sábado, 1 de setembro de 2012

Leia nesta edição:

Editorial – Copioso e magistral.

Coluna Direto do Arquivo – Leandro Barbieri, poema, “Urna abaixo”.

Coluna Clássicos – Johann Wolfgang Goethe, poema, “Reconciliação”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, crônica,“O mistério do verde inigualável”.

Coluna Porta Aberta – Clóvis Campêlo, poema, “Melancolia”.

Coluna Porta Aberta – Fernando Barreto, conto “Ou dá ou desce-VI”.

Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk.As portas sempre estarão abertas para a sua participação.

Copioso e magistral

A obra literária de Victor Hugo é copiosa, variada, vibrante e memorável. Fosse um escritor desconhecido qualquer – e não o magnífico homem de letras, envolto em glória, que conta com o reconhecimento quase que irrestrito dos que amam e respiram Literatura que foi – ao lermos qualquer dos seus tantos livros (cuja quantidade gira ao redor de uma centena ou por volta disso), não deixaríamos de exclamar, espontaneamente, sem que nem mesmo percebêssemos: “genial!!!”. É, no meu entender, é o termo que melhor o define.

Hugo explorou, praticamente, todos os gêneros literários. E fê-lo com idêntica competência, vibração, exuberância e, acima de tudo, paixão. Isso! Victor Hugo foi um sujeito apaixonado: pelas pessoas, pela arte, pelas letras, pela humanidade, pela vida. Há quem considere seu estilo exagerado, excessivamente verboso e costumeiramente retórico (o meu é assim). Tolice. Era, isso sim, um escritor do qual se pode afirmar, sem incorrer em nenhum exagero, que escrevia “botando chispas pelos olhos”. É impossível ler qualquer dos seus livros, não importa se de poesia, romance, novela ou ensaio, com indiferença. De imediato, somos induzidos a tomar partido, não importa se a favor ou se contra. Raríssimos escritores tiveram (ou têm) essa capacidade.

Alguns escritores também usam linguagem pomposa, não raro empolada, mas apenas para disfarçar falta de conteúdo no que escrevem. Hugo, pelo contrário, esgrimia com palavras e imagens, elaborava metáforas originais, valia-se de expressões que em determinados trechos nos parecem frutos até de delírio, para ressaltá-lo. E consegue. A obra dele tem conteúdo. Aliás, é o que mais tem.

Qualquer análise, pois, por mais superficial que seja, da sua vasta, copiosa e sumamente criativa obra, se fosse feita em apenas meia dúzia de palavras, seria uma heresia. Não faria justiça ao seu imenso talento. Portanto, tratarei dela – mesmo que resumidamente – por um par de dias. O leitor, inteligente e perspicaz, certamente entenderá a razão.

Antes de qualquer tentativa de análise dos livros de Victor Hugo convém reiterar um esclarecimento que faço periodicamente a propósito da natureza e do objetivo destes meus textos. Embora neles eu aborde, com certa assiduidade, biografias das mais notáveis personalidades, notadamente de artistas, eles não são relatos biográficos. São meros comentários à margem, descompromissados e livres, de determinados aspectos da vida desses personagens. Não guardam – pois não se propõem a guardar – qualquer ordem cronológica. As opiniões emitidas são estritamente pessoais, muitas polêmicas, mas todas fundamentadas em algum tipo de documentação.

Ademais, estas reflexões não são resenhas de livros e muito menos são críticas literárias. Os critérios de avaliação que utilizo, portanto, não são os “técnicos”. Não tenho a mais remota preocupação, não raro até obsessiva de muitos críticos – a de encontrar cochilos e impropriedades nos textos que avaliam – pois não me julgo nenhum árbitro da correção e do bom gosto literários. Muitos entendem que o ato de avaliar determinada obra tem, necessariamente, que detectar defeitos de quaisquer espécies para serem criticados (não raro de forma irônica, desrespeitosa e mordaz), até para justificar a crítica. Entendo que não tem.

Reitero, pois, que estes textos são apenas “comentários”, e rigorosa e estritamente pessoais, com os quais o leitor pode concordar ou não. A maioria me parece que concorda (vejam que responsabilidade a minha!). Todavia, mesmo os que discordam, ou talvez principalmente eles, satisfazem meu objetivo (se não exclusivo, pelo menos o principal) ao escrever estas reflexões. Ou seja, refletem.

Não comentarei, hoje, a copiosa e variada obra de Victor Hugo, apesar deste tão extenso preâmbulo sugerir isso. Faço melhor. Partilho, com vocês, o poema abaixo, deste que é considerado por muitos como “o maior poeta francês” de todos os tempos, para preparar seu espírito para o que virá na sequência. Todavia, peço licença para fazer só mais uma observação. Discordo quando se diz que determinado artista ou certa personalidade é o “maior” ou o “melhor” na sua arte ou atividade. Trata-se de um tipo de avaliação até injusto, por ser rigorosamente subjetivo e por não contar com parâmetro consensual e infalível para uma aferição objetiva e racional. Prefiro a forma mais cautelosa de manifestar esse tipo de apreciação. Em vez de afirmar que Fulano é o “maior” ou o “melhor” no que faz, opto por colocar antes a expressão “um dos”... Dito isso, deliciem-se com o expressivo poema abaixo de Victor Hugo

De quem a culpa?

"--- Tu fostes incendiar a Biblioteca?
--- Mas é um crime inaudito e ruim,
--- Sim,
queimei-a".

"Que mesmo contra ti, infame, praticaste!
A luz que a tua alma aclara, intrépido, apagaste!"
"É a tua própria luz que acabas de soprar.
Isso que teu ódio ímpio e louco ousa queimar
é teu bem, teu tesouro, a herança da tua alma,
o livro te protege, instrui, anima e acalma".

"O livro toma sempre a tua defensiva.
Vale uma biblioteca o ato de fé, que agora,
cada uma geração, nos livros, rediviva,
presta: é a noite rendendo um testemunho à aurora.
Oh! nesse venerando acervo de verdade,
nessas obras geniais jorrando claridades,
tumba da antigüidade erguida em repertório.

Nos séculos de luz, nesse genuflexório,
no passado, lição que soletra o porvir.
Nisso que se criou para não se extinguir.
Nos poetas, nos heróis, belos, imarscíveis,
na ruma divinal dos Eschylos terríveis,
dos Homeros, dos Jobs, de pé sobre o arrebol,
em Moliére, em Voltaire e Kant, à luz do sol,
ímpio! Foste chegar uma tocha inflamada!

Todo o espírito humano em cinza, em fumarada!
Esqueceste que o livro é teu libertador?
Lá na altura ele está, como altivo condor:
brilha. Porque ele brilha é que nos ilumina;
destrói o cadafalso, a miséria, a chacina.

Ele fala, e nos diz: nada de escravo ou pária.
Abre um livro, vai ler: Platão, Milton, Beccaria,
esses profetas: Dante, e Corneille e Shakespeare;
a alma imensa que têm, em ti sentes surgir;
lendo-os, sentes-te igual a eles todos, altivo;
lendo, tornas-te meigo, austero e pensativo.

Eles, em tua mente, aumentam de grandeza.
À escuridão de um claustro a alva vem dar clareza.
À proporção que ele entra e afunda em tua mente,
tornas-te mais feliz, tornas-te mais vivente.
Tua alma torna-se apta a argüida responder.
Reconheces-te bom e sentes derreter
como a neve ao calor, a vaidade sombria,
o mal, o preconceito, a tirania!

Pois, no homem o saber é o que chega primeiro;
depois a liberdade. Esta divina luz
é tua, e foste tu que, de pronto, a apagaste.
O livro atinge os fins que tu próprio sonhaste.
Entra em teu pensamento e solta e desenleia
os grilhões com que o erro, a verdade aperreia.

A consciência é um nó górdio horrível, que asfixia.
O livro é teu guardião, teu médico, teu guia.
Tua raiva, ele acalma, e tira-te a demência.
Eis o que perdes, tu, por tua intransigência.
O livro é teu tesouro; é a riqueza, é o saber,
o direito, a verdade, a virtude, o dever,
a razão, aclarando a tua inteligência.
E tu queimaste tudo, infame!...
--- Eu não sei ler!"

Boa leitura

O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk
Urna abaixo

* Por Leandro Barbieri

Em um país de famintos
Em uma terra de miseráveis

Não há tufões
Não há vendavais

Não há disciplina
Não há bom senso

Guerra calada
Única arma
Desperdiçada urna abaixo...


* Roteirista, diretor e pesquisador de Telenovelas nacionais. Escreveu Retrato da Lapa (a primeira novela da TV a Cabo brasileira) e Umas & Outras (a primeira novela da Internet), as quais também dirigiu em parceria com Silvia Cabezaolias. Assina o roteiro da webnovela Alô Alô Mulheres na allTV, onde é diretor do núcleo de dramaturgia.

Reconciliação

* Por Johann Wolfgang Göethe

A paixão traz a dor! — Quem é que acalma
Coração em angústia que sofreu perda tal?
As horas fugidias — para onde é que voaram?
O que há de mais belo em vão te coube em sorte!
Turbado está o espírito, o agir emaranhado;
O mundo sublime — como foge aos sentidos!

Mas eis, com asas de anjo, surge a música,
Entrelaça aos milhões os sons aos sons
Pra varar, lado a lado, a alma humana
E de todo a afogar em eterna beleza:
Marejado o olhar, na mais alta saudade
Sente o preço divino dos sons e o das lágrimas.

E assim aliviado, nota em breve o coração
Que vive ainda e pulsa e quer pulsar,
Pra ofertar-se de vontade própria e livre
De pura gratidão pela dádiva magnânima.
Sentiu-se então — oh! pudesse durar sempre! —
A ventura dobrada da música e do amor.


In "Últimos Poemas do Amor, de Deus e do Mundo", tradução de Paulo Quintela

• Alemão, um dos maiores escritores de todos os tempos
O mistério do verde inigualável

* Por Urda Alice Klueger

(Para Roland Klueger, meu pai, que hoje faria 89 anos.)

A sensação era de aquecimento, de corpo e de alma, e de alívio: o trem parara, e tenho certeza, hoje, que só aquilo já significava um grande alívio, pois a maior parte da minha vida passei enjoando terrivelmente dentro de qualquer coisa que se movimentasse. Sei minha idade: era o tempo dos três anos, e sei que usava um casaquinho de lã vermelha, abotoado até o pescoço, e àquele alívio do trem parado se somava o conforto do casaquinho vermelho e a amplidão da ternura que havia junto ao peito do meu pai. Eu passei hoje lá e reconheci o lugar. Tudo é novo e construído onde outrora só houvera arrozeiras, mas permanece de pé a casa que fora a estação de trem. Se aquela era a estação do trem, de algum dos lados houvera uma casa que servia xícaras de leite gordo e sanduíches de pão de casa com manteiga de casa e amarelo queijo cheio de furinhos - coisas que eu rejeitara quando meu pai me dera, pois o enjôo do movimento do trem ainda permanecia em mim.

Então, meu pai passeou comigo do lado de fora daquelas casas ligadas ao trem, e o lugar está lá até hoje, e hoje e eu o vi e prestei a maior atenção.

Ali é Ascurra, e ali, no passado, só havia, na minha mente, além da estação do trem e da casa que servia o leite gordo e pão de casa com queijo de furinhos, uma grande igreja e a misteriosa mancha daquele verde único que eu nunca mais veria sequer em preciosas jóias usadas por famosas princesas.

O que poderia ser assim tão absurdamente verde e lindo para deixar sem fôlego uma criança de três anos, a ponto de ela pensar na magia que existe no país das fadas, a ponto de ela se sentir dentro de uma irrealidade?

Ternamente aconchegada junto ao aconchegante peito do meu pai, que decerto amava muito aquela pequena menina que um dia eu fui, eu o ouvi explicar:
- É uma plantação de arroz! É a cor do arroz novo..

E era bem como estar imersa no país das fadas, tal a magia daquele misterioso verde inigualável e o aconchego dos braços daquele pai jovem que hoje, fazendo as contas, sei que tinha só 33 anos, embora me parecesse alguém tão velho e sábio quanto um profeta bíblico.

Foi no aconchego dos braços do meu pai que eu aprendi sobre aquela cor única que é a cor do arroz novo formando campos totalmente encantados para o saber de uma criança, e que é uma cor que me encanta ainda quase do mesmo jeito até os dias de hoje.

Então ontem passei lá em Ascurra, não mais de trem, mas na estrada asfaltada, e lá ainda está a casa que era a estação do trem e as tantas lembranças, e como numa voragem eu voltei ao meu casaquinho vermelho abotoado, ao leite cheio de nata na xícara branca, ao colo agora tão dolorosamente distante do meu pai, e àquela cor do arroz novo que já não existe ali naquele lugar, mas que ficou dentro da minha alma para sempre, como talvez a cor mais linda que já tenha visto, e doeu, como doeu.

Um monstro chamado progresso tem devorado a dentadas gulosas paisagens e coisas que nem imagino, ao meu redor, mas quando vi aquela velha casa de estação, lá em Ascurra, soube que nem a tudo o tal monstro tem poder para engolir, pois, aninhada nos braços confortadores do meu pai, eu pude viajar para o passado e mergulhar de novo no mistério daquele verde fresco e inigualável que lá houve um dia, aquele verde único que a gente só encontra nos campos de arroz novo!

* Escritora de Blumenau/SC, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR

Melancolia

* Por Clóvis Campêlo

Já não existem mansardas,
apenas o vulto de um alto
edifício
a olhar a cidade que cresce
vertical.
Vertiginoso, aos seus pés,
um rio persegue caudaloso
o tempo incessante.
Uma tristeza feita de pedras
me invade.
Solidifico-me e concebo
mais um poema
ausente de equilíbrio,
repleto de sangue
e signos.


• Poeta, jornalista e radialista
Ou dá ou desce VI

* Por Fernando Barreto

Capítulo 6 - Maybe we'll come back some day

Brito pediu enfaticamente a Vânia para que fosse discreta na sua chegada ao prédio dele. Tinha pedido com antecedência ao porteiro que quando Vânia chegasse ela subisse sem a necessidade de interfonar. Isso só para que seu pai não ouvisse o interfone do outro apartamento. As cozinhas dos apartamentos de Brito e de Britão eram divididas apenas por uma parede e de um lado era possível ouvir o interfone do outro apartamento caso houvesse algum silêncio.

A mãe de Brito havia viajado no dia anterior para o casamento de uma sobrinha. Era prima de Brito e tinha 31 anos. Brito havia perdido o contato com todos os seus primos, mas lembrava de quando essa garota nasceu. Manteve algum contato com ela e suas irmãs até a época em que essa que se casaria tinha 12 anos. Deixou de frequentar festas de família. Naquele momento em que Brito esperava por Vânia, ele tinha se desfeito de parte da família original sem que tivesse montado uma só sua. Já não conhecia mais sua prima que ia casar e ela também não o conhecia mais. Já Britão havia usado a desculpa de dor nas costas e sonolência por causa dos remédios para ficar em casa sozinho no fim de semana.

Vânia disse que chegaria ás 22 horas e Brito ficou em sua sacada fumando e olhando para baixo até às 22 horas e 26 minutos. Havia adiado a primeira dose de uísque para que pudesse beber depois de transar, mas a demora de Vãnia o fez queimar a largada. A garota chegou às 23 horas e 11 minutos e subiu sem que o porteiro interfonasse enquanto Brito estava ouvindo o disco .Revenge of the Goldfish, dos Inspiral Carpets. O som estava razoavelmente alto, e ainda assim Vânia bateu à porta errada. Estava fumando maconha na ponte antes de ir à casa de Brito. Então ela bateu na porta errada e Britão, já completamente alcoolizado e esperando por uma pizza, achou que era o entregador. Vãnia só usou a campainha quando já havia dados vários cascudos na porta de Britão, e ele já estava muito próximo da porta, bêbado e perplexo com o abuso de quem ele pensava ser um garoto que tinha uma moto e entregava pizzas.

Britão abriu a porta e uma boa parte de sua embriaguez baixou quando viu o nível de espetacularidade de Vânia naquela noite. Alguns segundos de silêncio de ambos foram interrompidos com Britão quebrando o gelo, enquanto Vãnia não tinha nem ao menos assimilado o tamanho da vergonha que começou a sentir.
- Ah, minha filha!! Vou apresentar uma peça hoje à noite! Uma grande peça! Pode entrar...

Vãnia desmaiou e caiu para trás, com a cabeça batendo diretamente na porta de Brito. Naquele momento, Britão teve seu grau de embriaguez ainda mais reduzido.
- Não faça isso, minha filha! Meu Deus! – gritou Britão, enquanto Brito acordou de seu exercício de melancolia dentro de seu apartamento.

Os segundos que levou para se levantar e correr até a porta foram suficientes para que Brito se perguntasse por que as pessoas com quem convivia precisavam se comportar de modo que ele ficasse triste e constrangido, mesmo que naquele momento ele ainda não soubesse exatamente o que estava acontecendo. Bastava saber que seu pai e Vânia estavam envolvidos naquilo. Brito não podia evitar ser filho de Britão, mas podia desistir de conviver com quem não fosse obrigado. Esse tipo de situação o expunha diante da vizinhança e seus esforços para se manter afastado dos comentários iam por água abaixo exatamente quando começava a se alegrar por sentir que estava começando ser esquecido pelos vizinhos.

Brito abriu a porta e antes que visse Vânia desacordada, deparou-se com Britão, que naquele momento teve empalidecida sua face rosada. O sangue parecia ter simplesmente sumido da sua cara. Os olhos esbugalhados faziam Britão parecer convencido, pelo menos por alguns segundos, do quão bizarra tinha sido sua existência burguesa até então.
- O que essa cretina está fazendo caída, pai? Eu não sabia que vocês se conheciam, mas há uma lógica pra isso. Vocês conseguem descer cada vez mais baixo... – disse Brito antes de fazer com que Vânia ficasse esticada no chão.
- Veja como fala comigo, moleque! Você é um vagabundo que só serve pra encher a privada de merda! – disse Britão
- Você constituiu uma família, e disso eu jamais poderei ser acusado! Eu jamais vou contribuir pro aumento da população! Você deveria ser capado antes que pudesse ter filhos, e então eu seria poupado disso tudo! Você é um burguês porco que se mistura com essa gentalha da Bela Vista! Todo o esforço que eu faço pra ser discreto é jogado fora por sua causa! Sou oposição a tudo que você faz, pensa e representa! – disse Brito

Eles discutiam e Vãnia continuava inconsciente no chão. Ela jazia entre um pai bêbado e um filho que não podia acreditar que aquilo estava acontecendo. Quando os dois silenciaram ao mesmo tempo houve uma preocupação de ambos com o estado de Vânia e com o que os vizinhos podiam pensar. Como só havia dois apartamentos por andar e ambos pertenciam ao clã dos Britos, então o risco era menor. Vânia tinha um metro e setenta e três centímetros e pesava sessenta e três quilos, e foi levada com alguma dificuldade por Brito até seu sofá, observada por Britão, que de tão bêbado, mal conseguia se lembrar de como aquilo havia começado. Brito esticou-a no sofá e voltou para a porta, de onde Britão ficou parado olhando sua ação.
- Vou dormir! – disse Brito.
- Antes disso você deveria dar uma boa galada nessa morena. Provavelmente ela veio aqui pra isso... – disse Britão com a voz pastosa de bêbado, e em seguida virou-se, entrou em seu apartamento e fechou a porta.

Depois de devidamente acomodada no sofá, Vânia não demorou para acordar. E acordou só para chamar Brito de alcoólatra por ele estar tomando uísque sozinho. Ela nem ao menos perguntou o que havia acontecido antes. Dormiu na sequência, virando o rosto para o encosto do sofá e sua bela bunda envolta por uma calça jeans que parecia ter sido feita sob medida para o olhar de Brito, que já devidamente alcoolizado, foi dormir no quarto. Naquele momento, o fato dela querer dormir ali por conta própria era mais importante que sexo para Brito.

Leia o sétimo e último capítulo deste conto na edição de amanhã.


• Escritor