quarta-feira, 2 de novembro de 2011







Siga-me se for capaz

* Por Sayonara Lino

Tento me aproximar
Algo me afasta
Quero te tocar
Minhas mãos não te alcançam
Tento te enxergar
Dois olhos não bastam
Desejo ver além
O que você me diz
É incoerente com suas atitudes
A falta exaure
O tempo urge
Tenho pressa
O tempo é escasso
Preciso ir
Siga-me se for capaz

• Jornalista, fotógrafa e colunista do Literário






Reflexo

* Por Marleuza Machado


Ao olhar-me no espelho
vejo mais a ti
do que a mim.
Absorvi tua cor,
teu cheiro,
teu jeito,
e essa mistura
não se desfaz no tempo,
nem com a insuportável distância,
mesmo na imperdoável ausência.
Tuas pegadas são marcas
em meu caminho,
assim como tuas digitais
impregnadas em minha pele.
E se ainda por ti suspiro,
se contigo sonho,
se afeto dedico,
é porque no meu espelho
vejo muito mais a ti
do que a mim.

• Poetisa e jornalista



"Nóis" os Virgulinos

* Por Herculano Alencar

"Lampião nasceu das contradições e conflitos da terra, da violência do campo imposta pelos coronéis latifundiários, políticos corruptos e do clero aliado da aristocracia sertaneja e da burguesia litorânea."

Lampião nasceu aceso,
Aluminhando o sertão,
Já com todos os adereço,
E co' a peixeira na mão,
O bofe do lado avesso,
Na bainha do facão,
Estipulou o seu preço,
Pro mode da inflação,
Anunciando o começo,
Da grande revolução.

O sertão mal dividido,
Como rezava o vigário,
Dava pro povo sofrido,
Um tiquinho do salário,
O cerumim do ouvido,
E o diploma de otário,
Pros coroné do partido,
As terra do inventário,
Todo capim produzido,
Nos dia do calendário.

Lampião julgava errado,
E agitou um reboliço,
Juntou uns gato pingado,
Foi falar com pade Ciço,
Apeou , ouviu calado,
Ao santo foi submisso,
Saiu de lá contentado,
Pronto pra dá o serviço,
Já que foi abençoado,
Sem ter de pagar por isso.

Se embrenhou no sertão,
Magote de cabra macho,
Com muita convicção,
Molejo no espinhaço,
Justiça nas oração,
A morte no seu encalço,
Jabá , farinha e feijão,
Rapadura em pedaço,
Cachaça perto da mão,
Pra quando sentir cansaço.

Uma tropa intinerante,
Desde o sertão pro agreste,
Que nem um judeu errrante,
Seguiu o cabra da peste,
Um cavaleiro elegante,
Dono da roupa que veste,
Iniciou um levante,
De norte a sul, leste, oeste,
Cada lugar, uma amante,
Cada amante, um pivete.

Patente de capitão,
Como manda a hierarquia,
Na frente do pelotão,
Pra demostrar valentia,
Lá estava lampião,
Na mira da oligarquia,
Chapéu de couro e gibão,
Que o sertanejo vestia,
E a plena convicção,
De que seu povo servia.

Um guerrilheiro valente!
Um bandido desalmado!
Opinião diferente,
Dividia os dois lado,
Pros ricos não era gente,
Pros pobres era louvado,
Pros coroné e os parente,
Seu facão era afiado,
Pro povo dito, inocente,
Farinha e capote assado.

Foi assim a vida inteira,
Como inté hoje em dia,
Tem fã clube de carteira,
E a raiva da burguesia,
No cinema, tem cadeira,
E esgota a bilheteria,
Na história brasileira,
É folclore ou fantasia,
E o sangue da peixeira
É sua biografia.

Virgulino, o lampião,
Um Lênin tupiniquin,
Não era nenhum ladrão,
Assaltante ou coisa assim,
Era um homem de ação,
Que lutou até o fim,
Embora na contra-mão,
Batendo em gente ruim,
Era de bom coração,
Porém de curto estopim.

Cangaceiro socialista,
Sem utopia e sem nada,
Guerrilheiro estrategista,
Jogava as carta marcada,
Contra os cabra vigarista,
Das mansão encastelada,
Os verdadeiro avalista,
Da pobreza enraizada,
Crescente a perder de vista,
Mesmo pra vista aguçada.

A pobreza que assola,
O Brasil da maioria,
Que vive pedindo esmola,
Que apanha quando arrelia,
Que os coroné inda enrola,
Prometendo melhoria:
Os moleque na escola,
Condução e moradia,
E muito pão na sacola,
Pra acabar com a bóia fria.

Mesma conversa fiada,
Dos tempos de lampião,
Da mesma coronelada,
Que se apossou da nação,
E que vive aquartelada,
Nas mais moderna mansão,
Ou nas igreja lotada,
Fingindo suas oração,
E comendo a marmelada,
Temperada na a eleição.

Oxente, meu companheiro,
Me dê cá a sua atenção,
Pois nós tudo é cangaceiro,
A gente querendo ou não,
Pois o Brasil brasileiro,
É o Brasil de lampião,
Do povo, que sem o dinheiro,
Trabalha na construção,
Da riqueza que o estrangeiro,
Arremata nos leilão.

Vamos vestir o chapéu,
Roupa de couro e gibão,
Pois nada cai lá do céu,
Tem que ter revolução,
Pra tomar dos coronel
A nossa devolução,
É o nosso voto de fé,
Na fé da nossa união,
Nós vamos morrer de pé
Como morreu Lampião.

• Poeta

terça-feira, 1 de novembro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Mergulho no passado.

Coluna À flor da pele – Evelyne Furtado, poema, “Ao poeta”..

Coluna Observações e Reminiscências – José Calvino de Andrade Lima, crônica, “ASs velhas igrejas do Recife”.

Coluna Lira de sete cordas – Talis Andrade, poema “Esquife encarnado”..

Coluna Porta Aberta – Paulo Ghirardelli Jr., artigo “A doença de Lula”.

Coluna Porta Aberta – Urda Alice Klueger, artigo “Abaixo a Submariono.com.br”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Mergulho no passado

A Literatura é uma atividade fascinante sob qualquer aspecto em que seja encarada. É instigante tanto para quem escreve, quanto para quem lê. Proporciona um campo virtualmente infinito de temas, além de diversos gêneros de ficção (romance, novela, conto, peça teatral e roteiro cinematográfico) e não-ficção (poesia, crônica, ensaio) ao escritor. Os assuntos podem enfocar uma única e determinada pessoa, ou um povo inteiro. Pode referir-se a tempos passados, muito remotos, ou avançar para um futuro também extremamente distante. Afinal, a imaginação não tem limites, nem de tempo e nem de espaço.
Há quem escreva somente ficção e concentre todo seu esforço e talento nos gêneros ficcionais. É uma opção e super válida. Caso tenha, de fato, talento, emplaca um ou mais best-sellers e marca seu nome na literatura do seu país. Convenhamos, esse tipo de escrita é o mais atrativo do ponto de vista comercial, pois é o que atrai maior número de leitores. Há, em contrapartida, todavia, escritores que transitam com a mesma familiaridade e desenvoltura em todos os gêneros, tanto de ficção, quanto de não-ficção.
Entre as obras ficcionais, alguns optam por concentrar a atenção em determinadas culturas, via de regra na do seu país de origem e situam seus enredos nos tempos atuais. Cenários, portanto, têm que ser compatíveis com essa época e personagens devem atuar de acordo com os costumes e comportamentos desse tempo.
Há, todavia, os que optam por tratar de outras culturas, que não aquela de onde vive. Caso se concentrasse na da região geográfica em que nasceu e reside, isso lhe possibilitaria todas as facilidades de pesquisa para dar o máximo de verossimilhança (quando não total) às suas histórias. Há romances tão bem arranjados, que o leitor fica em dúvida se a narrativa é coisa mesmo inventada pelo autor ou se trata de uma reportagem mais extensa.
O escritor carioca Alberto Mussa optou, porém, por um caminho pelo menos teoricamente mais difícil. Explora “várias” culturas, muitas das quais ou extintas, absorvidas por outras, ou em vias de extinção. Claro que isso implica na necessidade de um conhecimento (notadamente histórico) além da média. Requer muita, muitíssima pesquisa. O excepcional, no seu caso, é que ele “transita” por esses costumes e comportamentos, tão diferentes dos nossos, com uma impressionante naturalidade.
Trato desse escritor, que já conquistou seu espaço na literatura brasileira e que, a cada novo lançamento, consolida-o, mais e mais, e o amplia, a propósito do seu novo romance, já nas livrarias de todo o País, intitulado “O senhor do lado esquerdo” (Editora Record). Trata-se do seu sexto livro, tão rico e original quanto os cinco anteriores.
Para caracterizar a opção literária de Alberto Mussa, recorro à enciclopédia eletrônica Wikipédia, que foi muito feliz em defini-la como a fusão “da tradição narrativa ocidental com os relatos mitológicos de outras culturas, como a afro-brasileira, a da Arábia pré-islâmica e a do Brasil indígena”. E essa escolha, que exige muito mais pesquisas (reitero), funciona? Para esse escritor, que atinge a plena maturidade literária, ao completar cinqüenta anos de idade, sim. Isso a julgar pela recepção que seus livros vêm tendo por parte da crítica e do público.
Basta informar que a sua obra já foi publicada em dez países e traduzida para sete idiomas diferentes. Nada mau, não é mesmo? E mais, seus livros são objetos de estudo em diversas universidades da Europa, dos Estados Unidos e, notadamente, do mundo árabe. Claro que esta é uma façanha para raros e que sejam, antes e acima de tudo, competentes no que fazem. E sua competência é inquestionável, comprovada, até, pelos prêmios que já ganhou. Os principais são o “Casa de lãs Américas”, o cobiçado “Machado de Assis”, da Biblioteca Nacional e, por duas vezes, o que é conferido anualmente pela Associação Paulista dos Críticos de Artes (APCA).
Seu livro de estréia foi “Elegbara”, em 1997, pela Editora Revan, reeditado em 2005 pela Record. Trata-se de obra de não-ficção, incluída na lista da Revista Brasil entre as melhores do País em 2005. São narrativas de fatos que se passam entre os séculos XVI e XX, referentes às histórias do Brasil, de Portugal e da África. Aliás, o continente negro, com seus costumes e tradições, é presença recorrente nos livros de Mussa.
Sua segunda obra, “O trono da rainha Jinga”, foi de ficção, mais especificamente, um romance. O autor caracterizou-a da seguinte forma: “Concebi-a para o formato clássico de novela policial, com crimes, investigadores, múltiplos suspeitos e um mistério, que só se desvenda nas últimas páginas”. “Onde a novidade?”, poderá perguntar o leitor. A novidade é o fato da trama se desenvolver no Rio de Janeiro, mas não no atual, contudo no do século XVII. E nela Mussa esbanja seu enorme conhecimento de história e da cultura africana. Esse livro foi publicado em 1999 pela Editora Nova Fronteira e republicado, em 2007, pela Record.
O romance “O enigma de Qaf”, de 2004, valeu-lhe os prêmios “Casa de lãs Americas” em 2005 e da APCA em 2004. Na sequência, o escritor carioca lançou outra obra de ficção – diria que “mista”, pois nela o autor mistura fatos reais com outros tantos inventados por ele, no que poderia ser caracterizado, forçando um pouco a barra, de “ensaio-ficcional” – “O movimento pendular”, publicado em 2006 pela Editora Record. Foi esse o livro que lhe valeu o Prêmio Machado de Assis da Biblioteca Nacional e também da APCA no ano do seu lançamento.
O penúltimo dos seus lançamentos, que por suas características merece comentários a parte ( que pretendo fazer oportunamente), foi “Meu destino é ser onça”. Veio a público em 2009. Nele Mussa esbanja seu talento, desta vez de ensaísta.
Com “O senhor do lado esquerdo”, o escritor carioca retorna à ficção, fixando o local e o período em que a história transcorre no Rio de Janeiro de princípios do século XX, durante a presidência de Hermes da Fonseca. Oportunamente, voltarei a abordar com maiores detalhes a obra deste eclético, erudito e criativo autor. Por enquanto, fica a sugestão de leitura de algum (o melhor seria de todos) dos seus seis livros.

Boa leitura.

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Ao poeta

* Por Evelyne Furtado

Guardo tua poesia em mim
Guardo Itabira, sim
Teu (a)mar mineiro
Tua timidez carioca
Teu despudor
Teu fim de festa

Toda quadrilha, que o amava, em litania,
Indagaria: E Carlos amava quem?

Guardo toda vastidão em mim
E todas as pedras, sim.

• Poetisa e cronista de Natal/RN






As velhas igrejas do Recife*

** Por José Calvino de Andrade Lima

As velhas igrejas do Recife, atestado de esplendor da arte religiosa e possibilidade de sua execução, com o conhecimento dos ofícios de douradura, pintura, escultura, ourivesaria, serralharia, carpintaria, marcenaria e fundição, que aqui se estabeleceram desde os primórdios da colonização. São uma tradição e uma escola.
A Igreja de São Pedro dos Clérigos merece uma visita do turista que aporta ao Recife. É uma artística igreja que se destaca, singularmente, pela pureza de suas linhas. A sua construção data do século XVIII. O seu teto é decorado com um magnífico painel, Triunfo de São Pedro, fazendo lembrar a pintura da Igreja de Santo Inácio de Roma (sic). Execução do pintor pernambucano João de Deus Sepúlveda, que nele trabalhou de 1764 a 1768 (sic).
No forro do coro vê-se o quadro Primado de São Pedro, trabalho de outro artista pernambucano, Luis Alves Pinto. Grande suavidade de tintas e delicadeza de linhas. É um dos melhores quadros de nossas igrejas. O serviço de entalhe da capela-mor é obra do padre José Inácio Francisco dos Santos, que o desenhou e executou com as suas próprias mãos. As linhas arquitetônicas do frontispício, principalmente as da porta central, são de grande interesse...

* Texto extraído do livro "Miscelânea Recife" (Mistura do que existe para presente e futuro), p. 108.

** Formado em comunicações internacionais, escritor, teatrólogo, poeta, colunista do Literário e rei do Maracatu Barco Virado. Como escritor e poeta, tem trabalhos publicados nos jornais: Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio, Folha de Pernambuco e em vários sites... Tem 12 títulos publicados, todas edições esgotadas.