quinta-feira, 1 de dezembro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Grandioso poeta condoreiro.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “Do tamanho dos nossos desejos”.

Coluna Contradições e paradoxos – Marcelo Sguassábia, crônica,“Subtraído da multiplicação”.

Coluna Do fantástico ao trivial – Gustavo do Carmo, conto “Farpas”.

Coluna Porta Aberta – Jair Lopes, artigo “Genética”.

Coluna Porta Aberta – Raul Longo, poema, “A pedra de Davi”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Grandioso poeta condoreiro



À simples menção do nome Castro Alves, aqueles que não leram seus livros e só tomaram conhecimento da sua obra através de antologias ou de pequenos textos dos cursinhos de vestibular, torcem o nariz, como que diante de uma velharia, indigna de ser apreciada. A geração do pós-tudo – pós-guerra, pós-moderna, pós-ultramoderna, e vai por aí afora – arranja dezenas de pretextos para ignorar sua poesia esmerada, combativa, discursiva, retórica que certamente não leu e não gostou.

Estes dois últimos qualificativos (discursiva e retórica) geralmente são citados por críticos literários como pejorativos. Não entendo assim. O discurso bem conformado e inteligente é a maior arma de convencimento que o intelectual conta. E a arte da retórica – ou seja, do repto, do desafio, do confronto de idéias – quando exercida com competência e equilíbrio, empresta brilho especial ao texto e consolida qualquer argumento verdadeiro.

Os historiadores de Literatura classificam Castro Alves como romântico. A palavra sugere versos melosos, desmilingüidos, até piegas. Foi um preconceito que se criou em torno dessa tendência literária, ditado, evidentemente, pelo desconhecimento, pela falta de gosto, pela ignorância explícita.

Esse rótulo basta aos que exercem o hábito da leitura (e quando o fazem), sem uma visão crítica, e que se apegam apenas a modismos, como se estes fossem os determinantes culturais. Aliás, o saudável hábito de ler nem sempre é devidamente exercitado nestes tempos de predomínio do visual, a não ser por uma diminuta e arrogante elite, financeira, mas nem sempre intelectual.

Aos que torcem o nariz à obra do poeta baiano, embora sem conhecer já não digo suas nuanças, mas os versos mais populares e conhecidos que ele escreveu (constantes em qualquer antologia, por mais ordinária que seja) somente por causa do seu romantismo, retruco com uma citação de Fernando Pessoa.

Escreveu o escritor português dos heterônimos: "Os realistas realizam pequenas coisas, os românticos, grandes. Um homem deve ser realista para ser gerente de uma fábrica de tachas. Para gerir o mundo deve ser romântico. É preciso ser realista para descobrir a realidade; é preciso um romântico para criá-la".

E Castro Alves criou-a. Comandou a campanha pela abolição dessa vergonha que mancha a nossa história, que foi a escravatura. Participou ativamente da luta abolicionista e pressentiu um futuro grandioso para a jovem e emergente América Latina. Defendeu a difusão e popularização do livro e, portanto, da educação, como instrumento para transformar o Brasil em uma sociedade justa e humana, quando esclarecida.

A grande causa da sua vida, Cecéu – este era o apelido que o irmão mais velho, José Antônio, lhe deu – assumiu aos 16 anos de idade. Isso mesmo, ainda menino. Foi no Recife. Em 17 de maio de 1863, mais precisamente, quando publicou no jornalzinho "A Primavera" seus primeiros versos abolicionistas:

"Lá na úmida senzala/sentado na estreita sala,/junto ao braseiro no chão,/entoa o escravo seu canto/e ao cantar correm-lhe em pranto/saudades do seu torrão..." É poesia de gente grande. Ficava claro que o menino era um fenômeno. Defender o abolicionismo hoje não apresenta dificuldade para ninguém.

É fácil revoltar-se com o horror, com a covardia, com a suprema crueldade de reduzir um ser humano à absoluta animalidade. De tirar-lhe os bens mais preciosos: a liberdade e a dignidade. Mas na época, a escravidão era um procedimento normal. Pessoas reputadas por sua benemerência tinham senzalas repletas de negros, tratados como bois, cavalos ou cães de guarda. Ou até menos.

Os proprietários de escravos contavam com o beneplácito da lei. Não se tratava de nenhuma ilegalidade explorar um ser humano à exaustão e até à morte. Os escravizados não eram considerados pessoas. Eram comprados e vendidos e o Estado recolhia impostos sobre estas transações. Os que se opunham a essa atividade asquerosa eram tidos por agitadores. Muitos deles eram presos, por perturbação da ordem pública. E tudo isso ocorreu há pouco mais de cem anos!

O País teve inúmeros abolicionistas ilustres, que a história registra, políticos, escritores, sacerdotes, tribunos, advogados. Todos maduros, assentados na vida e, sobretudo, experientes. Mas ninguém ergueu mais alto e mais firme a sua voz do que aquele menino baiano, rebelde, idealista e sumamente talentoso.

Notem que libelo acusatório contundente, marcante, firme e honesto são estes trechos, pinçados a esmo, do poema "O Navio Negreiro":

"Quem são estes desgraçados/ que não encontram em vós/ mais que o rir calmo da turba /que excita a fúria do algoz?/ Quem são?/Se a estrela se cala,/se a vaga à pressa resvala/como um cúmplice fugaz/perante a noite confusa...?/ Diz-me tu, severa Musa,/Musa libérrima, audaz...//São os filhos do deserto, onde a terra esposa a luz,/onde vive em campo aberto/a tribo dos homens nus.../São os guerreiros ousados/que com os tigres mosqueados/combatem na solidão,/ontem, simples, fortes, bravos.../Hoje, míseros escravos,/sem ar, sem luz, sem razão..."

Sintam a revolta, a santa ira, desse menino, desse adolescente, como nossos filhos ou netos de hoje, e com o ideal da liberdade, igualdade e fraternidade a queimar-lhe as entranhas:

"Senhor Deus dos desgraçados!/Dizei-me vós Senhor Deus,/se eu deliro...ou se é verdade/tanto horror perante os céus!.../Ó mar, por que não apagas/co'a esponja de tuas vagas/do teu manto este borrão?/ Astros! noites! tempestades!/rolai das imensidades!/Varrei os mares, tufão..."

O poeta investia contra o tráfico de escravos. Contra o apresamento de homens livres em sua terra natal para um destino pior do que a morte, em longínquas paragens, despidos de sua mínima dignidade. Sua revolta maior era contra o Poder Público que não somente fazia vistas grossas a esse vil comércio, mas participava dele.

Diz o poeta, em determinados versos do poema "O Navio Negreiro":

"Existe um povo que a bandeira empresta/pra cobrir tanta infâmia e covardia!.../E deixa-a transformar-se nessa festa/em manto impuro da bacante fria!/ Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,/que imprudente na gávea tripudia?"

E arremata com estes versos, provavelmente os mais fortes, magistrais, contundentes e autênticos de toda a literatura brasileira:

"Auriverde pendão da minha terra,/que a brisa do Brasil beija e balança,/estandarte que à luz do sol encerra/as promessas divinas da esperança.../Tu que, da liberdade após a guerra,/foste hasteado dos heróis na lança,/antes te houvessem roto na batalha,/que servires a um povo de mortalha!..."
É antiga esta poética? Pode ser para aqueles invertebrados que vegetam no mundo sem saber sequer a razão. Para os que fazem do estúpido e vazio hedonismo, do materialismo frio e insensato, da busca frenética por bens que não poderão levar para o túmulo, seu único e exclusivo objetivo. Castro Alves é, e deveria ser hoje e sempre, o poeta da juventude brasileira. O arauto da liberdade e da justiça social. O utópico anunciador de novos tempos. O grandioso poeta condoreiro.

É um intelectual – e digo no presente, já que seu espírito permanece vivo entre nós, através da sua marcante obra – para ser reverenciado, estudado, imitado e seguido. É um talento desses raros, que aparecem apenas de quando em quando, nos diversos campos da atividade humana. Daí ser patrono da Academia Brasileira de Letras, fundada muitos anos após sua prematura morte, aos 24 anos de idade, em 1871.

Os derradeiros anos da sua curta vida foram tormentosos, duros, difíceis. Tiveram a morte a fazer uma trágica ronda ao seu redor. Em 9 de fevereiro de 1864, por exemplo, foi duramente abalado com o suicídio do irmão mais velho, José Antônio, aquele que lhe deu o apelido de Cecéu.

Nesse mesmo ano, já cursando direito no Recife, em 7 de outubro, tem uma crise de tuberculose. Entre medo e esperança, escreve estes versos:

"Oh! Eu quero viver, beber perfumes/na flor silvestre que embalsama os ares;/ver minh'alma adejar pelo infinito,/qual branca vela n'amplidão dos mares". Contudo, pressente a presença da morte, nestes dois últimos versos: "Mas uma voz responde-me sombria:/ terás o sono sobre a lájea fria".

O poeta queria viver. Amava a vida. Era sacerdote da beleza. Apreciava a juventude. Era arauto da esperança. Vivia embriagado de ideal. Tanto, que este extravasava para seus versos. Sabia que liberdade, igualdade e fraternidade eram utopias. Ainda assim... fazia desses conceitos seu lema.


Boa leitura.


O Editor.

Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Do tamanho dos nossos desejos

* Pedro J. Bondaczuk

O mundo da fantasia, aquele do faz-de-conta, o dos nossos sonhos, tem as dimensões exatas dos nossos desejos. Difere em muito do real, onde temos que lutar pela sobrevivência, sem muito espaço para correr atrás de abstrações. Preocupações imediatas nos desafiam, como conseguir um teto para nos cobrir a cabeça, o alimento que nos mantenha as forças, o acesso à educação e à cultura para que conservemos nosso tênue verniz de "civilização", o usufruto das conquistas da medicina para manter nossa saúde e prolongar nossa vida etc. O que desejamos pode ser tanto a mola que nos impulsione às grandes realizações, quanto a fonte de toda a nossa infelicidade. E é muito difícil, senão impossível, filtrar o factível, o concretizável e o realizável do somente desejável.

Alguns desejos exigem cumplicidade para que se realizem. Jamais uma única pessoa, de forma isolada, teria condições de realizá-los, dadas sua abrangência e complexidade. Devem ser ideais permanentes tanto do indivíduo, quanto da comunidade em que ele está inserido. São os casos da solidariedade, da fraternidade e da justiça, entre outros, conceitos que, se bem entendidos e, sobretudo, aplicados, transformam por si sós o Planeta em um lugar aprazível para se viver.

O austríaco Peter Handke escreveu: "Existe como que uma falta que se instala (em nossa vida). Mas é preciso ter o desejo. É só isso, é preciso ter o desejo. O desejo de redenção, de libertação. Se a gente não tem isso, acho que não se pode escrever". Eu estenderia um pouco além esta conclusão. Diria que não se pode viver. Mas de nada vale se limitar a desejar. É preciso agir, de maneira ordenada e coletiva.

É necessário ter-se em mente a possibilidade de não conseguirmos alcançar o que tanto desejamos e saber como lidar com essa frustração. Temos que entender que não passamos de pequeno elo de uma imensa corrente surgida quando do aparecimento do primeiro indivíduo inteligente, da nossa espécie, sobre a Terra e cujo final é impossível de vislumbrar na sucessão de gerações. Mas nossa vaidade impede-nos de admitir o quanto é ínfima a nossa importância individual. Carecemos de uma visão de médio e longo prazo. Queremos a realização dos nossos desejos, por mais fantasiosos ou egoísticos que sejam, de imediato. E, claro, nos frustramos. Ocorre o choque inevitável entre a realidade e a fantasia.

O físico Albert Einstein escreveu, em seu livro "Como vejo o mundo": "A perfeição dos meios e a confusão dos objetivos parece caracterizar a nossa época. Se desejamos sinceramente e com ardor a segurança, o bem-estar e o desenvolvimento livre dos talentos de todos os homens, não nos faltarão meios para atingir tal estado. Ainda que só uma pequena parte da humanidade se esforce para tais objetivos, sua superioridade ficará comprovada a longo prazo". Nunca os recursos para a instauração do sonhado Paraíso na Terra estiveram mais ao alcance de todas as pessoas. No entanto, em época alguma houve maiores divisionismos e injustiças do que agora.

Basta atentar para o fato de que dois terços da humanidade trabalham, ou procuram trabalhar, para que o um terço restante fique com os frutos deste labor em seu próprio proveito. Por que? É a pergunta que os idealistas fazem há séculos! E muitos morrem por essa igualdade de oportunidades! Um bilhão e quatrocentos milhões de pessoas situam-se, hoje, abaixo da linha da miséria, sem casa para morar, sem comida, sem acesso à saúde, sem poder obter o preciosíssimo bem da educação que lhes permitiria uma evolução em sua condição pessoal. E essa contundente cifra cresce em progressão geométrica. Enquanto isso, os recursos preciosos e esgotáveis do Planeta concentram-se, mais e mais, proporcionalmente, em menos mãos. Por que?

Somente nos últimos anos, de acordo com estatísticas do Banco Mundial, 400 milhões de indivíduos caíram na absoluta miserabilidade. Estes, certamente, também têm desejos, posto que meramente instintivos. É possível que sonhem com a fortuna e com os prazeres sensoriais. Mas nos seus delírios desejam, antes de tudo, o que têm o direito natural de obter e não lhes permitem. Querem comida que os mantenha vivos, roupa, para estarem aquecidos, um teto, para estarem abrigados. Ambições primitivas, como as dos homens das cavernas. Direitos naturais que devem ser garantidos. E é lamentável que em 13 milênios de civilização, após tantas guerras, discussões e movimentos, somente os instintos egoísticos, animais, prevaleçam: os da lei das selvas, da prevalência do forte sobre o mais fraco.



* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk




Imagem: Thiago Cayres

Subtraído da multiplicação

* Por Marcelo Sguassábia

Esteve a bem dizer na multiplicação dos pães e dos peixes, aquela dos evangelhos, mas nem por isso saiu com a fome morta. Chegou segundos depois, e do milagre do Messias viu farelos e mais nada. Acabaram com tudo, pensou, comeram a não poder mais e nem um bocado restou ao meu estômago nas costas.
Quis mesmo o filho do Criador que fosse assim? E se sim, por que comigo e não com outro? Clamava alento e pena da multidão saciada, que não o via, que já na sesta se estirava digerindo seu fastio, que não conhecia e nem soubera esperar por ele - um parente distante de Zebedeu.
Era aquele que teve o azar de chegar depois da fartura que o Salvador fez servir. Assim refletia, quando sentiu a pontada no pé - espinha de peixe esquecida pelos famintos da hora.
Santo sou eu que não como, e que do peixe só levo a dor deste machucado – desabafou, erguendo as mãos para o céu. E seguiu caminhando por meses, devagar e meio manco, até que encontrou as botas que Judas havia perdido.

• Marcelo Sguassábia é redator publicitário. Blogs: www.consoantesreticentes.blogspot.com (Crônicas e Contos) www.letraeme.blogspot.com (portfólio)






Farpas

* Por Gustavo do Carmo

O casal Drähm chega a um restaurante na Barra da Tijuca uma hora depois do combinado com os amigos Klaus e Karine Smirnoff. Envergonhado com o atraso, Benvindo se desculpa aos dois amigos:
— Pô, gente! Vocês me desculpem. Meu carro enguiçou e tivemos que vir de ônibus. No caminho pegamos um engarrafamento monstruoso. ¬
— Ah, mas vocês vieram, não é verdade? Perdoa Karine.
— Sentem-se aí, eu vou pedir um drink para a gente. Nós chegamos faz meia-hora. Diz Klaus.
Benvindo e Derlaine sentam-se à mesa. Depois de acomodados e já com o drinque na mesa, Benvindo ainda comenta:
— A gente não teria enfrentado esse engarrafamento e chegaríamos bem mais cedo se a minha querida parceira não inventasse de se enfeitar toda para vir pra cá.
— É verdade, pessoal. Mas eu gosto de me arrumar e ficar bem bonita. Não sou como certas pessoas que saem por aí de camisa amarrotada, colarinho sujo e desodorante vencido. Justifica Derlaine.
O casal Smirnoff se entreolha com cara de nojo. Benvindo esclarece:
— Não tenho culpa se o desodorante vence antes de encerrar o expediente de trabalho, né? Principalmente o trabalho duro como o meu de ficar fiscalizando o movimento da livraria (tanto pessoal quanto financeiro). Aliás, ele já está vencido antes de chegar ao trabalho, pois a gente vive numa cidade quente, mas tem que andar sempre bem arrumado, passa horas no banco do carro preso no engarrafamento e ao cinto de segurança que amarrota a roupa enquanto a sua esposa está em casa gastando luz com o ar condicionado e de pernas pro ar.
— Não. Não é bem assim. Realmente a gente vive numa cidade quente. E é por isso que eu ligo o ar condicionado no início da tarde, pois eu estou morta de cansaço depois de um dia inteiro na cozinha e na área lavando e passando roupa, já que o patrão dispensou a empregada para economizar. Só não economiza pra outra e no futebol com os amigos. No Maracanã é todo domingo e toda quarta à noite. E ainda tenho que cuidar de um menino mimado, uma solteirona de trinta anos imatura e uma mulher que vive discutindo com o marido.
— Com tanta dureza no trabalho a gente tem que se divertir, né? Mas eu me divirto com qualquer um: amigos, filhos, sozinho. Eu chamo a esposa para relaxar também, mas ela não quer. Fica de frescura. Mesmo assim, essa diversão dá muita despesa. É filho criança, é sonho da filha do meio querer ser escritora, é filha mais velha pedindo dinheiro emprestado para saldar as dívidas do marido. Lá em casa a gente precisa cortar alguns gastos desnecessários: a tv a cabo nós reduzimos o pacote, lanches fora de casa nós cortamos, economizar na luz, no telefone, luz, água, brinquedos só no aniversário do menino.
— Meu marido é mesmo muito econômico. Tão econômico que não troca nem o carro 1.0 que não tem ar condicionado e fica com aquela coisa velha enguiçada na garagem. E ainda sai com qualquer um. Se bobear tem qualquer uma.
Klaus interrrompe a discussão sutil do casal Drähm e propõe:
— Amigos, a conversa está tão agradável, mas vamos pedir o nosso prato, né? Afinal viemos aqui para comer.
— Claro. Você já decidiu o que vai pedir, Derlaine?
— Já.

Durante o almoço, os casais voltam a conversar. Retomam o assunto. Desta vez é Karine quem lembra que os amigos vieram de ônibus.
¬ — O ônibus em que vocês vieram estava muito cheio?
¬ — Lotado. Responde Derlaine. ¬
¬¬— Por que não vieram de táxi?
— Fazer o quê? O senhor economia precisa conter as despesas, né?
Antes de Benvindo dar a sua resposta Klaus sai em sua defesa:
— Karine, que mal tem eles virem de ônibus? É melhor pagar cinco reais no ônibus executivo do que pagar 40 de táxi.
— Ah! Economia é com o meu marido mesmo. Só que naquele dia a gente foi de lotação.
— A gente estava atrasado.
— Atrasado ao meio-dia para comprar eletrodoméstico numa loja que fecha a noite?
— Você sabia muito bem que na liquidação a concorrência era grande. Tinha que chegar bem cedo mesmo.
— Ah é! Vocês acreditam que o Klaus me fez ir até o subúrbio só para comprar uma televisão de plasma porque achava que tinha 90% de desconto?
— A gente também foi uma vez,né Bem? Mas era tudo enganação.
— Pois é. Só o meu marido e pobre que acreditam nisso. E pobre era o que mais tinha lá. Aliás, tinha uma favelada folgada disputando uma máquina de lavar comigo. Vai ver não tinha nem condições de comprar. Conta Karine.
— Gente racista e preconceituosa é dureza, meus amigos. Essa pessoa que acabou de falar é tão preconceituosa e arrogante que nem o rapaz do frete que nos levaria para casa com a maior boa vontade aguentou, e nos expulsou do caminhão dele. Tivemos que andar da Copacabana até o Leblon a pé. Imagina andar naquele calor com uma lavadora nas costas. E eu que tive que carregar. Além do aparelho estar com defeito, fiquei uma semana com dor na coluna.
— Até que o carreteiro aguentou bastante, diz Derlaine antes de soltar uma gargalhada.
— Mas o seu marido te aguenta mais, Dedé. Principalmente as suas chantagens emocionais. Responde Karine. Eu que o diga. E isso desde os tempos da escola.
— Aprendi a fazer isso que vocês acham que é chantagem com a Karine, que fazia sempre com os meninos com quem ela ficava no colégio. Ela era apelidada de A Dondoca Mimada de Olaria. Comenta Derlaine depois de beber um gole de vinho.
— Mas eu era mais popular do que você na escola. Só não era no seu bairro, pois eu nunca fui apelidada de A Fera da Penha. Não que você tenha matado e queimado a filha de alguém. Você só era feia.
Um jato de vinho jorra sobre o vestido de Karine.

— Ai, me desculpa, minha querida.
— Pode deixar, eu já ia comprar outro vestido mesmo.
— Você ainda tem dinheiro para comprar vestidos caros? Pensei que vocês estavam falindo. Pergunta Benvindo.
— A família Smirnoff passa por dificuldades, mas ela consegue se reerguer. É assim desde os tempos do vovô. Ele a minha avó quase passaram fome na época da Segunda Guerra Mundial. Mas deram a volta por cima, abriram uma indústria de alimentos que o meu pai herdou e a tornou uma das maiores do país. Gaba-se Klaus.
— Mas aí o filho torrou tudo com mulher e farra. E o que sobrou divide com a Karine, que foi a única mulher que restou. Diz Benvindo, antes de soltar uma gargalhada.
— Pô, Benvindo! Pra que tanto humor ácido? Você sabe muito bem que eu fui contratado por uma multinacional, estou montando uma firma de contabilidade e estou atendendo a sua livraria em processo de falência.
— Gente, mas vocês sabem que o contribui para a decadência de um negócio é o desvio de dinheiro dos contadores, das comissões abusivas deles e da inadimplência dos clientes? Tem uma senhora de origem Smirnoff que comprou vinte livros e deu três cheques pré-datados sem fundo. Acho que é a sua mãe, não é, Klaus?
O garçom interrompe a conversa dos casais de amigos:
— Vocês desejam a sobremesa?
— Você quer, querida? Pergunta Klaus.
— Não. Estou me sentindo gorda.
— Então nos traz a conta, por favor.
— Ok. Diz o garçom.
— Mas eu pensei que você estivesse com anorexia. Comenta Benvindo.
— Eu nunca tive anorexia. Eu só não queria ficar pançuda como você.
— Vamos mudar de assunto. Estamos trocando farpas desde que chegamos aqui. Sugere Klaus. — Como é que vão os filhos? Estão dando muito trabalho?
— Filho sempre dá trabalho. Isso a gente tem que se conformar. O Gabrielzinho tá estudando muito, a Irene está batalhando pra ser escritora e a Tássia está dando duro no Banco do Brasil e discutindo com o marido dela. Responde Derlaine.
— Por isso que optamos por não ter filhos. Para a gente criar e depois quando casam ficar servindo de mediador de briga de casal? E quando eles estão pequenos e começam a ficar pedindo tudo que veem?
— E ainda tem aqueles que chegam aos trinta anos e não largam do teu pé e nem do seu dinheiro. Não têm nem competência para batalharem a vida sozinhos. Completa Karine.
— Mas mesmo assim os amamos e fomos abençoados. Graças a Deus não nascemos estéreis como algum de vocês. Afirmou Benvindo.
— Amor, vamos embora? Pede Karine.
— Não liga pra eles não, Karine. Você não pode ter filhos, mas podemos ter sexo todos os dias. Você é muito mais gostosa do que a Derlaine. Nós já ficamos antes de nos conhecermos. Quando ela começou a falar de filhos eu caí fora.
— Ben, acho que a estéril é a Karine. O Klaus é impotente, mesmo. Foi bom ele tocar no assunto. Estava pra te falar isso.
— Sem problemas, meu amor. Eu também tenho que confessar que já tirei uma casquinha da Karine. O problema é que ela só tinha casca. Carne mesmo, não tinha nada.
— E você tinha cascão e gordura demais. Me senti sufocada. Pelo seu peso e pelo mau-cheiro. Completa Karine.
O garçom traz a conta.
— Gente, temos que ir mesmo. Hoje teremos um sarau na casa da minha irmã. A conversa estava tão agradável. Precisamos nos encontrar mais. Se despede, Klaus.
— Nós também, não é Derlaine? Eu ainda tenho que ir à livraria hoje.
— E eu tenho uma pilha de roupas das crianças pra passar. Então até a próxima.
O casais Smirnoff e Drähm se despedem. Karine e Derlaine trocam dois beijos no rosto e abraços. Os casais opostos fazem o mesmo. Klaus e Benvindo trocam abraços e apertos de mão. Saem do restaurante sem pagar a conta.

* Jornalista e publicitário de formação e escritor de coração. Publicou o romance “Notícias que Marcam” pela Giz Editorial (de São Paulo-SP) e a coletânea “Indecisos - Entre outros contos” pela Editora Multifoco/Selo Redondezas - RJ. Seu blog, “Tudo cultural” - www.tudocultural.blogspot.com é bastante freqüentado por leitores.






Genética


* Por Jair Lopes

Nesta quadra da história moderna onde a clonagem de vertebrados está bem além da ficção e já existe tecnologia para clonar um ser humano, vale contar um evento curioso que envolve fecundação. Alguns seres vivos se reproduzem de maneira diferente da nossa. Alguns moluscos e certas plantas têm como estratégia reprodutiva o hermafroditismo ou androgenia, cujos princípios consistem na existência de caracteres machos e fêmeas no mesmo indivíduo. Assim, para formação da primeira célula embrionária não há participação exterior de um indivíduo de sexo contrário. O novo ser é construído a partir do potencial genético adulto, uma espécie de gêmeo idêntico de quem o gerou.
Analogamente, a partenogênese, denominação de outro processo de reprodução consiste na substituição do gameta masculino (espermatozóide) por um gameta feminino chamado oosfera. Portanto, sem nenhuma participação do exterior a reprodução se completa. O suíço, Chales Bonnet, em 1940, descobriu partenogênese dos pulgões. Depois verificou-se o mesmo fenômeno em algumas espécies de abelhas, em alguns vegetais, nos ouriços do mar, nas estrelas do mar, nas rãs e em alguns peixes. Vários experimentos em laboratórios demonstraram que é possível provocar a partenogênese artificial em gatos, coelhos e outros mamíferos. Outros cientistas verificaram que óvulos de mamíferos cultivados sob certas condições de temperatura e meio de cultura fora do útero, iniciavam o processo de divisão dando o início à criação de um novo ser como se estive fecundado dentro útero. A respeito dessa descoberta, o Dr Goldman escreveu em 1966: “O nascimento sem pai é possível nos seres humanos...”.
Decorrente dessa especulação genética, apareceu na revista “Lancet” um artigo assinado pela especialista em eugenia Dra Helen Spurway, no qual dizia que “talvez” fosse possível uma mulher engravidar sem intervenção de espermatozóide. Daí, a coisa evoluiu para o sensacionalismo, a imprensa se apoderou da idéia e instituiu um concurso para que toda cidadã britânica que tivesse engravidado “virginalmente” se apresentasse, sua identidade seria preservada se assim as participantes desejassem. O escopo do “concurso” era encontrar fêmeas humanas para comprovar a tese que era possível a reprodução sem participação masculina.
Como a Europa estivera em guerra, milhares de mulheres – adúlteras e abandonadas por namorados - viam no concurso a possibilidade de “apagar” traições a seus maridos e companheiros enquanto estes estiveram no front. Dezenas de milhares de mulheres com filhos se apresentaram. Começaram então os testes que consistiam primeiramente uma entrevista rigorosa e em prova de compatibilidade sanguínea. Somente dezenove mulheres restaram depois disso. Em seguida veio o teste de saliva que reduziu o grupo a apenas quatro candidatas. O último teste tratava-se enxertos de peles cruzados. A mãe recebia um pedaço da pele do rebento e este um da mãe, se houvesse rejeição se comprovaria a incompatibilidade, em caso contrário o filho era considerado fruto da partenogênese natural. Três das concorrentes foram eliminadas e restaram a senhora Emminaire Jones e sua filha Monica, gerada em circunstâncias anômalas.
Em 1944, Emminaire estava com enjôos constantes e se sentia muito mal, seu noivo estava em combate e ela era virgem, procurou um médico e este constatou que ela estava grávida de três meses. Ela havia passado o tempo todo servindo com enfermeira onde só existiam mulheres no corpo médico, e ela nunca havia feito qualquer coisa que justificasse a gravidez. Emminaire casou com seu noivo, a criança nasceu e ela teve uma depressão nervosa, não entendia o que poderia ter acontecido. Os exames formais verificaram que Monica não tinha nenhum “elemento” estranho ao de sua mãe. O Dr Stanley Balfour-Lynn, juntamente com o famoso professor J. B. S. Haldane divulgou esse caso insólito para o mundo. Ele julgava um caso autêntico de partenogênese natural. Por outro lado, os cristãos que creem no dogma da virgindade de Maria e se sentem desconfortáveis com uma fecundação celestial, acharam um meio de justificar sua gestação.
Pois bem, e como ficou o resto dos cientistas do mundo? A resposta é que ninguém achou que o caso merecia qualquer investigação mais profunda, os testes foram imprecisos e não comprovavam nada, segundo os cientistas “sérios”. Assim, o caso caiu no esquecimento e não mais se falou na possibilidade dessa tal partenogênese natural humana. Só que, em 2005, lá mesmo na Inglaterra, o Dr Eugene Lightorn, geneticista do laboratório “London Medical Genetic Center”, leu o artigo em uma revista da década de sessenta e resolveu procurar as amostras de sangue dos testes, se estas existissem. Para sua surpresa, um congelador do próprio LMGC continha os sangues das mulheres datados e identificados. Ele procedeu ao exame de DNA das amostras e verificou aquilo que ninguém acreditava: Os DNAs da mãe e filha eram perfeitamente compatíveis, como costumam ser DNAs de gêmeos idênticos e de clones de animais e plantas. Agora, diante dessa descoberta, está na hora de os geneticistas darem uma boa “olhada” na possibilidade de existir esse fenômeno, até porque a ciência é pródiga em surpreender a partir de eventos inesperados e fora da “normalidade”. Será este o caso?

* Escritor


A pedra de Davi

* Por Raul Longo

Pedra
Pedra
Voa
voa.

Pedra, cumpre
tua sina

voa
pedra
pedra
a que se destina.

Cumpre
a risca
o vôo
sobre a vergonha
do muro
a covardia
do tanque
o medo
da mão
que segura o fuzil.

voa pedra
acima do jato
mais rápida do que o míssil
além da guerra
na terra
onde não fique pedra
sobe pedra.

risca,risca
pedra
a suástica
sionista
da estrela
nazista.

Voa
Voa
pedra.

Cumpre
tua sina
Palestina!

• Jornalista e escritor.