sábado, 1 de novembro de 2014

As vinhas da ira


* Por Urda Alice Klueger4

O grande escritor estadunidense John Steinbeck, no seu incomparável livro “As vinhas da ira”, já em 1939 contou, nos menores detalhes, a história do nosso MST (há um filme, também). Vejamos o que diz ele no capítulo 4 desse alentado livro:

“(...) Nosso avô tomou conta destas terras e ele teve que lutar com os índios e expulsá-los daqui. E nossos pais nasceram aqui e tiveram que matar as cobras e arrancar as ervas daninhas. Depois vinha um ano ruim, e eles tiveram que fazer empréstimos. (...) E nosso filhos também aqui nasceram.(...) Um banco não é como um homem. Um banco é um monstro. (...) Queremos morrer aqui quando chegar a nossa vez de morrer. É isto que dá direito de propriedade, e não simples papéis, documentos escritos, cheios de números. (...) Os homens fizeram os bancos, mas não os sabem controlar. (...) Talvez a gente possa matar os bancos, eles são piores que os índios e as serpentes. (...) Nós podemos pegar nas nossas armas, como nossos avós fizeram quando vinham os índios. Podemos, sim.(...) Vocês serão presos se insistirem em ficar, serão mortos...(...) Mas para onde podemos ir? (...)”

Para quem se interessou, o meu exemplar tem 565 páginas em letras miudinhas. E sei que criou um escândalo nl.os Estados Unidos, quando foi publicado. Talvez porque contasse a verdade dos pobres, aquela que convinha à elite esconder. Porque não fica bem o mundo saber que lá no centro do poder também há gente tão sem terra quanto aqui. E nem fica muito bem a tantos de nós, descendentes de imigrantes, admitirmos que descendemos dos Sem-Terra da Europa. E então, tantos de nós, achando-nos seres superiores a estas coisas de pobreza, julgamo-nos no direito de criticar e condenar a esta gente cuja única esperança é a organização, a esta gente que perdeu sua terra, e que estaria morta ou mendigando, não houvesse o MST a aglutiná-la e a lhe dar forças para sobreviver. E cansamos de ver os nossos pares chamando a gente do MST de malandra, vadia, e por aí afora.

Temos, agora, aqui no Vale do Itajaí, o nosso primeiro acampamento do MST. Já estive lá, já conheci as pessoas, já vi a extrema pobreza material em que vivem, mas também vi o tamanho da esperança que têm. Aconselho aos que criticam irem lá darem uma olhadinha. Não entro nos detalhes de como um acampamento é bem organizado porque não é esta a intenção desta crônica – queria, aqui, falar de um deles, uma daquelas pobres almas que um banco, um dia, enxotou da terra para a beirada de uma cidade, bem igualzinho ao que acontece em “As vinhas da ira”. Trata-se do seu João, também conhecido como seu Gaúcho. Tentando sobreviver, um dia ele chegou às beiradas de Gaspar com uma pequena família, e, com certeza, também como no livro citado, foi a falta de ter como sobreviver que implodiu a sua pequena família, que fez com que sua esposa fosse embora. O fato é que seu João ficou sozinho com dois filhos pequenos, e teve o cuidado de obter a guarda deles. Viviam do jeito que dava, até que, lá por março deste ano, seu João teve o azar de ser atropelado – e acabou ficando três meses fora de combate, de cama. Pai preocupado, na ocasião pediu ele à Justiça que cuidasse das suas crianças – e foram elas recolhidas a um abrigo, lá em Gaspar.

Mas o seu João se restabeleceu, e foi buscá-las. E pensam vocês que devolveram as crianças a ele? Devolveram nada! E apenas começara a Rua da Amargura do seu João. Por sorte, logo em seguida, foi ele achado por seus pares, aqueles iguaizinhos aos personagens de “As vinhas da ira”, e levado para o acampamento do MST. Hoje, ele é um dos líderes do acampamento, onde ajuda a organizar a vida das cem famílias que lá estão – mas é ele como uma árvore sem raízes, é um pai sem as suas crianças. E onde estão elas? Estão num abrigo lá em Gaspar, e sei que lá elas ficam pedindo por ele, e uma ainda é bem pequenina, tem só três anos. As pessoas que estão entre o pai e os filhos dizem ao pai que é melhor as crianças ficarem no abrigo, porque lá “tem conforto, têm televisão...” – e o amor, onde fica? As crianças do seu João têm mais é que ficar com ele. E está aí o Natal, e essa pequena família vai estar separada. Onde está a Justiça? O que dá a ela o direito de tirar de um pai as crianças que ele ama?

Quem ler “As vinhas da ira”, com certeza se emocionará até as lágrimas no epílogo, diante da extrema solidariedade existente entre a gente miserável que vive a história do livro. Penso que não será menor a solidariedade que as crianças do seu João receberão no organizado acampamento do MST aqui vizinho. Só falta a Justiça ser justa.

Blumenau, 15 de Dezembro de 2002

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR, autora de mais uma dezena de livros, entre os quais os romances “Verde Vale” (dez edições) e “No tempo das tangerinas” (12 edições).

Tudo valerá


* Por Clóvis Campêlo

Se nem tudo vale a pena,
a pena valerá tudo.
Mesmo com alma pequena
existirá um contudo

que beirando o absurdo,
em trajetória serena,
emitirá um som surdo
de transformação amena.

E assim, surgindo do nada,
dar-se-á novo universo,
compondo nova camada,

do anterior o inverso,
com cores mais camaradas
e organizado diverso.

* Poeta, jornalista e radialista, blogs:


Quão “cordial” é o povo brasileiro?


* Por Leonardo Boff

Dizer que o brasileiro é um “homem cordial” vem do escritor Ribeiro Couto, expressão generalizada por Sérgio Buarque de Holanda em seu conhecido livro: “Raizes do Brasil” de 1936 que lhe dedica o inteiro capítulo Vº. Mas esclarece, contrariando Cassiano Ricardo que entendia a “cordialidade”como bondade e a polidez, que “nossa forma ordinária de convívio social é no fundo, justamente o contrário da polidez”(da 21ª edição de 1989 p. 107). Sergio Buarque assume a cordialidade no sentido estritamente etimológico: vem de coração. O brasileiro se orienta muito mais pelo coração do que pela razão. Do coração podem provir o amor e o ódio. Bem diz o autor:”a inimizade bem pode ser tão cordial como a amizade, visto que uma e outra nascem do coração”(p.107).

Escrevo tudo isso para entender os sentimentos “cordiais” que irromperam na campanha presidencial de 2014. Houve por uma parte declarações de entusiasmo e de amor até ao fanatismo para os dois candidatos e por outra, de ódios profundos, expressões chulas por parte de ambas as partes do eleitorado. Verificou-se o que Buarque de Holanda escreveu: a falta de polidez no nosso convívio social.

Talvez em nenhuma campanha anterior se expressaram os gestos “cordiais” dos brasileiros no sentido de amor e ódio contidos nesta palavra. Quem seguiu as redes sociais, se deu conta dos níveis baixíssimos de polidez, de desrespeito mútuo e até falta de sentido democrático como convivência com as diferenças. Essa falta de respeito repercutiu também nos debates entre os candidatos, transmitidos pela TV. Por exemplo, que um dos candidatos chame a Presidenta do país de “leviana e mentirosa” se inscreve dentro desta lógica “cordial”, embora revele grande falta de respeito diante da dignidade do mais alto cargo da nação.

Para entender melhor esta nossa “cordialidade” cabe referir duas heranças que oneram nossa cidadania: a colonização e a escravidão. A colonização produziu em nós o sentimento de submissão, tendo que assumir as formas políticas, a lingua, a religião e os hábitos do colonizador português. Em consequência criou-se a Casa Grande e a Senzala. Como bem o mostrou Gilberto Freyre não se trata de instituições sociais exteriores. Elas foram internalizadas na forma de um dualismo perverso: de um lado os senhor que tudo possui e manda e do outro o servo que pouco tem e obedece ou também a hierarquização social que se revela pela divisão entre ricos e pobres. Essa estrutura subsiste na cabeça das pessoas e se tornou um código de interpretação da realidade e aparece claramente nas formas como as pessoas se tratam nas redes sociais.

Outra tradição muito perversa foi a escravidão. Cabe recordar que houve uma época, entre 1817-1818, em que mais da metade do Brasil era composta de escravos (50,6%). Hoje cerca de 60% possui algo em seu sangue de escravos afro-descendentes. O catecismo que os padres ensinavam aos escravos era “paciência, resignação e obediência”; aos escravocratas se ensinava “moderação e benevolência” coisa que, de fato, pouco se praticava.

A escravidão foi internalizada na forma de discriminação e preconceito contra o negro que devia sempre servir. Pagar o salário é entendido por muitos ainda como uma caridade e não um dever, porque os escravos antes faziam tudo de graça e, imaginam que devem continuar assim. Pois desta forma se tratam, em muitos casos, os empregados e empregadas domésticas ou os peões de fazendas. Ouvi de um amigo da Bahia que escutou uma senhora, moradora de um condomínio de alta classe dizer:”os pobres já recebem a bolsa-família e além disso creem que têm direitos”. Eis a mentalidade da Casa Grande.

As consequências destas duas tradições estão no inconsciente coletivo brasileiro em termos, não tanto de conflito de classe (que também existe) mas antes de conflitos de status social. Diz-se que o negro é preguiçoso quando sabemos que foi ele quem construiu quase tudo que temos em nossas cidades. O nordestino é ignorante, porque vive no semi-árido sob pesados constrangimentos ambientais, quando é um povo altamente criativo, desperto e trabalhador. Do nordeste nos vêm grandes escritores, poetas, atores e atrizes. No Brasil de hoje é a região que mais cresce economicamente na ordem de 2-3%, portanto, acima da média nacional. Mas os preconceitos os castigam à inferioridade.

Todas essas contradições de nossa “cordialidade” apareceram nos twitters, facebooks e outras redes sociais. Somos seres contraditórios em demasia.

Acrescento ainda um argumento de ordem antropológico-filosófica para compreender a irrupção dos amores e ódios nesta campanha eleitoral. Trata-se da ambiguidade fontal da condição humana. Cada um possui a sua dimensão de luz e de sombra, de sim-bólica (que une) e de dia-bólica (que divide). Os modernos falam que somos simultaneamente dementes e sapientes (Morin), quer dizer, pessoas de racionalidade e bondade e ao mesmo tempo de irraconalidade e maldade. A tradição cristã fala que somos simultaneamente santos e pecadores. Na feliz expressão de Santo Agostinho: cada um é Adão, cada um é Cristo, vale dizer, cada um é cheio de limitações e vícios e ao mesmo tempo é portador de virtudes e de uma dimensão divina. Esta situação não é um defeito mas uma característica da condition humaine. Cada um deve saber equilibrar estas duas forças e na melhor das hipóteses, dar primazia às dimensões de luz sobre as de sombras, as de Cristo sobre as do velho Adão.

Nestes meses de campanha eleitoral se mostrou quem somos por dentro, “cordiais” mas no duplo sentido: cheios de raiva e de indignação e ao mesmo tempo de exaltação positiva e de militância séria e auto-controlada.

Não devemos nem rir nem chorar, mas procurar entender. Mas não é suficiente entender; urge buscar formas civilizadas da “cordialidade” na qual predomine a vontade de cooperação em vista do bem comum, se respeite o legítimo espaço de uma oposição inteligente e se acolham as diferentes opções políticas. O Brasil precisa se unir para que todos juntos enfrentemos os graves problemas internos e externos (guerras de grande devastação e a grave crise no sistema-Terra e no sistema-vida), num projeto por todos assumido para que se crie o que se chamou de o Brasil como a “Terra da boa Esperança”(Ignacy Sachs).

* Leonardo Boff é teólogo e autor de “Tempo de Transcendência: o ser humano como projeto infinito”, “Cuidar da Terra-Proteger a vida” (Record, 2010) e “A oração de São Francisco”, Vozes (2009 e 2010), entre outros tantos livros de sucesso. Escreveu, com Mark Hathway, “The Tao of Liberation exploring the ecology on transformation”, “Fundamentalismo, terrorismo, religião e paz” (Vozes, 2009). Foi observador na COP-16, realizada recentemente em Cancun, no México.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Literário: Um blog que pensa

LINHA DO TEMPO: 8 anos, seis meses e trinta dias de criação.. .

Leia nesta edição:

Editorial – Jornalista é eleito para a ABL.

Coluna Contrastes e confrontos – Urariano Mota, crônica, “Na vizinhança dos teuis 60 anos”.

Coluna Do real ao surreal – Eduardo Oliveira Freire, conto, “Quando Eduardo eduardaliza”..

Coluna No sopro do Minuano – Rodrigo Ramazzini, conto, “A antena”.

Coluna Porta Aberta – Alda Lara, poema, “Presença africana”

Coluna Porta Aberta – Samuel C. da Costa. poema, “Descompasso”.


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Livros que recomendo:

“Balbúrdia Literária” – José Paulo Lanyi – Contato: jplanyi@gmail.com
“A Passagem dos Cometas” – Edir Araújo – Contato: edir-araujo@hotmail.com
“Aprendizagem pelo Avesso” – Quinita Ribeiro Sampaio – Contato: ponteseditores@ponteseditores.com.br
“Um dia como outro qualquer” – Fernando Yanmar Narciso.
 “Cronos e Narciso” – Pedro J. Bondaczuk – Contato: WWW.editorabarauna.com.br
“Lance Fatal” – Pedro J. Bondaczuk - Contato: WWW.editorabarauna.com.br


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Jornalista é eleito para a ABL

A cadeira de número 32 da Academia Brasileira de Letras, ocupada por Ariano Suassuna até sua morte (ocorrida em 23 de julho de 2014, no Recife), já tem novo dono. Trata-se do premiadíssimo e consagrado jornalista Zuenir Ventura, de 83 anos, que foi eleito ontem (30 de outubro de 2014), por 35 dos 37 votos atribuídos. Os outros dois foram para seus ilustres concorrentes: o poeta amazonense Thiago de Mello (autor do antológico “Estatuto do Homem”) e a escritora paraense Olga Savary. Os três merecem assento na casa fundada por Machado de Assis, por seus inegáveis méritos literários e riquíssimos currículos (o que nem sempre acontece, convenhamos). Mas somente um tinha que ganhar. E este foi meu ilustre colega de profissão.

Corporativismo á parte, entendo que a cadeira de número 32 – que já foi ocupada por Carlos de Laet, Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo, Genolino Amado e, por último, por Ariano Suassuna – estará, doravante, em muito boas mãos. Como, ademais, também estaria caso os acadêmicos optassem por Thiago de Mello ou por Olga Savary. Espero que os dois que não foram eleitos não desistam da postulação e disputem outra cadeira, em nova oportunidade, pois sua presença na ABL apenas enriqueceria (ou enriquecerá) essa nobre casa de arte e de cultura.

Zuenir Ventura, mineiro, nascido na cidade de Além Paraíba, em 1ª de junho de 1931, fez uma carreira jornalística impecável. Rigoroso na apuração dos fatos, como manda o manual do bom jornalista, nunca se descuidou do texto, da forma de expressar idéias, fazendo-o com elegância, correção e simplicidade, características dos bons escritores. Sempre soube misturar, na dose certa, sem nunca errar na mão, emoção e razão, conquistando, dessa forma, a indispensável credibilidade e, por conseqüência, a fidelidade dos leitores. Atualmente, é um dos colunistas mais lidos e respeitados do tradicional “O Globo”. Zuenir Ventura é tão emotivo, que na noite de ontem (30 de outubro de 2014), deu um susto daqueles nos amigos e admiradores. Sentiu-se mal, durante jantar comemorativo de sua vitória, tendo que ser hospitalizado. Felizmente, parece que não era nada sério. Tanto que já recebeu alta. Sem essa, camarada! Pare de assustar seus admiradores, entre os quais me incluo!!

Zuenir tem pouca experiência no terreno da ficção. Tanto que seu primeiro livro ficcional, o romance “Sagrada família”, foi publicado, somente, em 2012, pela Editora Alfaquara. Na obra, todavia, esbanja talento, como veterano romancista (que não é), recontando, com graça e bom-humor, as complicadas relações de uma família da serra fluminense, numa história que situa no ano de 1940. Seus personagens (como Tia Ninoca, por exemplo), são fascinantes, inesquecíveis e marcantes, porquanto são humanos e simples, como cada um de nós. A história é narrada do ponto de vista de um menino, que reconta episódios de amores e enganos, porém, com desfechos nada óbvios. Aliás, pelo contrário: são todos inesperados e, portanto, surpreendentes.

O fato de Zuenir Ventura não haver se dedicado à ficção não faz dele menos escritor que romancistas, com cinco, dez ou vinte romances no currículo. Afinal, é extraordinário cronista e a crônica, como todos sabem, é um gênero literário dos mais apreciados (e complexos, ao contrário do que muitos supõem). Como jornalista, conquistou os maiores e mais importantes prêmios da profissão, como o cobiçadíssimo Esso e o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Aliás, nessa área, é imbatível. E não exagero. Querem uma prova? Pois lá vai. Em 2008, Zuenir Ventura recebeu das Nações Unidas um troféu especial como um dos cinco jornalistas que “mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no país nos últimos 30 anos”.

Seus livros são dos tais que põem o dedo na ferida de casos em que pessoas foram desrespeitadas no que têm de mais fundamental: sua vida e liberdade. Cito, entre estes, “1968 – O ano que não acabou” (Editora Nova Fronteira e republicado pela Editora Planeta);”Cidade Partida” (com o qual conquistou o Prêmio Jabuti de reportagem de 1995, Companhia das Letras); “Inveja: mal secreto” (Editora Objetiva), “Chico Mendes: crime e castigo” (Companhia das Letras) e “1968 – O que fizemos de nós” (Editora Planeta). Como se vê, a cadeira que foi de Ariano Suassuna estará em ótimas mãos. Antes que me esqueça, destaco que Zuenir Ventura foi eleito, em 2010, “O Jornalista do Ano”, pela “Associação dos Correspondentes Estrangeiros”. A casa de Machado de Assis, como se nota, sai enriquecida com a sua eleição.

Boa leitura.


O Editor

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk.                       
Na vizinhança dos teus 60 anos


* Por Urariano Mota

Dirás que me engano. Dirás que seria melhor eu escrever que completas hoje o vigor dos teus 59 anos. Mas tentarei adiante mostrar a razão de eu te ver na vizinhança do que serás. E sentiremos os dois, imagino, que o maior prêmio é o  futuro.  

Se eu tivesse dom dos poetas do repente, improvisaria versos que cantassem com rima e graça o bem do presente que cresce para os anos que terás. Mas como sou prosador, apenas pergunto mais curto que o nosso tempo na terra: os limites da idade são também limites da vida?  Penso que os limites da idade não podem ser fronteiras a que todos estamos condenados. Assim, penso e creio que os  limites dos anos se alargam pelas mudanças que podemos usar a nosso favor. Seria mais que uma compensação, mais que um consolo do tipo “se não consegues pular o frevo, dances uma valsa”. Não é isso. Trata-se de assimilar a transformação, como a forma organizada de um novo ser. Assim como os artistas fazem um estilo do que neles é falta.

Se eu pudesse compor um poema haicai,  escreveria três versos com metamorfose, pupa e crisálida. Como não posso, imagino um imago para os teus 60 anos que se avizinham, e por isso escrevo metamorfose,  casulo, pupa. Penso nas sucessivas crisálidas, quero dizer. Penso nas borboletas, enfim, que se abrem de um modo inverso para os teus próximos anos. Tu voas nas transformações saídas da pupa das tuas rugas. Enquanto  vincos se mostram, o que na matéria visível é casulo, asas amarelas se abrem do teu novo ser.  

Bem lembras. Na Crônica do amor que amadurece, quando anunciavas os 50 anos, eu te escrevi:

“O essencial é que as rugas, as gorduras, os ossos frágeis do objeto que se ama se revelam uma fortaleza. O amor que amadurece ama a pessoa exatamente nesse tempo de aparente decadência física, e por causa mesmo dessas formas. As fragilidades físicas se tornam uma qualidade, pois remetem a uma história comum.”

Lembras. Naquela ocasião, os casulos que fomos  cantavam  fenômenos gerais:

“Pois assim como a noite vinda depois do dia, e o dia que brilha depois da noite já não brilha como o de ontem, assim como a noite não pode ser da natureza do dia, e no seu escuro, nas suas estrelas, tem um encanto, que por ser diverso daquele do dia não deixa de ser um encanto, e assim como nas sucessões físicas, temporais, de toda a natureza, da flor que fenece e cai e se ergue em outra a partir dos grãos derramados...”

Desta vez, consigo, tento afinal um haicai para o que em ti é mais específico:

Nova idade

Metamorfose

Da pura pupa

Olho o relógio. São duas da manhã de 19 de junho e eu nem notei. Foi bom, o tempo correu e nem vimos as horas passadas.  É que o presente já se abre para o futuro.

Um bom dia para o amanhecer dos teus 60 anos, Francêsca.  


* Escritor, jornalista, colaborador do Observatório da Imprensa, membro da redação de La Insignia, na Espanha. Publicou o romance “Os Corações Futuristas”, cuja paisagem é a ditadura Médici, “Soledad no Recife”, “O filho renegado de Deus” e “Dicionário amoroso de Recife”.  Tem inédito “O Caso Dom Vital”, uma sátira ao ensino em colégios brasileiros.
Quando Eduardo eduardaliza


* Por Eduardo Oliveira Freire

I

Eduardo voltou da Nova York mítica direto para o ônibus barulhento e sujo. Quer tanto conhecer a cidade em que tudo funciona e é um paraíso. Tanto que nem se importa de viajar ilegalmente para lá, podendo ser deportado num piscar de olhos. Tadinho de Eduardo...
  
II

Outro dia, no trabalho, Eduardo imagina estar num café em Paris, lendo um livro hermético e profundo e fazendo pose de escritor-pensador. Sempre quis viajar para a França, apesar de não ter interesse em aprender francês e nem juntar dinheiro com a finalidade de viajar. Na verdade, Eduardo prefere sonhar com a Paris mítica- glamorosa, fantasiando que chegando lá, todos o acharão com muita potencialidade artística, contratando até tradutores para decifrarem suas obras complexas. Eduardo é assim, mas ainda bem que a realidade o chama, quando lhe pede para desarquivar um documento. Eduardo é, ao mesmo tempo,  água e terra.

III

Eduardo acredita que os políticos precisam ser belos, para que o resto do mundo admire o país, como sendo o lugar de pessoas bonitas. Inclusive, crê que as pessoas lindas são mais bem resolvidas consigo mesmas, logo, serão mais éticas e menos corruptas. Eduardo é admirador da beleza e nem percebe que ela pode ser um abismo.
Pobre Eduardo...

IV

Eduardo tem pensamentos contraditórios, de repente imagina que é um voluntário que vai para a África ajudar os necessitados. Agora, o elegante é ser politicamente correto e ser despido de desejos consumidores. Viajar para Europa e os E.U.A já saíram de moda. Entretanto, Eduardo fica na superfície do sonho. Não pensa que se sujará ou correrá risco de vida, pelo contrário, em seus devaneios, sempre está impecável. Realmente, Eduardo tem cabeça de rio caudaloso repleto de criaturas quiméricas.

V

Ninguém aguenta a loucura de Eduardo, muitos acham que ele dissimula para fugir da realidade e todos ficarem com pena dele. Eduardo não entende a agressividade das pessoas, tranca-se no armário, onde luta contra a rainha-mexilhão-devoradora. Sua espada afiada é a única arma que consegue vencê-la e salvar o reino de cristal azul intergaláctico. Eduardo tende a ser mais água do que terra.

VI

A família resolveu internar Eduardo numa clínica. Eduardo achou o lugar lindo, principalmente o jardim. Começou a imaginar que era um castelo só seu, os funcionários e os pacientes eram todos empregados seus. Eduardo foi feliz para sempre...

* Formado em Ciências Sociais, especialização em Jornalismo cultural e aspirante a escritor - http://cronicas-ideias.blogspot.com.br/