segunda-feira, 31 de outubro de 2011







Chama Negra

* Por José Luiz Grando

A chama negra
Alastra-se outra vez e...
corpos queimados aparecem
deixados de lado.
Escarnece pobre, padece
pobre.
Engole o vômito dos barbas
brancas.
Branca depressão onde
tudo termina no coração.
Delinqüentes, tão jovens,
e ainda inocentes,
Vendendo seus corpos como
eternos
Prisioneiros sem saída.
Nada mais inebria, nem a
Neblina disfarça a vergonha
espalhada como lixo
pelo mundo capitalista.

• Poeta de Itajaí/SC


O senhor Sadigursky*

** Por Paulo Lisker


Gorducho, baixinho, fanhoso e sempre suado. Dezenas de anos vividos no Recife e não se acostumou com o clima quente e úmido da nossa cidade. Era solteirão e as noites depois das conversas com os patrícios na Praça Maciel Pinheiro, sentava-se no seu quartinho no "pé de escada" e quando a "musa baixava" compunha ou reescrevia músicas "kleizmer" que ouvira na sua aldeia onde pintores e músicos viviam sob influência do "violista no telhado" que ficou para a posteridade gravada no quadro do pintor judeu Marc Shagall.
Pra quem não conhece o estilo "kleizmer" do "violinista no telhado", produzido nas aldeias do leste europeu nos séculos passados, saiba que é uma melodia que parece que todos os instrumentos choram até quando a musica é alegre. Música que caracteriza um povo sofrido, obrigado ao exílio, migrando pelo mundo afora sem nunca se fixar em parte alguma. A eterna esperança que promete a religião judaica nas suas rezas: "Be shaná há bá be Ierushalaim, que significa: "No próximo ano em Jerusalém". Em "trocado" quer dizer que um dia voltariam à terra de seus ancestrais, Eretz Israel.
Este nome kleizmer provém da palavra hebraica "kli" que significa instrumento, neste caso, musical. Instrumentista ou tocador de um instrumento musical. Hoje em dia ela ressuscitou e é muito procurada e admirada pela geração atual dos judeus e não judeus pelo mundo afora. Uma espécie de saudade de um tempo que se foi.
Senhor Sadigursky às vezes também era maestro quando convidado para os festejos judaicos na Sociedade Israelita na Rua da Glória. Durante uma hora ou duas tomava a batuta com suas músicas "kleizmerianas" conduzindo a "Banda Acadêmica" ou a da Policia Militar do quartel do Derby, quando estas eram convidadas para animar as festas e as danças na sede da Sociedade Israelita.
Capiba era "persona grata" na comunidade judaica do Recife (um tempo morou na Pensão Internacional, casarão encostado ao nosso, na Rua Gervásio Pires). Quase sempre os dois estavam presentes nestas festividades e se dividiam dirigindo a orquestra ou a banda.
Capiba tinha uma grande estima pelo "Maestro Sadigursky" e lhe dava o maior respeito. Ele era um "músico por natureza", que nunca estudou música.Uma vez Capiba lhe perguntou onde aprendera música. O senhor Sadigursky meio sem jeito respondeu: “Com meu Rabi (rabino), na minha aldeia na Europa. Ele me ensinou a ler as escrituras sagradas e quando você acredita no que lê, a forma das letras hebraicas, a entonação dada à leitura das frases no documento, a melodia quando cantamos os Salmos, tudo isso nos introduz e ensina a divina música da vida. Foi assim que aprendi maestro Capiba!”
Capiba abraçou-o e passou para ele a batuta da banda acadêmica que tocava suas últimas composições.Este mascate senhor Sadigursky, era um "pau pra toda obra" como dizemos nós, os nordestinos. Os anciãos da época diziam que durante a Segunda Guerra Mundial uma parte de sua família sucumbiu de fome e tifo no gueto e o que sobrou foi exterminado pelos alemães nazistas nos campos de concentração espalhados pela Europa.
Ele contava aos conterrâneos, na Praça Maciel Pinheiro, que deixou na Europa, antes de vir para o Brasil, uma família de pelo menos cem parentes e parece que nenhum deles desta numerosa família sobreviveu ao Holocausto. (guetos e campos de concentração nos países conquistados pelo exército alemão nazista).
Como último recurso pediu ajuda à "Sochnut Haiehudit" (Agência Judaica) que operava em todo o mundo em busca de informações sobre sobreviventes e refugiados, espalhados e vagando pela "Europa sem fronteiras". Esta Agência contatou com dezenas de outras organizações filiadas à Cruz Vermelha e outras ONGs internacionais e nenhuma informação sobre a família Sadigursky foi conseguida.
Milhares de refugiados vagavam daqui pra lá e acolá pelo continente europeu que tornava a missão muito difícil, quase que impossível. Com o decorrer do tempo, já totalmente desiludido por não receber noticia alguma de nenhum familiar vivo, não teve outro caminho a não ser se conformar e tocar a vida para adiante. Triste e abatido estava agora pronto a "sentar Shivá". (Um costume religioso de sentar no chão durante 7 dias). Lastimando o acontecido e a enorme tristeza física e espiritual pelos familiares mortos. Neste seu caso particular, vitimas das atrocidades dos nazistas alemães e seus colaboradores.
Mas sempre vem a aurora toda manhã e com ela começa um novo espertar da humanidade e novas esperanças. Com a ajuda dos exércitos aliados que libertaram os campos de concentração e cidades ocupadas pelos nazistas começaram a aparecer listas com nomes de sobreviventes de todas as nacionalidades inclusive de judeus.
Dos Sadigursky nada! Como se a terra os tivesse engolido. As organizações civis voluntárias judaicas muito ajudaram com dinheiro, mantimentos, alimentos, porém todos seus esforços eram dedicados no sentido de retirar esta gente do continente que se transformara num verdadeiro inferno, para lugares onde seria possível reabilitá-los.
A pressão mundial foi forte, lembravam o destino do navio abarrotado de judeus que chegou a Cuba e lá também se negaram deixá-los desembarcar. Hoje eu digo aos "meus botões": “Idiotas, estes cubanos. Quantos Prêmios Nobel perderam mandando os fugitivos judeus de volta para o matadouro nazista alemão na Europa”. Quem sabe, se não foi um castigo divino que Cuba está do jeito que está no século XXI. O fim da estória foi que o navio voltou para a Europa e lá mais cedo ou mais tarde foram todos assassinados pelos nazistas e seus comparsas nos países por eles conquistados.
No Brasil a coisa não foi muito diferente. Antes e durante a guerra também o Brasil se opôs a receber fugitivos judeus da Europa. Ao terminar a guerra mudou sua política emigratória, porem com algumas cláusulas draconianas.
O pobre imigrante judeu deveria possuir uma profissão que fosse prioritária para a economia brasileira. Maneira elegante de dizer "vocês não são o nosso xodó".
Agora imaginem judeus que saíram dos campos de concentração nazistas e escaparam às câmaras de gás, aos fornos de incineração, famintos e esqueléticos: só o que lhe faltava era trazer debaixo do braço um titulo de estudos que provasse terem uma profissão prioritária para as terras brasileiras.
Interessante que a profissão prioritária mais proeminente nas cláusulas do serviço de emigração, era de agricultor. Imaginem quantos judeus europeus entrariam no Brasil. Tá vendo né! Para tudo se dá um jeito quando se está com as "costas na parede". Arrumaram os "documentos" necessários para os judeus.
Assim desembarcaram no Brasil e claro também no Recife. Ninguém podia imaginar que depois de terminar a guerra apareceria num belo dia sol, (no Recife quase sempre faz sol) como por encanto, o irmão gêmeo do senhor Sadigursky, proveniente do "inferno europeu".
A surpresa foi enorme, muito choro misturado com alegria! A Praça Maciel Pinheiro se enchia de judeus para tocar neste milagre que desembarcou agorinha no porto do Recife. Não só o senhor Sadigursky tinha mil perguntas pra fazer ao irmão gêmeo, porém a colônia israelita em peso queria saber de parentes e famílias que deles não tinham noticias desde que rebentou a Segunda Guerra Mundial na Europa. Aos poucos o pessoal entendeu que este pobre coitado só podia contar pouca coisa ao seu irmão sobre o que se passou com a sua família e olhe lá.
Não sabia nada mais, nem datas, nem lugares nem o que aconteceu mesmo com seus visinhos judeus que de noite ou de madrugada foram levados pelas tropas sadistas nazistas e seus colaboradores nos países conquistados e desapareciam para sempre, ninguém sabia para aonde. Sabia contar que se ouvia muito tiro, muita gritaria dos soldados nazistas e o latir dos seus cães.
Ele mesmo e o resto da família foram parar num campo de concentração manejado pelos ucranianos colaboradores dos malditos nazistas alemães. Daí pra frente lembrava-se só do inferno que era o campo de concentração. Os sofrimentos, os castigos, o trabalho forçado, a fome e a luta no dia a dia com uma fatia de pão e uma sopa rala com as cascas de batata que sobravam da cozinha que alimentava os soldados nazistas neste campo. Sobreviveu a este inferno que os nazistas prepararam antecipadamente com o propósito de exterminar o povo judeu. Projeto denominado a "Solução Final".

* SADIGORA: uma pequena cidade no leste europeu (Ucrânia) que gerou durante gerações Rabinos ultra ortodoxos.

• Escritor


Madrugada de orações

* Por Eliane Triska

Madrugadas passageiras, orem!
Aos versos torturados e insones.
São órfãos, viúvos e sem nomes
Às mãos poetas que o socorrem.

Aceito em cuidá-los como meus!
Pássaros sequiosos de alimentos
Lágrimas de choros sonolentos
Torres que se erguem para Deus!

Sopro-lhes no ventre e recito,
Versos d'um universo mais bonito;
Vagidos do berçário das estrelas

Que doam-se à luz ainda criança
E morrem no vaso da esperança
De cegos que não podem percebê-las.

• Poetisa gaúcha residente em Canoas/RS

domingo, 30 de outubro de 2011







Leia nesta edição:

Editorial – Criando sob pressão.

Coluna Ladeira da Memória – Pedro J. Bondaczuk, crônica “O maior desastrado”..

Coluna Direto do Arquivo – José Paulo Lanyi, poema “Prenderam o desgraçado!”.

Coluna Clássicos – Tomás Antonio Gonzaga, poema. “Poema”.

Coluna Porta Aberta – Fausto Brignol, artigo “Braço forte, mão amiga”.

Coluna Porta Aberta – Leonardo Boff, artigo “A ilusão de uma economia verde”.


Obs.: Se você for amante de Literatura, gostar de escrever, estiver à procura de um espaço para mostrar seus textos e quiser participar deste espaço, encaminhe-nos suas produções (crônicas, poemas, contos, ensaios etc.). O endereço do editor do Literário é: pedrojbk@gmail.com. Twitter: @bondaczuk. As portas sempre estarão abertas para a sua participação.


Criando sob pressão

O escritor russo, Fedor Dostoievski, foi, sem dúvida, um inovador, não apenas na literatura russa, mas nas letras mundiais. Essa constatação é ponto pacífico e chega a soar óbvia. Mesmo os críticos mais ferozes dos seus livros (e, creiam-me, existem) admitem sua importância. Eu poderia, facilmente, rebater os reparos que eles fazem com opiniões muito mais abalizadas do que as deles, de intelectuais de reconhecido (e merecido) prestígio mundial. Consultando a enciclopédia eletrônica Wikipédia, por exemplo, anoto a declaração do russo Alexei Remizov que, durante seu exílio em Paris, em 1927, escreveu: “A Rússia é Dostoievski. Rússia não existe sem Dostoievski”.
No período de existência da União Soviética, muitos escritores reconheceram a importância do autor de “Crime e castigo”, admitindo terem sido influenciados por ele. Máximo Gorki, por exemplo, era admirador da temática e do estilo de seu ilustre conterrâneo. Outros tantos, todavia, consideraram-no “decadente”, sem que justificassem com clareza, com argumentos sólidos, sua estúpida opinião. Quais foram esses detratores? Foram tão obscuros, que ninguém se lembra dos seus nomes. Nem eu. Já Dostoievski...
Recorrendo, ainda, à Wikipédia, cito uma referência do controvertido, todavia reputado filósofo alemão, Friedrich Nietzsche. Ele afirmou, sem restrições ou ambigüidades, que o criador do romance “Os irmãos Karamazov” era o “único psicólogo com que tenho algo a aprender: ele pertence às inesperadas felicidades da minha vida, até mesmo a descoberta de Stendhal”. Poderia citar uma infinidade de personalidades das letras que se confessaram influenciadas por Dostoievski. Ernest Hemmingway foi uma delas. Admitiu essa influência, em uma de suas derradeiras entrevistas, antes de cometer suicídio.
Um dos aspectos a considerar, na obra desse gênio literário, que considero da maior relevância, é o fato dele raramente ter escrito um livro com calma, com todo o tempo do mundo para planejar, pesquisar, redigir e revisar, sem que se sentisse, ou melhor, sem que fosse intensamente pressionado para a entrega dos originais. O escritor Mário Pontes, citado pela Wikipédia, lembra que “toda a obra (original) de Dostoievski foi escrita em circunstâncias adversas: luto, doenças, dívidas, incontrolável atração pelo jogo, censura e vigilância policial”. Você, que escreve textos literários, e não necessariamente livros, sabe, com certeza o quanto é difícil sequer escrever nessas circunstâncias, quanto mais fazê-lo bem.
A esse propósito, um leitor deste espaço, daqui de Campinas (onde resido há praticamente meio século) lembra de um filme, exibido no Teatro Castro Mendes, em 1984, que trata exatamente dessas pressões a que o genial russo era submetido para produzir furiosamente e com data marcada para a entrega de contos, novelas e romances. E, além de pressa, exigiam o padrão de qualidade que nunca faltou em nenhum dos seus escritos. Por coincidência, tive o privilégio de também assistir a essa produção cinematográfica. O filme foi exibido no contexto da “Semana do Cinema Soviético”, promovida pelo Museu da Imagem e do Som aqui de Campinas, no período de 27 de março a 1º de abril de 1984.
A produção, rodada em 1981 e que pode ser encontrada na internet, intitula-se “26 dias na vida de Dostoievski”. O roteiro, inteligente e informativo, é dos escritores Pavel Finn e Vladimir Vaynshtok. O filme foi dirigido por um dos cineastas mais populares da então União Soviética, Alexander Zarkhi, detentor do título de “Herói do Trabalho Socialista” e de “Artista do Povo”. Destaquem-se as magníficas performances dos atores Anatoli Solonitsyn (não confundir com o escritor Soljenitsyn), Euguênia Simonova e Eva Chikoulska.
O mérito principal do filme é a rigorosa construção, na verdade reconstrução, de personagens. Apresenta-nos um Dostoievski à beira de velhice (recorde-se que morreu precocemente para os padrões atuais, pouco depois de completar 60 anos), doente e alquebrado por uma vida de percalços (como os anos em que passou num campo de trabalhos forçados em Omsk, na Sibéria, cidade que ostenta, hoje, imensa estátua em sua homenagem) e dissabores. O título refere-se ao ultimato que o escritor recebeu de seu editor: que escrevesse e entregasse uma nova novela em impreteríveis 26 dias. Caso ultrapassasse esse prazo, teria os direitos autorais de todos seus outros livros confiscados, a título de multa contratual.
Esse tipo de situação nunca foi novidade na vida de Dostoievski. Pelo contrário, constituía-se em rotina. Boa parte da fortuna que sua magnífica obra literária lhe rendeu (ou poderia lhe render) foi parar em mãos de terceiros. Mais especificamente, de vorazes agiotas. E não foram poucos os que se aproveitaram da sua inabilidade para gerir as próprias finanças (e a própria vida, como destaquei em textos anteriores). O escritor tinha compulsão pelo jogo e raramente ganhava. É sina dos viciados. Perdia, perdia e perdia. Numa única noite, deixava, nos cassinos da Europa, notadamente em Monte Carlo, no Principado de Mônaco, fortunas que, se bem empregadas, assegurariam estabilidade financeira e uma vida confortável para ele e para a família por muitos e muitos anos.
Por isso, eventuais falhas em seus livros, principalmente de estilo as mais citadas (afinal, ninguém é perfeito em atividade nenhuma), têm que ser relevadas. Se elas de fato existirem (e sei lá se existem mesmo), passam despercebidas face à preponderância de sua genialidade e facilidade de escrever. E quase sempre (diria sempre mesmo) sem tempo sequer para respirar, quanto mais para pesquisar cenários e personagens, projetar enredos, redigir com calma e reflexão os textos e revisar meticulosamente seus livros, como compete a qualquer escritor que se preze.
Não é por acaso, pois, que impressionou tanto a homens geniais e sumamente seletivos, como Nietzsche e Freud (entre tantos). Ou que tenha influenciado figuras do porte de Hermann Hesse, Marcel Proust, William Faulkner, Albert Camus, Franz Kafka, Ernesto Sábato, Ernest Hemmingway e até o não menos genial Gabriel Garcia Márquez.

Boa leitura.

O Editor.


Acompanhe o Editor pelo twitter: @bondaczuk






O maior desastrado

* Por Pedro J. Bondaczuk

O sujeito desastrado, aquele que invariavelmente tropeça onde e quando não deveria tropeçar, que mostra extrema inabilidade nas tarefas e relacionamentos mais triviais e que faz tudo errado, quando as circunstâncias lhe são benignas e favoráveis, faz a delícia dos que vivem de fazer humor. Hollywood sempre explorou com competência o tipo, para fazer multidões rirem (mais do que isso, chorarem de tanto gargalhar) com personagens trapalhões, como o imortal Carlitos de Charles Chaplin, o Gordo e o Magro, os Três Patetas, Cantiflas, Edie Murphy e tantos e tantos outros, que ao longo dos anos foram um santo remédio para desopilar nosso fígado.
Na literatura, o tipo também (como não poderia deixar de ser) é bastante explorado. Na televisão, nem é preciso lembrar. Todos os programas humorísticos têm lá o seu trapalhão, com ou sem bordões característicos, a garantirem o Ibope das emissoras. Todos nós, porém, em maior ou menor medida, somos, em determinadas circunstâncias, incorrigíveis desastrados. Nem sempre nossas trapalhadas são motivos de riso para os outros e, pior, para nós mesmos. Às vezes, são para se lamentar e se chorar. Marcam nossas vidas e, não raro, as arruínam.
No mundo, convenhamos, não faltam pessoas desastradas, que fazem tudo errado e depois se queixam das conseqüências, que quase sempre são óbvias e, portanto, evitáveis. Há, por exemplo, os que envenenam os relacionamentos afetivos com prepotência, egoísmo e ciúme e depois acham estranho o fato de acabarem sozinhos.
Há, também, os que se mostram irresponsáveis na execução de suas tarefas e se lamentam quando são demitidos. Mas o maior desastrado de todos é o sujeito com reconhecido potencial para ser bem-sucedido nas artes, nos esportes, em alguma profissão etc., mas desperdiça seu talento ao fazer escolhas equivocadas.
A maior insensatez é a da pessoa com obsessão pelo dinheiro. É a de quem concentra toda a atenção e esforços somente nisso, a pretexto de “ganhar a vida”. Todavia, agindo assim, na verdade a desperdiça, deixando de usufruir bons momentos que surgem em seu caminho e que dificilmente voltam depois de haverem passado.
O que devemos é nutrir um ideal elevado e sair na sua conquista, empenhando, nisso, o que tivermos de melhor. Escreva um poema ou um romance; componha uma sinfonia; pinte uma tela com competência; esculpa uma escultura perfeita; construa uma casa ou uma ponte; descubra a cura de uma doença ou faça outra coisa bela ou útil qualquer, mas sem se preocupar com o que ou o quanto isso irá lhe render.
Se o que você fizer de fato tiver valor, fatalmente você será recompensado por isso. E se não for? A satisfação íntima da realização de uma obra-prima será uma compensação mais do que valiosa, pois é algo que não tem preço. Não seja, pois, o desastrado dos desastrados. Não faça como aquela mãe que jogou o bebê junto com a água do banho. Nunca jogue a vida fora!
Um dos princípios fundamentais do budismo diz que para evitarmos sofrimentos – causados, sobretudo, pela frustração – temos que eliminar os desejos. Se não todos, pelo menos a maior parte deles precisa ser eliminada. Quanto mais os eliminarmos, maiores serão as possibilidades de nos sentirmos felizes. Impossível? Não! Mas é extremamente difícil.
Somos (salvo raríssimas exceções) desastrados nesse aspecto. Desejamos tanto o que pode ser alcançado, quanto (e principalmente) o que está absolutamente fora do nosso alcance. E este último tipo de desejo é que se torna a grande armadilha, que nos impede de encontrar (e de trilhar) o caminho da felicidade.
Quantas vezes somos sumamente felizes e sequer percebemos! Se mantivéssemos essa situação ideal, se a usufruíssemos em sua plenitude e se não desejássemos nada, além dela, nossa vida transcorreria no que os poetas chamam de “mar de rosas”. Não é isso, porém, o que fazemos.
Queremos mais, mais e mais, sempre mais, e nem tudo o que desejamos (diria a maioria) nos é conveniente, útil, saudável, benigno ou, sobretudo, factível. Em três tempos, a frustração, o ressentimento, a sensação de fracasso e a mágoa toldam-nos o céu que, nublado, não nos permite vislumbrar o resplendor das estrelas. E, num piscar de olhos, deixamos que fuja de nossas mãos o pássaro esquivo da felicidade.
O poeta Vicente de Carvalho disse isso com elegância, classe e beleza. Escreveu, no terceto com que encerrou seu célebre soneto “Velho tema – I”: “Essa felicidade que supomos/árvore milagrosa que sonhamos/toda arreada de dourados pomos,//existe, sim; mas nós não a alcançamos/porque está sempre apenas onde a pomos/e nunca a pomos onde nós estamos”. E não é verdade? Somos ou não somos, pois, incorrigíveis trapalhões, imensos desastrados?!



* Jornalista, radialista e escritor. Trabalhou na Rádio Educadora de Campinas (atual Bandeirantes Campinas), em 1981 e 1982. Foi editor do Diário do Povo e do Correio Popular onde, entre outras funções, foi crítico de arte. Em equipe, ganhou o Prêmio Esso de 1997, no Correio Popular. Autor dos livros “Por uma nova utopia” (ensaios políticos) e “Quadros de Natal” (contos), além de “Lance Fatal” (contos) e “Cronos & Narciso” (crônicas). Blog “O Escrevinhador” – http://pedrobondaczuk.blogspot.com. Twitter:@bondaczuk






Prenderam o desgraçado!1
(1- ou O doce vagido da existência)


* Por José Paulo Lanyi


Um dia a cidade sorriu, vingada da solidão
Puseram-lhe as mãos, enfim
Deram-lhe uns tapas
Entregaram-no a uma mulher2

A sádica ria
Ah, como ria!
De tudo o que faria com ele!

A mulher tinha todos os dentes
O pobre, nenhum

Quanto mais ele chorava,
Mais ele alegrava,
E muitos vieram bisbilhotá-lo (sic)

Meteram-lhe na cela
Cunharam-lhe o RG
Celebraram, matreiros,
Incenso, mirra, algema dourada
“Mais um!”, “mais um!”, “mais um!”,
Berraram os algozes, ao som das charangas
E de naipes de trombetas, também...
(ah!, e das cuícas, se bem me lembro...)

Deixaram-lhe lá, o sem-vergonha
Agora ele apanhava e batia, já
Sem cerimônia
E a sádica sorria, feliz,
Apesar da enxaqueca- ressalte-se-, aquela maldita enxaqueca. A enxaqueca é um mal feminino. As mulheres, como se sabe, enfrentam a dor com uma bravura que, de tão brava, poder-se-ia dizer masculina, mas isso é assunto para uma página inteira de prosa. Prossigamos, então, com os meus versinhos:

Certo tempo depois, 18 anos, pouco mais, pouco menos,
Prisão perpétua, ainda, bem entendido,
Nada de azul ou de rosa
Agora, a cor que lhe desse na telha
Prisioneiro exemplar, acinzentou o firmamento, o boçal (refiro-me ao prisioneiro, jamais chamaria o céu de boçal, que isso fique claro)

A sádica?! Oh!, ele chamou-a de mãe!
Um dia mandou-a pastar, como qualquer idiota poderia prever

Casou-se (ele, não a mãe) com outra
Ainda mais sádica,
Ambos com a bunda vermelha (chicotes vergastam as bundas mais improváveis) e a boca abarrotada de dentes

Juntos, cunharam RGs,
Ao som dos apitos
(e dos gemidos que habitam as entranhas do mundo)

Um dia, contudo, libertaram-no
Mas ele não voltou para contar para onde foi2A

Quem souber, por favor me avise
Por ora, me entendo com os copos
E com as curvas das mulheres
Sádicas, (oh!, ignóbil formosura!) cheias de enxaqueca para dar e, principalmente,
Vender.


2- Glossário de idéias para o leitor pouco chegado a uma sutileza: é a mãe do nenezinho, sacou? O prisioneiro é qualquer um que nasce no mundo, valeu?

2A- É uma imagem da morte, essa é fácil- ao menos, foi o que o meu cachorro achou...



(*) Jornalista, escritor e dramaturgo, autor do romance "Calixto-Azar de Quem Votou em Mim", do romance cênico (gênero que criou) "Deus me Disse que não Existe", da peça "Quando Dorme o Vilarejo" (Prêmio Vladimir Herzog) e da coletânea “Teatro de José Paulo Lanyi e Outros Loucos” (no prelo), todos da editora O Artífice. Trabalha com o músico paulistano Flávio Villar Fernandes, com quem compôs a trilha “Invernada Op1 N1” e a sinfonia Atlântica.