinhas da ira”, já em 1939 contou, nos menores detalhes, a história do nosso MST (há um filme, também). Vejamos o que diz ele no capítulo 4 desse alentado livro:

“(...) Nosso avô tomou conta destas terras e ele teve que lutar com os índios e expulsá-los daqui. E nossos pais nasceram aqui e tiveram que matar as cobras e arrancar as ervas daninhas. Depois vinha um ano ruim, e eles tiveram que fazer empréstimos. (...) E nosso filhos também aqui nasceram.(...) Um banco não é como um homem. Um banco é um monstro. (...) Queremos morrer aqui quando chegar a nossa vez de morrer. É isto que dá direito de propriedade, e não simples papéis, documentos escritos, cheios de números. (...) Os homens fizeram os bancos, mas não os sabem controlar. (...) Talvez a gente possa matar os bancos, eles são piores que os índios e as serpentes. (...) Nós podemos pegar nas nossas armas, como nossos avós fizeram quando vinham os índios. Podemos, sim.(...) Vocês serão presos se insistirem em ficar, serão mortos...(...) Mas para onde podemos ir? (...)”

Para quem se interessou, o meu exemplar tem 565 páginas em letras miudinhas. E sei que criou um escândalo nl.os Estados Unidos, quando foi publicado. Talvez porque contasse a verdade dos pobres, aquela que convinha à elite esconder. Porque não fica bem o mundo saber que lá no centro do poder também há gente tão sem terra quanto aqui. E nem fica muito bem a tantos de nós, descendentes de imigrantes, admitirmos que descendemos dos Sem-Terra da Europa. E então, tantos de nós, achando-nos seres superiores a estas coisas de pobreza, julgamo-nos no direito de criticar e condenar a esta gente cuja única esperança é a organização, a esta gente que perdeu sua terra, e que estaria morta ou mendigando, não houvesse o MST a aglutiná-la e a lhe dar forças para sobreviver. E cansamos de ver os nossos pares chamando a gente do MST de malandra, vadia, e por aí afora.

Temos, agora, aqui no Vale do Itajaí, o nosso primeiro acampamento do MST. Já estive lá, já conheci as pessoas, já vi a extrema pobreza material em que vivem, mas também vi o tamanho da esperança que têm. Aconselho aos que criticam irem lá darem uma olhadinha. Não entro nos detalhes de como um acampamento é bem organizado porque não é esta a intenção desta crônica – queria, aqui, falar de um deles, uma daquelas pobres almas que um banco, um dia, enxotou da terra para a beirada de uma cidade, bem igualzinho ao que acontece em “As vinhas da ira”. Trata-se do seu João, também conhecido como seu Gaúcho. Tentando sobreviver, um dia ele chegou às beiradas de Gaspar com uma pequena família, e, com certeza, também como no livro citado, foi a falta de ter como sobreviver que implodiu a sua pequena família, que fez com que sua esposa fosse embora. O fato é que seu João ficou sozinho com dois filhos pequenos, e teve o cuidado de obter a guarda deles. Viviam do jeito que dava, até que, lá por março deste ano, seu João teve o azar de ser atropelado – e acabou ficando três meses fora de combate, de cama. Pai preocupado, na ocasião pediu ele à Justiça que cuidasse das suas crianças – e foram elas recolhidas a um abrigo, lá em Gaspar.

Mas o seu João se restabeleceu, e foi buscá-las. E pensam vocês que devolveram as crianças a ele? Devolveram nada! E apenas começara a Rua da Amargura do seu João. Por sorte, logo em seguida, foi ele achado por seus pares, aqueles iguaizinhos aos personagens de “As vinhas da ira”, e levado para o acampamento do MST. Hoje, ele é um dos líderes do acampamento, onde ajuda a organizar a vida das cem famílias que lá estão – mas é ele como uma árvore sem raízes, é um pai sem as suas crianças. E onde estão elas? Estão num abrigo lá em Gaspar, e sei que lá elas ficam pedindo por ele, e uma ainda é bem pequenina, tem só três anos. As pessoas que estão entre o pai e os filhos dizem ao pai que é melhor as crianças ficarem no abrigo, porque lá “tem conforto, têm televisão...” – e o amor, onde fica? As crianças do seu João têm mais é que ficar com ele. E está aí o Natal, e essa pequena família vai estar separada. Onde está a Justiça? O que dá a ela o direito de tirar de um pai as crianças que ele ama?

Quem ler “As vinhas da ira”, com certeza se emocionará até as lágrimas no epílogo, diante da extrema solidariedade existente entre a gente miserável que vive a história do livro. Penso que não será menor a solidariedade que as crianças do seu João receberão no organizado acampamento do MST aqui vizinho. Só falta a Justiça ser justa.

Blumenau, 15 de Dezembro de 2002

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais uma dezena de livros, entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).

Tudo valerá


* Por Clóvis Campêlo

Se nem tudo vale a pena,
a pena valerá tudo.
Mesmo com alma pequena
existirá um contudo

que beirando o absurdo,
em trajetória serena,
emitirá um som surdo
de transformação amena.

E assim, surgindo do nada,
dar-se-á novo universo,
compondo nova camada,

do anterior o inverso,
com cores mais camaradas
e organizado diverso.

* Poeta, jornalista e radialista, blogs:


Quão “cordial” é o povo brasileiro?


* Por Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade”como bondade e a polidez, que “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Escrevo tudo isso para entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declarações de entusiasmo e de amor até ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de ódios profundos, expressões chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.

Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos “cordiais” dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do país de “leviana e mentirosa” se inscreve dentro desta lógica “cordial”, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da nação.

Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a lingua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era “paciência, resignação e obediência”; aos escravocratas se ensinava “moderação e benevolência” coisa que, de fato, pouco se praticava.

A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o salário é entendido por muitos ainda como uma caridade e não um dever, porque os escravos antes faziam tudo de graça e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condomínio de alta classe dizer:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.

As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante, porque vive no semi-árido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje é a região que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. A tradição cristã fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz expressão de Santo Agostinho: cada um é Adão, cada um é Cristo, vale dizer, cada um é cheio de limitações e vícios e ao mesmo tempo é portador de virtudes e de uma dimensão divina. Esta situação não é um defeito mas uma característica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas forças e na melhor das hipóteses, dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Adão.

Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, “cordiais” mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e ao mesmo tempo de exaltação positiva e de militância séria e auto-controlada.

Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas não é suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devastação e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a “Terra da boa Esperança”(Ignacy Sachs).

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.