terça-feira, 1 de novembro de 2011







Esquife encarnado

* Por Talis Andrade

1
Que cavaleiro reerguerá a bandeira
posto à prova nas batalhas
como apreendido o amor
no ventre ardente
a fornalha
em que se malha
o frio aço
da lâmina flamejante
Desde criança o vaticínio
trovejado pela espumante boca
do profeta
Montado em um cavalo branco
os pés nos estribos
na mão esquerda a bandeira
na mão direita a espada
para degolar os exércitos mercenários
os vendedores do Templo
os moedeiros falsos
Desde criança o sonho
vencer o ídolo de ouro
e o seu séqüito
O enlouquecido sonho
de mudar o mundo

2
Veio o demônio a morte
e tomou a espada
Os livros não ensinam
a espada
tem que ser fincada na pedra do sonho
de onde manarão fontes
cantantes símbolos do Verbo
Veio o demônio a morte
e tomou a bandeira
Os livros não ensinam
uma bandeira apenas um fetiche
de pano e haste
A bandeira tecida
para tremular ao vento
poderia ser pisoteada
pelas hostes inimigas
A bandeira da cor de papoula
cobre o caixão
A bandeira agitada nos estádios
saudada nas passarelas do samba
reverenciada nos terreiros de macumba e capoeira
a bandeira benzida nas procissões
a ensangüentada bandeira das passeatas e comícios
cobre o caixão

3
A vida poderia ter sido feita
de cousas rotineiras
O amor da namorada
no vestido encarnado
de mestra do pastoril
a cantar a vinda do Menino Jesus
que veio ao mundo
para nos salvar
O cuidado dos pais
que iam à missa
todos os domingos
as roupas engomadas
as consciências leves
dos pecados lavados
no confessionário
O romantismo dos camaradas
nas barricadas levantadas no ar
contra os daltônicos escribas da corte
O romantismo dos camaradas
nas barricadas cavadas no asfalto
contra os salários de fome
O dinheiro contado
da lista corrida
entre os companheiros
o dinheiro repartido
para comprar leite e pão
o dinheiro arrecadado para encomendar
as seis tábuas de um caixão
A vida teria sentido
o povo marchasse unido
para expulsar as quatro bestas espreitando
nas quatro esquinas do medo
a ganância do patronato
a covardia dos fura-greves
a brutalidade da polícia
a conivência da justiça
quatro bestas espreitando
coas presas sujas de sangue

4
Benfazeja realidade benfazeja
para quem vê os próprios interesses
E de crime em crime vai juntando
o precioso dinheiro
- o dinheiro indivisível e invisível
o dinheiro que não tem cor
o dinheiro que não tem cheiro
apenas o número secreto do dono
O povo coisa sem importância
As pistas dos latrocínios e pilhagens
desaparecem na lavagem do sangue dos inocentes
os cadáveres sob o peso do cimento
e do aço das obras públicas inacabadas
A lavagem do dinheiro nos bancos
clandestino batismo
dos adoradores do bezerro de ouro


5
Diante da glória passageira
o atordoante desespero
de não reconhecer as vermelhas nuances
Vermelhas a insígnia de fogo nos sambitos dos afogueados
a insígnia de seda dos filhos do Coração Sangrante de Jesus
a cruz da Ordem dos Templários
a cruz gamada dos soldados de Hitler
a bandeira dos operários de Lenine
a bandeira dos piratas
com a ampulheta a caveira e a espada
Vermelho o lenço amarrado
no pescoço dos revolucionários de Trinta
Vermelho o pedaço de pano
o sinal abominável
os leprosos carregavam
pendurado nas vestes brancas
Vermelho o laço de fita
no alto da cabeça da menina
para quem o poeta recitou
rimados versos de amor
em noites de serenatas
Como espanta
o controverso oportunismo
todos quererem uma bandeira
quando sequer entendem
o que seja vermelho

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).






A doença de Lula

* Por Paulo Ghirardelli Jr.

Lula foi pego de surpresa: tem de ir para um tratamento médico. Lula foi presidente da República duas vezes. Com o seu salário pode pagar médico como eu pago: particular. Não cabe a ele dar uma de demagogo e ir se tratar pelo SUS. Seria irresponsabilidade para com ele, para com a família dele e, enfim, para com os brasileiros que esperam dele uma contínua participação na política. Ninguém faria isso. Ninguém, podendo pagar, iria optar por um tratamento do serviço público. Também não cabe fazermos qualquer pessoa, político ou não, tirar vaga no SUS, caso possa pagar. E ainda mais: não há protesto político que se justifique, contra o SUS, se para tal é necessário usar das agruras individuais de quem quer que seja, muito menos do ex-presidente. Até porque o ex-presidente, junto com FHC, monta a dupla de governantes que empurrou este país para a condição que estamos hoje, que é muito melhor – em todos os sentidos – do que a da década de oitenta. Só não quer perceber isso quem teima na cegueira ou quem é viuvinha da Ditadura Militar. Não sou apoiador incondicional de Lula, ao contrário. Mas, não sou burro.
Todavia, há quem, por exclusiva mágoa pessoal, por ser pessoalmente um derrotado, aproveita da doença do ex-presidente para vir gritar contra ele, fingindo que está gritando contra o SUS. São os que estão fazendo uma “campanha” – devidamente orquestrada na Internet – com o título: “Lula, trate-se pelo SUS”. Na ingenuidade, muitos que são antipetistas ou que têm divergências com Lula por conta do “mensalão” e coisas parecidas, engrossam a tal “campanha”. Mas, na base dela, não há divergência política – é isso que assusta. Na base o que há é a derrota. Não digo derrota política não. Digo, derrota pessoal. Ou seja, ainda há no Brasil aqueles que se acham melhores que um operário que virou presidente. Aqueles que nunca fizeram nada por si mesmos ou que realmente são incompetentes e, então, falam diante do espelho: “o que é que um operário barbudo, analfabeto, tem que eu não tenho, porque ele e não eu?” Lula sempre foi vítima disso. Sempre despertou esse tipo de sentimento em determinados grupos da população, que antes nós, filósofos com algum jargão de esquerda, chamávamos de “lumpesinato”. Hoje, não se trata mais de usar esse termo. O que temos que falar é, sim, na aliança entre o preconceito contra figuras como o Lula e a própria derrota pessoal.
O preconceito aliado à derrota pessoal gera um sentimento horrível que pode atingir ricos e pobres, não importa. Lula causa asco nesses grupos de invejosos, de mal amados, exatamente porque ele não só teve sucesso pessoal, mas porque, em boa medida, algo que ele prometeu ele cumpriu, e que parecia impossível. Ele fez realmente uma política que ampliou o mercado interno e possibilitou que mais gente viesse para a classe média, e fez isso sem romper com a democracia liberal. Lula passou a ser aplaudido pela população a despeito de todas as falhas do PT na condução do combate à corrupção. Esse êxito pessoal de Lula bate de frente com a derrota pessoal dos que alimentam, agora, a indisposição contra ele na Internet.
Esse movimento na Internet não é eleitoreiro. Ainda não é. Ele é ruim exatamente porque não se trata de política, é apenas o ódio interior de todo aquele que não suporta o êxito do outro. Como sempre tive sucesso nos meus empreendimentos, sei bem o que é virar alvo desse tipo de inveja que aponta suas baterias contra Lula. Sei que isso vem bem do interior do inferno. O inferno das almas dos derrotados e preteridos. Os Caims da vida.
Sobre esse tipo de sentimento, aproveitando-se dele, é que todos os regimes extremados, de direita e esquerda, fizeram sua história.

• Filósofo, escritor e professor


Abaixo a Submarino.com.br

* Por Urda Alice Klueger

No passado até fiz boas compras na WWW.submarino.com.br e achava que poderia contar sempre com aquela empresa, até que... bem, no começo de outubro deste ano resolvi comprar uma nova câmara fotográfica, e o fiz na maior boa fé – estamos a 30 de outubro, e até agora ainda não recebi a minha compra, embora ela já esteja sendo descontada no meu cartão de crédito.
Acontece que eu morava em determinado endereço, de onde saí faz mais de dois anos, e a Submarino resolveu entregar minha compra atual lá no endereço antigo. Estaria tudo certo se eu não tivesse alterado meu endereço junto à Submarino neste meio tempo, mas alterei, e fiz novas compras que me foram entregues no endereço novo – portanto, estava tudo certo.
Tudo certo até este outubro, decerto por ser mês das Bruxas. Desta vez a Submarino resolveu voltar a entregar a mercadoria lá onde eu morava antes, que é um grande condomínio onde moram muitas centenas de pessoas, e sumiu minha câmara pela qual aguardava com ansiedade.
Fiz o que achei certo: telefone, reclamei, foi aberto um protocolo para descobrir o que estava errado – neste meio tempo já foram abertos três (3) protocolos (nrs. 120608331, 120691473 e 120916413 – já que estamos falando em nr.s., vai também o nr do meu pedido: 217760245), e a cada vez a moça gentil que atende me garante que terei minha câmara entregue nas próximas horas, e a cada vez ela está mentindo. Como as ligações são muito demoradas, e eu estou em Santa Catarina e eles estão em São Paulo, imagino o tamanho da minha conta telefônica neste mês!
O motivo de tudo: o meu endereço, lá na Submarino, voltou a ser o antigo, aquele de onde saí faz mais de dois anos. Segundo as atendentes, somente eu posso alterar meu endereço, e eu já o fiz por quatro (04) vezes no sítio da Submarino, e tenho o desprazer e o desgosto de a cada vez ver meu antigo endereço ir parar, de novo, no topo da lista.
Pensei: vou mandar uma boa e confiável carta via correio, pedindo que deletem meu endereço anterior, mas vocês acham que de alguma forma se consegue algum endereço físico de tal empresa? Passei horas e horas ouvindo aquela nojenta musiquinha que diz: “Venha para o Submarino – aqui tem! Você pode pagar assim e assado” e outras porcarias de quem não sabe respeitar um cliente – e a minha conta telefônica aumentando, e absolutamente ninguém me atendeu. Dizem eles que se podem fazer comunicações via e-mail, e até tem um campo lá que diz que se pode fazer tal coisa, mas eles só querem saber o novo número do cartão de crédito e coisas assim. Resumindo: total desrespeito ao cliente, nenhuma consideração ao ser humano – onde fica a confiança para se fazer mais algum negócio com tal empresa? Sinto-me arrasada com tal descaso para com o ser humano que sou (e sabe-se lá por quantos outros! – pois no São Google ta cheinho de gente tentando descobrir o endereço físico do Submarino, e não se consegue nenhum vestígio. )
Se no passado a Submarino era capaz de utilizar meu endereço novo e entregar as coisas aqui em casa certinho, por que é que agora a coisa engrupiu, e não recebo a mercadoria e chego a chorar de mágoa pela minha impotência diante daquela gravaçãozinha nojenta, tocada milhares de vezes para enganar bobo, para a gente pensar que vai ser bem atendida?
Abaixo o WWW.submarino.com.br . Eu, pelo menos, não compro mais naquela gaiola cobradora que não respeita o cliente, aspirador de dinheiro sem o menor laivo de sentimento. São as coisas do capitalismo, e ainda bem que pelo mundo afora os jovens (e os velhos também) estão ocupando as ruas (inclusive nos EUA, hehehe) e exigindo um respeito que parece que foi esquecido.
Tinha que escrever. Tomara que muita gente leia!

• Escritora, historiadora e doutoranda em Geografia pela UFPR.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Liberdade no século XXI.

Coluna Lira de sete cordas – Talis Andrade, poema “Encosto”.

Coluna Em verso e prosa – Núbia Araújo Nonato do Amaral, crônica, “Nas nuvens”.

Coluna Porta Aberta – José Luiz Grando, poema “Chama negra”.

Coluna Porta Aberta – Paulo Lisker, crônica “O senhor Sadigursky”..

Coluna Porta Aberta – Eliane Triska, poema “Madrugada de orações”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Liberdade no século XXI

A liberdade é um daqueles tantos conceitos ambíguos, citados a todo o instante, mas que suscitam múltiplas interpretações. Temos intuição íntima do que significa e de como desejamos que seja, mas não conseguimos defini-la com precisão e muito menos estabelecer onde começa e onde termina, embora não em casos extremos, claro. Sua total supressão, por exemplo, nos é clara (e intolerável), posto que muito mais comum do que desejamos. Mas seu caráter absoluto e irrestrito é pura ficção. Nunca existiu e nem irá existir a liberdade sem nenhum limite. Ela é sempre relativa e parcial.
Aquela história de ser livre para fazer o que, quando e onde queremos, sem dar satisfações de nenhuma espécie, e para ninguém, dos nossos atos, é ilusão. Pode até ser (e é) o ideal dos anarquistas, que se opõem a hierarquias e sistemas de toda e qualquer espécie (inclusive do casamento), mas essa “ideologia” (creio que podemos lhe dar essa designação), nunca prosperou.
Do nascimento à morte, com maior ou menor intensidade, sempre tivemos, temos e teremos que prestar contas dos nossos atos a alguém: aos pais, aos educadores, à esposa, ao patrão, às autoridades constituídas e vai por aí afora. Sempre que tratamos de liberdade, portanto, está implícita a que é relativa. É ela que caracteriza as legítimas (será que legítimas mesmo?) democracias contemporâneas.
Bem, o assunto é fascinante, enseja muitas vertentes para reflexão, mas não é propriamente dele que vou tratar. Meu tema é muito mais trivial, é um comentário superficial e de passagem sobre o novo livro do escritor norte-americano Jonathan Franzen. E o título desse romance, sucesso editorial nos Estados Unidos e, lançado no Brasil em maio de 2011 pela editora Companhia das Letras, é justamente este: “Liberdade”.
As opiniões dos críticos a respeito desse romance oscilam de um extremo a outro. Uns, avaliam-no com incontido entusiasmo e incorrem (no meu entender) até em certo exagero. Para o jornal “The Guardian”, trata-se do livro “do ano” (no caso, 2010, quando foi lançado nos EUA) e do “século” (que, convenhamos, ainda está, praticamente, no início). A revista “Time” recebeu-o com idêntico entusiasmo. Dedicou-lhe uma das suas disputadas capas em 2010 e chamou Jonathan Franzen, de 52 anos (recém-completados) de “o grande romancista norte-americano da atualidade”.
Mas... é raro alguém conseguir agradar, simultaneamente, “a gregos e troianos”, principalmente quando se trata de literatura. Alguns críticos, por exemplo, consideram que “Liberdade” poderia ser mais “enxuto” e que são dispensáveis as 605 páginas que tem. Embora elogiem o enredo, as várias tramas, os personagens verossímeis e atuais, entendem que há excesso de descrições, que seriam supérfluas e que tornam a leitura, em determinados trechos, chata e enfadonha. Bem, considero que não se deva descambar para nenhum tipo de exagero. Ou seja, como se diz no popular, “nem tanto ao céu e nem tanto à terra”.
O livro, de fato, é muito bom e, sobretudo, atual. Trata-se de um épico enfocando uma família do Meio Oeste dos Estados Unidos da década de 1980 até a eleição de Barak Obama para a presidência, situando-se, portanto, em todo o período da polêmica gestão de George W. Bush (2001-2009) na Casa Branca. O autor cita, por exemplo, a todo o momento, o fatídico 11 de setembro de 2001, que redundou numa dramática mudança de postura e de atitude dos Estados Unidos face o mundo, notadamente com as invasões do Iraque e do Afeganistão.
O livro poderia ser mais “enxuto”? Poderia. Sempre pode. Todavia, discordo que sua extensão torne a leitura enfadonha e muito menos chata. Como discordo, também, que se trate do “romance do século”. Talvez, mas apenas talvez, possa ser considerado o “melhor do ano”, embora 2010 tenha se caracterizado por excelentes lançamentos, do mesmo nível ou, quem sabe, melhores do que “Liberdade”.
Franzen não é “marinheiro de primeira viagem”. Este já é o seu quarto livro. Os três anteriores também foram muito bem recebidos pela crítica e pelo público, apesar de não com tamanho alarde como este. Sua estréia, ocorrida em 1996, curiosamente, deu-se com uma obra de não ficção. Foi com o ensaio “Perchance to Dream” (não sei se chegou a ser lançado no Brasil), tratando do estado da literatura.
Jonathan Franzen nasceu em 17 de agosto de 1959 em Western Springs, no Estado de Illinois. Seu pai é um imigrante sueco e a mãe norte-americana. É formado em letras germânicas. Embora tenha criticado muitas vezes a televisão e as outras mídias contemporâneas, cita-as, vezes sem conta, em seu livro. Indagado a respeito, em entrevista que concedeu à Folha Ilustrada, em 27 de maio de 2011, justificou da seguinte forma esta aparente contradição: “Eu me isolo delas. Quando estou trabalhando, não tem música, internet. Gosto delas, mas distraem facilmente. Porém não vejo a razão do Twitter e o Facebook me irrita. Já o e-mail é uma invenção maravilhosa, e abrandei minha posição sobre a TV. Algumas séries se desenvolvem como os grandes folhetins do século XIX”.
Franzen admite ter sofrido influência de vários escritores, não somente contemporâneos, mas, inclusive, de vários clássicos. Cita, em “Liberdade” – e mais de uma vez – “Guerra e Paz”. A esse respeito, comentou, na citada entrevista à Folha Ilustrada: “Quando estava travado, um livro que me fez andar foi ‘O teatro de Sabbath’, de Philip Roth. Pensei muito em Stendhal, Tolstoi e em Alice Munro, gênia canadense”.
Fica, pois, mais esta sugestão de leitura e que ela o leve, caro leitor, a refletir sobre os vários aspectos da liberdade e, principalmente, sobre a ambiguidade deste conceito.

Boa leitura.

O Editor.



Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






Desenho de Ivan Maurício

Encosto

* Por Talis Andrade

Estranho poder
me toma o corpo
Tudo acontece
como se me
transformasse
em uma outra pessoa
Na carne que rasteja
na carne que lateja
o meu corpo age
como que possuído
por indefinida
invisível força
Estranho poder
me toma o corpo
doendo em mim
como um encosto
maligno e ruim
Dor ferida
camuflada
de vidas passadas
Errática
dor referida
atípica
que fustiga
Dor cansada
antiga
que nunca termina

(Livro “Selos do Apoicalipse”)

* Jornalista, poeta, professor de Jornalismo e Relações Públicas e bacharel em História. Trabalhou em vários dos grandes jornais do Nordeste, como a sucursal pernambucana do “Diário da Noite”, “Jornal do Comércio” (Recife), “Jornal da Semana” (Recife) e “A República” (Natal). Tem 11 livros publicados, entre os quais o recém-lançado “Cavalos da Miragem” (Editora Livro Rápido).






Nas nuvens

* Por Núbia Araújo Nonato do Amaral

Vivia a espreitar os deuses. Imaginava-os misturados aos mortais. Via-se num amplo salão dourado desfilando num lindo vestido branco atraindo todos os olhares para si.
Desperta de seus devaneios com o toque de seu homem em seus seios. Ele a chama de deusa, não a força...mas clama.
Repousa-a e devagar abre suas pernas, lambendo-a suavemente. Ela não pensa mais nos deuses, entrega-se com ardor e volúpia, gemendo alto para as estrelas.
Escondidos entre as nuvens, os deuses a espiam, despertos de seu sono eterno.

* Poetisa, contista, cronista e colunista do Literário